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Feminismos é Igualdade

26
Jul21

A simbologia das identificações preconceituosas


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Há muita gente que não olha para os símbolos que identificam os sexos com um olhar crítico, ou criterioso, como se queira chamar. Até acha graça na forma como alguns deles estão construídos, e considera as nossas críticas ridículas ou “fofoquices politiqueiras”.

No entanto, eu aprendi ao longo da minha vida que nada acontece por acaso. Por detrás de uma imagem ou de um símbolo, está um significado e um objetivo.

Quando no chão dos parques de estacionamento ou nos fraldários das casas de banho as identificações para transportar ou cuidar das crianças estão todas com uma conotação feminina, isso quer dizer que ainda existe um preconceito em relação aos homens que deve ser desmistificado, até porque hoje muitos deles já mudam as fraldas e carregam os/as filhas para passear, ou mesmo ao médico e à escola. Não é correto ligar tudo o que se refere às crianças apenas às mães. Não devemos aceitar este estereótipo sem refutar a mentalidade preconceituosa e machista que está por detrás dele. Até a lei mudou de “Maternidade” para “Parentalidade”, exatamente para chamar a atenção que tudo o que se refere aos/às filhos/as tem a responsabilidade de ambos os progenitores.

Claro que sabemos que hoje existem casais do mesmo sexo também com crianças e que devem sentir na pele ainda mais preconceitos. Imagino o dilema de dois pais perante um fraldário que nem tem uma imagem masculina e que fica, muitas vezes, dentro da casa de banho das mulheres. Temos que estar atentas/os a estas questões que parecem pormenores mas que, na realidade, mexem muito com as nossas vidas e o nosso quotidiano.

Também não podemos aceitar como normal que num restaurante a casa de banho das mulheres esteja identificada com “Shopping”, e a da casa de banho dos homens esteja sinalizada com “Futebol”. Há muitas mulheres e homens que não se revêm nem se encaixam nestes rótulos. Sabemos que existem mulheres que gostam de futebol, assim como existem homens que gostam de Shopping. Este tipo de identificação trata as pessoas como “burras” e “fúteis”, quer sejam homens quer sejam mulheres.

Parece uma coisa de pormenor ou de brincadeira, o que não era pois eu própria vi, e mesmo se assim fosse não devemos admitir. Quem me chamou a atenção para este facto foi um homem. Apetecia entrar propositadamente na casa de banho onde nos identificássemos com o interesse proposto. Mas se o fizéssemos, estaríamos a diminuir a importância desta questão.

O mesmo se passa com o nosso cartão de identidade, que trata todas as pessoas no masculino. Dizem que somos radicais, mas eu quando me refiro à minha identidade faço-o sempre no feminino porque sou mulher e não admito que me tratem como homem. Já perguntei a muitos homens: e se fosse ao contrário? Se em vez de ser cartão de cidadão fosse, para toda a gente, cartão de cidadã? Claro que nenhum deles se identifica e fica a olhar, sem qualquer argumento.

E em relação ao cumprimentar no masculino? Será que os homens iriam se sentir representados quando, numa sala antes de um evento, alguém dissesse “bom dia a todas”? Parece que estou a ver o escândalo que seria, sobretudo se a cerimónia fosse pública. Nunca o fiz, mas já me apeteceu fazê-lo várias vezes. Ainda assim, acho que o mais correto é sempre cumprimentar no feminino e no masculino. Os ingleses foram pioneiros quando, desde há muito tempo, utilizam o seu famoso “Ladies and Gentleman”.

Os preconceitos estão tão enraizados nas nossas vidas que muitas vezes somos preconceituosos/as sem sequer termos consciência disso.

É necessária muita atenção e vigilância, porque é nos chamados “pequenos pormenores” que tudo começa.

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15
Jul21

Untitled (SAULT Is)


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Uma afirmação que ouço com alguma regularidade em entrevistas a artistas é que, apesar de não terem grande apreço a redes sociais, se vêem “obrigados” a moverem-se nelas para promoverem o seu trabalho. Aqui há tempos, numa conversa com um amigo de infância que já não vi há uns anos, ele dizia-me que me tinha perdido o rasto por não ter redes sociais, que “quem não tem Facebook não existe”. O conhecimento popular diz que “longe da vista, longe do coração”, mas os SAULT discordam.

