Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Feminismos é Igualdade

26
Set18

A Mudança em construção


umarmadeira

ARTIGO DE CATARINA MARCELINO

image1170x530cropped

O ensino em Portugal universalizou-se após o 25 de abril, permitindo acabar com níveis de analfabetismo e iliteracia que, no contexto europeu, nos deixavam entre os países com maiores atrasos na educação. Foi um enorme esforço nacional. Em 1981 tínhamos uma taxa de analfabetismo no país de 18,6% e na Madeira atingia os 26,6%, sendo que no caso das mulheres a nível nacional era de 23% e na região atingia 28,5%.

Em 2011, quer a percentagem de pessoas analfabetas, quer a diferença entre a Região Autónoma e a média nacional baixou drasticamente. Nos últimos censos a percentagem de pessoas analfabetas no país era de 5,2% sendo que entre as mulheres a diferença era de + 1,6 p.p. e no caso da Madeira o valor global estava na casa dos 7%, sendo no feminino +1,1p.p.

A este atraso que tínhamos em relação à Europa, acresce o facto de termos sido o único país a diminuir a escolaridade obrigatória, passando, durante o Estado Novo de 4 para 3 anos a escolaridade das raparigas e a atingir em 1970 um nível do analfabetismo feminino de +11,3 p.p. do que o masculino.

No final dos anos 80 e durante os anos 90 do século XX, havia a convicção de que o problema da desigualdade salarial e da ausência de mulheres nos lugares de direção se resolveria com a universalização da educação. Contudo, 30 anos depois, as mulheres estão em maior número no ensino superior, têm melhores resultados académicos, mas no mercado de trabalho a diferença salarial entre homens e mulheres com mais qualificações é de 28%.

Esta realidade, de uma enorme injustiça social e que mina os princípios democráticos da nossa Constituição, deve-se a um modelo de divisão social do trabalho inerente à modernidade, que coloca os homens na categoria de produtores e as mulheres na categoria de reprodutoras e de cuidadoras.

Uma mudança cultural que altere significativamente este modelo, para uma perspetiva nova em que cada pessoa, independentemente do seu género, possa ser o que quiser ser, integrando uma perspetiva pós-moderna que nos lance para uma nova era de desenvolvimento e progresso, é necessária, mas difícil de operar.

Para que esta mudança aconteça e de aprofunde, é imprescindível uma fortíssima aposta na educação. Educar para a cidadania e para a igualdade, é introduzir na escola pública formação e conteúdos que permitam aos e ás jovens interiorizarem a igualdade entre mulheres e homens na sua visão da sociedade e nas suas relações pessoais e familiares, como um valor positivo, reproduzindo novos modelos nas gerações vindouras.

Para que este desígnio se concretize e a mudança estrutural ocorra, precisamos do contributo da sociedade como um todo, sendo o papel das Organizações Não Governamentais fundamental. Exemplo é o trabalho ímpar nas escolas, junto das crianças e jovens, que a UMAR realiza através do projeto ART’THEMIS+ que, no Continente e na Região Autónoma da Madeira, tem dado um contributo de grande relevo à educação para a cidadania, promovendo uma cultura de igualdade e não discriminação, combatendo a violência no namoro e a violência doméstica.

Esta mudança, que verdadeiramente contribuirá para um país em que cada homem e cada mulher terão acesso à sua realização pessoal, em que a igualdade salarial entre mulheres e homens se tornará real, em que a violência de género será residual, em que mulheres e homens terão acesso igual às carreiras e aos lugares de decisão, em que os homens também terão o direito a cuidar dos seus, só é possível com todos e todas. Não é uma utopia inalcançável, é sim uma mudança em construção.

bannerCatarina

 

21
Set18

Sexismo: aqui, ali e acolá


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

serenarg19dmed2

A final do US Open feminino do passado dia 09 de Setembro ficou marcada por duas questões memoráveis: a primeira foi a vitória histórica da jovem nipónica Naomi Osaka; a segunda, bem mais relevante para este artigo, foram os acontecimentos dentro do campo que se fizeram repercutir pelo mundo do ténis e não só, e que são, infelizmente, tema de debate aceso das últimas semanas.

