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Feminismos é Igualdade

11
Jan19

Star Wars e o Feminismo


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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A minha infância foi fortemente influenciada por filmes icónicos de ficção científica, aventura e fantasia, que o meu pai partilhava comigo. Dos quais, tenho que salientar a saga Star Wars, ou Guerra das Estrelas. Vi os primeiros três filmes em cassete VHS, alugada no clube de vídeo mais próximo de casa, pela primeira vez, quando tinha apenas 6 anos. Resta acrescentar que as cassetes pouco pararam no clube de vídeo durante alguns meses…

Perguntar-se-ão, o que tem a ver Star Wars com o feminismo e a igualdade de género? Algumas pessoas dirão que as personagens principais, da saga mais antiga, eram homens. Sim, é verdade. Mas uma personagem feminina destacou-se, sendo a única mulher num trio de protagonistas. Falo da Princesa Leia, ou Leia Organa. Em primeiro lugar, a Leia não representava em nada o estereótipo duma princesa. A sua personagem era uma mulher independente, empoderada, revolucionária. Levava consigo uma arma, que utilizava sempre que necessário para se defender e aos seus companheiros. Era “senhora do seu nariz”, uma General lutando pelo seu povo, contra um Império Galático ditatorial, feito apenas de homens, tenebroso e terrorista.

Não era uma princesa a precisar de alguém que a salvasse – de facto, ela própria ironiza com isso no Episódio IV. Leia salvou-se a si própria em imensas situações, assim como aos seus companheiros. Até nos filmes se defendeu de assédio do seu futuro companheiro, Han Solo, e só quando quis, é que permitiu a sua aproximação. Ajudou a liderar uma rebelião – que, por sua vez, tinha como líder também uma mulher, a Mon Mothma.

Cresci com a Leia no meu imaginário, chegando a reproduzir em mim os seus célebres penteados. Inspirava força a meninas como eu, a crescer sem baixar a cabeça, a lutar por ideais, a não seguir estereótipos. Apesar disso, a indústria cinematográfica, habituada às típicas donzelas à espera de serem resgatadas por príncipes encantados, às mulheres estereotipadas, ainda fez com que Leia tivesse que vestir um biquíni dourado ao ser escravizada pelo infame Jabba the Hutt no Episódio VI. Aparentemente, teria havido uma cedência. Mas, no alto do seu biquíni dourado, Leia mata Jabba, estrangulando-o com a corrente que a prendia. E logo, consegue se libertar. Quebrando o estereótipo da mulher frágil, fraca, à espera de ajuda.

Ao descobrir, pela primeira vez, que a Força também estava presente nela, e não apenas em personagens masculinas, fiquei feliz da vida. Porque brincava de Jedi com paus de vassoura no quintal da minha avó, imaginando se também haveria alguma mulher Jedi. Ao longo de anos, fui imaginando uma continuação da história de Star Wars, onde Leia se tornaria uma poderosa Jedi, o que foi até retratado em alguns livros que saíram posteriormente aos filmes. Infelizmente, a Disney escolheu outro caminho para Leia.

Não podemos menosprezar a ficção, porque esta tem um grande alcance, e transmite mensagens que influenciam positiva ou negativamente várias gerações, tal como servem de espelho para o que se passa no mundo, contemporaneamente. Com a quebra de tantos paradigmas, Leia tornou-se um ícone feminista. Foi, sem dúvida, a personagem feminina com mais impacto em Star Wars – sem menosprezar a sua mãe, a Senadora Padmé Amidala, ou a atual protagonista, Rey. Porque foi uma mulher/personagem à frente do seu tempo e mostrou ao mundo, em 1977, que as mulheres são capazes de tudo o que quiserem.

Infelizmente, a atriz Carrie Fisher faleceu consequência dum ataque cardíaco em 2016. Fica aqui a minha homenagem, tardia, e gratidão por ter encarnado Leia, uma personagem que tanto marcou a minha infância e juventude.

