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Feminismos é Igualdade

28
Jul20

Yvonne Farrell e Shelley McNamara. Grafton architects


umarmadeira

ARTIGO DE BRUNO MARTINS

graftonArchitects

No caos da cidade, um suspiro silencioso feito de integração e significado.

Na arquitetura de hoje, o silencio quase deixou de estar presente. Talvez com a exceção dos espaços religiosos, a arquitetura moderna caracteriza-se pela extravagancia das formas moldadas ao individualismo, edifícios expressivos e pouca contenção. E não digo isto em tom de critica.

Yvonne Farrel, que em conjunto com Shelley McNamara fundou os “Grafton Architects”, dizia numa conferencia que “a arquitetura é a linguagem silenciosa que nos fala”. Em Portugal, a ideia de que os edifícios devem ter um sentimento de pertença ao lugar onde vivem é-nos incutido desde a universidade até à obra. Será o silencio de que nos falam estas arquitetas, um esforço integrador de um edifício na sua envolvente? Ou no ruidoso caos da cidade o silencio pode gritar mais alto?

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Fundado em 1978, os “Grafton Architects” estavam longe dos holofotes mediáticos até terem vencido o prémio Pritzker de 2020. Grande parte da sua obra está localizada no seu país natal, a Irlanda, mas, sobretudo através de concursos foram se afirmando um pouco por todo o mundo.

Sempre curiosas e com profundo respeito à cultura e ao contexto, afirmam-se sobretudo em projetos culturais e académicos, tais como a UTEC, a Universidade de Engenharia e Tecnologia de Lima, no Peru, que lhes trouxe o recente protagonismo.

Em 2012 vencem o Prêmio Leão de Prata da Bienal de Veneza de 2012 no âmbito da exposição “Arquitetura como nova geografia”, e em 2019 recebem a “medal of lifetime achievement in architecture” e a medalha de ouro do RIBA em 2020.

Em 2018 ficam responsáveis pela curadoria da bienal de Veneza, que surge na ressaca da eleição de Donald Trump, do brexit e da deriva conservadora que grassa pelo mundo fora, e no qual pretenderam contrapor o papel da arquitetura de elevar os nossos espíritos, de abrigar os nossos corpos e da ideia da arquitetura para todos enquanto espaço democrático livre, não programado. Porque a arquitetura não é apenas programa, espaço e cidade, é também pensamento, ideologia e vida.

O mais importante reconhecimento aparece finalmente em 2020, onde lhes é atribuído o maior galardão da arquitetura, com a entrega do prestigiado prémio pritzker, que exalta a qualidade do seu trabalho, e particulariza o lado humano dos seus projetos e o sentido de escala e proporção na criação de espaços íntimos em ambientes severos.

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A sua arquitetura é desenhada por mulheres, mas não irão encontrar traços ostensivos de delicadeza. No seu lugar veremos edificações fortes e monolíticas, talvez mesmo construções “musculadas” que não se enquadram em quaisquer estereótipos associados ao feminismo.

A sua abordagem poderosa revela, no entanto, grande compreensão pelos processos de projeto e construção, o que se verifica desde a pequena à grande escala, desde os mais pequenos detalhes até as maiores e mais significativas intervenções.

Com uma forte componente de pesquisa, os seus projetos revelam sempre uma grande compreensão pelo lugar e respeito pelo contexto e cultura onde se inserem. Ao contrario dos anteriores prémios pritzkers (Frank Gehry e Zaha Hadid) que pensam a sua arquitetura como uma afirmação do objeto sobre o território, as Grafton Architects abraçam a singularidade de cada local no desenvolvimento dos seus projetos.

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Numa industria dominada por homens, torna-se ainda mais relevante que as arquitetas Yvonne Farrel e Shelley McNamara sejam a quarta e quinta mulheres a ganhar o premio pritzker, nos seus 41 anos de historia. No entanto é importante referir que desde a Zaha Hadid, em 2004, nestes últimos 17 anos, 5 mulheres venceram este importante reconhecimento. Julgo que, pela criatividade e talento que podemos ver em muitas arquitetas, essa tendência crescente manter-se-á. Ainda bem. Não apenas porque enriquece a arquitetura e as cidades, mas porque estas e outras mulheres mudaram não apenas a forma como pensamos o espaço e a arquitetura, mas também a própria profissão. E bem-haja por essa lufada de ar fresco, porque mudaram para melhor.