O encontro ficou manchado por uma discussão acesa entre Serena e o árbitro português, Carlos Ramos, que penalizou a norte-americana por indicações recebidas por parte do treinador; esta penalização levou a atleta a partir a raquete e a ter uma discussão acesa com o fiscal da partida invocando sexismo por parte do mesmo pois, a seu entender, o mesmo não teria acontecido a um atleta masculino. Ora, eu confesso que não sei se a Serena Williams tem razões para a acusação ou se foi uma atitude de mau perdedor mas o que eu sei, e tenho a certeza do que vou afirmar, é que o sexismo é um problema real e presente no desporto, na vida académica bem como no mundo empresarial.

Infelizmente a mulher continua a ser alvo de discriminação de género, ora porque aos olhos da banalidade e da ignorância são consideradas incapazes de desempenhar determinadas tarefas, ora porque aos olhos da sociedade é esperado que a mulher tenha um determinado tipo de comportamento e acredito que não deve haver nada mais difícil do que uma mulher querer ser simplesmente tratada ao nível de um qualquer homem e não o ser! Eu que sou determinado e não acredito em fatalismos ou determinismos fico apreensivo perante estes cenários que na verdade não abrem muitas portas no que respeita à igualdade de género. Nas empresas é esperado que a mulher tenha um alto desempenho, que receba (em média) menos do que um homem e que se silencie perante determinados casos de assédio, e refira-se que o mais pequeno piropo é também assédio e não uma mera piadinha para a malta se rir um bocado.

Na política continua a ser difícil atingir a paridade absoluta das listas eleitorais porque a maioria dos homens não pretende abdicar dos seus cargos , ou, numa outra vertente a própria população apresenta alguma resistência em votar numa mulher em detrimento de um homem. Longo é ainda o caminho a percorrer nesta vertente. No desporto, é esperado que a mulher tenha um determinado tipo de comportamento, nomeadamente que aceite todas as decisões da arbitragem sem que com isso tenha o direito de as contestar, quiçá esse seja o papel do homo sapiens; recordo-me de John McEnroe (o eterno bad boy do ténis) e das suas birras constantes no campo com árbitros e outros atletas mas no geral provocada risada do público e não as críticas que recebeu Serena Williams. Mas enfim, são estes facilitismos que tem o meu género, era um bad boy e não uma tipa qualquer que tem de dar o exemplo e não pode ceder às emoções.

Atenção - Muita Atenção, não pretendo, nem por um segundo, defender e desculpabilizar as atitudes em campo da estadunidense, um mau perder é sempre um mau perder e a raiva incontrolável no desporto é sempre condenável quer seja por parte de um homem ou de uma mulher e isto é igualdade de género.

 

bannerclaudio

 

17
Set18

Nunca desistir, mas saber passar o testemunho


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

01_11_2015__12_39_352330879a54e48e42b6e460e280f5e24cc12a1_640x480

Se há coisas que a sociedade precisa, urgentemente, é de uma renovação de ideias e de mais gente nova a intervir. Isto coloca-se em todas as vertentes, social, política, económica e também na área da luta pelos direitos das mulheres e pelo avanço da verdadeira igualdade de género e do feminismo, enquanto objectivo de uma verdadeira igualdade de oportunidades.

A UMAR, enquanto organização social de mulheres, tem estado a conseguir este feito. Temos gente mais velha, ainda algumas fundadoras, nas quais me incluo, que já andam nesta luta há 42 anos; temos mulheres que já entraram mais tarde e que hoje ocupam cargos importantes na nossa organização; e temos uma nova vaga de associadas que se estão a preparar e a se formar, para serem elas, no futuro, as continuadoras deste trabalho que já vem de mais de quatro décadas.

É preciso entender que as lutas do passado, de que muito me orgulho, do meu tempo e das mulheres que, em Portugal e em todo o mundo, nos antecederam, são as nossas referências que nunca devem ser esquecidas porque foi graças aos nossos e aos seus feitos que aqui chegamos. Mas precisamos de chamar mais gente nova para as nossas organizações, procurando criar condições para que, pouco a pouco, vão tendo algum protagonismo, e amanhã estejam em condições de levar a nossa luta para a frente.

