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Feminismos é Igualdade

31
Out19

A bruxa: o ícone feminista mais antigo


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ARTIGO DE JOANA MARTINS

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O espectro da bruxa abrange factos e ficção. Uma mulher velha, enrugada, a segurar uma maçã envenenada na mão direita, ansiosa por se vingar de uma bela jovem. Uma solteirona experiente casada com os seus livros, e conhecedora das propriedades mágicas de muitas plantas. Uma mulher extremamente bela à custa de feitiços sombrios, extremamente sedutora com os seios praticamente à mostra e um olhar hipnótico, que controla e manipula os homens que quiser…

A bruxa personifica o medo, porque controla forças que transcendem o corpo mortal e encarna uma feminilidade poderosa, livre da influência masculina ou, simplesmente, uma mulher livre. Ao longo da História, a figura da bruxa desafiou narrativas patriarcais personificando o poder das mulheres, tornando-a num dos ícones feministas mais duradouros de todos os tempos.

A figura da bruxa tem origem nas deusas da mitologia de diversas civilizações, com um legado que se estende até há milhares de anos atrás, desde o mito de Inanna, a irmã do deus-sol Utu na mitologia Suméria, às histórias hindus da deusa Kali e mitologia celta da deusa Brigit, ambas personificando a Mãe Natureza, e os contos da deusa Hécate na Grécia Antiga, associada à magia e bruxaria. Estas deusas tinham a capacidade de gerar e tirar a vida, e eram adoradas por isso. Ainda assim, as suas capacidades eram sempre alvo de dúvidas. À medida que as religiões monoteístas foram se expandindo e ganhando poder, as crenças foram se consolidando em torno de uma divindade onipotente masculina, havendo uma maior secundarização das mulheres em todos os aspetos.

Entre os séculos XIV e XVIII na Europa, milhares de pessoas acusadas de bruxaria foram torturadas e mortas pela Inquisição, um grupo de instituições dentro do sistema jurídico da Igreja Católica Romana, com o objetivo de “combater a heresia”. Embora alguns homens também tivessem sido apanhados na confusão deste pânico em massa – muitos deles, visionários e cientistas – a maioria das pessoas horrivelmente torturadas, abusadas sexualmente e queimadas na fogueira eram mulheres. Curandeiras e parteiras com grande conhecimento sobre a reprodução e o corpo humano, que ameaçavam educar e ensinar uma população altamente – e convenientemente, para a igreja – ignorante. Mulheres que eram alvo de suspeita por possuírem “demasiadas” terras, riqueza ou influência. Eram mães, irmãs e filhas, que estavam no lugar errado à hora errada. E foram, pura e simplesmente, castigadas por isso.

À medida que as bruxas foram capturando a imaginação do público nos livros e nos ecrãs, o seu retrato sempre se baseou no medo dos homens da sexualidade feminina, ou na representação simplista de mulheres velhas, ciumentas e invejosas, revoltadas contra mulheres mais novas, ingénuas e “bonitinhas”. Os exemplos de histórias da cultura popular onde as bruxas são assim retratadas, par a par com inúmeros estereótipos para catalogar as “princesas boazinhas” e “normalizar” a violência doméstica, são inúmeros. Alguns exemplos: Cinderela, Bela Adormecida, A Bela e o Monstro, Branca de Neve, Rapunzel.

À medida que o movimento feminista foi ganhando visibilidade, a representação da bruxa foi se tornando cada vez mais complexa. A narrativa deixou de ser escrita apenas por homens, e a sua história foi reformulada por mulheres. Um exemplo recente é a escritora J. K. Rowling e a sua saga “Harry Potter”, que descreve o quanto é necessário o estudo para se tornar num/a bruxo/a, e desafia estereótipos como, por exemplo, na sua representação de Hermione Granger. Ao mesmo tempo, a argumentista Linda Woolverton atualizou a história de “Bela Adormecida” para humanizar a bruxa, no filme de 2014 “Maléfica”, numa tentativa de acabar com as personagens exclusivamente más ou boas.

Ainda assim, tanto em séries como em filmes, ainda estão presentes perigosos estereótipos, para vender uma versão menos política e mais consumível da bruxa, mas a expansão do feminismo na cultura popular tornou estas escolhas menos viáveis. Desde “As bruxas de Eastwick”, passando por “Penny Dreadful” e “American Horror Story: Coven”, os novos retratos das bruxas abriram, simultaneamente, velhas feridas na história da opressão das mulheres, e ajudaram a despertar as pessoas para as injustiças que as mulheres sofreram ao longo da História – muitas das quais continuam até aos dias de hoje.

