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Feminismos é Igualdade

13
Abr19

Batalhar na Igualdade de Género, faz sentido?


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Não há dúvida de que houve um progresso nas últimas décadas, este progresso deveu-se em parte à custa da luta incansável de ativistas. Para mim, nos dias de hoje o maior desafio no que diz respeito à igualdade de género, é a educação. A mudança começa dentro da casa de cada um e de cada uma. Eu acredito que se começarmos a educar as nossas crianças, a nossa mãe, o nosso pai, o nosso irmão ou irmã para a igualdade, para os direitos humanos, para a cidadania, para a paz, daqui a uns anos estaremos com as várias formas de desigualdade menos visíveis.

Muitas vezes questiono “e se acontecesse/fosse contigo?” Tento sempre fazer com que cada pessoa que está no meu ambiente familiar se coloque no lugar da outra pessoa. As pessoas precisam urgentemente de aprender a parar e ouvir, compreender e respeitar. Aprender a respeitar cada pessoa independentemente de diferenças das capacidades, género, orientação sexual, raça, cultura… Se tenho visto resultados? Claro que sim. Eu não nasci a saber o que era a igualdade de género ou numa bela amanhã acordei e saltei da cama a dizer “sou feminista”. Eles e elas também não. É preciso educar!

Existe um preconceito que deriva sobretudo da ignorância, a maior parte das pessoas não sabe o que é ser feminista. Por isso, hoje passo a mensagem, amanhã volto a fazê-lo, depois de amanhã e depois, depois, depois…. E todos os dias o meu pai, a minha mãe, a minha sobrinha e todas as pessoas que convivem comigo vão interiorizando cada palavra e essa palavra passa para onde quer vão, para o trabalho ou para a escola.

Mas... Em todas as vidas existe um mas. Isto é dentro do meu seio familiar, no meu lar, onde existe diálogo, compreensão e união. Não é possível promover a igualdade de género se não houver condições dignas de sobrevivência. Na mesma, tento passar a mensagem às pessoas que vou encontrando no meu dia a dia e tento trabalhar a mentalidade dessas pessoas para que de alguma forma essas pessoas se sintam respeitadas nos seus direitos, não apenas por serem mulheres ou homens, mas por serem mulheres e homens que têm determinadas características que as e que os tornam mais vulneráveis.

A igualdade de género ainda está longe de ser uma verdade absoluta, mas como sou uma sonhadora não deixarei de lutar, sei que daqui a alguns anos a questão ainda não estará resolvida, mas, acredito que todos e todas terão um maior usufruto dos seus direitos.

Nesta luta, juntar-se-ão outros e outras feministas e lutaremos por um conjunto de exigências curriculares e sociais, lutaremos sempre pela promoção da igualdade de género, pela mudança de mentalidades, por uma maior liberdade, sempre que necessário sairemos à rua, em todo o lado encontrar-nos-ão. Acreditem muito ainda vai acontecer… Por isso sim, faz sentido batalhar na igualdade género!

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22
Mar19

Um 8 de março de muita luta!


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ARTIGO DE MANUELA TAVARES

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O 8 de março de 2019 foi um dia em que milhares de mulheres saíram à rua por todo o país, em especial em Lisboa, no Porto e em Coimbra. Foi um grito de indignação perante os assassinatos de mulheres por violência nas relações de intimidade. Foi um sinal do repúdio a uma justiça que insulta as mulheres ao desculpabilizar agressores. Foi um levantar de muitas vozes contra as discriminações salariais, a precariedade no trabalho e na vida das mulheres, o assédio sexual, as muitas horas de trabalho não partilhado nas famílias, entre muitas outras questões que dominam as nossas vidas e tornam os quotidianos muito duros.

Podemos dizer que os feminismos saíram à rua numa grande maré mostrando que os espaços de protesto se alargaram a milhares de mulheres e homens, em especial jovens. É esta emergência de jovens feministas no movimento, que nos faz refletir sobre um presente em que as ideias de uma terceira vaga dos feminismos (identidades fluídas e não binárias) se estão a enraizar e a entrelaçar com reivindicações da segunda vaga, caso da luta contra a violência de género, tudo isto reforçado pela consciência das múltiplas discriminações sobre mulheres negras, imigrantes, trans, de diferentes etnias e capacidades.

