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Feminismos é Igualdade

13
Out21

Só com Mudança de mentalidades é possível conciliar a vida profissional, familiar e pessoal!


umarmadeira

ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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A já longa situação Pandémica de COVID19, que se abateu no mundo e que nos afectou a todas/os, mas que hoje, felizmente, já está a caminhar para a sua quase normalidade, mas temos de continuar com alguns cuidados, mesmo assim, por mais algum tempo, e passados que são quase dois anos, tem trazido ao de cima algumas reivindicações que se encontravam adormecidos tais como: os horários de trabalho e a conciliação da vida familiar e pessoal. Embora sejam uma questão crucial das sociedades actuais com reflexos a vários níveis e em múltiplas dimensões da vida das/os trabalhadores, desde a questão da demografia e os problemas decorrentes da baixa natalidade para a sustentabilidade da economia e do sistema de protecção social, aos problemas da igualdade entre mulheres e homens no trabalho, na família e na sociedade e os estereótipos de género que continuam a atribuir o papel de principal cuidadora, limitando ou menorizando o seu papel social e profissional enquanto mulher.

A taxa de empregabilidade da mulher é grande, mas apesar de haver sinais positivos sobre a participação dos homens ao nível da partilha de responsabilidades na vida familiar, existe uma grande distância entre a partilha equilibrada de responsabilidades e as realidades quotidianas. São as Mulheres que mais dificuldades sentem na conciliação do trabalho com a vida familiar e pessoal. Algumas veem-se forçadas a suspender as suas carreiras profissionais para cuidar dos/as filhos/as e não é por acaso que a maioria das/os cuidadoras/es informais são mulheres, abdicam a título temporário ou definitivo do trabalho remunerado para prestar assistência a cônjuge, pais, filhos ou outros familiares em condição de fragilidade ou de dependência. E são as Mulheres que mais recorrem ao apoio extraordinário à família, o que torna mais claro as assimetrias que continua a marcar a prestação de cuidados no seio familiar.

 

Neste contexto, os efeitos causados pela pandemia e o teletrabalho para um grande número de mulheres, aprofundaram ainda mais as dificuldades já existentes com a conciliação entre trabalho e vida familiar e profissional.

Na prática, o prolongamento generalizado e a constante irregularidade dos horários e tempos de trabalho são claramente incompatíveis com a necessidade de conciliar diariamente a vida profissional com a vida familiar e pessoal, não favorecem a efectivação do direito ao lazer e à cultura e, muitas vezes, têm repercussões negativas na saúde dos/as trabalhadoras/es.

Gostava de dizer que, apesar dos significativos progressos registados, a verdade é que a sociedade parte ainda do pressuposto que cabe à mulher assumir a quota principal das responsabilidades da família, que sejam as mulheres a gozar maioritariamente todas as licenças, faltas e dispensas relacionadas com o apoio à família, enquanto relativamente aos homens, tais práticas continuam a ser mal vistas e mal aceites.

Por outro lado, assiste-se a uma contínua degradação dos serviços públicos, sendo uma fonte de preocupação para as famílias que acaba por afectar as questões da conciliação. Porque a conciliação da vida profissional e familiar é um direito fundamental de quem trabalha e que as entidades empregadoras têm o dever de respeitar e facilitar, porque é necessário identificar as necessidades das mulheres e homens e das suas famílias e dar-lhes uma resposta urgente e cabal e não é isso o que se passa, infelizmente.

A dificuldade em conciliar as diferentes esferas da vida é uma realidade quotidiana que afecta e condiciona diariamente a vida de quem trabalha e das suas famílias, complicando o dia-a-dia, e provocando a destabilização  das relações entre as pessoas, perturbando a educação e o desenvolvimento harmonioso das crianças e jovens, distorcendo as vivencias familiares e sociais , fazendo crescer fenómenos como o stress, depressão, ansiedade, burnout e a falta de motivação. Estes são cada vez mais relatados por um significativo número de trabalhadoras/os face à enorme pressão para responder às exigências do ambiente de trabalho moderno e à actual situação pandémica. Tal ocasionou repercussões, não só na vida profissional como também na vida pessoal, familiar e social.

Por isso, sem discutir-se o tempo de trabalho e a organização do tempo de trabalho e sem se procurar um justo equilíbrio entre tempos de trabalho e tempos de não trabalho, não se pode discutir a conciliação entre as várias esferas da vida das/os trabalhadoras/es.