As acusações de bruxaria foram, outrora, utilizadas para controlar o comportamento das mulheres (e ainda são, num número impressionante de países em todo o mundo), mas agora, mais do que nunca, as bruxas tornaram-se em símbolos de mulheres que desafiam dificuldades e obstáculos. Uma vez que os direitos reprodutivos, a igualdade salarial, a liberdade sexual e a luta contra a violência sobre as mulheres continuam a ser alguns dos objetivos principais da luta feminista, a bruxa vai permanecer como uma representação das nossas frustrações e da nossa luta pela igualdade e poder, para além do patriarcado.

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24
Out19

Igualdade, Dignidade e Cidadania


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ARTIGO DE MADALENA NUNES

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O dia 24 de outubro foi consagrado por vários municípios em Portugal como o Dia Municipal da Igualdade. A cidade do Funchal também decidiu celebrá-lo desde 2014, por achar que esta temática é importante para o desenvolvimento económico e social da cidade, a par de um suporte na construção de uma sociedade mais justa e defensora dos direitos humanos. Foi um trabalho pioneiro que se começou a fazer no nosso município, pois nunca se tinha feito nada do género no Funchal, nem em qualquer outra câmara da Madeira.

Muitas vezes desvalorizam-se as datas que tentam alertar para assuntos que se consideram importantes. Contudo, os dias especiais são especialmente especializados em chamar a atenção para temáticas importantes e protegidas por lei, mas que acabam por ser esquecidas diariamente. Alguns exemplos: Dia das Crianças. Dia das Famílias. Dia das Mulheres. Dia da Alimentação. Dia da Água. Dia do Ambiente. Dia dos Direitos Humanos, etc. Se prestarmos atenção, muitas destas datas especiais estão diretamente ligadas aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, estabelecidos em 2015 pela Organização das Nações Unidas para envolver as nações no combate aos desafios económicos, sociais e ambientais que se colocam ao mundo hoje em dia e que só se vencem com o envolvimento intencional de cada um nessas causas.

Na Câmara Municipal do Funchal, o trabalho que começámos a desenvolver em 2014 centrou-se em dar visibilidade às questões da promoção da igualdade entre homens e mulheres. Queríamos trazer mais elementos de reflexão sobre o fosso existente entre o que está previsto na lei e o que efetivamente acontece no dia a dia. Por outro lado, também nos preocupou sempre o nível de violência contra as mulheres, particularmente a violência doméstica ou na intimidade.

Temos consciência de que o facto de o ser humano ter dois ouvidos e só uma boca pode significar que devemos ouvir mais do que falar. Por isso, criámos uma estrutura que nos ajudasse a ouvir o que as entidades que trabalham nestas áreas tinham a dizer. Foi assim que criámos o Conselho Municipal da Igualdade. Conhecermo-nos melhor. Percebermos o trabalho que cada um de nós faz e escolher caminhos que nos ajudem a potenciar tudo o que acontece no Funchal para se construir uma sociedade mais igual e mais justa, tem sido o caminho que se tem desenvolvido. Posteriormente, começámos também a entroncar este trabalho com outras preocupações que fazem parte da Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação, nomeadamente no que diz respeito ao Combate à Discriminação em razão da Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Género, e Características Sexuais. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas já começámos pela sensibilização de alguns públicos para estas questões, abrindo as nossas portas ao debate e à informação.

Em 2019, uma coisa que nos enche de orgulho é termos iniciado as celebrações da Semana Municipal da Igualdade com uma proposta que veio de um grupo de jovens de 9º ano, da Escola Gonçalves Zarco. Essa proposta, =Dade/G, desafia as artes plásticas a refletirem sobre o que é a Igualdade de Género. E 10 talentosos artistas responderam ao desafio. O resultado é uma exposição magnífica que está no átrio da Câmara do Funchal até dia 31 deste mês. São estes atos de cidadania que nos ajudarão a crescer em igualdade e em justiça. Em respeito e em dignidade.