Como membro da direção da UMAR sinto que temos grandes desafios pela frente, não só em termos de reflexão política feminista, mas também da ação que é preciso ter em relação ao flagelo da violência contra as mulheres, da prevenção nas escolas, da ação mais concertada ao nível da Educação para a Cidadania e em áreas, que não têm vindo a ser faladas nos últimos tempos com a acuidade que merecem, como as infra-estruturas de apoio a crianças e pessoas idosos na rede de serviços públicos.

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15
Mar19

Lutar por um mundo melhor? Com todo o gosto!


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ARTIGO DE CARINA TEIXEIRA

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O passado 8 de março foi um dia importante mas com sabor agridoce para mim. E porquê, perguntam vocês, já que é uma data comemorativa da Mulher? Este dia leva-me a um misto de emoções, uma vez que é uma efeméride em que se reinvidica direitos, em que relembramos todas as lutas de mulheres operárias por melhores condições de trabalho, dignidade, respeito, entre muitos outros.

Mas... Não esqueço o facto de já 12 mulheres terem sido assassinadas este ano (e ele mal começou...) por companheiros e ex companheiros. Para onde caminhamos? Até quando haverá uma próxima vítima? Até quando teremos uma justiça machista? Até quando acontecerá a próxima intimidação (seja no trabalho ou em espaços públicos), o próximo assobio na rua, a próxima abordagem desagradável, a próxima piadinha machista? Até quando nos iremos calar, enquanto outra mulher é assediada, violentada, maltratada? Quantas mortes ainda iremos chorar? Sim, chorar. Choro por elas, choro por mim e por todas nós, porque mexe com todas nós. Não nos podemos calar!

No 8 de março foi assinalado o Dia Internacional da Mulher por ter sido um dia de luta! A UMAR saiu à rua para distribuir o seu manifesto “Se as Mulheres param, o Mundo para” de reinvidicação por mais direitos para a mulher e entristeceu-me ver a indiferença de algumas mulheres em relação à causa. Entre muitas coisas, ouvi a pergunta "Em vez de um papel, porquê não dão uma flor?". Esta pergunta marcou-me pelo simples facto de tentarmos embelezar e a romantizar este dia. Não estou a dizer que não se possa oferecer flores ou outras lembranças às mulheres. Não, apenas quero que reflitam sobre a essência deste dia, em que muitas de nós morreram, sofreram e lutaram arduamente para conquistar direitos que temos hoje garantidos. Por isso, um simples papel e a luta constante por mais direitos vale ouro comparado com uma flor.

É preciso parar para falar, para lutar, para gritar até que a voz doa por mais sororidade. É preciso dizer basta! Entendam uma coisa: não seremos livres enquanto outras mulheres forem prisioneiras, não seremos fortes enquanto não empoderarmos todas as outras, não poderemos viver normalmente enquanto outras morrem e são tratadas de forma cruel. Por isso, lutem, todos os dias da vossa vida, porque já como dizia Simone de Bouvoir "Basta uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes, terás de te manter vigilante durante toda a tua vida".

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08
Mar19

As Operárias foram as primeiras!


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Elas foram as primeiras a fazer greve. Elas foram as primeiras a se manifestar nas ruas. Elas morreram ao reivindicar melhores condições de vida e de trabalho. Elas saíram das empresas e vieram para as ruas gritar liberdade. Elas saíram das suas casas e quebraram tradições, tirando os lenços e os véus da cabeça, assumindo que também eram trabalhadoras. Elas deram a vida a novos sectores e foram um exemplo que nós recordamos neste 8 de Março.

