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Feminismos é Igualdade

30
Mar19

Ter tempo para o tempo...


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

tempo

Vivemos tempos complexos, onde o imediatismo é a palavra de ordem. O tempo deixou de ser suficiente para tudo, pois andamos sempre a correr contra o tempo. Existem à nossa volta, constantemente, mil e uma informações a circular, e outras tantas solicitações e afins para dar conta. JÁ, AGORA. Se não soubermos colocar limites ou estabelecer prioridades, deixamo-nos afogar nessa espiral, acabando por não ter tempo para o tempo. O passado é habitualmente deixado de parte (ou pesquisado no Dr. Google), e vivemos sempre para o futuro.

Esta cultura iniciou-se com a expansão das redes sociais e internet. Há uma ansiedade generalizada de “ter que dar conta do recado, senão serei uma pessoa fracassada. Tenho que estar informada, ou serei vista como descuidada e ficarei desintegrada do resto da sociedade.” Correr contra o tempo está a nos transformar em pessoas mais ansiosas e angustiadas. Reservar um tempo para nós é quase visto como egoísmo.

As tecnologias rasgaram a relação espaço-tempo, deixou de haver tempo para pensar no tempo. Esperar passou a ser sinónimo de perder tempo. “Não há tempo a perder”, é o slogan impresso em todo o lado. Passou a ser tudo uma questão de velocidade. As pessoas querem tudo para ontem: a realização de sonhos, de objetivos, de metas. Graças à pressa, estamos a nos tornar mais virtuais do que reais – paremos um pouco para olhar à nossa volta e refletir sobre isso. Andamos mais cansados/as, por vezes mais desorientados/as. E, muitas vezes, mais infelizes.

Eu pertenço à geração de transição entre um mundo menos virtual e menos globalizado, para o que temos atualmente. E tenho a dizer que há, também, diversas vantagens neste novo mundo. A informação está muito mais acessível. Através dum click, podemos ter acesso a formações, livros, matérias-primas e afins vindas do outro lado do mundo. Comunicar e se fazer ouvir nunca esteve tão facilitado. É possível influenciar o mundo inteiro sem sair de casa. Mas, parece não haver tempo para se pensar no tempo.

Esta globalização e imediatismo têm levado a que desenvolvamos, cada vez mais, um estilo de vida insustentável. Compramos o que está na moda, sem pensar se, realmente, precisamos daquela peça. Desperdiçamos imenso, em tudo, sem pensar nas consequências a médio e longo prazo. Depois, como num piscar de olhos, aparece uma iniciativa promovida por alguém, mediática, in, e lá vamos clicar e partilhar nas redes sociais, expressando o nosso apoio de forma efusiva. De repente, a consciência fica um bocadinho mais leve. Até podemos participar na iniciativa, e durante algum tempo, até podemos fazer umas mudanças de vida. Mas, muitas vezes (e é isso que me preocupa), passando o mediatismo da causa, tornamos aos velhos hábitos, e os problemas da falta de sustentabilidade mantêm-se.

Valoriza-se, muitas vezes, o imediato e mediático, e desvaloriza-se a prevenção primária de tudo. Como a da violência de género. Aquele “trabalhinho difícil” que precisa ser feito continuamente, a longo prazo, para ir lançando sementinhas de mudança por todo o lado. Aquele trabalho não visível a olho nu, à primeira vista, mas o qual vai influenciando, devagarinho, muitas pessoas. Ao mesmo tempo, há aquelas pessoas que trabalham para manter vivas as memórias de como tudo aconteceu e como chegamos aqui, para informar e fazer com que haja reflexão no presente, sobre o futuro e o que se poderá perder do passado. Como a luta dos direitos das mulheres, a cronologia que ilustra o caminho de conquista de direitos que os homens sempre tiveram, mas que às mulheres eram negados – e que ainda são negados em muitos países. Estimular o pensamento crítico. Pessoas que não se deixam cegar pelos holofotes e vão, com persistência e resiliência, fazendo o seu caminho. Pessoas que lutam pelas mesmas causas há muitos anos, como a igualdade de género, e que não desistem enquanto houver ainda algo a melhorar, a fazer, independentemente se “está in ou out”. Pessoas que valorizam e reinventam métodos do passado, mais sustentáveis. Pessoas que, efetivamente, melhoraram a vida de muitas outras pessoas. Acredito que são essas pessoas que serão, para sempre, recordadas por muitas outras pessoas, e tento seguir o seu exemplo.