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17
Dez18

A Mulher e o Humor


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Estes dias, assisti à segunda temporada da maravilhosa série The Marvelous Mrs. Maisel. Passada no final dos anos 50, em Nova Iorque, o enredo acompanha o percurso de Midge, dona de uma vida bastante confortável: tinha dinheiro, dois filhos catitas e um homem que provocava inveja. Para a época, isso era o socialmente exigido às mulheres.

Tudo muda, no entanto, quando a protagonista experimenta fazer stand-up. A família não aceita ver uma mulher ter aquela postura, citando ser “inadequada e vergonhosa”. Os seus companheiros lidam muito mal com o facto de um ser-humano-não-portador-de-pénis ser melhor que eles. Mas Midge vai atrás do seu sonho, com a sua tresloucada agente, ignorando os julgamentos a que é sujeita. Para os maiores fãs de comédia, temos também um easter egg, que é Lenny Bruce. Sim, o lendário e corrosivo humorista é representado na trama e é um dos grandes aliados da personagem principal.

Na história do humor há uma prevalência enorme no número de homens comparativamente ao de mulheres. As razões já foram muito discutidas: há quem diga que se deve ao facto de a mulher ter que ser mais séria para a terem em consideração devido à máxima do “muito riso, pouco sizo”; para outros deve-se a que quando uma menina, na escola, brinca muito é excluída por ser a “palhacinha” - mesmo por outras mulheres.

Também há quem afirme que as que conseguem alguma visibilidade, perdem o interesse do público porque falam muito de “assuntos de mulheres”, que os homens têm menos medo de se submeter ao ridículo e, outros, como Hitchens, afirmam que o humor é desenvolvido como arma de sedução e, segundo ele, as mulheres têm outras armas para isso, ficando os homens com essa tarefa para cativar o sexo oposto.

Em Portugal, sempre tivemos excelentes actrizes de comédia, como Ivone Silva, Maria Matos, Mirita Casimiro, Maria Rueff, Ana Bola, entre outras tantas. Actualmente, há um grande leque de humoristas, com diversos estilos e capacidades, seja stand-up comedians, argumentistas ou locutoras, como Cátia Domingues, Joana Marques, Mariana Cabral, Joana Gama, Catarina Matos, Susana Romana ou Marta Bateira, que se juntam às últimas duas citadas. Felizmente, temos cada vez mais mulheres a fazer humor. Mais e melhor.

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14
Dez18

Preconceito e Realidade


umarmadeira

ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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O período que estamos a viver é do de preparação para o Natal. Mas, por outro lado, temos um grave problema que assola a nossa Região, a violência de género, que voltou a agravar-se no presente ano. Embora as entidades oficiais digam estar a fazer tudo o que está ao seu alcance para minimizar o problema, ela está presente todos os dias, em todos os lugares, nas famílias, na rua, no desporto, no trabalho, na política, na comunicação social, em todas as classes sociais, enfim, em todas as vivências sentimos e pressentimos violência. Ela aparece e reaparece, como um incêndio em dia de vento.

Tudo serve de pretexto para incriminar, agredir, acusar, despedir e explorar. E as principais vítimas são, na sua maioria, as mulheres e as crianças. A violência doméstica, em muitos casos, tem uma ligação estreita com outras expressões de violência, directa e indirecta contra as mulheres, desenvolve-se em todas as vertentes sociais, entram facilmente nas famílias através do tradicional machismo, alimentado sobretudo pelo álcool e outras substâncias. O desemprego, a perda de trabalho, os baixos salários, a precaridade elevada e a pobreza laboral, continuam a empobrecer e são as mulheres que continuam a auferir maioritariamente o salário mínimo e a receber as mais baixas pensões de reforma. São ainda vítimas de pressão e intimidação e sujeitas as diversas formas de assédio no trabalho, bem como a algumas doenças profissionais, que efecta maioritariamente as mulheres.

O álcool também contribui para uma guerra permanente em casa de muitas famílias madeirenses e a destruir muita gente. Um dia destes dizia-me um jovem: eu queria que o meu o pai deixasse de fumar e de beber e que acabasse a guerra entre pais e filhos. Dei por mim a pensar onde está a origem de tanta violência, porque sempre houve pessoas violentas, mas hoje os problemas atingem maior dimensão. A qualquer momento podemos ser agredidas, assaltadas, a insegurança é uma constante no mundo actual.