Para quem não conhece, os SAULT são uma banda musical britânica, que faz música excelente, e basicamente é isso pois pouco mais se sabe sobre eles. Numa era em que há uma necessidade de aparecer, eles escolheram não revelar a identidade do grupo, não dar concertos ou entrevistas. A única maneira de comunicar com quem os acompanha é através da sua música.

No início do ano, fiz aqui um apanhado daquilo que eu considerava ser a nata da música e cinema lançado no inesquecível 2020 (ou “vinte vinte” se quiserem ser jovens). Um dos meus destaques caiu, naturalmente, para o seu Untitled (Black Is). O álbum, lançado após a atroz morte de George Floyd, chegou no auge do movimento #BlackLivesMatter para ser o seu hino. O álbum é uma mescla de sonoridades, vai do R&B ao jazz, do funk ao soul, do afrobeat ao rap, mas, acima de tudo, é um manifesto antirracista.

Três meses após este lançamento, surge Untitled (Rise), o segundo disco deles do ano (e quarto da sua discografia, juntando-se a 5 e 7 – valem bem a pena -, para além do já citado). Este disco, depois do grito de revolta, é uma celebração e declaração de orgulho pela história dos seus antepassados.

No fim do mês passado, chegou-nos mais um disco, o quinto do grupo em três anos, de seu nome Nine. Novamente com um conceito original, a banda disponibilizou o álbum para download gratuito no seu site. Pormenor: o disco só estará online 99 dias, segundo informaram, sendo posteriormente apagado de todas as plataformas cessado esse prazo, portanto, apressem-se que este artigo, além de estar a anos luz da obra dos SAULT, não será apagado da internet.

Para os mais nerds – um bem hajam - o jornal Chicago Reader analisou a meta-data da música que os SAULT lançaram nas plataformas de streaming e concluiu que Dean Josiah Cover, produtor mais conhecido como Inflo e a cantora britânica de voz cândida, Cleo Sol, são apontados como dois dos elementos do grupo. Há rumores que a banda que acompanha o talentoso Michael Kiwanuka são também membros dos misteriosos SAULT. Kiwanuka e Little Simz, uma das rappers mais entusiasmantes da actualidade, também colaboram publicamente com eles.

Os SAULT são progresso, orgulho, revolta e inquietação. São Marvin Gaye, Nina Simone, D´Angelo, Curtis Mayfield ou Erykah Badu. São conscientes, sem ser moralistas. São o romantismo de deixar a sua obra falar por si na época das selfies. São preciosos e prometem não ficar por aqui.

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07
Jul21

O amor acontece...ou é-nos imposto?


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ARTIGO DE MARGARIDA PACHECO

O-Amor-Acontece

No domingo passado, foi o primeiro episódio do programa “O amor acontece” onde várias pessoas querem encontrar o seu par ideal. Compreende-se logo no início do programa que todos/as têm expectativas sobre esse “par ideal” e como deve ser essa pessoa. Essas expectativas são reais ou são expectativas impostas pela sociedade? E o que é que é isso de par ideal? 

Falemos do primeiro par apresentado. Um concorrente masculino que explica desde logo as suas expectativas e todas elas se centram no aspeto físico, sendo a sua primeira preocupação o facto da sua companheira não poder ser mais alta do que ele. A concorrente feminina, também com expectativas centradas no aspeto físico, afirma que o seu par tem que ser mais alto do que ela, porque gosta de usar saltos altos. Começamos a ver os estereótipos de género presentes nas relações românticas. 

No momento da apresentação a jovem também menciona que está no programa para “desencalhar”, uma vez que tem 21 anos e não tem um namorado. Estas conceções fizeram-me pensar nas pressões existentes na sociedade para as mulheres no que toca ao casamento e a terem filhos/as. Desde cedo começa a imposição de que todas devemos ter um relacionamento com alguém, que pressiona jovens a começarem o mais rapidamente possível relacionamentos e que as mulheres são menos mulheres se não tiverem um relacionamento romântico. Todas nós já ouvimos “não tens ninguém?”, “mas não queres?”, “não tens medo de não encontrar ninguém e ficar sozinha?'', "não queres ser mãe?”.  Esta pressão que nos é imposta faz com que muitas mulheres iniciem relações românticas sem quererem, sem estarem preparadas e muitas vezes faz com que se mantenham em relações abusivas e tóxicas. 

