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Feminismos é Igualdade

07
Dez19

Ele ajuda a mulher em casa. Que coisa tão linda e progressiva!


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ARTIGO DE CLÁUDIO TELO PESTANA

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Nesta época natalícia que se avizinha, quero vos presentear com a descrição sucinta de um artigo muito suis generis que tive a oportunidade de ler a semana passada no website da revista “Visão”, e que dá conta da opinião do psicólogo espanhol Alberto Soler acerca da “ajuda” que o homem deve dar em casa à sua esposa ou companheira no decorrer das responsabilidades parentais.

Segundo a revista, Alberto Soler teria sido surpreendido num supermercado com o comentário de duas senhoras que o elogiavam por tomar conta dos seus dois filhos gémeos de 15 meses prestando assim uma preciosa “ajuda” à esposa, facto este que levou o psicólogo a reflectir e deambular sobre o assunto durante algum tempo e posteriormente escrever no seu blog o seguinte: “Eu não ajudo em casa, eu faço parte da casa. E não, eu não ajudo a minha mulher com as crianças porque não posso ajudar alguém com uma coisa que é da minha inteira responsabilidade.” O comentário foi partilhado milhares de vezes pelos internautas e hoje conta já com diversas variações traduzidas em vários idiomas atingindo repercussão internacional possível através da internet.

Não obstante esta viralidade cibernética julgo existir ainda um longo caminho na desconstrução desta ideia da “ajuda” preciosa que o esposo, namorado ou companheiro pode dar à sua esposa ou companheira uma vez que é também seu dever cumprir com obrigações caseiras, quer isso implique lavar a loiça, cozinhar, engomar, ou cuidar dos filhos. Os filhos não são pertença exclusiva de um ou de outro membro do casal, de maneira que, ambos devem partilhar as responsabilidades que acarreta a educação e o bem-estar dos seus descendentes.

Na verdade, hoje tornou-se moda afirmar que se “ajuda” em casa porque nos fica bem, mas o termo deve ser repensado por forma a desmistificar esta ideia da caridade conjugal como se à mulher pertencesse o mundo doméstico e ao homem tudo o resto, e que apenas pela vontade do próprio poderá oferecer-se uma “mãozinha” se for conveniente. Ajudar em casa não é um cliché, não é uma moda dos tempos modernos. Devemos desconstruir o “ajudar” para nos ajudarmos enquanto sociedade que se regenera e se supera, eliminando este conceito ultrapassado e ingénuo. Sugiro que se reflita futuramente sobre este termo pobremente empregue e que doravante se aplique a expressão: “Ele contribui nos seus deveres”!

Wouldn't that be a sight!?

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23
Nov19

Violência sobre as mulheres: A sociedade está errada!


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ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Na próxima segunda-feira, dia 25 de novembro, assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, e em um país onde mais da metade da população é constituída por mulheres, será que somos só nós, feministas, que reconhecem a nossa sociedade como errada?

Ora vejamos: se todos os anos continuamos a evocar este dia e a homenagear as dezenas de mulheres assassinadas, a sociedade está errada e estamos a falhar.

O ano de 2019 está manchado por uma onda de sangue: 28 mulheres foram assassinadas. É esta a triste realidade do nosso país. Entre 2004 e 2019, 531 mulheres perderam a vida às mãos de assassinos.

A verdade é que a violência doméstica é um problema grave que afeta mais mulheres do que as estatísticas revelam. As vítimas não são simples números, são mulheres que não têm a proteção devida das leis existentes. Temos urgentemente que acabar com esta violência que atinge as mulheres dentro da própria casa.

A sociedade está errada quando silencia os gritos que ouve, a sociedade está errada quando diz que entre marido e mulher ninguém mete a colher “porque os problemas são deles, eles que resolvam”. Não! O problema não é deles, é nosso, é de todos e todas, e metam sim a colher! A violência doméstica é um crime público e a sociedade está errada quando ignora e não denuncia.

A sociedade está errada quando desculpa a violência doméstica com o desemprego, com o alcoolismo, com a toxicodependência, com problemas mentais, com o ciúme, entre muitas outras justificações que se vão ouvindo aqui e acolá.

