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Feminismos é Igualdade

26
Fev19

Há que viver e escangalhar o telemóvel...


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Corria o ano de 1993 e Anabela, com apenas 16 anos, vencia o Festival da Canção com o icónico tema “A cidade (até ser dia)”. Em segundo lugar ficaria o autodenominado “mãe do rock português” José Cid em parceria com Paulo Bragança. O jovem fadista era uma figura controversa na época: as suas roupas, as junções musicais que fazia ou o (hoje tão comum) facto de cantar descalço chocaram com o meio mais conservador do panorama musical do país. Cid chegou mesmo a criticar publicamente a sua indumentária, afirmando que os risos e comentários que provocou fizeram com que o público se distraísse da canção.

Anos depois, o “anjo caído do fado” – alcunha dada por Fernando Ribeiro – abandona o país e a sua carreira musical. O descontentamento com a indústria e os lobbies que ajudavam a construir/destruir um artista, conjugado com tormentas pessoais, foram as razões que o levaram em busca de um mundo novo. Andou pelo Leste da Europa, por Inglaterra e, finalmente, estabeleceu-se em Dublin a trabalhar como funcionário público. Conheceu o luxo. Chegou, efectivamente, a ser sem-abrigo em Londres, onde foi espancado por ter um cartão melhor para dormir. Na Irlanda, acabou por estudar filosofia e dar aulas. Em 2017, a convite dos Moonspell regressou a Portugal e ao mundo da música, depois de mais de uma década de exílio.

Passados 26 anos, temos no palco do festival outra figura diferenciada. Vestido com um robe preto e com uma máscara dourada na face. A seu lado tem um dançarino em tronco nu, coberto de brilhantes a condizer com a joia facial do cantor que faz uma dança que é um mesclado de vários estilos. Ele canta sobre telemóveis – ou não - no concurso, mas também já dedicou músicas a borregos, à celulite ou à pastelaria. Mistura fado com música dos Balcãs, ritmos africanos, árabes, eletrónicos ou qualquer outro som, às vezes inesperado como um microondas, que se esbarre com ele no dia-a-dia. Tal como António Variações, Paulo Bragança ou qualquer outro que trouxe algo de novo, foi ostracizado. Mas são precisos mais como ele. Não só artistas, mas como pessoas: talentosas, genuínas, singulares e luminosas.

O seu nome artístico provém da série japonesa "Conan, o Rapaz do Futuro", do lendário Hayao Miyazaki, e do deus egípcio. E, talvez, seja mesmo o protótipo de ser humano do futuro que todos procuramos: sermos nós próprios e viver a fazer o que realmente gostamos.

bannerPaulo

22
Fev19

Fazer Acontecer


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

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Já alguma vez experimentaram dar a vossa opinião numa reunião ou conversa e ninguém parecer ligar? Já se deram conta de que, passado pouco tempo, ouvem alguém a repetir o que vocês disseram, como se a ideia tivesse partido de si e não de vocês, sendo então essa ideia altamente aplaudida? Grrrrrr!!!!!

Já alguma vez se deram conta de que quando estão a expor um conceito ou ideia, outra pessoa vos interrompe, afirmando que explicam melhor, voltando a dissertar sobre o que vocês tinham estado a comunicar e retirando-vos o uso da palavra? Buuuffffff!!! Grrrrrrrr!!!

Já alguma vez experimentaram estar a falar e serem constantemente interrompidas ou interrompidos, sentindo que são sistematicamente ignoradas ou ignorados? Arre!!!! Buuufffff!!! Grrrrrr!!!!!

Já alguma vez saíram de uma reunião, com um sentimento de frustração monumental, sentindo que se estivessem num filme de desenhos animados as vossas orelhas deveriam estar a emitir um fumo explosivo e uns sons estridentes, tipo apito de um comboio? Humpffff!!! @#$#@$%$#!!!

Já alguma vez tiveram vontade de esbofetear alguém no fim de uma reunião ou de um grupo de conversa, mesmo que vocês se considerem pessoas do bem? 💣 💣 💣 ☠ ☠ ☠ 💣 💣 💣!!!!