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bannerBrunoMartins

 

20
Jul20

Todas as vidas importam!


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Eu tinha outro artigo pronto para hoje, mas decidi acordar mais cedo e escrever este. Talvez porque sinta que basta de deixar os animais para segundo plano, para segunda tentativa, para uma espécie de cave das lutas.

Este fim de semana, em Santo Tirso, dezenas de cães e gatos morreram ou sofreram terrivelmente por causa de um incêndio. Em dois canis ilegais, as donas impediram a entrada das forças de segurança e de populares, incluindo de Associações da causa animal, para que pudessem salvar os animais. Até certo ponto compreendo que o trabalho da GNR seja o de garantir a segurança das pessoas que ali queriam entrar. A outra metade de mim, a maior, não compreende muita coisa. Deixarei as especulações sobre este caso para outro espaço, frisando apenas a minha gratidão a todas as pessoas que não saíram do local até conseguirem retirar os sobreviventes e testemunhar o horror que se passa nestes canis ilegais. 

Hoje é o Dia Mundial da Amizade e não tenho dúvidas que a amizade é algo que ultrapassa a esfera humana. Se houve e há amizade mais sincera foi e é a dos meus animais para comigo. Ao longo da minha vida e, mais nos últimos anos, partilhei a casa e os meus dias com cães, coelhos, gatos, porquinhas da Índia, pássaros, hamsters, peixes e tartarugas. Dentro daquela que é senciência de cada espécie, sempre senti uma forte ligação com todos eles. Não sei se serão os meus melhores amigos, mas tenho a certeza de que são uma continuação de mim e, de alguma forma, para quem acreditar na espiritualidade e na magia da vida, seres que vieram para me tornar uma pessoa melhor. Haverá maior gratidão que essa?

Não prefiro os animais às pessoas, como ouço muitas vezes (e, de certo modo, até percebo…). Gosto de pessoas e animais, na mesma medida, na mesma proporção, e não entendo que a vida das pessoas seja superior à dos animais, ou vice-versa. Compreendo os Direitos Humanos como valores máximos de uma vida, assim como compreendo os Direitos dos Animais da mesma forma. Também ao longo da minha vida, quer na minha família, quer nas minhas amizades próximas, fui confirmando esta minha forma de ver as coisas: nas casas da minha avó, da minha tia, das minha amigas e dos meus amigos, os animais são elementos da família e, como tal, lhes é proporcionado o que a todos/as, pessoas e animais, deveria ser garantido: boa alimentação, amor e proteção, cuidados de saúde, entretenimento e liberdade. Não consigo conceber as Vidas de outra forma.

Por isso, não posso deixar de chorar quando, diariamente, Associações fazem resgates de animais em situações de maus-tratos, de negligência, de descaso. Não posso deixar de chorar quando, diariamente, animais são abandonados e rejeitados. Não posso deixar de sentir horror quando ainda somos um país onde touradas acontecem, onde os circos ainda têm animais, onde a indústria da carne, dos ovos e do leite é tão cruel. Da mesma forma que me chocam e enojam todos os crimes cometidos contra pessoas. Atentados contra a dignidade e contra a vida de qualquer SER, humano ou animal, será sempre motivo de espanto dolorido em mim porque é sempre pelas mãos de pessoas que acontecem.

Não consigo deixar de suster a respiração, por breves momentos, quando espetadores de sofá se indignam porque acham que se faz mais pelos animais que pelas pessoas, porque acham que se faz mais pelos de fora do que pelos de dentro, porque acham que se faz mais por X do que por Y. Quantas vezes ouvimos, perante soluções apresentadas, “então e os sem-abrigo?”, “então e as crianças abandonadas?”, “então e os idosos?”. Pois que arranjem, essas/es mesmas/os indignadas/os uma causa para lutar. As causas não deviam ter hierarquia. As causas são feitas de gente que acredita e se a essas pessoas faz sentido defender determinada vida, que o faça com a melhor das convicções e com a maior das forças. Todas as causas que defendem Direitos Humanos e Direitos dos Animais e que trabalham em prol de um planeta melhor são fundamentais, porque no meu Mundo ideal todas as vidas importam!

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13
Jul20

Mudam-se os tempos... E as vontades?