As mulheres operárias, de quem hoje quase ninguém fala, – e quando falam é como se estivessem a lembrar um passado “atrasado” – foram pioneiras na luta pelos direitos das mulheres, que beneficiou muitas outras profissões. Raramente é feita uma homenagem a estas mulheres. Dizem que ser operária passou de moda. Eu tenho muito orgulho de ter sido uma delas que, no século XX, juntamente com outras camaradas de profissão e de luta, prosseguiu o desígnio da conquista de direitos muito importantes, que ainda beneficiam as novas gerações. É por isso que me indigna que, quando é apresentado um curriculum de uma pessoa (então, se for mulher, ainda puxam mais pelos galões), não se dá importância se é uma interventora social. Isso também passou de moda. Só se realçam os títulos de isto e daquilo que ganhou, como se os títulos mostrassem o caráter de uma pessoa.

Uma mulher ou um homem, quando é apresentado, nunca o é como operária/o porque, na visão de muita gente, ser operária/o não dignifica ninguém. Ninguém deve envergonhar-se da sua profissão. Na minha juventude, ser operária/o, era saber produzir algo de útil para a sociedade. Era conhecer um ofício. Os tempos evoluíram. As máquinas foram introduzidas e substituíram muito trabalho manual. No entanto, ainda são aa pessoas dos ofícios que chamamos para nos acudir quando uma das máquinas avaria, ou quando precisamos de um produto exclusivo, mostrando a importância do ser humano com conhecimento especializado. Estamos a viver noutra época. Hoje, quase toda a gente tem mais estudos e formação do que as operárias/os de outros tempos. Mas se existe este dia 8 de Março, foi porque operárias uniram-se e lutaram, mesmo sem currículos ricos e sem estudos, e ajudaram a que hoje o mundo do trabalho seja melhor, e contribuíram para o avanço da sociedade.

Existem novos problemas. Claro que sim. É preciso continuar a luta. Claro que sim. Vamos honrar a memória das que já partiram, lembrando a sua existência para que sirva de exemplo, e que o dia 8 de Março nunca morra nas memórias. Vale a pena nunca desistir e lutar por aquilo em que acreditamos. Eu continuo a acreditar que só lutando se conseguirá um mundo melhor e mais justo.

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15
Fev19

Educação Cidadã e Prevenção da Violência de Género


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ARTIGO DE MARIA JOSÉ MAGALHÃES

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A escola para todos teve, desde o início, uma componente de educação para a cidadania, constituindo-se como ideal democrático, de progresso e de desenvolvimento humano. Em Portugal, datam do final da Monarquia, os primeiros diplomas legais de uma educação de massas para todos, mas é na I República, com a Reforma de 1911, que se consubstancia uma legislação abrangente, prevendo, não apenas a educação de massas para o sexo masculino, mas também para o sexo feminino.

Apesar de a I República não ter concretizado as promessas que enunciou, o certo é que, em termos de educação, deu forma a uma perspetiva cidadã e democrática, através de uma visão ampla e profunda do papel da pedagogia na construção de uma sociedade assente em direitos de cidadania. Imbuída do espírito do movimento pedagógico que se chamava Educação Nova, foi uma proposta pedagógica e política avançada, de tal forma que ainda hoje tem dimensões de uma atualidade que nos surpreende.

A educação cidadã, na época designada educação cívica, era uma proposta pedagógica de formação das crianças e adolescentes no exercício da cidadania, enquanto conjunto de direitos e deveres. Faço lembrar, por exemplo, a proposta pedagógica de António Sérgio (1883-1969), sobre o auto-governo, em que ele propunha que não se ensina a ser cidadão e cidadã de forma transmissiva e ‘moralista’, mas deve ser feito através da prática da cidadania, desde a mais tenra idade, claro, adaptando às características do período de desenvolvimento das crianças e adolescentes. Na proposta de António Sérgio, assim como de outras/os pedagogas/os, a escola era uma cidade, uma comunidade de trabalho, e aí, dever-se-ia ensaiar os valores e atitudes de uma cidadania democrática, para que, quando adultos e adultas, tivessem o conhecimento e a prática de viver como cidadãos/ãs. A escola não se confundia com ‘instrução’. Era isso e muito mais. O autogoverno (self-government), segundo a proposta pedagógica sergiana, consiste na organização da escola e das atividades, com orientação docente, mas com decisão coletiva das próprias crianças, como num parlamento. Um dos fundamentos de António Sérgio é que as crianças aprendem conteúdos mas também aprender modos de ser e de fazer a partir dos exemplos das/os adultas/os e da forma como são, por estes/as, bem ou maltratados.