O mesmo rapaz afirma que é controlador na sua vida, mas não nas relações. No entanto, logo compreendemos quer pelos seus comentários quer pelas suas atitudes que o controlo também faz parte das suas relações. Nos próximos episódios iremos testemunhar este jovem a controlar o vestuário da concorrente que poderá ser o seu ‘par ideal’ e a mexer no telemóvel da mesma sem autorização. Estes comportamentos já mostram aquilo que muitas pessoas mencionaram nas redes sociais como “foge Catarina, essa relação já não é saudável e ainda mal começou”.  O que mais me intriga é como é que a TVI vai lidar com esta situação. Vai legitimar estes comportamentos como tem feito em outros reality shows? Vai aproveitar esta oportunidade e falar de um problema social grave que temos em Portugal que é a violência nas relações de intimidade? Espero que seja usado este exemplo para que as pessoas que estão a assistir a este programa e que estão em relacionamentos abusivos possam refletir que são comportamentos abusivos e que ninguém deve aceitar essas atitudes nas nossas relações afetivas, nem na “Casa da Praia”, nem num reality show, nem na nossa casa, em nenhum lado, em nenhum momento. 

Continuemos com os estereótipos presentes nas relações de intimidade e falemos então no segundo casal. Achei muito importante falarem do facto de um homem não poder e não querer ter filhos. É essencial começarmos a desmistificar a ideia que todos/as temos que ser pais e mães. Também é importante mencionar que nem todas as mulheres querem ser mães e está tudo bem! Um relacionamento romântico não tem que ter a finalidade de ter filhos/as e/ou casar.

Falemos agora dos estereótipos de género presentes no terceiro casal. Quando o primeiro casal mencionou as idades em que ele é mais velho que ela, nenhum dos dois estranhou. Já neste casal quando a rapariga pergunta “mas então quantos anos tens?” e compreende que ele é mais novo que ela, notou-se logo um desconforto da parte da concorrente. Todas estas ideias de como um homem e uma mulher devem ser, fazer, estar ou comportar-se numa relação está tão enraizada na nossa sociedade que muitas vezes nem refletimos e criticamos estes comportamentos que fomos vendo ao longo deste programa e muitos outros que vão aparecer nos próximos episódios, uma vez que é um reality show e, por isso, vamos ver o que se passa no dia a dia de mulheres e homens que se querem relacionar. 

Então, afinal o que é o par ideal? É uma ideia que vamos construindo ao longo do nosso desenvolvimento e do nosso processo de autoconhecimento ou é algo que nos é imposto desde que somos crianças? A conceção de amor romântico que é transmitida para as crianças desde muito pequeninas deve ser refletida. A comunicação, o afeto, a sexualidade, o consentimento e os relacionamentos interpessoais devem ser trabalhados desde muito novos/as.

Não posso deixar de mencionar a reflexão e crítica que foi feita nas redes sociais ao longo do programa. Existe cada vez mais uma consciencialização da sociedade portuguesa no que diz respeito aos problemas sociais e isso é cada vez mais notório na crítica sobre o conteúdo deste tipo de programas. Reivindicou-se pela representatividade no programa. Será que vamos ter pessoas homossexuais a conhecerem-se e a começarem uma relação romântica em horário nobre na televisão portuguesa? 

Não posso terminar sem mencionar a importância da visibilidade das relações afetivas e sexuais na terceira idade. É necessário também este tema deixar de ser tabu. 

A televisão é um meio de comunicação presente na maior parte das casas dos/as portugueses/as e este programa é uma excelente oportunidade para refletirmos e debatermos sobre os relacionamentos românticos, mas também para debatermos sobre o que queremos, o que aceitamos e o que cada um de nós acha que é o par ideal. 

O amor pode acontecer e acontece…. mas muitas vezes a ideia de amor é-nos imposta!

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30
Jun21

Migrações involuntárias ou a história da humanidade


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ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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A história das migrações é indissociável da história da humanidade e o seu percurso constitui um manancial de referências que ecoa naquilo que somos e na riqueza pessoal que todos os processos de aculturação foram trazendo para a nossa construção.

Quando começou a luta pela posse de um território através da demarcação de fronteiras? Sabemos que algures durante o processo de sedentarização ela começou a intensificar-se e que o que até ali fora um confronto entre concorrentes pela sobrevivência foi ganhando outros contornos e a ideia da “posse” foi-se instalando, século atrás de século, trazendo consigo o medo da perda dos bens conquistados. Estava lançada assim, irremediavelmente, a semente da discórdia.