Dizem algumas pessoas que, comparadas com as grandes lutas anteriores e mesmo com a produção teórica de algumas mulheres que escreveram sobre o feminismo, esta gente nova não passa de “pés de chinelo”. Mas todas nós fomos “pés de chinelo” alguma vez na vida. Porque muitas vezes partimos do zero e quantas vezes nos interrogamos o que andávamos aqui a fazer, porque as reivindicações eram tantas e as necessidades da luta, muitas vezes, nem nos deixavam tempo para aprofundarmos, e até lermos, alguns dos livros que hoje conhecemos melhor. Só muito recentemente é que os feminismos começaram a ser objecto de mais aprofundamento e, mesmo assim, muito falta conhecer e fazer a esse nível.

A UMAR e todas as organizações que trabalham e lutam para criar alternativas para a causa da verdadeira igualdade de direitos, a todos os níveis da sociedade, só terão futuro se souberem integrar as novas gerações e irem passando a experiência com muito carinho, atempadamente, sabendo criar as oportunidades para que, umas e outras, se sintam felizes e realizadas naquilo que fazem, para que o futuro seja assegurado e a luta pela nossa causa continue, porque ela tem sido longa e há muito trabalho a fazer para mudar as mentalidades que ainda pensam que as mulheres são uma espécie de propriedade privada, e é por isso que continuam a ser assassinadas, no nosso país, e no mundo inteiro, milhares de mulheres todos os anos. Só este ano, em Portugal, já foram mortas 21 mulheres.

No meu artigo anterior, prometi voltar à carga sobre o papel das mulheres para ocuparem os lugares a que têm direito sem se sentirem jarras de enfeitar. Acho que algumas já compreenderam que é aceitando os novos desafios, a todos os níveis da sociedade, que essa transformação pode acontecer. Mas é preciso acreditar que isso só é possível se existir vontade e disponibilidade pessoal para essa participação e não desistir perante os obstáculos que dia-a-dia vão surgindo.

Vencer as barreiras, que são muitas, é um grande desafio que temos pela frente. Não voltar as costas às dificuldades. Não desistir perante as adversidades, insistir nas nossas causas, mesmo que pareça que o “mundo” nos vira as costas, é, e tem sido sempre o meu lema, nesta nobre causa que é a luta para que um dia este mundo seja mais justo e mais igualitário. Já tivemos avanços mas precisamos de continuar a trabalhar de mãos dadas, em harmonia com aquilo que defendemos, nunca desistindo mas sabendo passar o testemunho às novas gerações, sabendo que cabe a elas cuidar do nosso futuro.

Tenho muito orgulho no trabalho que a UMAR em todo o País está a fazer neste sentido. Na Madeira, também estamos no bom caminho, com ainda muito trabalho pela frente, mas com a certeza que estamos a assegurar o futuro.

bannerGuida

 

 

12
Set18

Igualdade de género e Feminismo


umarmadeira

ARTIGO DE MARIA JOSÉ MAGALHÃES

8334-004-BA721186

Igualdade, liberdade e solidariedade constituem os três lemas fundacionais da sociedade moderna, inaugurada pela Revolução Francesa e consubstanciada pelas legislações constititucionais liberais que se foram estendendo a grande parte das nações do mundo, a partir daí (em Portugal, a 1ª Constituição liberal é de 1820). Apesar das promessas liberais, cedo as populações compreenderam que estes princípios não seriam aplicados a todas as pessoas, ficariam apenas como retórica liberal, a não ser que as lutas sociais conseguissem a sua concretização. Feministas em vários pontos do mundo se aperceberam de que a noção liberal de igualdade não se aplicava a nós, seres humanos do sexo feminino, e que a luta pelos mesmos direitos que os homens teria de ser feita com firmeza e convicção. Não sabiam elas que duraria tanto tempo — séculos.

Os movimentos dos trabalhadores e os movimentos pelos direitos civis para negros (e negras?) foram fazendo o seu caminho lutando contra as noções liberais de igualdade e liberdade que incluíam, explicitamente, noções capitalistas (de quem detinha propriedade) e colonialistas (racistas) subjacentes à ideia de igualdade. As suas lutas marcaram a história, mas a igualdade ainda não foi completamente conseguida.

As mulheres, organizadas em movimentos, grupos e ativistas, têm pugnado longa e firmemente pelo estabelecimento de plenos direitos de cidadania para todas as mulheres. Mas ainda temos de combater a prevalência de noções liberais de igualdade.