Estas/es pedagogos/as do início do séc. XX tinham muito claro que uma educação da e na cidadania democrática exigia uma escola democrática em que as próprias crianças e adolescentes tivessem voz ativa e capacidade de participação nas decisões. Depois deste período áureo da pedagogia, no nosso país, tivemos aquelas quase cinco décadas de fascismo que nos fez regredir em termos de pensamento pedagógico, de tal forma, que talvez ainda não tenhamos conseguido, em termos nacionais, recuperar dessa perda.

Hoje, enquanto feministas e umaristas, defendemos uma educação para a prevenção da violência de género, no contexto de uma pedagogia emancipatória, freireana e feminista. O nosso trabalho situa-se na educação de valores e atitudes como um projeto de um futuro sem violência (não apenas de género). E acreditamos que o tipo de sociedade que atravessaremos no futuro está a ser já hoje desenhada, e a sua concretização está nas mãos das pessoas que, hoje, vivem uma idade de aprendizagem, de ‘preparação’, da qual nós temos de assumir responsabilidades sobre a sua formação.

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07
Fev19

Responsabilidades Parentais e Género: o problema de um sistema judiciário machista


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ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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A parentalidade e as responsabilidades parentais parecem-me influenciadas por uma cultura machista e patriarcal. A forma como a sociedade encara o papel da mulher, enquanto mãe, e do homem, enquanto pai, é bastante díspar. Os processos de regulação das responsabilidades parentais materializam um rol de estereótipos que têm contribuído para essa realidade, qual bola de neve. A ver: à mãe são dados os sinónimos de colo e ternura, garantia de cuidados e proteção, a que trata da casa e da família; ao pai são apontados os momentos de brincadeira, um maior desapego afetivo e o sustento financeiro.

Foi assim durante imensas décadas; ainda o é hoje, apesar das magníficas mudanças que têm acontecido, nomeadamente no que respeita à distribuição de tarefas domésticas e cuidados com os/as filhos/as, nos casais mais jovens. Acontece que, no âmbito da atribuição das responsabilidades parentais, em processos de divórcio, a criança é praticamente reduzida a um objeto de processo judicial e deixa, nesse momento, de ter direito a uma mãe e a um pai, na sua total amplitude. O “superior interesse da criança”, mormente citado no decorrer destes processos, surge, quanto a mim, como um conceito extremamente vago. A mulher dificilmente atingirá plena igualdade de direitos e oportunidades no trabalho enquanto a ela estiver garantida, de forma quase exclusiva, o cuidar dos filhos. Mais acrescento: tendo em conta a maior debilidade socioeconómica das mulheres numa situação de separação e ficando estas com maior sobrecarga com o sustento das crianças e dependentes do cumprimento das prestações alimentares a cargo dos progenitores, mantem-se o ciclo de subalternização do seu papel na família e na sociedade.

O feminismo em que eu acredito, e pelo qual ativamente batalho, combate pela entrada em condições de igualdade do homem nas tarefas parentais, isto é, a criança tem o mesmo direito a ter mãe e pai, incluindo situações de atribuição de responsabilidades parentais. Em Portugal, num estudo feito por Maria Francisca Cunha (2015), para analisar as razões que levam os/as magistrados/as a definir a guarda das crianças, as hipóteses apresentadas pelo leque de participantes foram as seguintes: “A criança deverá ficar a residir com a mãe e ter fins-de-semana alternados com o pai” (46,9%) e “parecem estar reunidas as condições para se fixar um regime de residência alternada”(53,1%). Repare-se que residir com o pai, com fins-de-semana alternados com a mãe, não foi colocado como hipótese. Em relação à relevância dos critérios para a tomada destas decisões, foi concluído que o critério que teve maior importância foi “cuidados básicos prestados pelos progenitores” (53,1%). No que concerne às questões do género – ser pai e mãe – os/as participantes centraram um maior número de respostas (40,6 %) na opinião “nada relevante”.

