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Feminismos é Igualdade

14
Dez18

Preconceito e Realidade


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ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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O período que estamos a viver é do de preparação para o Natal. Mas, por outro lado, temos um grave problema que assola a nossa Região, a violência de género, que voltou a agravar-se no presente ano. Embora as entidades oficiais digam estar a fazer tudo o que está ao seu alcance para minimizar o problema, ela está presente todos os dias, em todos os lugares, nas famílias, na rua, no desporto, no trabalho, na política, na comunicação social, em todas as classes sociais, enfim, em todas as vivências sentimos e pressentimos violência. Ela aparece e reaparece, como um incêndio em dia de vento.

Tudo serve de pretexto para incriminar, agredir, acusar, despedir e explorar. E as principais vítimas são, na sua maioria, as mulheres e as crianças. A violência doméstica, em muitos casos, tem uma ligação estreita com outras expressões de violência, directa e indirecta contra as mulheres, desenvolve-se em todas as vertentes sociais, entram facilmente nas famílias através do tradicional machismo, alimentado sobretudo pelo álcool e outras substâncias. O desemprego, a perda de trabalho, os baixos salários, a precaridade elevada e a pobreza laboral, continuam a empobrecer e são as mulheres que continuam a auferir maioritariamente o salário mínimo e a receber as mais baixas pensões de reforma. São ainda vítimas de pressão e intimidação e sujeitas as diversas formas de assédio no trabalho, bem como a algumas doenças profissionais, que efecta maioritariamente as mulheres.

O álcool também contribui para uma guerra permanente em casa de muitas famílias madeirenses e a destruir muita gente. Um dia destes dizia-me um jovem: eu queria que o meu o pai deixasse de fumar e de beber e que acabasse a guerra entre pais e filhos. Dei por mim a pensar onde está a origem de tanta violência, porque sempre houve pessoas violentas, mas hoje os problemas atingem maior dimensão. A qualquer momento podemos ser agredidas, assaltadas, a insegurança é uma constante no mundo actual.

Há quem diga que é necessário humanizar as famílias. Mas como? Com esmolas e trabalho sem direitos? Com um ensino que está a deixar à margem os filhos dos mais pobres, os menos inteligentes e pouco motivados? Numa sociedade baseada nos valores do lucro, onde os donos do dinheiro apenas se preocupam em ganhar dinheiro e os governantes apenas governam ao sabor desses interesses financeiros, naturalmente que tudo fica desumanizado, dentro e fora das famílias. É preocupante a desenfreada promoção das bebidas alcoólicas, do aumento de bares, esplanadas e tabernas junto de Escolas e até de Igrejas, nesta quadra para atrair fiéis é com comes e bebes.

Enquanto isso, muitas mulheres têm sido remetidas para casa, perdendo a sua capacidade económica e tornando-se cada vez mais pobres e dependentes dos seus familiares, tornando-se cada vez mais pobres e a terem que estender a mão à caridade pública e outras a venderem o seu próprio corpo para sobreviverem. Temos o dever de ajudar a prevenir a violência e de exigira protecção adequada às mulheres vítimas de violência. As Instituições devem contribuir para a mudança de mentalidades que é necessária na nossa sociedade, em que ainda se legitima muita violência que se abate sobre a mulher, particularmente na nossa Região, mesmo sendo crime público.

Há que intervir para uma mudança de mentalidades e no respeito dos Direitos Humanos, que muitos ou quase todos dizem defender, mas que uma larga maioria os viola todos os dias, a começar pelo aconchego do próprio lar.

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27
Nov18

Armas de Guerra


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ARTIGO DE CONCEIÇÃO PEREIRA

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O Prémio Nobel da Paz de 2018 foi atribuído a um homem e uma mulher, um africano e uma asiática. Ela e ele lutam contra os ataques sexuais a mulheres em contexto de guerra. O médico congolez Denis Mukwege foi laureado este ano por reconhecimento ao apoio que tem dado a mulheres ultrajadas e mutiladas sexualmente por militares, na guerra civil que assola a República Democrática do Congo há cerca de 20 anos. Este médico e a sua equipa já trataram mais de 50 mil mulheres sobreviventes de violência sexual. Nádia Murab, iraquiana yazidi, foi raptada e torturada pelo Daesh, juntamente com outras mulheres, que foram violadas, vendidas como escravas em mercados jihadistas. Nádia conseguiu escapar e hoje, com 25 anos, vive na Alemanha e tornou-se uma porta- -voz do seu povo.