A consciência da discriminação de género ainda não está estabelecida, criando, em mentes mais distraídas, a ideia de que as mulheres querem ser idênticas aos homens. Podíamos argumentar que o movimento pelos direitos civis, ao lutar pela igualdade entre brancos e negros, pelo fim do colonialismo e da colonialidade, nunca perspetivaram a mudança da cor da pele para almejar igualdade de direitos. Também para as mulhres, trata-se de conseguir os mesmos direitos, não apenas no papel (na lei), mas também na vida.

Mas há ainda mais uma batalha a vencer na luta pela igualdade de género, combatendo noções liberais de igualdade entre homens e mulheres. Hoje, a causa da igualdade de género é cada vez mais consensual, mas continua confinada aos limites da perspetiva liberal. É esta perspetiva que apregoa mundo dividido por privilegiados/as e desprivilegiados/as como consequência de uma divisão “natural”, fundada na falsa ideia de mérito, que um feminismo de agência deve ainda de combater. As feministas progressistas, de esquerda, revolucionárias, que lutam pela transformação social, por um mundo mais justo e democrático para todas e para todos, combatemos por uma igualdade de género em que, não só homens e mulheres tenhamos os mesmos direitos na lei e na vida, mas que entre as mulheres (como entre os homens) também se eliminem as divisões de classe, “raça”/etnia, orientação sexual, região ou religião, para que um mundo em que todas as pessoas tenham iguais direitos seja possível. Em que os lemas igualdade, liberdade e solidariedade (sororidade, como costumamos dizer no movimento feminista) deixem de ser apenas uma vaga retórica e constituam as linhas orientadoras dos nossos quotidianos e da governação local, nacional e mundial.

A UMAR tem vindo a fazer caminho, há mais de 40 anos, para que esta visão seja cada vez mais possível – uma igualdade de género que concretize igualdade de direitos para todas as mulheres. Nesta luta por uma igualdade de género substantiva, lembramos todas as mulheres, e especialmente, as mulheres trabalhadoras, desempregadas, negras, de etnias diferentes (como ciganas), lésbicas, das zonas do interior e das ilhas, de fora dos grandes centros urbanos, das meninas, das jovens à procura de emprego e de alguma estabilidade nas suas vidas, das imigrantes, das mães sós, das portadoras de alguma(s) deficiência(s), das idosas. Se conseguirmos a igualdade para todas as mulheres, um enorme passo será dado para se conseguir um mundo justo, democrático e solidário para todas as pessoas.

banneGi

 

 

07
Set18

A única coisa que cai do céu é chuva. O resto é luta!


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

image_content_1980753_20190119111846

A escrita tem sido, ao longo da história da humanidade, uma bênção, mas também um ato perigoso. Pensemos no nosso próprio país, em que a censura esteve em vigor durante o tempo da ditadura. Jornais, livros, teatro, cinema, música, humor tudo foi alvo do famoso lápis azul, que determinava o que podia ou não chegar ao público em geral.

E porquê? Talvez porque a informação e o conhecimento, se colocados em ação, podem significar acesso ao poder. Não é por acaso que se defende que a educação é um instrumento de fulcral importância numa sociedade. Não é só por causa da questão de se ter acesso a melhores empregos, mas também conta o facto de que pessoas mais instruídas terão mais hipóteses de serem menos influenciáveis, identificando melhor a demagogia, a mentira, a manipulação. Ter conhecimentos e usá-los sempre que precisarmos é ter o poder de fazer a diferença em cada situação.

Tudo isto a propósito de 2019. Vai ser um ano com três atos eleitorais na RAM: eleições para o Parlamento Europeu, eleições para a Assembleia da República, eleições para o Governo Regional. Tanto nas eleições para a União Europeia, como nas legislativas já vai estar em vigor a lei da paridade alterada em abril de 2018. Infelizmente na RAM continua a ignorar-se a lei da paridade. O que traz essa lei de importante e que alterações introduz relativamente à anterior? Esta lei pretende que as listas de candidatos e candidatas dos diferentes partidos políticos tenham uma representação mais equilibrada dos dois sexos. Aqui vão algumas coisas que passarão a ser diferentes em 2019:

  • Os dois primeiros lugares de cada lista têm de ter, obrigatoriamente, pessoas de sexos diferentes;
  • Se algum candidato ou candidata tiver de sair antes do fim do mandato, só pode ser substituído pela pessoa do mesmo sexo que venha a seguir na lista;
  • As listas que não seguirem estes critérios serão rejeitadas;
  • A representação mínima de cada sexo subiu para 40%.