Que forma de ignorância é esta? A violência não é exclusiva de certas classes sociais, a violência é transversal a qualquer classe e a qualquer idade! Que sociedade é esta, que insiste em inferiorizar as mulheres? Que sociedade é esta, que permite que uma mulher seja agredida e insultada? O que acontece com as queixas que são feitas? Que modelo social pretendemos, quando o agressor é levado a julgamento e o juiz atenua a pena, ou na maioria das vezes nada acontece e é a vítima que tem de fugir apenas com a roupa do corpo? Ou, por exemplo, quando um juiz cita a Bíblia para desvalorizar as vítimas de alegada violência doméstica, e quando um juiz afirma que "uma simples ofensa à integridade física, está longe de poder considerar-se uma conduta maltratante suscetível de configurar violência doméstica", aqui percebemos o quanto ainda há por fazer, aqui percebemos o quanto a nossa sociedade está errada.

A sociedade está errada, quando não é capaz de entender que as mulheres têm os mesmos direitos, que podem decidir sobre o seu corpo, que podem lutar por uma vida sem medos. A sociedade está errada, quando não aceita o empoderamento das mulheres.

É urgente a mudança de mentalidades, é urgente lembrar a cada instante o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Enquanto este artigo não passar do papel à prática, continuaremos a viver numa sociedade machista, numa sociedade errada.

Enquanto a lei não for praticada pelos tribunais, continuaremos a ter vítimas silenciosas nesta sociedade errada que olha para o lado, insensível à dura realidade de mulheres magoadas e sem ajuda.

A sociedade precisa aceitar que temos um grave problema em mãos e que precisamos de agir. E não é depois, é já!

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20
Nov19

Vídeo sobre a Convenção dos Direitos das Crianças


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Vídeo da UMAR Madeira sobre a Convenção dos Direitos das Crianças, que hoje se comemora o 30º aniversário, em que demos voz a crianças e jovens que participam no ART'THEMIS+ Madeira. Animações feitas com base em desenhos criados por participantes do projeto no ano letivo 2018/2019. Em parceria com a Câmara Municipal do Funchal. Edição do vídeo feita por Diogo Freire.

 

16
Nov19

Um mundo de desigualdades, onde são as mulheres e crianças quem mais sofre, onde crescem as ameaças aos direitos das mulheres


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ARTIGO DE MANUELA TAVARES

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Assistimos a momentos políticos e sociais muito preocupantes.

Perante um mundo de desigualdades crescentes, crescem as forças populistas de extrema direita que representam uma ameaça às liberdades, à democracia e aos direitos das mulheres.

Sabemos que os gritos de revolta de quem é espezinhado, de quem não tem casa para viver ou pão para comer são aproveitados por quem quer impor ditaduras disfarçadas de resolução dos problemas prementes.

As mulheres e as crianças são quem mais sofre com este cenário político e social.

As forças fascizantes envolvem os seus discursos de que os feminismos dão cabo das famílias, que não garantem os direitos destas. O que se passa é que essas forças defendem que as mulheres se devem dedicar totalmente aos maridos e filhos, deixem de ser elas próprias, tal como acontecia na ditadura salazarista de triste memória.

A extrema-direita em Espanha, que cresceu imenso nas últimas eleições, quer eliminar as leis de proteção às mulheres vítimas de violência. Para eles, a violência não significa morte, assassinatos. Significa apenas “arrufos” entre marido e mulher e querem voltar ao antigamente que “entre marido e mulher que ninguém meta a colher”.

Estas forças ultraconservadoras querem também dominar as escolas. Querem que qualquer programa de prevenção da violência ou de promoção da igualdade seja analisado por comissões de encarregados da educação. A escola, os/as professores/as, os estudantes não têm opinião para essa gente que veio para fazer com que as conquistas civilizacionais voltem para trás.

Quanto mais as desigualdades e a pobreza crescem, mais estas forças ganham terreno.

Lutar para a eliminação das desigualdades que geram pobreza e falta de direitos é uma obrigação de cada um/a de nós.

As feministas têm nesta luta um papel fundamental.

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09
Nov19

A Igualdade de Género está a fazer caminho, mas há que estar vigilante para não haver retrocesso


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ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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Têm surgido ultimamente diversas abordagens, e de diversas formas, sobre a Igualdade de Género, em que a maioria reconhece que já foram feitos avanços, mas havendo ainda um largo caminho a percorrer, porque muito há a fazer contra a discriminação e mudança de mentalidades para que seja alcançada a Igualdade de Género, maior visibilidade dada à violência doméstica contra as mulheres, com alguns casos a lembrar-nos as atrocidades praticadas na idade média, assim como os maus tratos às crianças, Idosos/as, as agressões violentas entre Jovens, terminando com o aumento da Pobreza, e suas consequências que dai advêm para as Famílias e a sociedade.

