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Feminismos é Igualdade

25
Mai19

Não deixar por mãos alheias o que é nosso!


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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O título deste artigo faz parte de um ditado popular que oiço desde pequena. Mas sabemos que nem sempre acontece assim. Houve sempre quem quisesse decidir por nós. Quem nos queira impingir o desconhecido, só porque sim. Quem nos trate ainda com menoridade, ou como minoria, quando sabemos que somos uma grande maioria que pode mudar muita coisa neste mundo.

No mundo em que vivemos estão a acontecer grandes coisas. Boas e más. O que mais me preocupa são os retrocessos no que diz respeito a direitos adquiridos com tanta luta e suor e que fazem parte das nossas vidas com toda a naturalidade. Sei que no mundo actual, outras questões estão na ordem do dia, como as alterações climáticas que influenciam toda a existência na Terra. Mas não considero contraditório continuar a estar atento e não deixar que haja retrocessos naquilo que foi adquirido e lutar com afinco por mudanças de mentalidade na forma como se encara a nossa vivência no Planeta Terra.

Mais do que nunca é preciso continuar a aliar ao que já foi conseguido outras conquistas. Mas há que saber tratar muito bem de tudo. Estar com atenção quando estamos a decidir, seja em relação a quem nos representa, seja em relação ao que vamos fazer. Se nada cai do céu, há coisas que só nós podemos decidir. Saber escolher de acordo com os balanços que fazemos. Não nos demitirmos e só dizer mal apenas porque sim.

Quando decidimos fazer uma escolha temos que conhecer bem o que estamos a escolher e não deixarmos que nos digam que o caminho é por ali, quando sabemos que é por aqui. Quando falamos de escolhas temos que estar conscientes, e seja qual for o resultado, sentirmos que as nossas consciências estão tranquilas.

Que não nos deixamos manipular com medo de maiorias, ou minorias. É tão bom ter o poder nas nossas mãos: de fazer, de dizer, de querer e de decidir. Nunca devemos delegar o nosso poder em quem não acreditamos que seja capaz de nos representar ou defender. Mesmo que nos digam “não vais por aí”, devemos fazer o que a nossa consciência manda. Só assim nos sentiremos realizadas e felizes.

Pela experiência da vida de feminista e activista, de corpo inteiro, pelos direitos das mulheres, sinto que cada vez mais precisamos de Gente que saiba o que fazer quando é preciso agir e defender o que nos interessa. Só assim podemos sentir segurança no prosseguimento da luta e no trazer para a agenda as novas questões que preocupam quem realmente defende os direitos humanos.

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18
Mai19

Unlucky Louie


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Louis C.K., um dos melhores e mais visionários humoristas contemporâneos vai actuar em Portugal pela primeira vez. O circuito de “primeira liga” do stand-up mundial nunca tinha visitado o nosso país, apesar do paradigma estar a mudar com as vindas de Jimmy Carr, Jim Gaffigan ou Judah Friedlander.

Para quem não conhece C.K., ele é o criador de quase duas mãos cheias – péssima escolha de expressão – de espetáculos de stand-up; de Louie, uma das melhores sitcoms internacionais; Horace and Pete, uma série que tanto é capaz de arrancar a maior gargalhada como a mais sentida lágrima; escreveu também para nomes como Chris Rock, David Letterman ou Conan O´Brian; além de ter feito parte do elenco de filmes “oscarianos” como American Hustle, Trumbo ou Blue Jasmine.

Não é, propriamente, um curriculum que envergonhe ninguém. O que não o pode orgulhar, certamente, é o motivo pelo qual viu o seu nome nas bocas do mundo no final de 2017. O humorista americano foi um dos nomes envolvidos no movimento #MeToo, sendo acusado por várias mulheres de se “auto-gratificar” em frente a elas. As denunciantes eram humoristas em início de carreira e membros das equipas de produção de alguns projectos de C.K. Justificaram a não apresentação de queixa na altura das ocorrências por medo que as repercussões levassem à perda de trabalho. Acrescentando ainda, que o manager - um dos poderosos na América - do humorista as contactou a pedir o seu silêncio.