E o programa municipal para esta semana envolve diferentes parceiros e vários tipos de atividades, numa abrangência que aposta na diversidade para chegar a um maior número de públicos alvo. Da entrega de prémios em que a Igualdade é o tema, aos debates. De peças de teatro, a trabalho com crianças de 3º e 4º ano, passando por conversas com jovens de 2º e 3º ciclo sobre igualdade de género e questões culturais, a panóplia é grande e o que custa é escolher ou arranjar tempo para poder assistir a tudo.

Celebrar o Dia Municipal da Igualdade é uma questão de celebrar a dignidade, o respeito, a cidadania e a democracia. Viva o dia 24 de outubro!!!

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19
Out19

A Comunidade LGBTI


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ARTIGO DE EMANUEL CAIRES

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Não tem muitos anos quando comecei a acreditar que a expressão “comunidade LGBTI” não fosse a mais indicada para nos referirmos às pessoas queer num todo. Acreditei que referirmo-nos como comunidade, é reconhecermo-nos como segregantes à restante população. E, de facto, quando se luta contra a homobitransfobia, não é realmente isso que se pretende. Pretende-se numa real inclusão das pessoas LGBTI na sociedade.

 

Com os tempos difíceis que atravessamos, socialmente, politicamente e a nível económico, apercebi-me que o importante é agirmos em comunidade. Esta ação em comunidade significaria a nossa sobrevivência e resiliência perante as adversidades. E, realmente, creio que esta ação em comunidade é algo em falta nos dias de hoje.

 

Agir em comunidade é como agir em família. Cuidarmo-nos, respeitarmo-nos, preocuparmo-nos… uns com os outros. E comecei a entender que isto acontecia comigo. Mas ao mesmo tempo percebi que a ação em comunidade está em vias de extinção, e não devia. O sentido de comunidade é a chave para que as conquistas não sejam reversíveis.

 

Por isso, vamos olhar mais uns pelos outros, ao mesmo tempo que fazemos mais e melhor para uma sociedade igualitária.

 

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15
Out19

15, 16 e 17 de outubro. Três dias para lembrar. Três dias para exigir Direitos


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15, 16 e 17 de outubro são dias que se entrelaçam na defesa dos direitos das mulheres.

Declarado pelas Nações Unidas como Dia Internacional das Mulheres Rurais, o 15 de outubro, faz-nos lembrar que as mulheres rurais representam mais de um terço da população mundial e são afetadas de forma desproporcional pela insegurança alimentar e a pobreza.

O dia 16 de outubro, como Dia Mundial pela Alimentação, lembra-nos que o acesso à alimentação é um direito humano, que não pode ser ignorado e que as mulheres que constituem 43% da mão-de obra agrícola, desde que apoiadas com recursos, podem contribuir para uma diminuição substancial da população subnutrida.

17 de outubro, o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, lembra-nos que 1,2 biliões de pessoas ainda vivem em extrema pobreza sendo a maioria mulheres e crianças.

A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) tem vindo a propor um conjunto de iniciativas e programas que apostando no apoio às mulheres rurais se possa evoluir no combate à pobreza e à desnutrição.

Quando se vive num país europeu como o nosso, há tendência para que estas realidades nos passem ao lado, apesar de sabermos que muitas e muitas das aldeias do interior do país, quase desertificadas e sem esperança de desenvolvimento, serem constituídas fundamentalmente por mulheres, a maior parte idosas, porque as mais jovens tendem a migrar.

A UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta, como associação que entende que os feminismos não podem ser só urbanos e que as mulheres das zonas rurais não podem ficar esquecidas, considera que no Estatuto da Pequena Agricultura Familiar já previsto governamentalmente, se deve dar particular relevo aos direitos das mulheres rurais em termos de apoios efetivos para iniciativas de emprego, formas coletivas de produção, redes de mulheres inter-aldeias valorizando aquilo que elas produzem em termos de cultura e artes locais, de aproveitamento dos recursos naturais e paisagísticos para um turismo de proximidade, suficientemente atrativo para o envolvimento de jovens nas suas aldeias.