Enquanto as leis que se aprovam não tiverem aplicação à vida concreta das famílias e a conciliação for vista pelo prisma do interesse das empresas e não for reconduzida ao plano das necessidades e interesses das pessoas e das famílias, também não é possível discutir e, muito menos, concretizar qualquer tipo de conciliação entre a vida profissional, familiar e pessoal, do meu ponto de vista. É preciso combater a instabilidade e a precariedade dos vínculos laborais, dando vínculo de trabalho efectivo que garanta estabilidade a quem trabalha. É preciso adequar ao exercício das responsabilidades familiares o cumprimento das normas laborais de protecção das mães e dos pais trabalhadores. Há que investir e melhorar os serviços públicos nas áreas sociais, da saúde, dos transportes e da habitação, a fim de proporcionar a quem vive do seu salário e às suas famílias maiores facilidades de conciliação e das suas responsabilidades familiares com a sua vida profissional.

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06
Out21

A chama digital


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ARTIGO DE FÁBIO DINIZ

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No nosso quotidiano somos invadidos a cada minuto por uma enchente de informação, conteúdos, alertas e notificações, nos vários dispositivos presentes em nossas vidas.

As redes sociais passaram a ser um hábito vicioso, de tal forma que, tornamo-nos dependentes desses meios para divulgar e demonstrar o que em nossa rotina acontece.

Os “likes” sinalizam a aprovação dos conteúdos manifestados em nossas cronologias e perfis, mas sem os mesmos tudo fica invalidado e inexistente. Sim, vejamos bem que, as selfies tornaram-se algo tão banal que, estranho é daquelxs que não as utilizam.

Tudo isto, se bem utilizado, de forma saudável e equilibrada não nos traria qualquer problema. Em contrapartida, o sistema digital produz o efeito contrário, tornando-nos adictos e reféns.

É uma era e um tempo que vamos almoçar ou conviver com família e/ou amigxs e o bombardeamento de notificações e sons é constante. Isso causa um distanciamento entre nós, humanos e, consequentemente com toda a Natureza.

As crianças e os jovens têm já um contacto tão íntimo com os aparelhos e dispositivos eletrónicos que, assusta e impressiona toda a ancestralidade.

Lamentavelmente sofremos solidão, carência, ainda que tenhamos humanos e pessoas próximas, mesmo aquelas que estão ao nosso lado fisicamente, naquele momento.

Os telemóveis nos distanciaram, deixaram a frieza mais evidente em vários e inúmeros ambientes.

Será que necessitamos utilizar tantas horas por dia as redes sociais? E os aparelhos eletrónicos e dispositivos móveis?

Os nossos afetos, as nossas relações, sejam connosco ou com o próximo, até que ponto estão comprometidos?

Aqueles momentos de meditação reflexiva, do olhar atento e carinhoso com o companheiro, o abraço na mãe, a atenção e o cuidado com o gato… quando iremos resgatar?

A chama digital nos tem afastado de nós mesmxs, dxs nossxs entes queridxs, daquelxs que mais gostamos, sejam animais humanos ou não humanos, da Natureza e da nossa Terra. Lutamos e corremos por um “like”, por um comentário e/ou por uma aprovação meramente idealizada e irreal.

Talvez tenha chegado o momento de revermos a utilização e a importância que atribuímos aos dispositivos móveis, aos ecrãs digitais e às redes sociais.

“Nunca as pessoas tiveram tão próximas nas redes sociais e, ao mesmo tempo, tão distantes de si mesmas. Eis a era da solidão.” – Augusto Cury.

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27
Set21

Votar: o verdadeiro superpoder do ser humano.