Apesar de pertencer a uma geração de transição, oscilando entre o tempo do presente e o tempo do passado, revejo-me mais na tal persistência e resiliência, e menos no imediatismo. Para tudo, há que haver um equilíbrio. Saibamos utilizar as ferramentas que temos à nossa volta para lutar pelo que acreditamos. Sem perdermos o tempo para pensar no tempo.

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22
Mar19

Um 8 de março de muita luta!


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ARTIGO DE MANUELA TAVARES

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O 8 de março de 2019 foi um dia em que milhares de mulheres saíram à rua por todo o país, em especial em Lisboa, no Porto e em Coimbra. Foi um grito de indignação perante os assassinatos de mulheres por violência nas relações de intimidade. Foi um sinal do repúdio a uma justiça que insulta as mulheres ao desculpabilizar agressores. Foi um levantar de muitas vozes contra as discriminações salariais, a precariedade no trabalho e na vida das mulheres, o assédio sexual, as muitas horas de trabalho não partilhado nas famílias, entre muitas outras questões que dominam as nossas vidas e tornam os quotidianos muito duros.

Podemos dizer que os feminismos saíram à rua numa grande maré mostrando que os espaços de protesto se alargaram a milhares de mulheres e homens, em especial jovens. É esta emergência de jovens feministas no movimento, que nos faz refletir sobre um presente em que as ideias de uma terceira vaga dos feminismos (identidades fluídas e não binárias) se estão a enraizar e a entrelaçar com reivindicações da segunda vaga, caso da luta contra a violência de género, tudo isto reforçado pela consciência das múltiplas discriminações sobre mulheres negras, imigrantes, trans, de diferentes etnias e capacidades.

Como membro da direção da UMAR sinto que temos grandes desafios pela frente, não só em termos de reflexão política feminista, mas também da ação que é preciso ter em relação ao flagelo da violência contra as mulheres, da prevenção nas escolas, da ação mais concertada ao nível da Educação para a Cidadania e em áreas, que não têm vindo a ser faladas nos últimos tempos com a acuidade que merecem, como as infra-estruturas de apoio a crianças e pessoas idosos na rede de serviços públicos.

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15
Mar19

Lutar por um mundo melhor? Com todo o gosto!


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ARTIGO DE CARINA TEIXEIRA

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O passado 8 de março foi um dia importante mas com sabor agridoce para mim. E porquê, perguntam vocês, já que é uma data comemorativa da Mulher? Este dia leva-me a um misto de emoções, uma vez que é uma efeméride em que se reinvidica direitos, em que relembramos todas as lutas de mulheres operárias por melhores condições de trabalho, dignidade, respeito, entre muitos outros.

Mas... Não esqueço o facto de já 12 mulheres terem sido assassinadas este ano (e ele mal começou...) por companheiros e ex companheiros. Para onde caminhamos? Até quando haverá uma próxima vítima? Até quando teremos uma justiça machista? Até quando acontecerá a próxima intimidação (seja no trabalho ou em espaços públicos), o próximo assobio na rua, a próxima abordagem desagradável, a próxima piadinha machista? Até quando nos iremos calar, enquanto outra mulher é assediada, violentada, maltratada? Quantas mortes ainda iremos chorar? Sim, chorar. Choro por elas, choro por mim e por todas nós, porque mexe com todas nós. Não nos podemos calar!