Há quem diga que é necessário humanizar as famílias. Mas como? Com esmolas e trabalho sem direitos? Com um ensino que está a deixar à margem os filhos dos mais pobres, os menos inteligentes e pouco motivados? Numa sociedade baseada nos valores do lucro, onde os donos do dinheiro apenas se preocupam em ganhar dinheiro e os governantes apenas governam ao sabor desses interesses financeiros, naturalmente que tudo fica desumanizado, dentro e fora das famílias. É preocupante a desenfreada promoção das bebidas alcoólicas, do aumento de bares, esplanadas e tabernas junto de Escolas e até de Igrejas, nesta quadra para atrair fiéis é com comes e bebes.

Enquanto isso, muitas mulheres têm sido remetidas para casa, perdendo a sua capacidade económica e tornando-se cada vez mais pobres e dependentes dos seus familiares, tornando-se cada vez mais pobres e a terem que estender a mão à caridade pública e outras a venderem o seu próprio corpo para sobreviverem. Temos o dever de ajudar a prevenir a violência e de exigira protecção adequada às mulheres vítimas de violência. As Instituições devem contribuir para a mudança de mentalidades que é necessária na nossa sociedade, em que ainda se legitima muita violência que se abate sobre a mulher, particularmente na nossa Região, mesmo sendo crime público.

Há que intervir para uma mudança de mentalidades e no respeito dos Direitos Humanos, que muitos ou quase todos dizem defender, mas que uma larga maioria os viola todos os dias, a começar pelo aconchego do próprio lar.

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06
Dez18

Com o cabelo curto, os gajos deixam-te em paz, não?


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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O título deste artigo foi-me colocado em forma de questão por um conhecido. No desenrolar de uma conversa banal, perguntou-me isso. Intrigou-me a assertividade com que o fez, como se soubesse, de antemão, qual seria a minha resposta. Preferi retorquir e colocar-lhe, antes, uma dúvida:

- Os homens são assim tão frágeis nas questões de feminilidade e masculinidade?

Não me respondeu.

Cortar o cabelo, uma decisão puramente estética e, convenhamos, de tentar perder menos tempo e dinheiro com cuidados capilares, trouxe-me duas coisas: a liberdade que eu procurava e um rol de opiniões. Não devias ter cortado. Estás doente?! Mulheres devem ter o cabelo mais comprido. Os homens não gostam de cabelos curtos em mulheres. O teu namorado gosta desse cabelo? Podem pensar que és lésbica. És machona?

Cortar o cabelo: uma coisa tão simples e feliz para mim, um modo de estar, uma banalidade. Para a sociedade: mais um problema, mais uma imposição, mais um senão. A sociedade acha que mulheres de cabelo curto não são femininas. Não são atraentes. Não são heterossexuais. A sociedade acha que as mulheres devem manter cabelos compridos e tratados para seduzir os homens, para estarem atraentes para os homens. A sociedade acha, como tem a mania de achar, em tudo o que diz respeito às mulheres, ao seu lugar no mundo, às suas vontades, aos seus desejos, às suas formas de expressão. E eu estou farta disso. Fartinha até às pontas dos meus cabelos curtos que achem por nós, que pensem por nós, que decidam por nós.

Cabelo não define caráter. Cabelo não define género. Cabelo não define orientação sexual. Cabelo não define expressão de género. Cabelo não define beleza ou sensualidade. Cabelo não define profissionalismo ou responsabilidade. Cabelo não define empenho ou inteligência. Cabelo só define uma coisa: a minha vontade. E uma coisa que deveria ser tão simples, tornou-se uma afirmação diária do meu empoderamento.

Todas nós temos algo que é apontado pela sociedade. Seja o tipo de corpo, a forma de vestir, as escolhas, os sonhos, de quem gostamos, como gostamos, como reagimos, como interagimos. Todos os dias essas coisas são alvo de opinião. Todos os dias sofremos algum tipo de opressão, de repressão, de silenciamento.