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Imagem retirada do Gabinete Alunos Engenharia Biomédica, UMinho

 

Ontem, aconteceram as Eleições Autárquicas no nosso país. Segundo os dados disponibilizados no site da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, quando 99,58% dos votos estavam já contados, a taxa de abstenção era de 46,3%, a segunda taxa de abstenção mais alta desde as primeiras eleições autárquicas, em 1976. E recuemos a esse ano. Foi a 25 de abril de 1976, que os portugueses e as portuguesas puderam votar para eleger, pela primeira vez, os seus representantes na Assembleia da República, o órgão legislativo nascido no recente regime democrático. O desconhecimento pela função do novo órgão legislativo e a iliteracia política poderão ter justificado esse valor. Precisamente um ano antes, essa participação terá sido esmagadora: 91,7% dos 6,2 milhões de eleitores/as recenseados/as elegeram os deputados que prepararam e aprovaram a nova Constituição. Foi o valor mais elevado de participação em eleições democráticas em Portugal. Como era preciosa a liberdade e a participação política! Recorde-se que, durante o Estado Novo, o voto estava limitado ao comum dos cidadãos, sendo que as restrições impediam o voto geral e universal, sem a ocorrência de eleições livres, justas e democráticas. Relativamente ao voto das mulheres, os obstáculos eram maiores e tornavam praticamente impossível a participação da mulher no ato eleitoral.

Ontem, no rescaldo dos resultados, falava-se na importância do voto obrigatório. Sem ter feito muita reflexão sobre o assunto, confesso, no imediato questiono se não será perigoso levar às urnas cidadãs/cidadãos pouco interessadas/os com a política e haver riscos de aumentos de participação eleitoral concentradas em propostas, partidos ou políticos/as populistas e extremistas. Parece-me mais sensato alargar, por exemplo, a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento ao Ensino Secundário, cujos/as jovens estão mais perto da idade de votar, e apostar na consciencialização para essa participação consciente e democrática. De momento, é, apenas, uma componente do currículo desenvolvida transversalmente com o contributo de todas as disciplinas e componentes de formação no ensino secundário, o que significa que, sem querer retirar nenhum mérito às professoras e professores das diferentes disciplinas, não haverá uma maior preocupação – e, sejamos justas/os, o tempo letivo é curto para tanto objetivo - no cumprimento do currículo das próprias disciplinas do que nos temas que a Cidadania e Desenvolvimento propõem? Enquanto disciplina autónoma nos 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico, não faria sentido alargar e incluir projetos de educação de diferentes Associações relacionadas com os Direitos Humanos, como aliás, já acontece com o Projeto ART’THEMIS+, da UMAR? Estamos em algumas turmas de algumas escolas da RAM, mas somos poucas, e mesmo voluntariosas em muitos dos pedidos (que vai além das horas e ordenado previstos em contrato), não conseguimos chegar a todo o lado, infelizmente. O investimento nessa área não deveria ser maior? Associações que trabalham, através de Técnicas/as especializadas/os, profundamente e na prática, estas questões não deveriam ser mais valorizadas? Não deveriam ser incluídas no âmbito da Secretaria Regional de Educação? Eu iria, até, mais longe relativamente à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento: esta não deveria ser incluída, enquanto cadeira, nas diferentes Licenciaturas?

Contornar um trabalho de educação e de prevenção para preferir uma “solução imediata” – e para chorar abstenções, por exemplo - dá, realmente, mais encargos (humanos, logísticos, financeiros…), mas não deveria essa mesma educação para a cidadania ser privilegiada? Ficam as reflexões. Votar é o verdadeiro superpoder do ser humanos, mas as pessoas também precisam ser educadas para isso.

Ontem, no Funchal, local onde a UMAR tem desenvolvido grande parte do seu trabalho, embora, mais uma vez, os nossos braços tentem chegar a outros concelhos, ganhou a coligação Funchal Sempre à Frente (PSD/CDS). Eu não poderia terminar este artigo sem deixar de agradecer ao Miguel Silva Gouveia e a todo o seu executivo pelo enorme trabalho realizado em prol das cidadãs e dos cidadãos funchalenses no último ano, sobretudo, e ao que à UMAR diz respeito, a possibilidade de existir uma sede de trabalho; a possibilidade de podermos concorrer ao Apoio ao Associativismo e, com isso, alargarmos o nosso âmbito de atuação; a possibilidade de termos uma Feira semanal que permite que algumas dezenas de mulheres, artesãs e sem outros rendimentos, vendam os seus produtos e tenham alguma independência económica; a possibilidade de criarmos parcerias entre o Município e as suas entidades, como é o caso dos Centros Comunitários, no desenvolvimento de ações concretas; a possibilidade de coorganizarmos o Madeira Pride, em conjunto com outras associações; entre outras.