No 8 de março foi assinalado o Dia Internacional da Mulher por ter sido um dia de luta! A UMAR saiu à rua para distribuir o seu manifesto “Se as Mulheres param, o Mundo para” de reinvidicação por mais direitos para a mulher e entristeceu-me ver a indiferença de algumas mulheres em relação à causa. Entre muitas coisas, ouvi a pergunta "Em vez de um papel, porquê não dão uma flor?". Esta pergunta marcou-me pelo simples facto de tentarmos embelezar e a romantizar este dia. Não estou a dizer que não se possa oferecer flores ou outras lembranças às mulheres. Não, apenas quero que reflitam sobre a essência deste dia, em que muitas de nós morreram, sofreram e lutaram arduamente para conquistar direitos que temos hoje garantidos. Por isso, um simples papel e a luta constante por mais direitos vale ouro comparado com uma flor.

É preciso parar para falar, para lutar, para gritar até que a voz doa por mais sororidade. É preciso dizer basta! Entendam uma coisa: não seremos livres enquanto outras mulheres forem prisioneiras, não seremos fortes enquanto não empoderarmos todas as outras, não poderemos viver normalmente enquanto outras morrem e são tratadas de forma cruel. Por isso, lutem, todos os dias da vossa vida, porque já como dizia Simone de Bouvoir "Basta uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes, terás de te manter vigilante durante toda a tua vida".

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08
Mar19

As Operárias foram as primeiras!


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ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Elas foram as primeiras a fazer greve. Elas foram as primeiras a se manifestar nas ruas. Elas morreram ao reivindicar melhores condições de vida e de trabalho. Elas saíram das empresas e vieram para as ruas gritar liberdade. Elas saíram das suas casas e quebraram tradições, tirando os lenços e os véus da cabeça, assumindo que também eram trabalhadoras. Elas deram a vida a novos sectores e foram um exemplo que nós recordamos neste 8 de Março.

As mulheres operárias, de quem hoje quase ninguém fala, – e quando falam é como se estivessem a lembrar um passado “atrasado” – foram pioneiras na luta pelos direitos das mulheres, que beneficiou muitas outras profissões. Raramente é feita uma homenagem a estas mulheres. Dizem que ser operária passou de moda. Eu tenho muito orgulho de ter sido uma delas que, no século XX, juntamente com outras camaradas de profissão e de luta, prosseguiu o desígnio da conquista de direitos muito importantes, que ainda beneficiam as novas gerações. É por isso que me indigna que, quando é apresentado um curriculum de uma pessoa (então, se for mulher, ainda puxam mais pelos galões), não se dá importância se é uma interventora social. Isso também passou de moda. Só se realçam os títulos de isto e daquilo que ganhou, como se os títulos mostrassem o caráter de uma pessoa.

Uma mulher ou um homem, quando é apresentado, nunca o é como operária/o porque, na visão de muita gente, ser operária/o não dignifica ninguém. Ninguém deve envergonhar-se da sua profissão. Na minha juventude, ser operária/o, era saber produzir algo de útil para a sociedade. Era conhecer um ofício. Os tempos evoluíram. As máquinas foram introduzidas e substituíram muito trabalho manual. No entanto, ainda são aa pessoas dos ofícios que chamamos para nos acudir quando uma das máquinas avaria, ou quando precisamos de um produto exclusivo, mostrando a importância do ser humano com conhecimento especializado. Estamos a viver noutra época. Hoje, quase toda a gente tem mais estudos e formação do que as operárias/os de outros tempos. Mas se existe este dia 8 de Março, foi porque operárias uniram-se e lutaram, mesmo sem currículos ricos e sem estudos, e ajudaram a que hoje o mundo do trabalho seja melhor, e contribuíram para o avanço da sociedade.

Existem novos problemas. Claro que sim. É preciso continuar a luta. Claro que sim. Vamos honrar a memória das que já partiram, lembrando a sua existência para que sirva de exemplo, e que o dia 8 de Março nunca morra nas memórias. Vale a pena nunca desistir e lutar por aquilo em que acreditamos. Eu continuo a acreditar que só lutando se conseguirá um mundo melhor e mais justo.

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