São dados interessantes mas que não apontam para uma explicação, então, de ser, quase sempre, a mãe a indicada como a que melhor provém os cuidados básicos à criança. Este estudo também analisou que o sexo dos/as magistrados/as não conduz a diferenças significativas na acuidade atribuída a nenhum dos critérios de tomada de decisão. O estudo aponta, ainda, a algumas crenças que juízes apresentam na justificação da sentença, tais como, “é normal e natural que uma criança com apenas 2 anos de idade tenha uma ligação mais próxima com a mãe do que com o pai, pois é a mãe que ao longo desse tempo, em princípio, lhe tem dispensado mais atenção” e “As mães têm muita dificuldade em cortar o cordão umbilical o que dificulta muito a saída da criança do seu ninho”. Será mesmo assim? Será que mães e pais não terão, se assim for construído desde o nascimento, a mesma ligação com a criança? Será que mães e pais não terão a mesma apetência para garantir os cuidados básicos? E, mais importante que tudo, não deveria ter a criança, em situação de divórcio, já por si avassaladora, a garantia da presença de ambos? Claro que cada caso é um caso – e cada casa é uma casa. Repare-se em duas situações em que as coisas devem ser ponderadas de forma especialmente complexa: quando existe forte e persistente conflito entre os progenitores; e quando foram feitas queixas de violência doméstica e/ou abuso sexual de menores.

Porém, tirando estas duas exceções, dentro das paredes da sala de tribunal as decisões são tomadas de forma realmente apartada das questões de género? O que consigo concluir é que o género resulta da estruturação do funcionamento da sociedade, consequentemente da ideologia dos/as magistrados/as e da forma como interpretam as leis.

Está mais que na hora de se começar a alterar a existência dos estereótipos do pai provedor e da mãe cuidadora. Está mais que na hora de se olhar para a criança enquanto ser individual e não como mero objeto judicial.

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11
Jan19

Star Wars e o Feminismo


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ARTIGO DE JOANA MARTINS

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A minha infância foi fortemente influenciada por filmes icónicos de ficção científica, aventura e fantasia, que o meu pai partilhava comigo. Dos quais, tenho que salientar a saga Star Wars, ou Guerra das Estrelas. Vi os primeiros três filmes em cassete VHS, alugada no clube de vídeo mais próximo de casa, pela primeira vez, quando tinha apenas 6 anos. Resta acrescentar que as cassetes pouco pararam no clube de vídeo durante alguns meses…

Perguntar-se-ão, o que tem a ver Star Wars com o feminismo e a igualdade de género? Algumas pessoas dirão que as personagens principais, da saga mais antiga, eram homens. Sim, é verdade. Mas uma personagem feminina destacou-se, sendo a única mulher num trio de protagonistas. Falo da Princesa Leia, ou Leia Organa. Em primeiro lugar, a Leia não representava em nada o estereótipo duma princesa. A sua personagem era uma mulher independente, empoderada, revolucionária. Levava consigo uma arma, que utilizava sempre que necessário para se defender e aos seus companheiros. Era “senhora do seu nariz”, uma General lutando pelo seu povo, contra um Império Galático ditatorial, feito apenas de homens, tenebroso e terrorista.

Não era uma princesa a precisar de alguém que a salvasse – de facto, ela própria ironiza com isso no Episódio IV. Leia salvou-se a si própria em imensas situações, assim como aos seus companheiros. Até nos filmes se defendeu de assédio do seu futuro companheiro, Han Solo, e só quando quis, é que permitiu a sua aproximação. Ajudou a liderar uma rebelião – que, por sua vez, tinha como líder também uma mulher, a Mon Mothma.