Eu quero que os homens respeitem o meu não sem ser preciso uma justificação. Não quero que o façam por causa do meu cabelo. Ou da minha roupa. Ou da minha maneira de ser. Ou da minha profissão. Quero que me respeitem por mim: eu, mulher, ser humano, dona de um corpo, de uma cabeça, de um coração. Quero que nos respeitem por sermos simplesmente nós – mulheres: magras, gordas, donas de casa, empresárias, vistosas, recatadas, hétero, lésbicas, bissexuais, assexuais, trans, tímidas, extrovertidas, de cabelos rapados ou compridos, na rua, em casa, na família, no emprego, com deficiência, com limitações, com depressão, negras, brancas, latinas, asiáticas, solteiras, casadas, viúvas, meninas, raparigas, idosas. Todas temos uma voz e não queremos nada que se sobreponha a ela.

E já que falamos de cabelos: os meninos, rapazes e homens podem tê-lo comprido. Chega de estereótipos, sim?

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03
Dez18

As Super-Mulheres


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Às mulheres de hoje em dia, de países desenvolvidos como o nosso, são, muitas vezes, exigidos superpoderes para levar a cabo com todas as responsabilidades que têm no dia-a-dia, assim como para provar o que valem, numa sociedade onde cada vez mais impera a concorrência e a superficialidade.

As mulheres trabalham mais em casa. As mulheres cuidam mais dos/as filhos/as e familiares doentes. As mulheres fazem mais voluntariado. As mulheres estudam mais. Mas as mulheres têm mais dificuldade em aceder a cargos de topo nas carreiras e ganham, em média, para o mesmo trabalho menos 18% do que os homens. Estes são, de forma muito geral, os dados de vários estudos atuais feitos em Portugal. No entanto, apesar de todas as desigualdades que persistem, às mulheres é sempre exigido mais. Têm que se encaixar nos padrões sociais – e nem sequer falo dos padrões de beleza – ou são olhadas de lado, com estranheza. Têm que casar e ter filhos/as. Senão, são egoístas. Têm que escolher uma carreira com horários que lhes permitam fazer tudo o resto, mesmo que não lhes traga qualquer realização pessoal. Senão, são extraterrestres (“o que é essa coisa de escolher a felicidade em primeiro lugar?”). Têm que trabalhar fora pois, se trabalham em casa (às vezes, mais do que 8h por dia), mesmo pagando os seus impostos e descontos, são vistas como “eternamente desempregadas e disponíveis”, sendo sobre elas que, muitas vezes, a família coloca o peso de responsabilidades familiares. Senão, se impõem respeito pelo seu trabalho, não prestam.

As mulheres têm que se comportar e vestir de determinada maneira, discretas e recatadas. Senão, são p…. As mulheres têm que ser calmas e compreensivas, mesmo com quem lhes ofende ou ataca. Senão, são intolerantes. As mulheres têm que ser assim ou assado, as mulheres têm que fazer isto ou aquilo, as mulheres têm que… têm que… têm que… Ao mínimo “deslize” ou “fuga dos padrões impostos”, cai-lhes o mundo em cima. E, infelizmente, são outras mulheres que, em primeiro lugar, apontam o dedo.

Nesta era das redes sociais, onde o que vale, em primeiro lugar, são as aparências, é bastante evidente este apontar de dedos e julgamentos imediatos, irracionais e cheios de preconceitos. Enquanto esta mentalidade se mantiver, muitos flagelos vão também se manter. Enquanto se encontrar desculpas para o gap salarial e falta de partilha das tarefas domésticas (“ele chega tão cansado a casa, trabalha tanto”), para a violência doméstica (“ele era bom vizinho e tão boa pessoa, deve ter perdido a cabeça”), para o assédio sexual e violações (“ela estava a pedi-las, vestida dessa maneira, eles não resistiram”) e para tudo o resto, nunca existirá uma verdadeira igualdade de género.