Ao novo Executivo Camarário, deixo os parabéns e votos de bom trabalho e que possamos continuar, juntos/as, esta caminhada por uma sociedade mais justa, igualitária e responsável.

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20
Set21

Sometimes I Might Be Introvert


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Ainda há muitos álbuns que irão ver a luz até ao final do ano que, certamente, serão marcantes, mas acredito piamente que o Sometimes I Might Be Introvert, da britânica de origem nigeriana, Little Simz, figurará em grande parte das listas de melhores discos do ano.

Muito precoce e prolífica, nascida em 1994, estreou-se com a mixtape Stratosphere, em 2010. Desde então, já conta no seu curriculum com 4 mixtapes, 8 EP´s e 4 LP´s. A Curious Tale of Trials + Persons, de 2015, o seu primeiro longa-duração, mostrou que estávamos perante um diamante em bruto. Um ano depois, lança Stillness In Wonderland, um disco conceptual inspirado no clássico Alice In Wonderland, de Lewis Carroll. Simz usa a história infantil de Alice como metáfora para fazer uma viagem de auto-descoberta, utilizando as suas ambições e inseguranças como tinta para pintar este quadro. GREY Area chega em 2019 e seria o seu álbum mais aclamado pela crítica. A diversidade, capacidade de escrita e densidade da obra reuniu consenso de todos os entusiastas da música e colocaram Simz como um dos maiores talentos da sua geração.

Com os holofotes todos apontados a si, Simbi – alcunha pela qual é conhecida e que dá o acrónimo do seu último LP -, regressa com um pontapé na porta. O primeiro single, Introvert, é uma obra-de-arte onde a rapper usa a sua poesia de um jeito interventivo sobre o estado actual do mundo. Segue-se Woman, um tema que escreveu como tributo à sua mãe e a todas as mulheres que a inspiram. É um hino de empoderamento e de celebração do que é ser mulher. Rolling Stone foi o terceiro single, onde vemos a britânica explorar sonoridades. O penúltimo single foi o tema I Love You, I Hate You, que a autora confessou no programa Tiny Desk ter sido o mais complicado de escrever por tê-la obrigado a ir a sítios e a mexer com sentimentos do seu âmago. Quinto e último tema antes do lançamento, Point And Kill, acompanhada pelo nigeriano Obongjayar, onde o afrobeat revolucionário de Fela Kuti e as suas raízes nigerianas, concretamente do grupo étnico ioruba, são celebradas. O tema ganha ainda mais alma no disco, pois tem uma continuação na faixa seguinte, Fear No Man.

 

Little Simz, com este disco, confirma que é uma das artistas contemporâneas mais entusiasmantes. Consegue conciliar uma paleta interminável de sonoridades (desde o rap ao R&B; do afrobeat à neo-soul ou do grime ao funk) a uma sensibilidade poética na sua escrita, que tanto consegue ser vulnerável e auto-reflexiva, como assertiva e corrosiva na forma como aborda problemas da actualidade como o machismo, o racismo ou a política. Sobra-lhe, ainda, tempo para celebrar isto de estar vivo, com todos os seus prós e contras. Como tal, celebremos Simz e todas as “Simz” que se empoderam e têm orgulho nas suas raízes.

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26
Jul21

A simbologia das identificações preconceituosas


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ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Há muita gente que não olha para os símbolos que identificam os sexos com um olhar crítico, ou criterioso, como se queira chamar. Até acha graça na forma como alguns deles estão construídos, e considera as nossas críticas ridículas ou “fofoquices politiqueiras”.

No entanto, eu aprendi ao longo da minha vida que nada acontece por acaso. Por detrás de uma imagem ou de um símbolo, está um significado e um objetivo.

Quando no chão dos parques de estacionamento ou nos fraldários das casas de banho as identificações para transportar ou cuidar das crianças estão todas com uma conotação feminina, isso quer dizer que ainda existe um preconceito em relação aos homens que deve ser desmistificado, até porque hoje muitos deles já mudam as fraldas e carregam os/as filhas para passear, ou mesmo ao médico e à escola. Não é correto ligar tudo o que se refere às crianças apenas às mães. Não devemos aceitar este estereótipo sem refutar a mentalidade preconceituosa e machista que está por detrás dele. Até a lei mudou de “Maternidade” para “Parentalidade”, exatamente para chamar a atenção que tudo o que se refere aos/às filhos/as tem a responsabilidade de ambos os progenitores.