Cresci com a Leia no meu imaginário, chegando a reproduzir em mim os seus célebres penteados. Inspirava força a meninas como eu, a crescer sem baixar a cabeça, a lutar por ideais, a não seguir estereótipos. Apesar disso, a indústria cinematográfica, habituada às típicas donzelas à espera de serem resgatadas por príncipes encantados, às mulheres estereotipadas, ainda fez com que Leia tivesse que vestir um biquíni dourado ao ser escravizada pelo infame Jabba the Hutt no Episódio VI. Aparentemente, teria havido uma cedência. Mas, no alto do seu biquíni dourado, Leia mata Jabba, estrangulando-o com a corrente que a prendia. E logo, consegue se libertar. Quebrando o estereótipo da mulher frágil, fraca, à espera de ajuda.

Ao descobrir, pela primeira vez, que a Força também estava presente nela, e não apenas em personagens masculinas, fiquei feliz da vida. Porque brincava de Jedi com paus de vassoura no quintal da minha avó, imaginando se também haveria alguma mulher Jedi. Ao longo de anos, fui imaginando uma continuação da história de Star Wars, onde Leia se tornaria uma poderosa Jedi, o que foi até retratado em alguns livros que saíram posteriormente aos filmes. Infelizmente, a Disney escolheu outro caminho para Leia.

Não podemos menosprezar a ficção, porque esta tem um grande alcance, e transmite mensagens que influenciam positiva ou negativamente várias gerações, tal como servem de espelho para o que se passa no mundo, contemporaneamente. Com a quebra de tantos paradigmas, Leia tornou-se um ícone feminista. Foi, sem dúvida, a personagem feminina com mais impacto em Star Wars – sem menosprezar a sua mãe, a Senadora Padmé Amidala, ou a atual protagonista, Rey. Porque foi uma mulher/personagem à frente do seu tempo e mostrou ao mundo, em 1977, que as mulheres são capazes de tudo o que quiserem.

Infelizmente, a atriz Carrie Fisher faleceu consequência dum ataque cardíaco em 2016. Fica aqui a minha homenagem, tardia, e gratidão por ter encarnado Leia, uma personagem que tanto marcou a minha infância e juventude.

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07
Jan19

O Mundo preocupa-me...


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

mundo

Assusta-me o rumo que o nosso Mundo tem vindo a tomar… Nos últimos anos, assisti a uma série de lutas pelo reconhecimento de direitos e igualdade. Entre elas, estão as lutas de mulheres, jovens, comunidade LGBT, etc. Porém, é com muita tristeza que observo um aumento das ameaças, das discriminações, das desigualdades, das violências...

Estamos a assistir a um fenómeno mundial. Tenho visto um forte crescimento dos fundamentalismos, da intolerância e do conservadorismo, bem como a defesa pública de posições contrárias aos direitos humanos, totalmente xenófobas, anti-igualitaristas, racistas, patriarcalistas, homofóbicas e que não aceitam os avanços da igualdade, seja no acesso aos direitos, seja nas liberdades de escolhas e expressões. Por detrás destas manifestações e discursos, constroem-se figuras públicas e políticas, como é o caso do Trump nos EUA, o Erdogan na Turquia – e passo a citar uma frase desta figura: "Uma mulher que nega ser mãe, que se recusa a cuidar da casa, é incompleta e deficiente”. Ora, isto é um absurdo total, e a mais recente figura, o Bolsonaro, acabou de chegar à presidência do Brasil.

Mas existem muitas mais figuras como estas pelo mundo fora. Com este tipo de mentalidades a comandar o Mundo, as consequências são assustadoras! O nosso Mundo caminha para o retrocesso. Passamos a ter sociedades mais limitadas nas liberdades, menos tolerantes e mais violentas com as diferenças, mais liberais no que diz respeito à defesa da violência como mecanismo de proteção e do avanço de fazer a justiça pelas próprias mãos.