Parece-me importante que se pense nestas questões e que estejamos atentos/as ao que vai acontecer em todas as candidaturas que surgirem. Julgo igualmente vital que as mulheres que forem desafiadas a integrar projetos políticos, aceitem se se identificarem com o programa a pôr em prática. Confiem que têm valor e pensem que a vossa presença é importante.

12 anos depois da lei da paridade (Lei nº 3/2006, de 21 de agosto) e mais de 40 depois da aprovação da Constituição da República Portuguesa, continua a ser necessário impor quotas para que os partidos incluam mulheres nas suas listas. O combate pela igualdade continua na ordem do dia. Seja por imposição legal, seja porque os partidos percebem que as mulheres são parte integrante da sociedade (constituindo mesmo a maioria da população), seja porque mulheres e homens avançam e ajudam a construir um caminho mais justo, inclusivo, plural e democrático. Temos que nos envolver, para combatermos a desigualdade. Como se costuma ouvir: A única coisa que cai do céu é chuva. O resto é luta!

bannerMadalena

 

03
Set18

O livro feminista de 1715


umarmadeira

ARTIGO DE CONCEIÇÃO PEREIRA

370037_0001_1_t24-C-R0150

Fina d´Armada, uma companheira da UMAR entretanto falecida, viveu grande parte da sua vida a procurar livros e notícias de mulheres que protagonizaram grandes feitos, mas que os historiadores esqueceram, esconderam, desvalorizaram.

Assim, nas suas buscas pelos arquivos, encontrou um livro publicado pela 1ª vez em 1715 e que foi reeditado em 1741,1743 e 1793, sendo que este último se encontra na Biblioteca Pública Municipal do Porto. Esta obra foi publicada com o título: Bondade das Mulheres Vendicada e Malícia dos Homens Manifesta. Está assinada por “Paula da Graça, natural da Vila de Cabanas e assistente nesta Corte”.

Trata-se de um pequeno livro, escrito em verso, composto por 72 quintilhas (estrofes de cinco versos), tantas quantas os livros da Bíblia. A autora responde a uma jovem que lhe pede conselho sobre o seu casamento e ela vai abordando os problemas que as mulheres enfrentam:

- o casamento era um tirano estado;

- a não existência de equivalentes empregos, a riqueza e o gosto é dado aos varões;

- havia mulheres muito oprimidas;

- a interpretação desvirtuada da bíblia, valorizando a culpa feminina e ocultando a   masculina;

- só se falava dos heróis e não das heroínas;

- para entreter as mulheres destinaram-lhe os enfeites, retirando-lhe todo o resto;

- os direitos das mulheres foram-lhes retirados pelos homens;

- assassínio de esposas;

- violência doméstica (“depois partem-lhes as costas”).

Segundo Fina d’Armada, a autora estaria a responder ao autor do livro Malícia das Mulheres, em que este as acusa de manhosas, comedeiras, respondonas, astuciosas, falsas, vaidosas, inconstantes, interesseiras, velhacas. Por esta época e já no século anterior, foram escritos livros acusando e humilhando as mulheres de serem símbolo de astúcia e falsidade. E ainda davam conselhos, entre outros, aos homens para casarem com meninas muito novinhas, antes de adquirirem autonomia, para melhor as dominarem. Até havia o seguinte provérbio: Em dia de São Tomé, quem porco não tiver, mate sua mulher.

Fina d’Armada tece o seguinte comentário: “O que não deve ter passado pela cabeça de moralistas e seguidores é que algum dia algumas se erguessem e cumprissem a promessa de Paula da Graça, feita há 300 anos: “a todos hei-de tomar / conta igual das suas vidas”.

No entanto, muitos dos problemas enumerados por Paula da Graça ainda persistem, apesar dos avanços civilizacionais e das lutas que algumas mulheres têm vindo a implementar, de forma organizada. Porém, ainda falta quebrar muitas barreiras impostas às mulheres, que são mais de metade da humanidade.

António Salvado considera, assim, que talvez estejamos perante o 1º grito revolucionário feminista da nossa literatura.

bannerConceição