A história demonstrou e o tempo confirmou que só é possível atacar as desigualdades entre mulheres e Homens Trabalhadores/as, se a Igualdade for respeitada e for assegurada a sua estabilidade e segurança no emprego valorizadas as suas profissões e forem garantidos e respeitados os seus direitos, para que cada pessoa possa obter a sua emancipação económica, satisfazer as suas necessidades básicas e cumprir com os seus compromissos, sem estar dependente de ninguém, o que passa por receber melhores salários e haver uma melhor distribuição da riqueza produzida, pois é sempre da parte mais fraca que reside a maior desigualdade da nossa sociedade.

As pensões de reforma que as Mulheres auferem são 32% inferiores à que recebem a maioria os Homens, porque entre outros fatores a desigualdade salarial continua a penalizá-las, com grandes reflexos nas suas carreiras contributivas e pensões, mesmo sendo as suas habilitações em muitos casos superiores às dos Homens.

Penso que se a avaliação fosse por competências, as Mulheres progrediam tanto como os homens, mas sabemos que assim não é. Porque engravidam, logo são penalizadas por serem mães, acusadas de absentismo por terem de faltar mais dias para prestarem assistência aos filhos enquanto são pequenos, embora já haja Pais a exercerem os seus direitos de paternidade para cuidarem dos filhos e levá-los ao médico, continua maioritariamente a ser a Mulher a ter essa responsabilidade, assim como os cuidados com os /as familiares idosos, a divisão de tarefas ainda é feita mas de forma lenta.

Somos mais de metade da humanidade mas só 1/3 das Mulheres ocupa lugares de decisão, e nos Parlamentos da República e Regional, assim como nas Autárquicas, às Mulheres ainda lhes falta um longo caminho a percorrer para estarem em pé de Igualdade, para poder termos uma sociedade mais justa e equilibrada. Temos boa Legislação, mas ainda há um grande fosso entre o que está na Lei e a sua ligação à vida.

Assiste-se a uma excessiva precariedade de centenas de trabalhadores/as, que executam funções permanentes, mas com vínculo muito precário e em várias situações nem lhes é pago o acordado, e para sobreviver têm de andar de mão estendida a pedir apoio. Esta triste realidade indica que há muitas, mesmo muitas pessoas a trabalhar, mas que não conseguem sair da situação de pobreza, e isso já não bastasse, no total dos/as trabalhadores/as abrangidos pelo salário mínimo, as Mulheres representam 51%, e o emprego criado o maior peso é para receberem o salário mínimo e quando recebem.

As formas de trabalho emergentes tentam equiparar perversamente trabalho subordinado ao trabalho por conta própria, para transformar trabalhadores/as em empresários/as nas estatísticas e em explorados na vida real. O futuro do trabalho não pode deixar de estar indissociável da justiça social e da valorização dos trabalhadores/as, tem de ser pelo progresso e justiça social que temos que lutar, porque é pelo avanço dos direitos que lá chegamos.

Não é por acaso que o trabalho e as suas Associações, sejam elas Internacionais Nacionais ou Regionais, normalmente estão associadas ao progresso na condição humana a princípios e valores que são postos em causa pelos que, subvertendo o conceito de modernidade, e recorrendo às chamadas plataformas digitais, promovem a desregulamentação das Leis Laborais e impõem condições de trabalho próximas da servidão para obterem o lucro máximo com custos mínimos. Porque se os compromissos e pactos aprovados fossem cumpridos, não tínhamos as situações de retrocesso social que se têm verificado em período de crise financeira, e  em contrapartida aumentado o leque de milionários. Não é por acaso que sempre que os/as trabalhadores/as lutam por salários mais justos e pela reposição dos seus direitos, os empresários apresentam um rol de dificuldades, e que os mesmos estão a pôr as empresas em risco. É verdade que a Legislação em Portugal defende uma política de igualdade, mas na prática têm pouca aplicação nas suas vidas. Temos que estar vigilantes, porque tudo o que conquistamos ao longo de quase meio século, nada nos foi dado, só foi conseguido porque houve muita luta e persistência de muitas mulheres, algumas delas já nos deixaram, mas outras ainda continuam na luta, por isso não podemos adormecer, não podemos dar o que conquistamos como adquirido, ou definitivo porque do outro lado o inimigo espreita-nos.