Igualdade de género é, em primeiro lugar, sinónimo de respeito. Respeito pelas diferenças, permitindo que, seja qual for o sexo e género duma pessoa, ela possa ter os mesmos direitos e oportunidades. Feminismo é lutar para que as mulheres tenham os mesmos direitos do que os homens. É sinónimo de igualdade.

As mulheres não têm superpoderes, nem têm que os ter. As mulheres não têm que ser super-mulheres, super-mães, super-isto ou aquilo. As mulheres têm o direito a ser como quiserem, fazer o que quiserem, e escolher o que quiserem para a sua vida. Sem que lhes apontem o dedo e lhes caiam em cima, com falsos moralismos.

O que é bom para uma mulher, pode não ser bom para outra. Isto é respeito. Sejam super-mulheres sim, mas naquilo que quiserem. E, principalmente, umas para as outras. Precisamos de mais respeito, sororidade e solidariedade.

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05
Nov18

Je suis Trump


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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Kathryn Mayorga é hoje um nome amplamente conhecido pelos portugueses, e pelo mundo em geral por ter vindo a público afirmar ter sido vítima de violação de Cristiano Ronaldo. Não podia deixar passar a oportunidade de postular a minha visão sobre o sucedido nos últimos meses. A americana, como ficou simplesmente conhecida, tornou-se para milhões no rosto da infâmia, do desplante e do profano ao acusar o melhor jogador de futebol de todo o planeta de a ter sodomizado num quarto de hotel em Las Vegas há sensivelmente nove anos, altura em que Cristiano estaria a chegar a Madrid para abraçar uma feliz carreira no Real.

Sobre esta denúncia cabe-me explorar apenas dois factos que me parecem ser inquestionáveis:

Facto número 1: Cristiano Ronaldo é indubitavelmente o melhor jogador de futebol da nossa época e provavelmente o melhor de sempre (G.O.A.T.), tem sido um exemplo dentro e fora do campo ao contribuir financeiramente para diversas causas, tem sido igualmente uma das principais razões pela qual a Madeira tem vindo a estar na boca do mundo e eu quero que ele seja inocente partindo sempre do pressuposto de que toda a pessoa é inocente até prova em contrário.

Facto número 2: Com a denúncia pública, Kathryn Mayorga submeteu-se ao escrutínio dos jornais e ao julgamento popular sendo que este último demonstrou estar à altura da inquisição e da caça às bruxas e no caso particular do que foi possível ler nas redes sociais, digno de um reino sem lei.

O povo, soberano e sóbrio, metódico e justo como habitualmente não se coibiu de julgar na praça pública (ou nas redes sociais, o que é o mesmo). Com toda a sua sapiência e mesmo sem conhecerem os factos da noite em que tudo aconteceu, muita gente foi célere em afirmar que “A americana” era tudo e mais alguma coisa menos uma mulher que não quisesse ser violada por uma celebridade. Muitas das pessoas que se apressaram a lançar os mais diversos epítetos contra a senhora sem conhecimento de causa são as mesmas que se riem de Donald Trump quando este afirma que o aquecimento global é um embuste porque tem um dom natural para a ciência uma vez que teve um tio que foi professor de ciências numa prestigiosa universidade (sim, isto é verídico!).

Não obstante Ronaldo ser Ronaldo e eu sentir orgulho na sua carreira futebolística, abstenho-me de fazer julgamentos em praça pública contra uma mulher que diz ter sido violada. A violação é um acto de violência e não de amor propriamente dito e eu não estava presente no local e não assisti ao ocorrido logo não posso, em plena consciência, adjectivar seja lá quem for, mas conheço muita gente que o pode fazer, é caso para dizer que em algum momento das nossas vidas todos nós somos Trump dependendo da visão sobre o mundo.

O que se disse nas redes sociais serviu para demonstrar que Portugal, em particular, ainda é um país embebido num machismo cego. Resta-nos remar contra a maré até que a maré corra no nosso sentido.

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22
Out18

Falando sobre publicidades...


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Nos anúncios publicitários, sejam eles sobre cerveja, refrigerantes ou até mesmo detergentes, quase sempre vemos as mulheres a serem tratadas como um brinde idiota, estereotipada ou até mesmo sedenta de desejo carnal.