A confusão entre o ser e o ter que esta situação provocou, atingiu os povos de tal modo que a velha Europa se arrogou, com a sabedoria que julgava ter, ao direito de possuir outros continentes e subordiná-los à sua vontade e aos seus dogmas, que séculos de luta e outras tantas conquistas não conseguiram apagar completamente.

E assim chegamos ao dia de hoje, em pleno século XXI, com a palavra diferença a provocar ainda muito sofrimento, quando aplicada a outros seres humanos, num momento da nossa história colectiva  em que os direitos universais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade já fazem parte do nosso ADN e, por isso mesmo, nem esses nem outros direitos que desses advêm deviam ser colocados  em causa,

Não podemos mudar a história, é verdade, por isso, hoje temos de nos aceitar como produtos de uma construção milenar. No entanto, essa aceitação não se pode manifestar através de saudsaudosis de um tempo marcado pela conquista desenfreada e pelo imperialismo que destruiu outros seres humanos, retirando-lhes o direito à sua identidade. Aprendamos sim, com o passado, mas para não cometer as mesmas atrocidades, usando para isso todos os meios que hoje temos ao nosso dispor. Assim, talvez possamos, por fim, experimentar uma reconciliação com esse mesmo passado.

Aceitemos que toda a humanidade descende desses migrantes involuntários que um dia procuraram espaços onde se encaixar e talvez assim seja possível respeitar as pessoas que, agora, procuram um espaço onde possam exercer um dos direitos humanos, essa conquistas da modernidade de que nos devemos orgulhar e que temos o dever de defender - o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Todas as sociedades que encontraram no seu seio espaços para albergar as diferenças são sociedades mais felizes e equilibradas.

É urgente destruir as novas ideologias vestidas com as velhas roupagens, que procuram com falácias oportunistas destruir os ideais humanistas e traçar fronteiras não só no espaço mas também na sociedade, pois, quando se começam a implementar desigualdades, esse processo não termina num grupo, numa língua, numa ideologia, numa religião ou numa orientação social. Não pode haver a mínima cedência dos direitos conquistados, em vez disso é urgente inverter a marcha que nos ameaça e caminhar na defesa intransigente de uma sociedade onde o direito à felicidade seja universal e nunca mais nos envergonhemos da nossa condição humana.

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29
Jun21

Enquanto esfregas um olho, a liberdade vai-se!


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ARTIGO DE CLÁUDIO TELO PESTANA

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Não é segredo nenhum que a política faz já parte do meu percurso e dos meus interesses diários. A política, essa nobre causa, deveria ser praticada por via de uma dose generosa de bom senso e, igualmente, levada a cabo por homens e mulheres de bem, honrosos e capazes ao nível técnico e humano. Que reconheçam as limitações daquilo que governam e com o foco no único objetivo de fazer mais e melhor do que aquilo que outrora era o estado das coisas. Conheço algumas pessoas que congregam em si estas capacidades únicas e elas estão espalhadas, e divididas, da esquerda à direita. Lamento profundamente que assim os ideais nos dividam a todos quando juntos poderíamos fazer do mundo um lugar melhor e não, não falo de utopias, falo de possibilidades imensas de mudar o que nunca se conseguiu mudar, sem cores, sem divisões, sem partidos. Talvez seja por isso que reconheço cada vez menos legitimidade partidária num país cada vez mais dividido pelos partidos. Nem os consigo contar. São já uma panóplia considerável de coisa nenhuma com um propósito comum e transversal, preencher o sentimento de pertença!

Ah, muito mais aliviado agora que escrevi o que queria dizer. No entanto, com este acordo prévio introduzo o tema central deste meu artigo, e mísero contributo para a causa feminista, a Turquia retirou-se do tratado internacional de direitos humanos, em particular das mulheres e raparigas, mais conhecido por, pasmem-se, Convenção de Istambul. Dito de outra forma, a Turquia retirou-se de um tratado internacional que tinha o nome de uma das suas mais emblemáticas cidades. Erdogan, pessoa por quem não nutro nenhum tipo de simpatia fez questão de se retirar do tratado sem qualquer explicação o que causou ao novo Presidente americano, Joe Biden, alguma estranheza e tristeza. A retirada representa um tremendo golpe nos direitos universais das mulheres e as causas continuam, misteriosamente, inexplicáveis. Canso-me de dizer aos meus filhos, em especial à minha filha de apenas 14 anos, que nunca devemos dar por garantidas as nossas liberdades, sejam elas quais forem. Não se trata de um comportamento comunista mas de uma aceção de que vivemos uma realidade com algumas garantias muito frágeis onde a qualquer momento o mundo está ao contrário. De Erdogan não se pode esperar um contributo valoroso para a manutenção de direitos universais, mas pelo contrário, como esta retirada demonstrou. A qualquer momento um homem ou mulher de princípios pode ser corrompido, a qualquer hora um homem ou uma mulher com poder se reúne dos mais pérfidos assessores e pode encaminhar a sua governabilidade para o desastre, a qualquer minuto, uma ideia pode ser implantada maquiavélica é implantada na mente de quem governa. Resta-nos a obrigatoriedade da vigilância permanente.