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31
Out19

A bruxa: o ícone feminista mais antigo


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ARTIGO DE JOANA MARTINS

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O espectro da bruxa abrange factos e ficção. Uma mulher velha, enrugada, a segurar uma maçã envenenada na mão direita, ansiosa por se vingar de uma bela jovem. Uma solteirona experiente casada com os seus livros, e conhecedora das propriedades mágicas de muitas plantas. Uma mulher extremamente bela à custa de feitiços sombrios, extremamente sedutora com os seios praticamente à mostra e um olhar hipnótico, que controla e manipula os homens que quiser…

A bruxa personifica o medo, porque controla forças que transcendem o corpo mortal e encarna uma feminilidade poderosa, livre da influência masculina ou, simplesmente, uma mulher livre. Ao longo da História, a figura da bruxa desafiou narrativas patriarcais personificando o poder das mulheres, tornando-a num dos ícones feministas mais duradouros de todos os tempos.

A figura da bruxa tem origem nas deusas da mitologia de diversas civilizações, com um legado que se estende até há milhares de anos atrás, desde o mito de Inanna, a irmã do deus-sol Utu na mitologia Suméria, às histórias hindus da deusa Kali e mitologia celta da deusa Brigit, ambas personificando a Mãe Natureza, e os contos da deusa Hécate na Grécia Antiga, associada à magia e bruxaria. Estas deusas tinham a capacidade de gerar e tirar a vida, e eram adoradas por isso. Ainda assim, as suas capacidades eram sempre alvo de dúvidas. À medida que as religiões monoteístas foram se expandindo e ganhando poder, as crenças foram se consolidando em torno de uma divindade onipotente masculina, havendo uma maior secundarização das mulheres em todos os aspetos.

Entre os séculos XIV e XVIII na Europa, milhares de pessoas acusadas de bruxaria foram torturadas e mortas pela Inquisição, um grupo de instituições dentro do sistema jurídico da Igreja Católica Romana, com o objetivo de “combater a heresia”. Embora alguns homens também tivessem sido apanhados na confusão deste pânico em massa – muitos deles, visionários e cientistas – a maioria das pessoas horrivelmente torturadas, abusadas sexualmente e queimadas na fogueira eram mulheres. Curandeiras e parteiras com grande conhecimento sobre a reprodução e o corpo humano, que ameaçavam educar e ensinar uma população altamente – e convenientemente, para a igreja – ignorante. Mulheres que eram alvo de suspeita por possuírem “demasiadas” terras, riqueza ou influência. Eram mães, irmãs e filhas, que estavam no lugar errado à hora errada. E foram, pura e simplesmente, castigadas por isso.

À medida que as bruxas foram capturando a imaginação do público nos livros e nos ecrãs, o seu retrato sempre se baseou no medo dos homens da sexualidade feminina, ou na representação simplista de mulheres velhas, ciumentas e invejosas, revoltadas contra mulheres mais novas, ingénuas e “bonitinhas”. Os exemplos de histórias da cultura popular onde as bruxas são assim retratadas, par a par com inúmeros estereótipos para catalogar as “princesas boazinhas” e “normalizar” a violência doméstica, são inúmeros. Alguns exemplos: Cinderela, Bela Adormecida, A Bela e o Monstro, Branca de Neve, Rapunzel.

À medida que o movimento feminista foi ganhando visibilidade, a representação da bruxa foi se tornando cada vez mais complexa. A narrativa deixou de ser escrita apenas por homens, e a sua história foi reformulada por mulheres. Um exemplo recente é a escritora J. K. Rowling e a sua saga “Harry Potter”, que descreve o quanto é necessário o estudo para se tornar num/a bruxo/a, e desafia estereótipos como, por exemplo, na sua representação de Hermione Granger. Ao mesmo tempo, a argumentista Linda Woolverton atualizou a história de “Bela Adormecida” para humanizar a bruxa, no filme de 2014 “Maléfica”, numa tentativa de acabar com as personagens exclusivamente más ou boas.