Ora vejamos, na época de Verão é comum passar campanhas publicitárias sobre a cerveja X e Y. É Verão, está calor e as mulheres aparecem de biquíni ou de calções muito reduzidos nos seus belos corpos. Corpos sem voz. Sim, sem voz, porque elas nunca falam.

O comum de quase todas as publicidades de cerveja é que andam à volta de um grupo de homens que se encontram num bar ou numa praia, onde as mulheres aparecem representadas como jovens belas, exibindo os seus belos corpos com pouca roupa e cujo papel na publicidade não é aparecer como amigas, ter uma conversa e, ao mesmo tempo, saborear a cerveja que estão a promover. A única função das mulheres nestas publicidades é servir de objeto de desejo para esses homens.

Começo a pensar que os responsáveis por este tipo de publicidade não entendem que as mulheres também consomem a cerveja. Parecem ter parado no tempo onde “as mulheres de família” não frequentavam bares, não bebiam, não tinham amigos homens. Deve fazer algum sentido para eles, mas no meu raciocínio não encontro um motivo que direcionem a publicidade de cerveja somente para o público masculino, quando este produto que grande parte dos adultos consome, sejam eles, homens, mulheres, transexuais, homossexuais, etc.

Num anúncio, que foi lançado há já alguns anos de uma conhecida marca de refrigerante, nota-se claramente que é dirigido ao público feminino. Na publicidade, observamos o homem da limpeza aproveitando a sua pausa laboral sem t-shirt, exibindo os seus incríveis abdominais e saboreando o refrigerante, enquanto um grupo de mulheres observa e suspira, ao som de uma música, imaginando um striptease sensual. Agora pergunto, estão a promover o refrigerante? Algum ginásio? Ou simplesmente querendo dizer que as mulheres são umas sedentas de desejo carnal e que não estão nem aí para o refrigerante ou só irão beber o refrigerante pela imagem dos incríveis abdominais?

Recentemente começou a passar a publicidade do detergente perfumado à volta de um homem todo jeitoso de tronco nu a tirar a roupa da máquina de lavar. Mais uma vez, não consigo entender a mensagem. Querem passar a mensagem de que o homem deve partilhar as tarefas domésticas? Querem promover o produto que supostamente serão as mulheres a comprar? Ou será que por ser a imagem de um homem em tronco nu faz disparar as vendas do produto?

Na verdade, as pessoas não observam com a atenção devida as mensagens que as publicidades passam, geralmente fazem zapping ou simplesmente pensam “é só mais uma” ou, então, se uma de nós comentar a má representação das mulheres nos anúncios provavelmente iremos ouvir que “não temos nada para fazer para darmos importância a publicidades”. Se tivermos a ideia de colocar nas redes sociais a nossa opinião, levamos com uns engraçadinhos a nos dizerem que o lugar das mulheres é na cozinha!

A pergunta é “as publicidades são más porque o público é mau, ou é ao contrário”?

Não consigo encontrar uma solução para que terminem com este tipo de publicidades que gostam de passar a imagem de que as mulheres são fúteis e vazias. Mas acredito que, se as mulheres que não gostam de se ver representadas por aquelas mulheres dos anúncios se unirem, se reivindicarem e fizerem pressão, são passos importantes e necessários para uma sociedade igualitária.

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12
Out18

Tens razão, mas eu gosto tanto dele...


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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As redes sociais têm coisas muito giras: é maravilhoso encontrarmos um primo em vigésimo sétimo grau que vive no Burundi sem precisar de ir ao Ponto de Encontro; é fascinante saber que a vlogger do momento gosta de comer rúcula depois de fazer pilates, ou mesmo, ver aquele deputado conservador no parlamento com aquele nariz e orelhas fofíssimas de cachorrinho. 

Como todas as coisas boas da vida, tem o seu lado negro da força. Quando vislumbram opiniões contrárias aos seus dogmas, as pessoas abusam da libertinagem de expressão e fazem da sua opinião a lei. São rac… e tudo o tipo de «istas» que existem. Mas principalmente desumanos. Fazem comentários com uma malícia tão apurada que deixaria invejoso o mais malévolo general de Auschwitz.