Devemos todos, em plena consciência, ter o dever de não adormecer em liberdade!

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16
Jun21

Mural da História


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ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

 

Hoje venho falar-vos de um livro maravilhoso que se chama “Mural da História”. Foi escrito pela Carolina Caldeira e ilustrado pela Raquel Marques. Faz parte de um projeto que vai envolver pelo menos um muro (daí o nome “mural”), que será intervencionado artisticamente com uma das histórias que fazem parte do livro. Podem pensar que o livro é para crianças. E é. Mas também pode ser lido por pessoas adultas, pois tudo o que ele contém nos ajuda a refletir sobre a importância que as mensagens das “inocentes” histórias infantis passam, bem como sobre o papel que esses contos tiveram e têm nos comportamentos das meninas, das raparigas e das mulheres ao longo de muitas gerações, levando-as a acreditar que para terem sucesso devem esperar passivamente por um príncipe encantado, vivendo para ele e por ele, esquecendo-se delas próprias.

No “Mural da História” podem então ler e pintar novas e divertidas versões de contos infantis bem conhecidos. Já ouviram falar da Rapunzel? Aquela rapariga com longos cabelos arranjados numa looooongaaaa trança, que vivia numa torre à espera de um príncipe que a salvasse? E a Gata Borralheira, conhecem? A Carochinha, aquela que ficava à janela à procura de alguém com quem casar? Lembra-vos alguma história? E que tal a Princesa da ervilha, aquela que era mesmo tão, mas tãããããooooo PRINCESA que sentia uma ervilha na cama, mesmo que por baixo de um monte de colchões?

Pois agora têm a oportunidade de conhecer todas estas personagens femininas, em versão século XXI!!! São meninas que sabem quem são e do que gostam, que lutam contra os seus medos e partem rumo à aventura, para concretizarem os seus sonhos. E de que maneira o fazem! E que atraente é esta leitura, com desenhos lindos prontos a serem coloridos, com textos divertidos, com morais da história empoderadores e com espaço no fim de cada conto para que cada leitora ou leitor escreva ou desenhe o que lhe vai na alma, quando lê estas aventuras e sonhos concretizados.

Os contos de fadas com princesas e príncipes reproduzem a ideia de que as mulheres devem ser submissas, passivas, doces, obedientes, resignadas e humildes. Se forem bonitas têm mais hipóteses de casar com um príncipe encantado que as cuidará e alimentará, garantindo a sua subsistência. Daí terem de viver para a aparência física, usando a máxima “sofrer para ser bela”.

Neste “Mural da História”, Carolina Caldeira e Raquel Marques ajudam-nos a desconstruir estes estereótipos, redefinindo os papéis das mulheres e permitindo uma visão crítica da sociedade e das suas regras, adaptando histórias mágicas e tradicionais à realidade atual, sem eliminar a magia e o sonho. Estamos perante personagens femininas que lidam com o seu contexto, com os seus medos e que lutam pelos seus sonhos, avançando com o que têm à sua volta e tirando o melhor partido da análise que fazem ao seu contexto. Elas têm voz e usam-na para se afirmarem.

Parece-me que se têm crianças podem ler com elas estas histórias, divertirem-se e ajudarem a quebrar o feitiço que, ao longo de séculos, transformou as mulheres em seres pouco inteligentes e pouco poderosos que só conseguiriam encontrar a felicidade através do casamento.

O livro foi editado pela CADMUS, com o apoio da Câmara Municipal do Funchal. Custa 10€. O projeto pode ser consultado aqui: https://www.projetomuraldahistoria.com. No fim do mês, podem ir ver o mural que a Carolina Caldeira e as crianças estão a desenhar na escola do Livramento, no Funchal.