Ainda assim, tanto em séries como em filmes, ainda estão presentes perigosos estereótipos, para vender uma versão menos política e mais consumível da bruxa, mas a expansão do feminismo na cultura popular tornou estas escolhas menos viáveis. Desde “As bruxas de Eastwick”, passando por “Penny Dreadful” e “American Horror Story: Coven”, os novos retratos das bruxas abriram, simultaneamente, velhas feridas na história da opressão das mulheres, e ajudaram a despertar as pessoas para as injustiças que as mulheres sofreram ao longo da História – muitas das quais continuam até aos dias de hoje.

As acusações de bruxaria foram, outrora, utilizadas para controlar o comportamento das mulheres (e ainda são, num número impressionante de países em todo o mundo), mas agora, mais do que nunca, as bruxas tornaram-se em símbolos de mulheres que desafiam dificuldades e obstáculos. Uma vez que os direitos reprodutivos, a igualdade salarial, a liberdade sexual e a luta contra a violência sobre as mulheres continuam a ser alguns dos objetivos principais da luta feminista, a bruxa vai permanecer como uma representação das nossas frustrações e da nossa luta pela igualdade e poder, para além do patriarcado.

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24
Out19

Igualdade, Dignidade e Cidadania


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ARTIGO DE MADALENA NUNES

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O dia 24 de outubro foi consagrado por vários municípios em Portugal como o Dia Municipal da Igualdade. A cidade do Funchal também decidiu celebrá-lo desde 2014, por achar que esta temática é importante para o desenvolvimento económico e social da cidade, a par de um suporte na construção de uma sociedade mais justa e defensora dos direitos humanos. Foi um trabalho pioneiro que se começou a fazer no nosso município, pois nunca se tinha feito nada do género no Funchal, nem em qualquer outra câmara da Madeira.

Muitas vezes desvalorizam-se as datas que tentam alertar para assuntos que se consideram importantes. Contudo, os dias especiais são especialmente especializados em chamar a atenção para temáticas importantes e protegidas por lei, mas que acabam por ser esquecidas diariamente. Alguns exemplos: Dia das Crianças. Dia das Famílias. Dia das Mulheres. Dia da Alimentação. Dia da Água. Dia do Ambiente. Dia dos Direitos Humanos, etc. Se prestarmos atenção, muitas destas datas especiais estão diretamente ligadas aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, estabelecidos em 2015 pela Organização das Nações Unidas para envolver as nações no combate aos desafios económicos, sociais e ambientais que se colocam ao mundo hoje em dia e que só se vencem com o envolvimento intencional de cada um nessas causas.

Na Câmara Municipal do Funchal, o trabalho que começámos a desenvolver em 2014 centrou-se em dar visibilidade às questões da promoção da igualdade entre homens e mulheres. Queríamos trazer mais elementos de reflexão sobre o fosso existente entre o que está previsto na lei e o que efetivamente acontece no dia a dia. Por outro lado, também nos preocupou sempre o nível de violência contra as mulheres, particularmente a violência doméstica ou na intimidade.

Temos consciência de que o facto de o ser humano ter dois ouvidos e só uma boca pode significar que devemos ouvir mais do que falar. Por isso, criámos uma estrutura que nos ajudasse a ouvir o que as entidades que trabalham nestas áreas tinham a dizer. Foi assim que criámos o Conselho Municipal da Igualdade. Conhecermo-nos melhor. Percebermos o trabalho que cada um de nós faz e escolher caminhos que nos ajudem a potenciar tudo o que acontece no Funchal para se construir uma sociedade mais igual e mais justa, tem sido o caminho que se tem desenvolvido. Posteriormente, começámos também a entroncar este trabalho com outras preocupações que fazem parte da Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação, nomeadamente no que diz respeito ao Combate à Discriminação em razão da Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Género, e Características Sexuais. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas já começámos pela sensibilização de alguns públicos para estas questões, abrindo as nossas portas ao debate e à informação.

Em 2019, uma coisa que nos enche de orgulho é termos iniciado as celebrações da Semana Municipal da Igualdade com uma proposta que veio de um grupo de jovens de 9º ano, da Escola Gonçalves Zarco. Essa proposta, =Dade/G, desafia as artes plásticas a refletirem sobre o que é a Igualdade de Género. E 10 talentosos artistas responderam ao desafio. O resultado é uma exposição magnífica que está no átrio da Câmara do Funchal até dia 31 deste mês. São estes atos de cidadania que nos ajudarão a crescer em igualdade e em justiça. Em respeito e em dignidade.