O mais terrível de tudo isto é ver que a religião também é usada como arma de guerra. Para os adeptos do Dasesh, os yazidis são hereges, como outrora se matava mouros em nome da religião cristã, se escravizou africanos em nome da sua cristianização, para não falar da inquisição, que matou homens e sobretudo muitas mulheres acusadas de bruxaria. É o medo que os homens maus têm das mulheres, porque elas podem ser mais capazes que eles, são elas que põem filhos no mundo, que cuidam, tratam das suas crianças e familiares e fazem-lhes frente com a sua beleza e mestria.

Desde os tempos mais remotos que os homens, por terem mais força física, impuseram a sua vontade sobre as mulheres, criaram leis, regras de conduta, sempre em seu favor. A mulher adúltera era apedrejada, mas o homem não tinha nada que respeitar a esposa, que podia ser repudiada, deixada ao abandono e muitas vezes vendia favores sexuais para sobreviver e podia ser apedrejada por isso. É caso para nos interrogarmos por que razão o machismo tem vencido sempre e só há pouco mais de um século apareceu o feminismo para lutar pelos direitos das mulheres.

O poder machista e ultraconservador usa todas as oportunidades para fazer valer a sua autoridade e quando agride uma mulher sexualmente não é pelo prazer sexual, mas para impor o seu poder de macho. Se uma mulher vender favores sexuais é uma puta, mas os que compram sexo são considerados homens de bem, viris, muito capazes de imporem autoridade e até comprarem o prazer.

Alguém me dirá que também há mulheres assim. Nós sabemos que há, mas são os homens machistas que têm este estatuto, este poder e que impõem as regras de conduta. Portanto, temos de combater o machismo, que tanto mal tem feito às mulheres durante séculos e séculos.

A atribuição de Prémio Nobel da Paz de 2018 a uma mulher vítima e que luta contra os jihadistas e ao médico que trata mulheres vítimas de violação sexual em contexto de guerra deve ser visto como um avanço civilizacional e um incentivo para a luta pela Paz, pelo Respeito, pela Tolerância e pela defesa dos Direitos Humanos para Homens e Mulheres.

NOTA- Sobre as violações sexuais sobre as mulheres em Portugal, ler o livro de Isabel Ventura “Medusa no Palácio da Justiça ou Uma História da Violação Sexual em Portugal”

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31
Out18

Basta de violência contra as mulheres...


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ARTIGO DE MANUELA TAVARES

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Aproxima-se o 25 de Novembro, o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Este dia surgiu para não esquecer o assassinato das irmãs Mirabal – las Mariposas – vítimas da ditadura de Trujillo no dia 25 de Novembro de 1960. É um dia em que as mulheres em todo o mundo saem à rua dizendo: Basta de Violência.

Em Portugal, nos últimos 14 anos, foram assassinadas cerca de 500 mulheres às mãos de maridos, namorados, ex-companheiros. Este ano já foram assassinadas 21 mulheres. Esta catástrofe acontece porque as mulheres são consideradas como seres subalternos, propriedade dos homens com quem vivem ou viveram e não como seres humanos que merecem respeito. Por sua vez, os homens são educados segundo um modelo de masculinidade que lhes impõe determinada forma de ser e de agir, porque se assim não for não são “verdadeiramente homens”.

Trata-se de um problema estrutural na sociedade que exige alteração de mentalidades, mas que não pode esperar para que elas mudem. Tem de se agir, desde já! Denunciando, fazendo com que a justiça funcione no respeito pelos direitos das mulheres. Não podemos aceitar que acórdãos de tribunais em Portugal dêem sinais contrários à sociedade e às mulheres, desculpabilizando os agressores. Não queremos esta justiça penalizadora das mulheres que, por exemplo, face à agressão de uma mulher com uma moca cheia de pregos a decisão dos juízes seja a pena suspensa do agressor. Ou, mais recentemente que existam atenuantes para o crime de violação de uma mulher inconsciente.