As acusações foram prontamente confirmadas pelo humorista, onde admitiu a conduta sexual imprópria e o abuso de poder sob essas mulheres. O escândalo levou a que visse o lançamento do seu novo filme e várias séries que produzia canceladas, resultando na perda de mais de 35 milhões de dólares. A polémica não teve impacto na bilheteira do nosso país pois, as quatro datas que foram abertas com o preço individual de 45 euros esgotaram nuns impressionantes quatro minutos.

Levantou-se, novamente, o dilema da separação da obra e do artista. Questão essa que não me consegue ter por inteiro em nenhum dos lados. Acredito que uma péssima pessoa possa criar um objecto artístico incrível. A história da arte dá-nos milhões de exemplos como: Picasso ou Bukowski eram misóginos convictos; Wagner, Ezra Pound, T.S. Eliot ou Walt Disney eram antissemitas; Flaubert pagava para ter relações com menores; Caravaggio matou uma pessoa; Bill Cosby drogou e violou mulheres; Roman Polanski abusou de uma menor, … Será que o filme “O Pianista” passa a ser mau? Ou o “Madame Bovary” torna-se em lixo literário? Não creio. Mas as atitudes destas pessoas são altamente repugnantes e condenáveis.

Como tal, não consigo admirar estas pessoas, mesmo conseguindo gostar do que criam. Parece ambíguo? Sim. Sem dúvida. Mas alguém ser capaz de criar algo colossal na vida de milhões de pessoas e de arruinar a existência de outras, também o é.

bannerPaulo

05
Mai19

Divagações sobre a Arte...


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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A resiliência de todos os povos e grupos que foram ocupados, oprimidos, maltratados, ignorados e explorados das mais variadas formas, ao longo dos tempos, é conhecida e, para além de estar registada, diretamente ou sub-repticiamente, nos documentos históricos, é tema recorrente na Ficção Literária, nas Artes Plásticas, na Música e em todas as outras Expressões Artísticas, não esquecendo o Folclore a o Artesanato.

Ainda que dedicasse este texto apenas enumerar os Artistas e Peças Artísticas que perpetuaram essa resistência e homenagearam a luta desses seres humanos a quem tanto devemos, faltaria sempre alguém ou algo. No entanto, não podemos esquecer que, tal como a História, também as Expressões Artísticas, ao longo dos tempos, sofreram as influências do poder dominante, das regras ditadas pela sociedade da época e da manipulação levada a cabo pelos contextos sociais e políticos.

Nenhuma destas contingências deve, na minha opinião, servir para desvalorizar uma obra de arte, mas sim fazer-nos refletir, pois, felizmente, a nossa visão sobre o mundo está a mudar e é com o novo olhar que essa mudança nos traz que devemos analisar a Arte e honrá-la, em todas as suas formas. Não há dúvida que temos uma dívida para com a Arte e os Artistas, que só poderá ser paga se exigirmos condições para que exerçam em liberdade e igualdade o seu trabalho, de forma que todas as franjas da sociedade sejam representadas. Estes são direitos que têm de ser respeitados, pois coartar esses direitos será comprometer o futuro legado da Humanidade.

Ao longo dos tempos, a fome e o ostracismo acompanharam aqueles Artistas que ousaram ser diferentes e ir contra os poderes instituídos, sendo atirados para a margem da sociedade e, muitas vezes, para a mendicidade como única forma de sobrevivência.

Se é verdade que a Arte permaneceu enquanto o poder e os poderosos ficaram perdidos na nebulosidade dos tempos, não podemos continuar à espera que esse reconhecimento seja trazido pelo futuro. Não podemos continuar a aceitar que a mão protetora dos diferentes regimes nos guie pelas Galerias, pelos monumentos, pelas Livrarias e pelas salas de Espetáculo. Vamos valorizar os nossos Artistas Aqui e Agora.

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