E o programa municipal para esta semana envolve diferentes parceiros e vários tipos de atividades, numa abrangência que aposta na diversidade para chegar a um maior número de públicos alvo. Da entrega de prémios em que a Igualdade é o tema, aos debates. De peças de teatro, a trabalho com crianças de 3º e 4º ano, passando por conversas com jovens de 2º e 3º ciclo sobre igualdade de género e questões culturais, a panóplia é grande e o que custa é escolher ou arranjar tempo para poder assistir a tudo.

Celebrar o Dia Municipal da Igualdade é uma questão de celebrar a dignidade, o respeito, a cidadania e a democracia. Viva o dia 24 de outubro!!!

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19
Out19

A Comunidade LGBTI


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ARTIGO DE EMANUEL CAIRES

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Não tem muitos anos quando comecei a acreditar que a expressão “comunidade LGBTI” não fosse a mais indicada para nos referirmos às pessoas queer num todo. Acreditei que referirmo-nos como comunidade, é reconhecermo-nos como segregantes à restante população. E, de facto, quando se luta contra a homobitransfobia, não é realmente isso que se pretende. Pretende-se numa real inclusão das pessoas LGBTI na sociedade.

 

Com os tempos difíceis que atravessamos, socialmente, politicamente e a nível económico, apercebi-me que o importante é agirmos em comunidade. Esta ação em comunidade significaria a nossa sobrevivência e resiliência perante as adversidades. E, realmente, creio que esta ação em comunidade é algo em falta nos dias de hoje.

 

Agir em comunidade é como agir em família. Cuidarmo-nos, respeitarmo-nos, preocuparmo-nos… uns com os outros. E comecei a entender que isto acontecia comigo. Mas ao mesmo tempo percebi que a ação em comunidade está em vias de extinção, e não devia. O sentido de comunidade é a chave para que as conquistas não sejam reversíveis.

 

Por isso, vamos olhar mais uns pelos outros, ao mesmo tempo que fazemos mais e melhor para uma sociedade igualitária.

 

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15
Out19

15, 16 e 17 de outubro. Três dias para lembrar. Três dias para exigir Direitos


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15, 16 e 17 de outubro são dias que se entrelaçam na defesa dos direitos das mulheres.

Declarado pelas Nações Unidas como Dia Internacional das Mulheres Rurais, o 15 de outubro, faz-nos lembrar que as mulheres rurais representam mais de um terço da população mundial e são afetadas de forma desproporcional pela insegurança alimentar e a pobreza.

O dia 16 de outubro, como Dia Mundial pela Alimentação, lembra-nos que o acesso à alimentação é um direito humano, que não pode ser ignorado e que as mulheres que constituem 43% da mão-de obra agrícola, desde que apoiadas com recursos, podem contribuir para uma diminuição substancial da população subnutrida.

17 de outubro, o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, lembra-nos que 1,2 biliões de pessoas ainda vivem em extrema pobreza sendo a maioria mulheres e crianças.

A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) tem vindo a propor um conjunto de iniciativas e programas que apostando no apoio às mulheres rurais se possa evoluir no combate à pobreza e à desnutrição.

Quando se vive num país europeu como o nosso, há tendência para que estas realidades nos passem ao lado, apesar de sabermos que muitas e muitas das aldeias do interior do país, quase desertificadas e sem esperança de desenvolvimento, serem constituídas fundamentalmente por mulheres, a maior parte idosas, porque as mais jovens tendem a migrar.

A UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta, como associação que entende que os feminismos não podem ser só urbanos e que as mulheres das zonas rurais não podem ficar esquecidas, considera que no Estatuto da Pequena Agricultura Familiar já previsto governamentalmente, se deve dar particular relevo aos direitos das mulheres rurais em termos de apoios efetivos para iniciativas de emprego, formas coletivas de produção, redes de mulheres inter-aldeias valorizando aquilo que elas produzem em termos de cultura e artes locais, de aproveitamento dos recursos naturais e paisagísticos para um turismo de proximidade, suficientemente atrativo para o envolvimento de jovens nas suas aldeias.