Vivemos dias difíceis em que o avanço das ideias conservadoras e fascizantes no mundo podem levar ao recuo dos direitos das mulheres, assim como dos direitos humanos em geral, com agressões a pessoas com diferente orientação sexual, de diferentes etnias, imigrantes e todos os grupos mais vulneráveis socialmente.

Resistir e defender direitos é um lema que nos deve orientar neste tempo histórico, tal como outras mulheres o fizeram ao longo dos tempos.

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08
Out18

Funchal Pride e os Preconceitos


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ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Pelo segundo ano consecutivo, participei na marcha e arraial do Funchal Pride, como pessoa, ativista, humanista e UMARista. Ainda me faz muita confusão a hipocrisia e quantidade de preconceitos patentes na sociedade quando, na realidade, cada pessoa tem o direito a ser como é, a se expressar como deseja e a amar quem ama, sem ter que estar constantemente sujeita a juízos de valor, a discriminações e a insultos. A diversidade deve ser apoiada, respeitada e abraçada.  Só o Amor é real. Isto deveria ser claro como água e o respeito deveria estar acima de tudo.

Mas, infelizmente, ainda há um longo caminho a percorrer. Apesar de ser heterossexual, julgo ser importante fazer parte da causa LGBTIQ, como feminista que sou, que defende a igualdade de género. A luta pela igualdade não tem sexo, nem género, nem orientação sexual. É de todas e de todos. Enquanto houver discriminação e incompreensão, não existirá uma verdadeira igualdade.

Deixo-vos um poema sobre os preconceitos, que poderão encontrar no meu livro “O Sonho, a Vida e o Universo: pelos olhos de uma mulher”. Sejam quem são, aceitem as outras pessoas tal como são, e sejam felizes. O mundo irá se tornar, de certeza, um lugar bem melhor.

 

PRECONCEITOS

 

Se emagreço estou doente,

Se engordo sou descuidada…

Que sociedade exigente!

 

Se sou feia não tenho saída,

Se sou bonita não tenho conteúdo…

Que sociedade deprimida!

 

Se estudo não tenho mais que fazer,

Se trabalho sujeito-me a tudo…

Que sociedade de maldizer!

 

Se vou à missa sou uma beata,

Se não vou à missa sou má pessoa…

Que sociedade insensata!

 

Se gosto de homens estou desgraçada,

Se gosto de mulheres fujam de mim…

Que sociedade limitada!

 

Se não me caso sou pecadora,

Se me caso sou obediente…

Que sociedade conservadora!

 

Se não tenho filhos fico pra tia,

Se tenho filhos fico no lar…

Que sociedade negativa!

 

Se limpo a casa, sou uma rainha

Se não limpo, sou uma incapaz…

Que sociedade atrasadinha!

 

Deixem de lado a maldade

E ajam com mais delicadeza.

Entendam que na diversidade

É que está a nossa riqueza.

 

Somos iguais e diferentes

Mas temos os mesmos direitos,

Sejamos então mais coerentes

E abandonemos os preconceitos.

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01
Out18

LGBTI+ na Madeira: a luta das pessoas trans


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ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Ela exibe uma longa cabeleira negra, bem tratada. Usa maquilhagem e saltos altos. O vestido combina com os brincos: com a sua alma. No entanto, ainda convive com o nome que mais odeia, em todas as circunstâncias da sua vida: António. Queria ser Maria. É Maria, simplesmente. Porque Maria é mãe e isso é algo que ela deseja, há muito. Há quem comente, entre dentes. Há quem sorria para ela. Há quem, até, pare para a ver passar. “Traveco”, diz um homem. Maria permanece envolvida numa aura de felicidade, como se nada, para além daquele desfilar de quem é, existisse. Mas existe e o que existe não é bonito.

O preconceito (ainda) embaça as vidas de quem se assume como é: gostar de pessoas do mesmo sexo; gostar de pessoas independentemente do sexo; confrontar um corpo que não se coaduna com aquilo que se sente; e toda uma série de questões ligadas à orientação sexual, expressão e identidade de género. A sigla foi crescendo, acompanhando as causas que defende e as pessoas que, ao mundo, querem gritar aquilo que são, que gostam e a forma como se expressam e, sobretudo, garantir para si, e para quem ainda vive em esconderijos, (alguns) direitos e liberdades que, há muito, já são miudezas do dia-a-dia para os/as que se encaixam no padrão heteronormativo socialmente aceite.