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02
Jun21

Pandemia e desigualdade de género


umarmadeira

ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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Nos últimos meses, algumas Instituições têm abordado em órgãos de comunicação social, vários problemas muito sensíveis que afetam dum modo particular as Mulheres, tais como serem as mais afetadas com o desemprego, na qualidade do emprego, no teletrabalho, na desigualdade salarial, nos baixos salários, com reflexos na baixa natalidade, na conciliação dos direitos da maternidade, na exclusão social.

O drama da escravidão das/os trabalhadoras/es imigrantes, no aumento da pobreza, pessoas que mesmo trabalhando vivem abaixo do limiar da pobreza, no aumento da violência doméstica e, ainda, de várias Mulheres de profissões diversas a assumirem publicamente terem sido assediadas; artistas, advogadas, jornalistas, psicólogas, estudantes, enfermeiras, economistas etc., a contarem o que sofreram e sofrem com o assédio sexual no trabalho, na rua, na noite, na praia, nos transportes, etc.

A Presidente da Comissão Europeia também se sentiu discriminada, aquando da sua deslocação à Turquia, por ser a primeira Presidenta a não ter cadeira para que se pudesse sentar, pois as cadeiras eram só para os homens, tendo ficado chocada.

Não menos verdade, e também visível, é que, com a pandemia, a maioria das famílias perdeu grande parte dos seus rendimentos e mais de metade dos madeirenses admitem dificuldades financeiras, tornando-se claro que os salários em Portugal e na Região são reconhecidamente muito baixos. Estávamos todas e todos com alguma expectativa que da cimeira social a realizar-se em Portugal, face a todo este quadro, saíssem respostas para alguns destes problemas, mas a conclusão que tirei é que foi uma cimeira de meias tintas, num momento Histórico, todos bem-intencionados mas com resultados nulos. Porque a resposta é nada, não há nenhuma medida concreta. O que saiu foi um conjunto de princípios gerais sem poder vinculativo, ficando ao critério de cada país a sua aplicação ou não. Por outro lado, a União Europeia tem vindo a abordar estes problemas, mas sobre a igualdade salarial de género, para que torne obrigatório a adoção de medidas de transparência sobre esta matéria, até aqui as diretivas europeias resultam apenas em recomendações. Nos últimos dados estatísticos tornados públicos, as mulheres ganham menos 14,4% em relação aos homens, mas é nas grandes empresas que mais se sente, ficando a diferença em 26%.

Não menos verdade é que é do conhecimento público que o Comité de Direitos Humanos do Conselho da Europa já concluiu que Portugal tem violado a carta dos direitos sociais da organização por falta de progresso em alcançar a igualdade salarial entre Mulheres e Homens.

Face a tudo isto, é claro que as Mulheres estão mais frágeis perante a pobreza, ocupam ainda uma pequena percentagem de cargos de maior poder, apesar de representarem mais de metade da população, ocupam ainda um número pequeno de assentos nos parlamentos, sofrem mais violência doméstica e ocupam a maior parcela de empregos precários.

É caso para dizer que esta pandemia é como uma guerra oculta contra as mulheres. Se não forem tomadas medidas, a COVID 19 pode apagar uma geração de frágeis avanços em direção à Igualdade de Género, isto porque torna-se visível a desigualdade neste contexto de pandemia.

Como se tudo isto já não bastasse, o aumento da violência doméstica reflete uma realidade alarmante, que com a pandemia se agravou no período do confinamento. É urgente por um fim a este horrível flagelo contra Mulheres e crianças. É fundamental uma mudança, mas só será possível se todas e todos unirmos esforços e atuarmos com determinação para atingirmos a Igualdade e justiça. As ações que forem tomadas determinarão as expectativas, não apenas da atual geração de Mulheres, mas também das gerações futuras.

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25
Mai21

Errar é humano…?


umarmadeira

ARTIGO DE FÁBIO DINIZ

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É uma frase vulgarmente empregada, para nos livrar dos males e das atrocidades aparentemente minúsculas que cometemos.

A nossa superioridade egocêntrica nos levou a um estado atual de calamidade intensa e constante… Por alguns continua sendo negada.

As consequências das intervenções humanas têm-se mostrado difíceis de lidar e gerir. Assim então, alguns de nós insistem que, falhar faz parte da nossa aprendizagem… E sim, reaprender, reeducar e reestruturar é necessário, apenas ressalto que, nos dias atuais alguns deles já poderiam ter sido evitados.