Claro que sabemos que hoje existem casais do mesmo sexo também com crianças e que devem sentir na pele ainda mais preconceitos. Imagino o dilema de dois pais perante um fraldário que nem tem uma imagem masculina e que fica, muitas vezes, dentro da casa de banho das mulheres. Temos que estar atentas/os a estas questões que parecem pormenores mas que, na realidade, mexem muito com as nossas vidas e o nosso quotidiano.

Também não podemos aceitar como normal que num restaurante a casa de banho das mulheres esteja identificada com “Shopping”, e a da casa de banho dos homens esteja sinalizada com “Futebol”. Há muitas mulheres e homens que não se revêm nem se encaixam nestes rótulos. Sabemos que existem mulheres que gostam de futebol, assim como existem homens que gostam de Shopping. Este tipo de identificação trata as pessoas como “burras” e “fúteis”, quer sejam homens quer sejam mulheres.

Parece uma coisa de pormenor ou de brincadeira, o que não era pois eu própria vi, e mesmo se assim fosse não devemos admitir. Quem me chamou a atenção para este facto foi um homem. Apetecia entrar propositadamente na casa de banho onde nos identificássemos com o interesse proposto. Mas se o fizéssemos, estaríamos a diminuir a importância desta questão.

O mesmo se passa com o nosso cartão de identidade, que trata todas as pessoas no masculino. Dizem que somos radicais, mas eu quando me refiro à minha identidade faço-o sempre no feminino porque sou mulher e não admito que me tratem como homem. Já perguntei a muitos homens: e se fosse ao contrário? Se em vez de ser cartão de cidadão fosse, para toda a gente, cartão de cidadã? Claro que nenhum deles se identifica e fica a olhar, sem qualquer argumento.

E em relação ao cumprimentar no masculino? Será que os homens iriam se sentir representados quando, numa sala antes de um evento, alguém dissesse “bom dia a todas”? Parece que estou a ver o escândalo que seria, sobretudo se a cerimónia fosse pública. Nunca o fiz, mas já me apeteceu fazê-lo várias vezes. Ainda assim, acho que o mais correto é sempre cumprimentar no feminino e no masculino. Os ingleses foram pioneiros quando, desde há muito tempo, utilizam o seu famoso “Ladies and Gentleman”.

Os preconceitos estão tão enraizados nas nossas vidas que muitas vezes somos preconceituosos/as sem sequer termos consciência disso.

É necessária muita atenção e vigilância, porque é nos chamados “pequenos pormenores” que tudo começa.

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15
Jul21

Untitled (SAULT Is)


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Uma afirmação que ouço com alguma regularidade em entrevistas a artistas é que, apesar de não terem grande apreço a redes sociais, se vêem “obrigados” a moverem-se nelas para promoverem o seu trabalho. Aqui há tempos, numa conversa com um amigo de infância que já não vi há uns anos, ele dizia-me que me tinha perdido o rasto por não ter redes sociais, que “quem não tem Facebook não existe”. O conhecimento popular diz que “longe da vista, longe do coração”, mas os SAULT discordam.

Para quem não conhece, os SAULT são uma banda musical britânica, que faz música excelente, e basicamente é isso pois pouco mais se sabe sobre eles. Numa era em que há uma necessidade de aparecer, eles escolheram não revelar a identidade do grupo, não dar concertos ou entrevistas. A única maneira de comunicar com quem os acompanha é através da sua música.

No início do ano, fiz aqui um apanhado daquilo que eu considerava ser a nata da música e cinema lançado no inesquecível 2020 (ou “vinte vinte” se quiserem ser jovens). Um dos meus destaques caiu, naturalmente, para o seu Untitled (Black Is). O álbum, lançado após a atroz morte de George Floyd, chegou no auge do movimento #BlackLivesMatter para ser o seu hino. O álbum é uma mescla de sonoridades, vai do R&B ao jazz, do funk ao soul, do afrobeat ao rap, mas, acima de tudo, é um manifesto antirracista.

Três meses após este lançamento, surge Untitled (Rise), o segundo disco deles do ano (e quarto da sua discografia, juntando-se a 5 e 7 – valem bem a pena -, para além do já citado). Este disco, depois do grito de revolta, é uma celebração e declaração de orgulho pela história dos seus antepassados.