Ser LGBTI+, na Madeira e Porto Santo, é uma luta constante. Ser uma pessoa trans, na Madeira e Porto Santo, é uma luta ainda mais sofredora. O acesso a cuidados de saúde específicos para as pessoas trans são inexistentes e o serviço público deveria assegurar as especialidades de sexologia e endocrinologia, sendo que, para cirurgias, deveria garantir as despesas de deslocação até aos hospitais de Lisboa, Porto ou Coimbra – ainda que estes não se encontrem a funcionar de forma adequada. As pessoas trans madeirenses e portossantenses são obrigadas a deslocar-se para território nacional para aceder a estes cuidados de saúde. Esqueci de acrescentar: as pessoas trans madeirenses e portossantes que têm meios financeiros ou um suporte familiar que lhes permita esse direito. E quem não tem? Maria não arranja trabalho. Ninguém a contrata. Em casa, os pais ignoram a realidade. Maria continua a ser o António.

Dia 6 de outubro de 2018, pelas 15h00, com partida no Largo do Município, acontece a 2ª Marcha do Orgulho LGBTI+, na Região, sob o mote “Transpor Preconceitos”, seguindo-se o Arraial LGBTI+, no Jardim Municipal. Marcharemos pela reivindicação de direitos humanos para as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexo. Marcharemos para que a Maria deixe, de vez, o António nas suas recordações de uma vida passada.

 

*O Funchal Pride é organizado por: rede ex aequo; Organização Abraço - Delegação do Funchal; Fundação Portuguesa "A Comunidade Contra a SIDA"; UMAR/Madeira; Mad le's Femme; Núcleo Amnistia Internacional Funchal e Opus Gay Madeira.

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24
Ago18

As Pessoas Idosas


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ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Começo por chamar pessoas idosas e não pessoas velhas, pois são duas coisas que aos meus olhos são bem diferentes. Idosa e velha podem até ter a mesma idade, mas a juventude está no interior.

Nenhuma fase da nossa vida é mais importante do que a outra, ou seja, a infância, adolescência, juventude, adulto e terceira idade, todas elas, têm o seu encanto, crescemos, aprendemos, amadurecemos, mas acima de tudo vivemos.

As pessoas idosas alimentam sempre a esperança de que nunca vão ficar velhas, porque velhas são as pessoas que perderam os seus ideais, que pararam no tempo, que vivem fechadas em si próprias, que são más e rancorosas e que não perdem a oportunidade de atacar. Quantas histórias bonitas e ricas tem uma pessoa idosa para nos contar? A pessoa idosa tem esta riqueza para nos oferecer, a experiência de vida que nos convence que vale a pena lutar no que acreditamos.

Um dia, serei pessoa idosa e quero continuar a ter uma vida ativa, com alguns projetos cheios de esperança, sei que o tempo passa rápido, mas para mim a velhice nunca há-de chegar, a juventude está no interior, independentemente do aspeto físico que eu tiver.

Faz-me imensa confusão, e que me perdoem se eu ferir sentimentos, mas devido à minha educação, encaro o abandono de uma pessoa idosa, igual ao abandono de um/a filho/a. Não me imagino, nem consigo aceitar a ideia de um dia saber que os meus pais estão mal, ou a precisar de mim, e eu ignorar. Vejo nas notícias, lares e hospitais abarrotados de pessoas idosas porque a família as deixou lá à sua sorte. Isto é inaceitável! No entanto, há uma coisa curiosa, na resolução aprovada na Assembleia Geral das Nações Unidas a 16/12/1991, direitos dos/as idosos/as, alínea 10 “Beneficiar da assistência e proteção da família e da comunidade.” Agora pergunto, onde está a família e a comunidade quando as pessoas idosas mais precisam de proteção?