Bem-vindos e bem-vindas ao mundo diário das pessoas mais tímidas, mas maioritariamente, ao mundo das mulheres. Sei como se sentem. Espero que também vocês percebam como eu me encontro muitas vezes… Se acham que isto vos acontece com alguma regularidade, não desistam de intervir e vejam algumas formas que podem ajudar a ultrapassar estas situações:

- Se forem vocês a conduzir uma reunião, não aceitem que as pessoas sejam interrompidas quando estão a usar da palavra;

- Se estão a usar da palavra e alguém decidir meter a colher, não o permitam. Continuem a falar, falem mais alto, ou interrompam e digam que poderão intervir quando vocês tiverem acabado;

- Preparem as vossas intervenções, evitando usar pausas longas. Alguém vai logo interromper, de certeza. Não lhes dêem essa oportunidade;

- Usem um tom de voz confiante, seguro e audível. Se for preciso treinem em casa, ou gravem com o telemóvel a vossa intervenção de preparação e… critiquem-se sem piedade, tentando perceber como podem melhorar a vossa exposição;

- Se tiverem pessoas na reunião que se sentem também ignoradas, ultrapassadas e forçadas a ouvir os outros, sendo-lhes retirada visibilidade, montem uma estratégia de solidariedade, como as mulheres na Casa Branca de Obama usaram – amplifiquem o que foi dito por um ou uma de vocês. Isto é: combinem antes que, quando alguma das pessoas do vosso grupo apresentar uma ideia, a outra pessoa a usar da palavra reforça o que foi dito, mencionando o nome do autor ou da autora da ideia;

- Não aceitem, de modo nenhum, ser interrompidas ou interrompidos. Façam-no com educação e algum humor, se conseguirem. Caso não consigam, deixem-se de pruridos, usem a assertividade e deem um “Chega p’ra lá!”

- Se queremos que a mudança aconteça, temos de fazer por isso. Tomem consciência da descriminação de que se sentem vítimas e pensem que deve haver outras pessoas a sentir o mesmo. Conversem, troquem ideias, mas não se fiquem pelos lamentos.

Arranjem aliadas e aliados. Façam diminuir a desigualdade e a descriminação todos os dias, em todos os pequenos e grandes momentos.

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15
Fev19

Educação Cidadã e Prevenção da Violência de Género


umarmadeira

ARTIGO DE MARIA JOSÉ MAGALHÃES

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A escola para todos teve, desde o início, uma componente de educação para a cidadania, constituindo-se como ideal democrático, de progresso e de desenvolvimento humano. Em Portugal, datam do final da Monarquia, os primeiros diplomas legais de uma educação de massas para todos, mas é na I República, com a Reforma de 1911, que se consubstancia uma legislação abrangente, prevendo, não apenas a educação de massas para o sexo masculino, mas também para o sexo feminino.

Apesar de a I República não ter concretizado as promessas que enunciou, o certo é que, em termos de educação, deu forma a uma perspetiva cidadã e democrática, através de uma visão ampla e profunda do papel da pedagogia na construção de uma sociedade assente em direitos de cidadania. Imbuída do espírito do movimento pedagógico que se chamava Educação Nova, foi uma proposta pedagógica e política avançada, de tal forma que ainda hoje tem dimensões de uma atualidade que nos surpreende.

A educação cidadã, na época designada educação cívica, era uma proposta pedagógica de formação das crianças e adolescentes no exercício da cidadania, enquanto conjunto de direitos e deveres. Faço lembrar, por exemplo, a proposta pedagógica de António Sérgio (1883-1969), sobre o auto-governo, em que ele propunha que não se ensina a ser cidadão e cidadã de forma transmissiva e ‘moralista’, mas deve ser feito através da prática da cidadania, desde a mais tenra idade, claro, adaptando às características do período de desenvolvimento das crianças e adolescentes. Na proposta de António Sérgio, assim como de outras/os pedagogas/os, a escola era uma cidade, uma comunidade de trabalho, e aí, dever-se-ia ensaiar os valores e atitudes de uma cidadania democrática, para que, quando adultos e adultas, tivessem o conhecimento e a prática de viver como cidadãos/ãs. A escola não se confundia com ‘instrução’. Era isso e muito mais. O autogoverno (self-government), segundo a proposta pedagógica sergiana, consiste na organização da escola e das atividades, com orientação docente, mas com decisão coletiva das próprias crianças, como num parlamento. Um dos fundamentos de António Sérgio é que as crianças aprendem conteúdos mas também aprender modos de ser e de fazer a partir dos exemplos das/os adultas/os e da forma como são, por estes/as, bem ou maltratados.