No fim do mês passado, chegou-nos mais um disco, o quinto do grupo em três anos, de seu nome Nine. Novamente com um conceito original, a banda disponibilizou o álbum para download gratuito no seu site. Pormenor: o disco só estará online 99 dias, segundo informaram, sendo posteriormente apagado de todas as plataformas cessado esse prazo, portanto, apressem-se que este artigo, além de estar a anos luz da obra dos SAULT, não será apagado da internet.

Para os mais nerds – um bem hajam - o jornal Chicago Reader analisou a meta-data da música que os SAULT lançaram nas plataformas de streaming e concluiu que Dean Josiah Cover, produtor mais conhecido como Inflo e a cantora britânica de voz cândida, Cleo Sol, são apontados como dois dos elementos do grupo. Há rumores que a banda que acompanha o talentoso Michael Kiwanuka são também membros dos misteriosos SAULT. Kiwanuka e Little Simz, uma das rappers mais entusiasmantes da actualidade, também colaboram publicamente com eles.

Os SAULT são progresso, orgulho, revolta e inquietação. São Marvin Gaye, Nina Simone, D´Angelo, Curtis Mayfield ou Erykah Badu. São conscientes, sem ser moralistas. São o romantismo de deixar a sua obra falar por si na época das selfies. São preciosos e prometem não ficar por aqui.

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07
Jul21

O amor acontece...ou é-nos imposto?


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ARTIGO DE MARGARIDA PACHECO

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No domingo passado, foi o primeiro episódio do programa “O amor acontece” onde várias pessoas querem encontrar o seu par ideal. Compreende-se logo no início do programa que todos/as têm expectativas sobre esse “par ideal” e como deve ser essa pessoa. Essas expectativas são reais ou são expectativas impostas pela sociedade? E o que é que é isso de par ideal? 

Falemos do primeiro par apresentado. Um concorrente masculino que explica desde logo as suas expectativas e todas elas se centram no aspeto físico, sendo a sua primeira preocupação o facto da sua companheira não poder ser mais alta do que ele. A concorrente feminina, também com expectativas centradas no aspeto físico, afirma que o seu par tem que ser mais alto do que ela, porque gosta de usar saltos altos. Começamos a ver os estereótipos de género presentes nas relações românticas. 

No momento da apresentação a jovem também menciona que está no programa para “desencalhar”, uma vez que tem 21 anos e não tem um namorado. Estas conceções fizeram-me pensar nas pressões existentes na sociedade para as mulheres no que toca ao casamento e a terem filhos/as. Desde cedo começa a imposição de que todas devemos ter um relacionamento com alguém, que pressiona jovens a começarem o mais rapidamente possível relacionamentos e que as mulheres são menos mulheres se não tiverem um relacionamento romântico. Todas nós já ouvimos “não tens ninguém?”, “mas não queres?”, “não tens medo de não encontrar ninguém e ficar sozinha?'', "não queres ser mãe?”.  Esta pressão que nos é imposta faz com que muitas mulheres iniciem relações românticas sem quererem, sem estarem preparadas e muitas vezes faz com que se mantenham em relações abusivas e tóxicas. 

O mesmo rapaz afirma que é controlador na sua vida, mas não nas relações. No entanto, logo compreendemos quer pelos seus comentários quer pelas suas atitudes que o controlo também faz parte das suas relações. Nos próximos episódios iremos testemunhar este jovem a controlar o vestuário da concorrente que poderá ser o seu ‘par ideal’ e a mexer no telemóvel da mesma sem autorização. Estes comportamentos já mostram aquilo que muitas pessoas mencionaram nas redes sociais como “foge Catarina, essa relação já não é saudável e ainda mal começou”.  O que mais me intriga é como é que a TVI vai lidar com esta situação. Vai legitimar estes comportamentos como tem feito em outros reality shows? Vai aproveitar esta oportunidade e falar de um problema social grave que temos em Portugal que é a violência nas relações de intimidade? Espero que seja usado este exemplo para que as pessoas que estão a assistir a este programa e que estão em relacionamentos abusivos possam refletir que são comportamentos abusivos e que ninguém deve aceitar essas atitudes nas nossas relações afetivas, nem na “Casa da Praia”, nem num reality show, nem na nossa casa, em nenhum lado, em nenhum momento. 