Há uns tempos, fiz uma pesquisa para a elaboração de um projeto sobre empoderamento das mulheres idosas e deparei-me com vários artigos sobre o estatuto da pessoa idosa, e qual não foi o meu espanto quando percebi que, em Portugal, as pessoas idosas, em termos de legislação, não são tratadas como pessoas de família. Quer nas leis da família, quer nos tribunais de família, os/as idosos/as, sejam os pais, avós ou outros parentes, são completamente ignorados.

Infelizmente ao contrário de muitos outros países mais desenvolvidos, a preocupação das famílias portuguesas são as heranças e os bens. Vivemos numa sociedade materialista! Que vergonha! As pessoas idosas são vistas e consideradas como um estorvo e um incómodo e só terão valor depois de mortas.

Nem todos/as temos o privilégio de envelhecer, mas paremos para refletir, as pessoas idosas merecem respeito e carinho, não só no dia dos avós, que tiram selfies e partilham nas redes sociais, mas sim todos os dias! Um dia seremos nós.

Cresci e alguns de vós também, a ouvir dos pais para respeitar as pessoas idosas, então está na hora de agirmos e não de ouvirmos, já dizia a minha avó “hoje és filho/a e pai/mãe serás, tudo o que fizeres receberás”.

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20
Ago18

Nanette: Porque todas as histórias merecem que o seu final seja ouvido


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ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Certamente que já se depararam com a palavra "Nanette" nas vossas odisseias pela internet. Uns foram ver do que se tratava, outros continuaram com o scroll. É para estes últimos que me dirijo: Não! Não fechem os olhos a este nome, pois esse cerrar é o responsável por estas histórias serem um habitué.
 
Hannah Gadsby, a cara, corpo e alma deste especial de stand-up, é uma mulher lésbica e gorda - sim, esta informação é crucial para a história e não preconceito gratuito da minha parte - proveniente da Tasmânia, essa bela ilha australiana onde a homossexualidade foi crime até ao "remoto" ano de 1997.
 
Hannah chega à maior plataforma de streaming da actualidade com um intuito, no mínimo surpreendente: este especial é o seu adeus à comédia. E porquê? Por estar farta de apenas ter conseguido ser ouvida pelo seu humor auto-depreciativo, subgénero, esse, que é tão válido como qualquer outro, sendo, para muitos, uma catarse onde conseguem aceitar as suas características mais risíveis (para os outros, obviamente). Neste caso foi auto-destrutivo. 
Entre gargalhadas e lágrimas, Hannah fala sobre as dificuldades de ser dona daquele corpo e da sua orientação sexual e de como é viver a odiar tudo o que se é.
 
Para muitos, não se trata de um stand-up porque a piada não é a principal meta. Para outros, significa a representação de todo o sofrimento que foi silenciado pelo seu meio.
Para mim, pode ser o que quiserem, desde que dêem uma oportunidade ao espectáculo e, no fim, se sentem um bocado, reflictam sobre o que aconteceu e vejam se são parte do problema ou da solução.
 
Tal como Nanette, este texto não vai terminar com uma punchline. Lidem com a tensão.
 
 

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14
Ago18

Pode o Feminismo ser especista?


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ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Começo este meu primeiro artigo no blog sabendo, de antemão, que levantarei polémica. Antes de mais, quero que encarem estas palavras como uma reflexão e, jamais, como um dedo apontado a qualquer escolha. Até porque eu sou fruto de reflexões e mudanças diárias e aquilo que encaro como certo, hoje, pode não ser escolha para o futuro. No entanto, no último ano, tenho vindo a estudar as ligações entre as opressões de género e espécie. Mas o que tem a ver uma coisa com a outra, perguntam. Acho que tudo.