Estas/es pedagogos/as do início do séc. XX tinham muito claro que uma educação da e na cidadania democrática exigia uma escola democrática em que as próprias crianças e adolescentes tivessem voz ativa e capacidade de participação nas decisões. Depois deste período áureo da pedagogia, no nosso país, tivemos aquelas quase cinco décadas de fascismo que nos fez regredir em termos de pensamento pedagógico, de tal forma, que talvez ainda não tenhamos conseguido, em termos nacionais, recuperar dessa perda.

Hoje, enquanto feministas e umaristas, defendemos uma educação para a prevenção da violência de género, no contexto de uma pedagogia emancipatória, freireana e feminista. O nosso trabalho situa-se na educação de valores e atitudes como um projeto de um futuro sem violência (não apenas de género). E acreditamos que o tipo de sociedade que atravessaremos no futuro está a ser já hoje desenhada, e a sua concretização está nas mãos das pessoas que, hoje, vivem uma idade de aprendizagem, de ‘preparação’, da qual nós temos de assumir responsabilidades sobre a sua formação.

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11
Fev19

A pobreza, a exposição à violência e as leis que não saem do papel


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ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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O risco de pobreza que atinge a nossa sociedade é escandaloso e constitui uma das maiores provas da crueldade humana, sobretudo porque faz as suas vítimas entre os grupos mais frágeis, nos quais se incluem aqueles que sofrem todo o tipo de violência, nomeadamente a violência doméstica, que, em Portugal, continua a alastrar de forma assustadora, apesar de todos as batalhas travadas, e de toda as leis criadas, pois a aplicação das mesmas esbarra, sistematicamente, com a força dos modelos tradicionais da sociedade patriarcal que continua a dominar.

É essa tradição secular que castiga duplamente as vítimas, que deveriam encontrar segurança e proteção no sistema judicial para prosseguirem as suas vidas, mas, em vez disso têm de lutar para se defenderem de um sistema que as fragiliza ainda mais, deixando-as em risco.

Num contexto de violência doméstica, não podemos negar que a pobreza está maioritariamente associada ao desemprego das mulheres, resultante da pressão social que as levou a optarem pela vida familiar em detrimento de uma carreira profissional; às desigualdades salariais, resultantes de discriminações várias, e à grande injustiça que é a não contabilização do trabalho doméstico para a economia familiar e do país, nomeadamente o papel de cuidadoras, que é automaticamente atribuído às mulheres, dentro do universo familiar e que as impede, tantas vezes, de desenvolver uma carreira.

Todas estas situações contribuem para os riscos de pobreza das vítimas, entre as quais, não esqueçamos, se incluem os filhos. No entanto, mesmo quando o contributo das mulheres para a economia familiar em termos monetários é preponderante, continuam as ser elas e as suas crianças que correm mais riscos de pobreza, pois, em qualquer uma das situações o/a agressor/a fica na casa de família, perpetuando, assim, o poder que tem sobre a vítima.

Mau grado esta realidade com que nos deparamos todos os dias, a luta pela igualdade continua a ter um papel secundário em todas as organizações, com a perigosa e falaciosa constatação de que o tratamento desigual está a desaparecer.

Se dúvidas houver do quanto há ainda a fazer, olhemos à nossa volta. No nosso país, onde vigora uma democracia, baseada numa constituição recheada de leis que nos deviam defender, a violência doméstica mata, o machismo mata. Mas o mundo é uma aldeia, lancemos também o olhar para longe, para outros países e veremos o assalto ao poder daqueles que defendem um retrocesso nos direitos alcançados, pondo em causa direitos que levaram séculos a conseguir, e veremos que a luta continua a ser urgente e necessária, sobretudo por uma intervenção judicial que não desvalorize a violência doméstica ou qualquer outra forma de violência com base em preconceitos ou estereótipos.