Esta verborreia toda para introduzir um dos assuntos do momento: a acusação de violação que Cristiano Ronaldo é alvo. 

Eu, ainda abalado com a turbulência da notícia, cometi o maior dos erros que se pode cometer. Sim. Fui parar à caixa de comentários. Lá, nesse mundo sombrio onde impera a falta de civismo, deparei-me com centenas e centenas de pessoas a apoiar o acusado. A alegada vítima era, surpreendentemente, a criminosa e o acusado, afinal, era a vítima - qual telenovela da TVI, qual quê.

O ser um humano é um bichinho que normalmente gosta de gostar. E gosta muito. Gosta como um fanático insano. Seja do presidente da junta, do Tony Carreira ou do avançado do seu clube. E ai de quem ouse blasfemar sobre essa bolha divina de anjos alados.

É verdade que Ronaldo tem uma aura de D. Sebastião, mas não está imune à lei. Quando digo o futebolista, digo o tal presidente da junta, o rei do Mónaco ou o barbeiro Zézito. E como alguém que gosta tanto, odeia estar errado ou sentir que foi traído pelo Romeu a quem entregou o seu coração. O problema é que acontece e, como não há um Shakespeare que possa reescrever o enredo, temos que possuir o discernimento de matar a nossa personagem principal. Usando a analogia que a Sarah Silverman fez em relação a perder muitos ídolos com o movimento #MeToo “É como cortar tumores: é muito complicado e doloroso, mas é algo necessário e no fim seremos todos muito mais saudáveis”.

Se Ronaldo é efetivamente culpado ou inocente, não faço a minima ideia, mas algo está muito errado quando uma alegada vítima de violação é a puta, sem ninguém saber rigorosamente nada sobre o caso apenas se guiando pela reputação do ídolo. Tremendamente errado.  

Já que falei tanto de Cristiano Ronaldo, aproveito para rematar finalmente com um "vamos acabar com o seguidismo incondicional?” - SIIIIIIII.

P.S. – Em momento algum questiono a inocência (ou não) de Ronaldo.

P.S. 2 – Faço estes post scriptum pelo que escrevi no segundo parágrafo.

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08
Out18

Funchal Pride e os Preconceitos


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Pelo segundo ano consecutivo, participei na marcha e arraial do Funchal Pride, como pessoa, ativista, humanista e UMARista. Ainda me faz muita confusão a hipocrisia e quantidade de preconceitos patentes na sociedade quando, na realidade, cada pessoa tem o direito a ser como é, a se expressar como deseja e a amar quem ama, sem ter que estar constantemente sujeita a juízos de valor, a discriminações e a insultos. A diversidade deve ser apoiada, respeitada e abraçada.  Só o Amor é real. Isto deveria ser claro como água e o respeito deveria estar acima de tudo.

Mas, infelizmente, ainda há um longo caminho a percorrer. Apesar de ser heterossexual, julgo ser importante fazer parte da causa LGBTIQ, como feminista que sou, que defende a igualdade de género. A luta pela igualdade não tem sexo, nem género, nem orientação sexual. É de todas e de todos. Enquanto houver discriminação e incompreensão, não existirá uma verdadeira igualdade.

Deixo-vos um poema sobre os preconceitos, que poderão encontrar no meu livro “O Sonho, a Vida e o Universo: pelos olhos de uma mulher”. Sejam quem são, aceitem as outras pessoas tal como são, e sejam felizes. O mundo irá se tornar, de certeza, um lugar bem melhor.

 

PRECONCEITOS

 

Se emagreço estou doente,

Se engordo sou descuidada…

Que sociedade exigente!

 

Se sou feia não tenho saída,

Se sou bonita não tenho conteúdo…

Que sociedade deprimida!

 

Se estudo não tenho mais que fazer,

Se trabalho sujeito-me a tudo…

Que sociedade de maldizer!

 

Se vou à missa sou uma beata,

Se não vou à missa sou má pessoa…

Que sociedade insensata!