A indústria do leite é medonha. As vacas são emprenhadas à força, numa prática que é altamente invasiva, em que os agricultores colocam quase todo o braço no reto delas. Um procedimento que é repetido a cada 12 meses. As vacas leiteiras são mantidas num ciclo constante de gravidez, parto e lactação, produzindo quantidades anormais de leite. Esta produção não natural, combinada com a falta de cuidado que o equipamento de ordenha faz no corpo do animal, gera mastites, infeções mamárias dolorosas. Para além disso, ao mesmo tempo que as vacas sofrem fisicamente, a cada parto, os bezerros são retirados das mães, poucas horas após o nascimento, o que faz com que as fêmeas, cheias de ocitocina (hormona que está relacionada à ligação mãe-bebé), fiquem tristíssimas. As porcas também sofrem esta perda brutal quando os seus leitões são retirados, ainda em fase de amamentação, para abate. Essa separação forçada, normalmente, faz com que as fêmeas chorem por horas, à procura das suas crias. Finalmente, neste longo processo de vida infeliz, as vacas leiteiras mais velhas são, a maior parte das vezes, brutalmente espancadas (dizem que torna a carne mais macia) antes de serem abatidas e processadas como carne moída. Quem fala em vacas, refere-se, também, a cabras e ovelhas, embora em quantidades menores.

Conhecem a indústria dos ovos? As galinhas vivem a sua vida toda em gaiolas minúsculas, onde mal podem esticar as asas, não podem socializar e sofrem graves lesões como ossos fraturados, pés mutilados e problemas musculares. Ainda bebés, os pintainhos fêmeas são mutilados nos seus bicos, a sangue frio, para evitar o canibalismo, fruto dos elevados graus de stress. As galinhas poedeiras desta indústria não vivem mais que 2 anos, quando o normal seria entre 10 a 12.

Poderia continuar a falar nos terrores da indústria animal mas remeto-me a um último exemplo: a criação de cães e gatos de raça, sem qualquer cuidado com a progenitora, colocando-a sob altos níveis de cansaço físico e psicológico, em que são violadas quando ainda estão a amamentar as crias do último parto. Este aleitamento constante faz com que, tantas vezes, problemas de saúde mamários surjam.

Todos estes casos servem para eu chegar à minha conclusão: através da dominação e manipulação da sexualidade e dos sistemas reprodutivos femininos, o patriarcado apropria-se do poder geracional da sociedade. A mulher tem vindo a ser encarada como um ser quase assexual, cuja finalidade da sua sexualidade é, primeiro, a reprodução e, segundo, o prazer ao homem. As fêmeas, de que espécie for, seguem uma mesma linha – o controlo da sua vida sexual, pela indústria, é completo e absoluto. Mulheres e animais, com especial incidência nas fêmeas, partilham, em níveis diferentes, de situações similares de violência, de controlo das suas vidas, das suas possibilidades de escolha, das suas sexualidades. Por isso, cada vez mais, assombra-me esta pergunta: pode o feminismo ser especista?

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30
Jul18

Prevenir a Violência de Género nas Escolas: Projeto ART’THEMIS+


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ARTIGO DE JOANA MARTINS

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A UMAR tem vindo a desenvolver o seu trabalho na prevenção primária da violência de género (prevenir a violência antes que ela ocorra) desde 2004, em escolas de várias regiões de Portugal Continental. Em 2018, pela primeira vez, a UMAR Madeira integrou o projeto ART’THEMIS+, subvencionado pela Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade. Como coordenadora do Projeto a nível regional, aproveito o meu primeiro artigo aqui para vos falar um pouco sobre o mesmo.

A principal finalidade do Projeto ART’THEMIS+ é promover, nas gerações mais novas, valores de incentivo à cidadania, uma cultura de igualdade, de paz e de resolução não violenta de conflitos, transmitindo e partilhando conhecimentos, intervindo na desconstrução de estereótipos e mitos em torno das relações entre homens, mulheres e demais pessoas, lutar pelos direitos das mulheres e raparigas e pelos direitos das vítimas, contribuindo para o empoderamento das jovens. Este Projeto abrange os níveis de ensino desde o jardim-de-infância até ao ensino secundário.

Também não são ignoradas outras formas de violência de que as nossas crianças, adolescentes e jovens são vítimas, como o racismo, a homofobia e bifobia, a desigualdade de classes e a pobreza, e o capacitismo, ou seja, a discriminação e o preconceito social contra pessoas com qualquer tipo de deficiência. Incidindo particularmente na igualdade de género e na prevenção da violência de género, a intervenção pauta-se por estratégias de mediação, utilizando ferramentas artísticas, proporcionando às crianças, adolescentes e jovens oportunidades de serem protagonistas na produção cultural e na mudança social.