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

dualidade

O mundo está em ebulição. De um tempo de confinamento, em que a palavra de ordem era “vai ficar tudo bem” e a solidariedade estava na moda, a urgência de voltar ao dito “normal” e a necessidade de manter o sistema tal como estava antes da pandemia, a todo o custo, está a fazer com que assistamos a, cada vez mais, dualidade e extremismos no mundo.

Custa perceber como é que grande parte da Humanidade não aprendeu nada com estes últimos meses. Como ignorou os sinais do planeta e tentou pintar a pandemia ou de cor-de-rosa, ou de negro. Mais uma vez, dois extremos…

As notícias são quase que um diário da pandemia, salientando claramente os países onde a situação está “pior”. Lançar permanentemente o medo para formatar as mentes é o que está na ordem do dia. Ao mesmo tempo, novamente no lado oposto, surge o discurso da retoma económica e do “vai ficar tudo bem” quando não está tudo bem. E passa-se dum extremo para o outro, saltitando e confundindo quem se deixa absorver.

As desigualdades quase que passam ao lado por entre os pingos da chuva de discursos em tempos de COVID-19, mas estão a tornar-se cada vez mais evidentes. Não apenas desigualdades, mas também os tratamentos desiguais em todo este processo.

Há quem tenha que se deslocar diariamente para o trabalho em transportes públicos lotados, sem qualquer segurança. Há quem trabalhe em empresas sem quaisquer condições, mas que não possa abrir a boca porque precisa dum trabalho temporário e altamente precário para sobreviver. Há quem esteja a sofrer com o desemprego ou com a suspensão da sua atividade, e tenha muito pouca proteção social. Há quem seja estigmatizado/a pelo local onde vive. Há quem tenha que se desdobrar em mil e uma funções entre quatro paredes, num espaço minúsculo, onde ter um tempinho para si passou a ser um luxo. Há quem conviva diariamente com a violência e se sinta sem saída. Há quem esteja só. Há quem não tenha o que comer, há quem esteja no fundo do poço, há quem não saiba o que mais fazer para continuar… Enquanto outros/as se queixam de não poder viajar nas férias, ou de não poder assistir a um festival…

Pouco se fala destas situações. Porque o fundamental é falar da pandemia e da retoma económica, sem fazer as mudanças estruturais necessárias para dar o salto evolutivo e se preparar para a próxima fase. Investe-se em “cuidados paliativos” económicos, em vez de apostar na dignidade humana. Exige-se muito a muitas pessoas, e faz-se o oposto. Manipula-se as mentes para se vigiarem umas às outras. Culpabiliza-se o lazer e o fazer o que se gosta. Agarra-se ao exterior, ao viver para fora, fugindo a sete pés do interior. Assiste-se a quem brinca com o vírus, e a quem se isola com medo de tudo. Promove-se a desunião em todo o lado, até dentro de grupos que deveriam ser mais unidos e tolerantes. Cada vez menos se aceitam verdades diferentes, perspetivas diversas e olhares distintos. “Tenham medo, sintam raiva, sejam intolerantes… Mas… vai ficar tudo bem.”

Nesta curva pandémica de dualidade, estamos a caminhar a largos passos para o seu pico. Agarrando-se aos alicerces que sustentam a mesma curva, que são feitos de madeira altamente corroída por térmites. Foge-se da mudança, repete-se os erros e aposta-se na mesma fórmula, vezes e vezes sem conta…

Deseja-se um mundo melhor, mas faz-se exatamente a mesma coisa, dia após dia. Resiste-se à mudança, de dentro para fora... Deseja-se paz, mas promove-se constantemente a guerra, seja ela física, verbal ou escrita. Prega-se tolerância e convivência pacífica, mas pratica-se a intolerância para com quem não pensa ou sente exatamente da mesma forma. Defende-se os direitos humanos, mas na prática pratica-se a desigualdade em muitos campos da sociedade.

Sem coerência entre a palavra e a prática, o mundo não irá mudar para melhor. Sem integração da aprendizagem, tudo irá continuar igual. Os seres humanos são cocriadores da sua realidade, mas quando é que terão a coragem para se libertar da dualidade e do materialismo para criar, realmente, um mundo mais pacífico e igualitário?...

Esperemos por cenas dos próximos capítulos.