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07
Fev19

Responsabilidades Parentais e Género: o problema de um sistema judiciário machista


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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A parentalidade e as responsabilidades parentais parecem-me influenciadas por uma cultura machista e patriarcal. A forma como a sociedade encara o papel da mulher, enquanto mãe, e do homem, enquanto pai, é bastante díspar. Os processos de regulação das responsabilidades parentais materializam um rol de estereótipos que têm contribuído para essa realidade, qual bola de neve. A ver: à mãe são dados os sinónimos de colo e ternura, garantia de cuidados e proteção, a que trata da casa e da família; ao pai são apontados os momentos de brincadeira, um maior desapego afetivo e o sustento financeiro.

Foi assim durante imensas décadas; ainda o é hoje, apesar das magníficas mudanças que têm acontecido, nomeadamente no que respeita à distribuição de tarefas domésticas e cuidados com os/as filhos/as, nos casais mais jovens. Acontece que, no âmbito da atribuição das responsabilidades parentais, em processos de divórcio, a criança é praticamente reduzida a um objeto de processo judicial e deixa, nesse momento, de ter direito a uma mãe e a um pai, na sua total amplitude. O “superior interesse da criança”, mormente citado no decorrer destes processos, surge, quanto a mim, como um conceito extremamente vago. A mulher dificilmente atingirá plena igualdade de direitos e oportunidades no trabalho enquanto a ela estiver garantida, de forma quase exclusiva, o cuidar dos filhos. Mais acrescento: tendo em conta a maior debilidade socioeconómica das mulheres numa situação de separação e ficando estas com maior sobrecarga com o sustento das crianças e dependentes do cumprimento das prestações alimentares a cargo dos progenitores, mantem-se o ciclo de subalternização do seu papel na família e na sociedade.

O feminismo em que eu acredito, e pelo qual ativamente batalho, combate pela entrada em condições de igualdade do homem nas tarefas parentais, isto é, a criança tem o mesmo direito a ter mãe e pai, incluindo situações de atribuição de responsabilidades parentais. Em Portugal, num estudo feito por Maria Francisca Cunha (2015), para analisar as razões que levam os/as magistrados/as a definir a guarda das crianças, as hipóteses apresentadas pelo leque de participantes foram as seguintes: “A criança deverá ficar a residir com a mãe e ter fins-de-semana alternados com o pai” (46,9%) e “parecem estar reunidas as condições para se fixar um regime de residência alternada”(53,1%). Repare-se que residir com o pai, com fins-de-semana alternados com a mãe, não foi colocado como hipótese. Em relação à relevância dos critérios para a tomada destas decisões, foi concluído que o critério que teve maior importância foi “cuidados básicos prestados pelos progenitores” (53,1%). No que concerne às questões do género – ser pai e mãe – os/as participantes centraram um maior número de respostas (40,6 %) na opinião “nada relevante”.

São dados interessantes mas que não apontam para uma explicação, então, de ser, quase sempre, a mãe a indicada como a que melhor provém os cuidados básicos à criança. Este estudo também analisou que o sexo dos/as magistrados/as não conduz a diferenças significativas na acuidade atribuída a nenhum dos critérios de tomada de decisão. O estudo aponta, ainda, a algumas crenças que juízes apresentam na justificação da sentença, tais como, “é normal e natural que uma criança com apenas 2 anos de idade tenha uma ligação mais próxima com a mãe do que com o pai, pois é a mãe que ao longo desse tempo, em princípio, lhe tem dispensado mais atenção” e “As mães têm muita dificuldade em cortar o cordão umbilical o que dificulta muito a saída da criança do seu ninho”. Será mesmo assim? Será que mães e pais não terão, se assim for construído desde o nascimento, a mesma ligação com a criança? Será que mães e pais não terão a mesma apetência para garantir os cuidados básicos? E, mais importante que tudo, não deveria ter a criança, em situação de divórcio, já por si avassaladora, a garantia da presença de ambos? Claro que cada caso é um caso – e cada casa é uma casa. Repare-se em duas situações em que as coisas devem ser ponderadas de forma especialmente complexa: quando existe forte e persistente conflito entre os progenitores; e quando foram feitas queixas de violência doméstica e/ou abuso sexual de menores.