O Projeto ART’THEMIS+ funciona através de um programa de ação pedagógica sistemática com jovens, explorando-se diversos temas no domínio da prevenção de comportamentos violentos, nomeadamente com base no género, mas, sobretudo, desconstruindo as suas bases culturais e sociais. Neste sentido, abordam-se temas como os Direitos Humanos, Direitos das Mulheres, estereótipos de género, violência no namoro, de género e doméstica, entre outros. Com recurso a uma metodologia de projeto, procura-se a participação e o envolvimento das/os jovens num trabalho que engloba diferentes métodos pedagógicos. Este programa é implementado de acordo com o estabelecimento de um protocolo com cada escola.

Durante o ano letivo, os/as jovens desenvolvem e estimulam a sua criatividade na área da igualdade de género e prevenção da violência. Com o intuito de desconstruírem o fenómeno da violência, produzem, através de ferramentas artísticas, os seus trabalhos finais, tornando-se os/as protagonistas com a construção de um produto final artístico (vídeos, coreografias, peças de teatro, exposição fotográfica, entre outros). Estes produtos são apresentados nos encontros de final do ano letivo, com a presença de vários/as participantes da comunidade educativa.

Este trabalho tem que ser realizado de forma continuada, a médio e longo prazo, interligado com toda a comunidade educativa, para se conseguir uma mudança real de mentalidades.Temos prevista também a realização de outras ações no âmbito do ART’THEMIS+, direcionadas também para professores/as, auxiliares e encarregados/as de educação.

Trabalha numa escola na Madeira e está interessado/a neste projeto? Para mais informações, contacte-nos através do e-mail umar.madeira@yahoo.com.

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25
Jul18

O Feminismo não tem Género


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ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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O título deste artigo poderá parecer estranho a muitas pessoas que o lêem, mas passo a explicar. Na última comemoração do dia da Mulher, na Junta da “minha” Freguesia, tive o prazer de ouvir dois homens falarem dos direitos da mulher e da sua importância em todas as esferas da sociedade. Nesse dia, que era dedicado à luta da mulher pelos seus direitos, dois homens mostraram que o feminismo não tem género nem sexo, porque é a mesma coisa que falar em igualdade de oportunidades, em todos os aspectos da vida, para todas as pessoas.

Há muita gente que ainda vê a palavra feminismo, ou feminista, com alguma depreciação. Ainda pensa que somos pessoas radicais e que estamos contra tudo e contra todos. Isto é um erro, pois apenas falamos em ter direitos iguais. enquanto pessoas, independentemente do sexo, raça, género, cor, religião, sindicato, partido, clube, função profissional, etc. NEM MENOS NEM MAIS, DIREITOS IGUAIS é a nossa palavra de ordem, e esta pode ser a mesma para qualquer pessoa que esteja connosco nesta luta, independentemente do seu papel na sociedade.

Direitos iguais implica não aceitarmos como normal que as mulheres estejam em minoria em lugares de decisão: nos Governos, nos Parlamentos, nas Autarquias, nas Direcções partidárias, nos Sindicatos etc. e que ainda exista discriminação em função da escolha que cada pessoa faça da sua vida. Na vida coexistem todas as cores, como se fossemos um arco iris. Se alguma dessas cores for anulada, o arco iris desequilibra-se e nós não queremos isso, nem aceitamos que assim aconteça.

É por isso que qualquer pessoa que defenda este equilíbrio pode ser feminista. Ser feminista é fácil? Devia ser, mas não é. Muita gente, quando ouve falar de direitos iguais, de forma teórica, até está de acordo, mas quando é para passar à prática a vacilação predomina. Até dizem que concordam, mas depois usam mil e um argumentos para justificar a discriminação existente. Ou porque as pessoas não estão disponíveis, ou porque não têm capacidades, ou porque têm família ou empregador/a para enfrentar, ou isto, ou aquilo…, enfim para manterem tudo na mesma.

E muita gente, particularmente as mulheres, acomodam-se perante estes argumentos. Não participam. Não reivindicam. Aceitam fazer o papel de “jarra para enfeitar” colaborando desta maneira para a situação de discriminação existente. Sobre esta questão falarei no meu próximo artigo.

 

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