Continuemos com os estereótipos presentes nas relações de intimidade e falemos então no segundo casal. Achei muito importante falarem do facto de um homem não poder e não querer ter filhos. É essencial começarmos a desmistificar a ideia que todos/as temos que ser pais e mães. Também é importante mencionar que nem todas as mulheres querem ser mães e está tudo bem! Um relacionamento romântico não tem que ter a finalidade de ter filhos/as e/ou casar.

Falemos agora dos estereótipos de género presentes no terceiro casal. Quando o primeiro casal mencionou as idades em que ele é mais velho que ela, nenhum dos dois estranhou. Já neste casal quando a rapariga pergunta “mas então quantos anos tens?” e compreende que ele é mais novo que ela, notou-se logo um desconforto da parte da concorrente. Todas estas ideias de como um homem e uma mulher devem ser, fazer, estar ou comportar-se numa relação está tão enraizada na nossa sociedade que muitas vezes nem refletimos e criticamos estes comportamentos que fomos vendo ao longo deste programa e muitos outros que vão aparecer nos próximos episódios, uma vez que é um reality show e, por isso, vamos ver o que se passa no dia a dia de mulheres e homens que se querem relacionar. 

Então, afinal o que é o par ideal? É uma ideia que vamos construindo ao longo do nosso desenvolvimento e do nosso processo de autoconhecimento ou é algo que nos é imposto desde que somos crianças? A conceção de amor romântico que é transmitida para as crianças desde muito pequeninas deve ser refletida. A comunicação, o afeto, a sexualidade, o consentimento e os relacionamentos interpessoais devem ser trabalhados desde muito novos/as.

Não posso deixar de mencionar a reflexão e crítica que foi feita nas redes sociais ao longo do programa. Existe cada vez mais uma consciencialização da sociedade portuguesa no que diz respeito aos problemas sociais e isso é cada vez mais notório na crítica sobre o conteúdo deste tipo de programas. Reivindicou-se pela representatividade no programa. Será que vamos ter pessoas homossexuais a conhecerem-se e a começarem uma relação romântica em horário nobre na televisão portuguesa? 

Não posso terminar sem mencionar a importância da visibilidade das relações afetivas e sexuais na terceira idade. É necessário também este tema deixar de ser tabu. 

A televisão é um meio de comunicação presente na maior parte das casas dos/as portugueses/as e este programa é uma excelente oportunidade para refletirmos e debatermos sobre os relacionamentos românticos, mas também para debatermos sobre o que queremos, o que aceitamos e o que cada um de nós acha que é o par ideal. 

O amor pode acontecer e acontece…. mas muitas vezes a ideia de amor é-nos imposta!

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30
Jun21

Migrações involuntárias ou a história da humanidade


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ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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A história das migrações é indissociável da história da humanidade e o seu percurso constitui um manancial de referências que ecoa naquilo que somos e na riqueza pessoal que todos os processos de aculturação foram trazendo para a nossa construção.

Quando começou a luta pela posse de um território através da demarcação de fronteiras? Sabemos que algures durante o processo de sedentarização ela começou a intensificar-se e que o que até ali fora um confronto entre concorrentes pela sobrevivência foi ganhando outros contornos e a ideia da “posse” foi-se instalando, século atrás de século, trazendo consigo o medo da perda dos bens conquistados. Estava lançada assim, irremediavelmente, a semente da discórdia.

A confusão entre o ser e o ter que esta situação provocou, atingiu os povos de tal modo que a velha Europa se arrogou, com a sabedoria que julgava ter, ao direito de possuir outros continentes e subordiná-los à sua vontade e aos seus dogmas, que séculos de luta e outras tantas conquistas não conseguiram apagar completamente.

E assim chegamos ao dia de hoje, em pleno século XXI, com a palavra diferença a provocar ainda muito sofrimento, quando aplicada a outros seres humanos, num momento da nossa história colectiva  em que os direitos universais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade já fazem parte do nosso ADN e, por isso mesmo, nem esses nem outros direitos que desses advêm deviam ser colocados  em causa,

Não podemos mudar a história, é verdade, por isso, hoje temos de nos aceitar como produtos de uma construção milenar. No entanto, essa aceitação não se pode manifestar através de saudsaudosis de um tempo marcado pela conquista desenfreada e pelo imperialismo que destruiu outros seres humanos, retirando-lhes o direito à sua identidade. Aprendamos sim, com o passado, mas para não cometer as mesmas atrocidades, usando para isso todos os meios que hoje temos ao nosso dispor. Assim, talvez possamos, por fim, experimentar uma reconciliação com esse mesmo passado.