Porém, tirando estas duas exceções, dentro das paredes da sala de tribunal as decisões são tomadas de forma realmente apartada das questões de género? O que consigo concluir é que o género resulta da estruturação do funcionamento da sociedade, consequentemente da ideologia dos/as magistrados/as e da forma como interpretam as leis.

Está mais que na hora de se começar a alterar a existência dos estereótipos do pai provedor e da mãe cuidadora. Está mais que na hora de se olhar para a criança enquanto ser individual e não como mero objeto judicial.

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04
Fev19

Dignidade para quem trabalha!


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ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

corticeira

A emancipação económica das Mulheres nem sempre foi muito bem vista. Muitas, mesmo contra ventos e marés, lutaram e conseguiram. Foi uma grande alegria o seu sonho ter-se tornado realidade. Com o seu trabalho, passam a ser independentes dos seus familiares, mas os trabalhos conseguidos eram mal pagos e com poucos direitos porque, para o capital, o seu objectivo é obter o máximo de lucro. Exploram quem tem apenas a sua força de trabalho para vender.

Foram travadas várias lutas e, aos poucos, foram conseguidos importantes direitos para quem trabalhava. Hoje é visível que, ao longo dos tempos, alguns se têm vindo a perder porque não foram cuidados e regados por quem devia fazê-lo, pois pensavam que os mesmos estavam de pedra e cal. Constata-se que há muitas Mulheres confrontadas nos seus locais de trabalho com dificuldades várias. Os seus direitos não são respeitados, fazendo com que a Igualdade de Género esteja cada vez mais longe de ser uma realidade nas suas vidas.

Quem detém o poder de forma maquiavélica vai colocando pedras na engrenagem. É justo que, para trabalho de valor igual, o salário entre Mulheres e Homens seja igual, porém há uma diferença de 15% menos para Mulheres. Fomos confrontadas com uma estatística que refere que para haver igualdade salarial ainda serão necessários duzentos e poucos anos. Tentam mentalizar as Mulheres, que são a maioria da população, que o objectivo nunca será alcançado, mas como se isso já não fosse um pesadelo, nos últimos meses, temos sido alertadas com várias notícias que estão a ter grandes repercussões na vida de muitas Mulheres trabalhadoras, com o objectivo de ainda as fragilizar mais com o assédio moral em vários locais de trabalho.

Ouvi a trabalhadora de uma empresa de comércio de bebidas e produtos alimentares dizer que tinha contrato de repositora e teve a infelicidade de cometer um erro. Na sequência do mesmo, foram-lhe dirigidas expressões pelo Chefe, tais como: vais fazer as malas e pores-te a andar; podeis fazer as malas; estás despedida, não te quero aqui; não prestas. A trabalhadora ficou muito nervosa e os colegas foram prestar-lhe assistência mas foram impedidos de o fazer. Queriam, apenas, dar-lhe um copo de água. O comportamento do superior hierárquico foi de uma violência enorme. As expressões são fortes e lesivas da sua dignidade. De repositora, mediante contrato, foi obrigada a prestar funções em armazém, passando a estar sujeita a comportamentos agressivos que lhe eram dirigidos, quer pelo chefe do armazém, quer pelo gerente, designadamente gritos, ameaças e perseguições, num ambiente hostil e intimidativo. Tudo isto causou ansiedade, perda de confiança e a maior consequência: um estado depressivo grave.

Ora, o assédio é um comportamento indesejado, baseado em factor de discriminação, praticado aquando o acesso ao emprego ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objectivo ou efeito perturbar ou constranger a pessoa, afectar a sua dignidade, ou lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador. Este gerente que impediu os colegas de darem um copo de água à colega, quando esta se encontrava nervosa, não satisfeito, ainda deu um soco na mesa, criando um ambiente intimidativo e hostil.

A lei hoje é clara, quanto ao dever do empregador, de instaurar procedimento disciplinar sempre que tiver conhecimento de alegadas situações de assédio no trabalho, mas a verdade é que continuam a acontecer casos destes em várias empresas, porque as leis não são cumpridas. Estas empresas devem ser denunciadas. Os chefes e Gerentes que têm estes comportamentos devem ser punidos e as trabalhadoras têm de exigir que os seus direitos sejam respeitados. Só assim a dignidade de quem trabalha pode ser reposta.

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