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06
Jul20

Zig Zag


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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A RTP decidiu retirar – entretanto, depois de fazerem nova dobragem, já o repôs – um programa da sua grelha. Quando vi a notícia especulei qual teria sido o excluído: o meu primeiro pensamento apontou para a transmissão de touradas. Fez-me todo o sentido deixar de passar, em sinal aberto, uma actividade que consiste em torturar um ser vivo a sangue frio para deleite dos seus “aficionados”. Também me ocorreu o Prós e Contras, por considerar estar em queda livre há imenso tempo. Qualquer dia, ainda dedicam um episódio para debater o racismo com um painel, quase todo ele, composto por caucasianos. Quer dizer, tarde demais, já aconteceu.

Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, desde que não me tirassem o galanteador piscar de olho do José Rodrigues dos Santos, o nosso Dan Brown, estava pronto para qualquer hecatombe.

Abri a notícia e li que se tratava de uma série chamada Destemidas. As queixas ao provedor do telespectador e a revolta nas redes sociais tinham sido imediatas à sua exibição. Queixavam-se de “doutrinação ao socialismo, apologia ao Marxismo ou à identidade de género”.  A indignação era tal que senti que se tratava de algo perigosíssimo. Vi que a série está incluída no Zig Zag, que é o espaço de programação infantil do canal público. Confesso que estranhei, mas podia ser um Cavalo de Troia. Ou, neste caso, de Moscovo. A sinopse descreve o programa como “Histórias de mulheres excecionais, ousadas e decididas que fizeram o que quiseram e lutaram pelos seus sonhos. Mulheres de ideais, épocas, idades e mundos muito distintos, que foram capazes de ir para além das convenções e preconceitos sociais e triunfaram perante as adversidades. Cientistas, atrizes ou ativistas que desejaram ser independentes, viajar, ser úteis, estudar, trabalhar, chegar ao poder de um país, ou simplesmente... salvar um farol!”.

Fiquei confuso, não consegui identificar vestígios soviéticos, pelo contrário, pareceu-me muito interessante e empoderador um programa infantil que destacava a luta e coragem de mulheres pela luta de direitos humanos. Isto, em épocas da nossa história em que ser mulher era sinónimo de ter menos direitos. Não quis acreditar que se tratava de enviesamento ideológico e, como tal, avancei para a visualização do episódio. Senti a adrenalina de estar prestes a ver algo extremamente transgressor. Por precaução, optei por fechar a janela e a porta pois tenho um vizinho saudosista do Estado Novo e, apesar de ser uma terra belíssima, não me convinha muito ir agora para Peniche.

O vídeo começa com uma música, temi que fosse a Internacional Socialista, mas não. Falso alarme. O alegado episódio prevaricador é o número 19, que se foca na vida da activista francesa pelos direitos das mulheres, Thérèse Clerc. No fim, percebi os três motivos que chatearam tanta gente: ela ser a favor do aborto, beijar outra mulher e a referência à importância de Karl Marx na sua vida. O programa é destinado a um público-alvo dos 10 aos 13 anos. Não tenho estudos suficientes para afirmar com toda a confiança do mundo que seja a idade ideal para se falar de aborto, contudo, acredito na importância da educação sexual nas escolas. E, quando digo escolas, não falo em infantários, mas talvez seja bem necessária no ensino anterior às Universidades Seniores. O beijo entre duas mulheres gerou polémica, não por homofobia – dizem – mas por quererem ser os pais a apresentar a homossexualidade às suas crianças, em vez de o descobrirem através de um televisor. Bem, a não ser que os filhos vivam, como a personagem de Sandra Bullock, no filme Bird Box, de olhos vendados o tempo todo, lamento ser o mensageiro do apocalipse, porém, acredito que seja apenas uma questão de tempo até verem um casal homossexual a beijar-se na rua. Quanto a Marx, para uma criança, é apenas o cão da série juvenil que acreditam ser um descabido live action da Patrulha Pata. No final do episódio, caso as crianças não se tenham distraído no TikTok durante o mesmo, na pior das hipóteses, vão apenas perceber alguns dos pontos da nossa constituição, tais como ser crime discriminar pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo, orientação sexual ou identidade de género. Bem, pelo menos ainda não associaram o facto de o Bob, o Construtor utilizar nas suas obras ferramentas como foices e martelos como uma mensagem secreta para os jovens Illuminati.

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