É a triste realidade que enfrentamos, sociedades menos democráticas e igualitárias. A Europa, que para mim sempre foi um exemplo de defesa e de respeito na questão dos Direitos Humanos, nos últimos anos só tem demonstrado uma crise humanitária ao deportar milhares de migrantes, para já não falar nos que deixaram morrer no mar Mediterrâneo. Mas o que se passa com este Mundo?

Falamos em Direitos Humanos, direitos que nos pertencem desde que nascemos, e a igualdade deve ser prioritária no Mundo. Todo o ser humano deve ter os seus direitos! Mas será que estes malucos eleitos governantes não sabem o que são Direitos Humanos? Eu exemplifico: é ter direito à vida, habitação, alimentação, saúde, educação, ao desporto, à cultura, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito, ao acesso à justiça e à segurança pública. Estão a ver? É tão simples, todos estes direitos devem ser garantidos pelos governos.

Não podemos nem devemos aceitar que todas as conquistas alcançadas, com muita luta e com algum sangue derramado, sejam destruídas. Que mais podemos fazer para mudar as mentalidades que não ponderam sobre este assunto e que precipitam o Mundo para um caminho que poderá ser desastroso?! Como disse Martin Luther King “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” Por favor, que o Mundo não se cale!

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02
Jan19

O Feminismo na Música


umarmadeira

ARTIGO DE CARINA TEIXEIRA

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Hoje vou falar-vos sobre uma pessoa que, para mim, é uma inspiração, não só como cantora, mas também como pessoa: a Beyoncé. Como muitos sabem, muitas das músicas de Beyoncé têm uma perspetiva feminista, nomeadamente sobre o empoderamento das mulheres a nível financeiro, de obterem a sua própria independência, sobre cuidarem de si mesmas e, ainda, sobre a superação após o fim de um relacionamento. Falamos de singles como “Independent Woman”, “Survivor”, “Me, Myself and I”, “If I Were a Boy”, “Run the World (Girls)”, entre outros.

O single “Irreplaceable” é um dos singles da cantora que mais gerou controvérsia e que foi entendido como uma afronta aos homens, uma vez que se trata de uma letra que fala sobre um término de relacionamento por causa de uma traição, em que a mulher o substitui por outro, tratando o homem como algo descartável. A cantora inverte os papéis para provar um ponto de vista, fazendo uso do lugar do masculino para falar do feminino, uma vez que, na sociedade patriarcal em que vivemos, muitas mulheres são tratadas como objetos e são vistas como substituíveis pela próxima (independentemente da idade, da beleza, etc). Ou seja, ela faz-nos ver como é cruel tratar as pessoas como se tivessem um prazo de validade e não tivessem nenhum valor.

Durante toda a sua carreira de cantora, nos concertos ao vivo, Beyoncé apela ao feminismo, fazendo discursos sobre o assunto. Gostaria de referir um, uma vez que ainda hoje me toca bastante: “Nós ensinamos as meninas a se retraírem para diminuí-las. Nós dizemos a elas para terem ambição, mas não muita. Que devem ser bem-sucedidas, mas não muito porque, caso contrário, ameaçarão os homens. Nós educamos as meninas a se verem como concorrentes, não pelo emprego e realizações – o que penso que pode ser uma coisa boa – mas, sim, pela atenção dos homens. Nós ensinamos as meninas que não podem ser sexuais da mesma forma que os meninos são. Por eu ser mulher, esperam que eu queira casar e esperam, ainda, que eu faça as minhas próprias escolhas na vida, tendo em conta que o casamento é o mais importante. Uma pessoa que é feminista acredita na igualdade social, política e económica entre os sexos.” (Discurso no TEDxEuston, 2013, traduzido)

Contudo, apesar da cantora ter uma perspetiva feminista e ser ativista pela igualdade de género, muitos críticos pensam que é uma farsa e que se trata apenas de uma autopromoção e oportunismo. Independentemente disso, o que esta mulher demonstra na sua discografia é a constante preocupação com os problemas que afetam o universo da mulher.