Lisboa, 13 de outubro de 2019
A direção da UMAR

05
Out19

O Feminismo e o Machismo


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ARTIGO DE CONCEIÇÃO PEREIRA

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Muita gente pensa que o feminismo é o contrário de machismo. Se o machismo é um modo de pensar em que os homens são superiores às mulheres e mandam nelas, o feminismo seria as mulheres a mandarem nos homens. Nos anos 60 do século passado, Maria Lamas, grande lutadora pelos direitos das mulheres (e não só), escreveu um artigo para o jornal Comércio do Funchal com o título MULHERES CONTRA HOMENS? Nesse artigo ela explicava que o feminismo era apenas uma luta pela igualdade de direitos e não para as mulheres se revoltarem contra os homens. O feminismo luta por uma sociedade equilibrada, mais justa, em que as mulheres usufruem dos direitos sociais, tal qual os homens. Somos todos humanos, vivemos no Planeta Terra e todos nós, homens e mulheres, de todas as raças, temos o direito de usufruir dos recursos naturais e civilizacionais.

Segundo uma corrente de pensamento, o machismo nasceu com a sedentarização dos povos. Deixaram a vida nómada, tinham propriedades e os homens, sendo mais fortes fisicamente, impuseram a sua autoridade. Exigiram contrato de casamento e fidelidade das mulheres para terem a certeza que as crianças que elas punham no mundo eram efectivamente seus filhos, que haviam de herdar os seus bens. O problema maior é que a mulher não escolhia marido, a família negociava o casamento, ela deixou de ter qualquer poder, se não tivesse filhos era repudiada, jogada ao abandono e o marido ia buscar outra que lhe desse herdeiros. Esta teoria percorreu milénios, foram criando regras opressoras, inventou-se doutrinas perversas e a mulher continuou a ser humilhada e maltratada. Inventou-se a Eva que pecou e por causa dela os humanos foram expulsos do paraíso e herdaram o pecado original. O antigo testamento trata as mulheres pior que os animais. O apedrejamento, defendido na bíblia e praticado pelos seus seguidores, é um castigo que nem se aplica a animais e ainda bem.

Dando um grande salto no tempo, chegámos ao século XVIII, em que na Europa surgem grandes pensadores que defenderam uma outra ordem social. Rosa Montero, escritora espanhola, afirma que o filósofo Locke, defensor da liberdade natural do homem, dizia que nem os animais nem as mulheres participavam dessa liberdade, pois tinham de estar subordinadas ao homem. Rousseau dizia que uma mulher sábia era um castigo para o esposo, para os filhos, para toda a gente. Kant afirmava que o estudo laborioso e árduas reflexões, inclusivamente quando uma mulher tinha êxito nesse aspecto, destruíam os méritos próprios do seu sexo.

Como é que podemos acreditar que pessoas inteligentes e sábias, grandes pensadores da época, acreditavam mesmo no que diziam sobre as mulheres? Em minha opinião, eles ficaram assustados quando viram que, apesar da opressão sobre as mulheres, inclusive ao nível da educação, em que as meninas das classes superiores (os pobres não iam à escola) frequentavam escolas onde apenas aprendiam a ler e algumas a escrever e pouco mais, enquanto os rapazes eram enviados para escolas mais evoluídas e para as universidades. Mesmo assim, algumas começaram a afirmar-se como escritoras e a defender os seus direitos em obras publicadas. O Feminismo começou a nascer e muitos homens sentiram que algo estava a mudar nas relações entre mulheres e homens e sentiram-se desconfortáveis.

As feministas eram apelidadas de loucas e infelizes. Sempre citando Rosa Montero, em 1908, em Espanha, o Jesuíta Alarcón escreveu num livro que “a emancipação da mulher é aberrante e que essas Euménides têm de ser encerradas em casas de correcção ou nos manicómios”. E em 1927, a revista Iris da Paz insurgia-se, dizendo que a “sociedade faria muito bem encerrando as feministas como loucas e criminosas”. E nós sabemos que muitas mulheres foram encerradas em manicómios por quererem impor a sua vontade e não seguir a vontade do pai ou do marido. Maria Adelaide Coelho da Cunha, uma senhora da alta sociedade lisboeta, foi encerrada num manicómio, onde passou cerca de quatro anos. Quando lá chegou, encontrou uma ala do manicómio composta de outras mulheres como ela, no gozo das suas faculdades mentais, mas tinham cometido o pecado de não obedecerem aos maridos, aos pais ou outros homens da família.

Ainda hoje o feminismo é mal visto ao ponto de ouvirmos mulheres a dizerem: Eu defendo os direitos das mulheres, mas não sou feminista. De modo que uma das tarefas da UMAR é reabilitar o feminismo, mostrar que somos feministas porque lutamos pela igualdade de género e por um mundo justo e igualitário em direitos e deveres.

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