Lisboa, 13 de outubro de 2019
A direção da UMAR

05
Out19

O Feminismo e o Machismo


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ARTIGO DE CONCEIÇÃO PEREIRA

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Muita gente pensa que o feminismo é o contrário de machismo. Se o machismo é um modo de pensar em que os homens são superiores às mulheres e mandam nelas, o feminismo seria as mulheres a mandarem nos homens. Nos anos 60 do século passado, Maria Lamas, grande lutadora pelos direitos das mulheres (e não só), escreveu um artigo para o jornal Comércio do Funchal com o título MULHERES CONTRA HOMENS? Nesse artigo ela explicava que o feminismo era apenas uma luta pela igualdade de direitos e não para as mulheres se revoltarem contra os homens. O feminismo luta por uma sociedade equilibrada, mais justa, em que as mulheres usufruem dos direitos sociais, tal qual os homens. Somos todos humanos, vivemos no Planeta Terra e todos nós, homens e mulheres, de todas as raças, temos o direito de usufruir dos recursos naturais e civilizacionais.

Segundo uma corrente de pensamento, o machismo nasceu com a sedentarização dos povos. Deixaram a vida nómada, tinham propriedades e os homens, sendo mais fortes fisicamente, impuseram a sua autoridade. Exigiram contrato de casamento e fidelidade das mulheres para terem a certeza que as crianças que elas punham no mundo eram efectivamente seus filhos, que haviam de herdar os seus bens. O problema maior é que a mulher não escolhia marido, a família negociava o casamento, ela deixou de ter qualquer poder, se não tivesse filhos era repudiada, jogada ao abandono e o marido ia buscar outra que lhe desse herdeiros. Esta teoria percorreu milénios, foram criando regras opressoras, inventou-se doutrinas perversas e a mulher continuou a ser humilhada e maltratada. Inventou-se a Eva que pecou e por causa dela os humanos foram expulsos do paraíso e herdaram o pecado original. O antigo testamento trata as mulheres pior que os animais. O apedrejamento, defendido na bíblia e praticado pelos seus seguidores, é um castigo que nem se aplica a animais e ainda bem.

Dando um grande salto no tempo, chegámos ao século XVIII, em que na Europa surgem grandes pensadores que defenderam uma outra ordem social. Rosa Montero, escritora espanhola, afirma que o filósofo Locke, defensor da liberdade natural do homem, dizia que nem os animais nem as mulheres participavam dessa liberdade, pois tinham de estar subordinadas ao homem. Rousseau dizia que uma mulher sábia era um castigo para o esposo, para os filhos, para toda a gente. Kant afirmava que o estudo laborioso e árduas reflexões, inclusivamente quando uma mulher tinha êxito nesse aspecto, destruíam os méritos próprios do seu sexo.

Como é que podemos acreditar que pessoas inteligentes e sábias, grandes pensadores da época, acreditavam mesmo no que diziam sobre as mulheres? Em minha opinião, eles ficaram assustados quando viram que, apesar da opressão sobre as mulheres, inclusive ao nível da educação, em que as meninas das classes superiores (os pobres não iam à escola) frequentavam escolas onde apenas aprendiam a ler e algumas a escrever e pouco mais, enquanto os rapazes eram enviados para escolas mais evoluídas e para as universidades. Mesmo assim, algumas começaram a afirmar-se como escritoras e a defender os seus direitos em obras publicadas. O Feminismo começou a nascer e muitos homens sentiram que algo estava a mudar nas relações entre mulheres e homens e sentiram-se desconfortáveis.

As feministas eram apelidadas de loucas e infelizes. Sempre citando Rosa Montero, em 1908, em Espanha, o Jesuíta Alarcón escreveu num livro que “a emancipação da mulher é aberrante e que essas Euménides têm de ser encerradas em casas de correcção ou nos manicómios”. E em 1927, a revista Iris da Paz insurgia-se, dizendo que a “sociedade faria muito bem encerrando as feministas como loucas e criminosas”. E nós sabemos que muitas mulheres foram encerradas em manicómios por quererem impor a sua vontade e não seguir a vontade do pai ou do marido. Maria Adelaide Coelho da Cunha, uma senhora da alta sociedade lisboeta, foi encerrada num manicómio, onde passou cerca de quatro anos. Quando lá chegou, encontrou uma ala do manicómio composta de outras mulheres como ela, no gozo das suas faculdades mentais, mas tinham cometido o pecado de não obedecerem aos maridos, aos pais ou outros homens da família.

Ainda hoje o feminismo é mal visto ao ponto de ouvirmos mulheres a dizerem: Eu defendo os direitos das mulheres, mas não sou feminista. De modo que uma das tarefas da UMAR é reabilitar o feminismo, mostrar que somos feministas porque lutamos pela igualdade de género e por um mundo justo e igualitário em direitos e deveres.

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