O que fica é a propagação positiva da mensagem de incentivo, superação, independência, realização profissional, inspiração para realizar os seus sonhos, alcançar objetivos, ou seja, o empoderamento das mulheres.

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03
Dez18

As Super-Mulheres


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Às mulheres de hoje em dia, de países desenvolvidos como o nosso, são, muitas vezes, exigidos superpoderes para levar a cabo com todas as responsabilidades que têm no dia-a-dia, assim como para provar o que valem, numa sociedade onde cada vez mais impera a concorrência e a superficialidade.

As mulheres trabalham mais em casa. As mulheres cuidam mais dos/as filhos/as e familiares doentes. As mulheres fazem mais voluntariado. As mulheres estudam mais. Mas as mulheres têm mais dificuldade em aceder a cargos de topo nas carreiras e ganham, em média, para o mesmo trabalho menos 18% do que os homens. Estes são, de forma muito geral, os dados de vários estudos atuais feitos em Portugal. No entanto, apesar de todas as desigualdades que persistem, às mulheres é sempre exigido mais. Têm que se encaixar nos padrões sociais – e nem sequer falo dos padrões de beleza – ou são olhadas de lado, com estranheza. Têm que casar e ter filhos/as. Senão, são egoístas. Têm que escolher uma carreira com horários que lhes permitam fazer tudo o resto, mesmo que não lhes traga qualquer realização pessoal. Senão, são extraterrestres (“o que é essa coisa de escolher a felicidade em primeiro lugar?”). Têm que trabalhar fora pois, se trabalham em casa (às vezes, mais do que 8h por dia), mesmo pagando os seus impostos e descontos, são vistas como “eternamente desempregadas e disponíveis”, sendo sobre elas que, muitas vezes, a família coloca o peso de responsabilidades familiares. Senão, se impõem respeito pelo seu trabalho, não prestam.

As mulheres têm que se comportar e vestir de determinada maneira, discretas e recatadas. Senão, são p…. As mulheres têm que ser calmas e compreensivas, mesmo com quem lhes ofende ou ataca. Senão, são intolerantes. As mulheres têm que ser assim ou assado, as mulheres têm que fazer isto ou aquilo, as mulheres têm que… têm que… têm que… Ao mínimo “deslize” ou “fuga dos padrões impostos”, cai-lhes o mundo em cima. E, infelizmente, são outras mulheres que, em primeiro lugar, apontam o dedo.

Nesta era das redes sociais, onde o que vale, em primeiro lugar, são as aparências, é bastante evidente este apontar de dedos e julgamentos imediatos, irracionais e cheios de preconceitos. Enquanto esta mentalidade se mantiver, muitos flagelos vão também se manter. Enquanto se encontrar desculpas para o gap salarial e falta de partilha das tarefas domésticas (“ele chega tão cansado a casa, trabalha tanto”), para a violência doméstica (“ele era bom vizinho e tão boa pessoa, deve ter perdido a cabeça”), para o assédio sexual e violações (“ela estava a pedi-las, vestida dessa maneira, eles não resistiram”) e para tudo o resto, nunca existirá uma verdadeira igualdade de género.

Igualdade de género é, em primeiro lugar, sinónimo de respeito. Respeito pelas diferenças, permitindo que, seja qual for o sexo e género duma pessoa, ela possa ter os mesmos direitos e oportunidades. Feminismo é lutar para que as mulheres tenham os mesmos direitos do que os homens. É sinónimo de igualdade.

As mulheres não têm superpoderes, nem têm que os ter. As mulheres não têm que ser super-mulheres, super-mães, super-isto ou aquilo. As mulheres têm o direito a ser como quiserem, fazer o que quiserem, e escolher o que quiserem para a sua vida. Sem que lhes apontem o dedo e lhes caiam em cima, com falsos moralismos.

O que é bom para uma mulher, pode não ser bom para outra. Isto é respeito. Sejam super-mulheres sim, mas naquilo que quiserem. E, principalmente, umas para as outras. Precisamos de mais respeito, sororidade e solidariedade.

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