Nos últimos anos tanto destruímos e detonámos a nossa casa planetária, abusando estupidamente dos recursos que nos são disponibilizados. Como consequência da arrogância maquiavélica manifestada retiramos espécies dos seus habitats, maltratamos os solos e, ainda assim continuamos à espera de um resultado diferente. O desmatamento é repetidamente levado em consideração, sejam nos meios urbanos, bem como nos espaços naturais e dos quais deveriam ser preservados. É de nossa inteira responsabilidade cuidar, manter, preservar, olhar, contemplar e, sim respeitar a fauna e flora.

Ainda que estejamos atravessando a atual crise pandémica, na qual vítimas mortais somam números diariamente, continuamos com a nossa compaixão e o respeito congelados.

Além dos incontáveis óbitos, observemos o grande recado que o microrganismo atual nos traz. Será que ele nos está a dizer que é hora de mudar e rever os nossos valores e princípios? Seria um momento de refletir sobre paradigmas, ética e moral? Talvez seja isso e tantas outras mensagens que todo o hemisfério cósmico nos envia a cada minuto vivido.

Olhar para os seres vivos de outra forma… Como por exemplo, os animais? As florestas, as várias espécies vegetais? Seria mesmo racional e lógico destruir árvores, poluir e exterminar os oceanos?

Provavelmente é chegada hora de revermos os nossos conhecimentos que já não se adequam.

Como diz o Dalai Lama: “A destruição da natureza resulta da ignorância, cobiça e ausência de respeito para com os seres vivos do planeta.”

Há quem prefira negar toda esta conjuntura e, no final de tudo, mesmo sem respeitar as várias formas de vida, nos desculpamos com a frase… Errar é humano.

Sim, é muito mais fácil dizer que sou humano e posso errar… Espera lá! Quem nos disse e ensinou isso?

Ah, pois, fomos nós, humanos, pois somos tão soberanos que podemos falhar sem problema, sem responsabilidade, sendo inconsequentes.

Afinal… Errar é humano…?

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17
Mai21

Produtividade: salve-se quem puder.


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Naquela manhã, uma mulher deixou a filha dentro do carro. Quando se lembrou, já era demasiado tarde. O espaço público encheu-se de moralismos e, em bicos de pés, apontaram-se dedos à mãe, à malvada, quem é que esquece uma filha dentro do carro um dia inteiro?

Somos seres humanos, corpos que carregam outras pessoas dentro, ansiedades e medos, milhares de informações, necessidades e desafios. Somos pessoas do século XXI, com o que isso tem de bom e de mau, absorvidas pela tecnologia cada vez mais superior àquilo que achamos conseguir acompanhar, absorvidas pelo trabalho e pelo capital. Somos os seres que parecem competir sobre quem dorme menos, quem trabalha mais horas, quem está permanentemente ligado, quem produz mais, quem tem a melhor ideia, quem dá mais às causas, quem tem mais problemas de saúde. Somos os bichos mais estranhos do planeta porque, enquanto os outros animais parecem levitar sobre o tempo – mesmo os que têm uma curta esperança de vida – nós queremos ser mais rápidos que o tempo, queremos que as 24 horas se traduzam em 48 e, no fundo, não vivemos na pressa de viver tudo.

Naquela manhã, uma mulher era uma destas pessoas, uma destas tantas pessoas. Não a conhecendo, imagino que estivesse absorvida pelas suas tarefas, que alguma coisa na rotina se tenha alterado, que problemas a afligissem. Imagino que tivesse contas para pagar, dilemas para resolver, planos para cumprir. Imagino que tenha dormido pouco, que tenha trabalhado horas a mais, que estivesse permanentemente ligada, que quisesse produzir mais, que quisesse ter a melhor ideia, que quisesse dar mais às suas causas. Imagino, também, que ame profundamente a filha que perdeu e, no meio do fazer-se valer enquanto pessoa do século XXI – trabalha!, pensa!, dorme pouco!, faz mais! – esqueceu-se do mais importante: o cuidar-se e, com isso, alargar o cuidado aos seus. Imagino, quase na certeza, que o calvário que enfrenta agora é pior que qualquer outra coisa. Haverá espaço para uma mulher feliz na mãe que morreu ali?

Eu não tenho crianças sob a minha responsabilidade. No cenário da minha vida, não consigo conceber espaço, tempo e segurança emocional para cuidar de uma. Admiro as mulheres que enfrentam a maternidade enquanto se digladiam com outras responsabilidades – e também os homens que enfrentam a paternidade, embora saibamos que é ainda sobre a mulher que recaem as maiores dificuldades. Não tenho filhos ou filhas, mas sei que, se os/as tivesse, eu poderia muito bem ser, naquela manhã, a mulher que deixou a filha dentro do carro. E quando me lembrasse, já seria demasiado tarde, e o espaço público encher-se-ia de moralismos para, em bicos de pés, apontar-me os dedos, a mim, a malvada, quem é que esquece uma filha dentro de um carro um dia inteiro?