 

Se gosto de homens estou desgraçada,

Se gosto de mulheres fujam de mim…

Que sociedade limitada!

 

Se não me caso sou pecadora,

Se me caso sou obediente…

Que sociedade conservadora!

 

Se não tenho filhos fico pra tia,

Se tenho filhos fico no lar…

Que sociedade negativa!

 

Se limpo a casa, sou uma rainha

Se não limpo, sou uma incapaz…

Que sociedade atrasadinha!

 

Deixem de lado a maldade

E ajam com mais delicadeza.

Entendam que na diversidade

É que está a nossa riqueza.

 

Somos iguais e diferentes

Mas temos os mesmos direitos,

Sejamos então mais coerentes

E abandonemos os preconceitos.

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21
Set18

Sexismo: aqui, ali e acolá


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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A final do US Open feminino do passado dia 09 de Setembro ficou marcada por duas questões memoráveis: a primeira foi a vitória histórica da jovem nipónica Naomi Osaka; a segunda, bem mais relevante para este artigo, foram os acontecimentos dentro do campo que se fizeram repercutir pelo mundo do ténis e não só, e que são, infelizmente, tema de debate aceso das últimas semanas.

O encontro ficou manchado por uma discussão acesa entre Serena e o árbitro português, Carlos Ramos, que penalizou a norte-americana por indicações recebidas por parte do treinador; esta penalização levou a atleta a partir a raquete e a ter uma discussão acesa com o fiscal da partida invocando sexismo por parte do mesmo pois, a seu entender, o mesmo não teria acontecido a um atleta masculino. Ora, eu confesso que não sei se a Serena Williams tem razões para a acusação ou se foi uma atitude de mau perdedor mas o que eu sei, e tenho a certeza do que vou afirmar, é que o sexismo é um problema real e presente no desporto, na vida académica bem como no mundo empresarial.

Infelizmente a mulher continua a ser alvo de discriminação de género, ora porque aos olhos da banalidade e da ignorância são consideradas incapazes de desempenhar determinadas tarefas, ora porque aos olhos da sociedade é esperado que a mulher tenha um determinado tipo de comportamento e acredito que não deve haver nada mais difícil do que uma mulher querer ser simplesmente tratada ao nível de um qualquer homem e não o ser! Eu que sou determinado e não acredito em fatalismos ou determinismos fico apreensivo perante estes cenários que na verdade não abrem muitas portas no que respeita à igualdade de género. Nas empresas é esperado que a mulher tenha um alto desempenho, que receba (em média) menos do que um homem e que se silencie perante determinados casos de assédio, e refira-se que o mais pequeno piropo é também assédio e não uma mera piadinha para a malta se rir um bocado.

Na política continua a ser difícil atingir a paridade absoluta das listas eleitorais porque a maioria dos homens não pretende abdicar dos seus cargos , ou, numa outra vertente a própria população apresenta alguma resistência em votar numa mulher em detrimento de um homem. Longo é ainda o caminho a percorrer nesta vertente. No desporto, é esperado que a mulher tenha um determinado tipo de comportamento, nomeadamente que aceite todas as decisões da arbitragem sem que com isso tenha o direito de as contestar, quiçá esse seja o papel do homo sapiens; recordo-me de John McEnroe (o eterno bad boy do ténis) e das suas birras constantes no campo com árbitros e outros atletas mas no geral provocada risada do público e não as críticas que recebeu Serena Williams. Mas enfim, são estes facilitismos que tem o meu género, era um bad boy e não uma tipa qualquer que tem de dar o exemplo e não pode ceder às emoções.

Atenção - Muita Atenção, não pretendo, nem por um segundo, defender e desculpabilizar as atitudes em campo da estadunidense, um mau perder é sempre um mau perder e a raiva incontrolável no desporto é sempre condenável quer seja por parte de um homem ou de uma mulher e isto é igualdade de género.

 

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Tertúlias Literárias

I Passeio dos Livros nos Jardins do Lido 03/08/2018

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II Passeio dos Livros no Jardim de Santa Luzia 28/09/2018

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III Passeio dos Livros na sede da UMAR Madeira 10/03/2019

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