Aceitemos que toda a humanidade descende desses migrantes involuntários que um dia procuraram espaços onde se encaixar e talvez assim seja possível respeitar as pessoas que, agora, procuram um espaço onde possam exercer um dos direitos humanos, essa conquistas da modernidade de que nos devemos orgulhar e que temos o dever de defender - o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Todas as sociedades que encontraram no seu seio espaços para albergar as diferenças são sociedades mais felizes e equilibradas.

É urgente destruir as novas ideologias vestidas com as velhas roupagens, que procuram com falácias oportunistas destruir os ideais humanistas e traçar fronteiras não só no espaço mas também na sociedade, pois, quando se começam a implementar desigualdades, esse processo não termina num grupo, numa língua, numa ideologia, numa religião ou numa orientação social. Não pode haver a mínima cedência dos direitos conquistados, em vez disso é urgente inverter a marcha que nos ameaça e caminhar na defesa intransigente de uma sociedade onde o direito à felicidade seja universal e nunca mais nos envergonhemos da nossa condição humana.

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29
Jun21

Enquanto esfregas um olho, a liberdade vai-se!


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ARTIGO DE CLÁUDIO TELO PESTANA

liberdade

Não é segredo nenhum que a política faz já parte do meu percurso e dos meus interesses diários. A política, essa nobre causa, deveria ser praticada por via de uma dose generosa de bom senso e, igualmente, levada a cabo por homens e mulheres de bem, honrosos e capazes ao nível técnico e humano. Que reconheçam as limitações daquilo que governam e com o foco no único objetivo de fazer mais e melhor do que aquilo que outrora era o estado das coisas. Conheço algumas pessoas que congregam em si estas capacidades únicas e elas estão espalhadas, e divididas, da esquerda à direita. Lamento profundamente que assim os ideais nos dividam a todos quando juntos poderíamos fazer do mundo um lugar melhor e não, não falo de utopias, falo de possibilidades imensas de mudar o que nunca se conseguiu mudar, sem cores, sem divisões, sem partidos. Talvez seja por isso que reconheço cada vez menos legitimidade partidária num país cada vez mais dividido pelos partidos. Nem os consigo contar. São já uma panóplia considerável de coisa nenhuma com um propósito comum e transversal, preencher o sentimento de pertença!

Ah, muito mais aliviado agora que escrevi o que queria dizer. No entanto, com este acordo prévio introduzo o tema central deste meu artigo, e mísero contributo para a causa feminista, a Turquia retirou-se do tratado internacional de direitos humanos, em particular das mulheres e raparigas, mais conhecido por, pasmem-se, Convenção de Istambul. Dito de outra forma, a Turquia retirou-se de um tratado internacional que tinha o nome de uma das suas mais emblemáticas cidades. Erdogan, pessoa por quem não nutro nenhum tipo de simpatia fez questão de se retirar do tratado sem qualquer explicação o que causou ao novo Presidente americano, Joe Biden, alguma estranheza e tristeza. A retirada representa um tremendo golpe nos direitos universais das mulheres e as causas continuam, misteriosamente, inexplicáveis. Canso-me de dizer aos meus filhos, em especial à minha filha de apenas 14 anos, que nunca devemos dar por garantidas as nossas liberdades, sejam elas quais forem. Não se trata de um comportamento comunista mas de uma aceção de que vivemos uma realidade com algumas garantias muito frágeis onde a qualquer momento o mundo está ao contrário. De Erdogan não se pode esperar um contributo valoroso para a manutenção de direitos universais, mas pelo contrário, como esta retirada demonstrou. A qualquer momento um homem ou mulher de princípios pode ser corrompido, a qualquer hora um homem ou uma mulher com poder se reúne dos mais pérfidos assessores e pode encaminhar a sua governabilidade para o desastre, a qualquer minuto, uma ideia pode ser implantada maquiavélica é implantada na mente de quem governa. Resta-nos a obrigatoriedade da vigilância permanente.

Devemos todos, em plena consciência, ter o dever de não adormecer em liberdade!

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