Precisamos de mudar isto. Precisamos de deixar de competir e passar a cooperar. Sermos uma equipa. Um conjunto de seres que caminham para um mesmo objetivo, o da felicidade e da justiça. Precisamos de parar de exigir de nós e dos outros o que prejudica o coletivo enquanto humanidade. Humanidade: haverá produtividade exacerbada que a salve? Pelo que vou compreendendo, a continuar assim, acabaremos todas/os doentes, desgastadas/os, divididas/os e confusas/os. Que não seja o salve-se quem puder.

E, hoje, já viveram?

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10
Mai21

Somos feministas por um mundo novo


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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O pior que pode acontecer à causa do feminismo é considerar que, em nome da pandemia, lutar por esta causa de direitos iguais para todos/as é uma utopia e que o melhor é congelar a nossa luta à espera que a pandemia fique controlada, porque existem outras prioridades.

No meu entender, nada é mais prioritário do que continuar a estar atentas/os aos problemas que surgem na sociedade e que aprofundam, negativamente, os direitos que foram conquistados com tanta luta e com tanto empenho de um conjunto de mulheres, nas quais me incluo. Sempre nos disseram que o que reivindicávamos ou defendíamos era acessório e não era o fundamental.

No entanto, à medida que a nossa luta ia produzindo efeitos positivos e que fomos conquistando direitos que abrangiam todas as mulheres, mesmo aquelas que nada fizeram para que os mesmos existissem, toda a gente começou a ser beneficiada e, então, tudo se tornou importante e a sociedade que nos quis calar passou a aceitar esses direitos como "coisas importantes que devem ser perservadas".

É sempre assim no que toca às mulheres. Começam por atacar mas, depois, existe um render coletivo ao que é conseguido. Foi assim com a maternidade e paternidade. Foi assim com o planeamento familiar. Foi assim com a IVG. Foi assim com o crime público da VD. Foi assim com o direito à adoção. Foi assim com tanta coisa que hoje faz parte do nosso ordenamento jurídico sem qualquer perturbação.

Atacam-nos por nos definirmos como feministas, quando consideramos que devíamos ser tratadas, no cartão de identidade, como cidadãs. Que queremos ser olhadas na rua com respeito e admiração, e não à luz de preconceitos machistas e com assédio. Que queremos ser tratadas no feminino nos discursos oficiais ou nos cumprimentos formais. Não gostamos de ser tratadas no masculino porque nenhum homem nos representa nem nós representamos os homens. Ambos existimos e queremos continuar a ser todos/as olhados/as e tratados/as com respeito e admiração pelo que somos, e não pelo sexo com o qual nascemos.

Lutamos por uma sociedade inclusiva para todos os seres humanos. Queremos um mundo novo para que toda a gente seja feliz e respeitada, independentemente dos credos, religiões, orientações sexuais ou outras coisas que defendam. Cada pessoa é que sabe da sua vida. Cada pessoa é que sabe do que gosta. Cada pessoa é livre para decidir o que quer fazer da sua vida.

Defendo que o que deve predominar nas nossas vidas são todas as cores do arco íris. Só com esse colorido da vida é que podemos continuar a sonhar em ser felizes durante e depois da pandemia. Não podemos deixar de sonhar e de querer que a vida nos proporcione vivências mais felizes, onde cada ser humano tenha o mesmo direito a ser feliz e realizado.

Utopia, dizem. Então, sou defensora de utopias. Precisamos de acreditar que vamos ultrapassar esta pandemia e que, entretanto, não deixamos de lutar por aquilo que consideramos justo. É isso que tem feito a UMAR/Madeira, tentando aproveitar estes novos tempos para organizar documentação que retrate a memória coletiva do que tem sido a luta das mulheres. Queremos deixar o nosso contributo, até para que a memória não se perca. Estamos a trabalhar em mais documentos que servirão para debates futuros, porque a pandemia vai passar e vamos continuar a lutar por um mundo novo sem desigualdades e com mais empatia entre todas as pessoas.

A nossa luta por um Feminismo de intervenção não para e nenhuma pandemia o vai destruir.

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