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Feminismos é Igualdade

06
Dez18

Com o cabelo curto, os gajos deixam-te em paz, não?


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

monalisa

O título deste artigo foi-me colocado em forma de questão por um conhecido. No desenrolar de uma conversa banal, perguntou-me isso. Intrigou-me a assertividade com que o fez, como se soubesse, de antemão, qual seria a minha resposta. Preferi retorquir e colocar-lhe, antes, uma dúvida:

- Os homens são assim tão frágeis nas questões de feminilidade e masculinidade?

Não me respondeu.

Cortar o cabelo, uma decisão puramente estética e, convenhamos, de tentar perder menos tempo e dinheiro com cuidados capilares, trouxe-me duas coisas: a liberdade que eu procurava e um rol de opiniões. Não devias ter cortado. Estás doente?! Mulheres devem ter o cabelo mais comprido. Os homens não gostam de cabelos curtos em mulheres. O teu namorado gosta desse cabelo? Podem pensar que és lésbica. És machona?

Cortar o cabelo: uma coisa tão simples e feliz para mim, um modo de estar, uma banalidade. Para a sociedade: mais um problema, mais uma imposição, mais um senão. A sociedade acha que mulheres de cabelo curto não são femininas. Não são atraentes. Não são heterossexuais. A sociedade acha que as mulheres devem manter cabelos compridos e tratados para seduzir os homens, para estarem atraentes para os homens. A sociedade acha, como tem a mania de achar, em tudo o que diz respeito às mulheres, ao seu lugar no mundo, às suas vontades, aos seus desejos, às suas formas de expressão. E eu estou farta disso. Fartinha até às pontas dos meus cabelos curtos que achem por nós, que pensem por nós, que decidam por nós.

Cabelo não define caráter. Cabelo não define género. Cabelo não define orientação sexual. Cabelo não define expressão de género. Cabelo não define beleza ou sensualidade. Cabelo não define profissionalismo ou responsabilidade. Cabelo não define empenho ou inteligência. Cabelo só define uma coisa: a minha vontade. E uma coisa que deveria ser tão simples, tornou-se uma afirmação diária do meu empoderamento.

Todas nós temos algo que é apontado pela sociedade. Seja o tipo de corpo, a forma de vestir, as escolhas, os sonhos, de quem gostamos, como gostamos, como reagimos, como interagimos. Todos os dias essas coisas são alvo de opinião. Todos os dias sofremos algum tipo de opressão, de repressão, de silenciamento.

Eu quero que os homens respeitem o meu não sem ser preciso uma justificação. Não quero que o façam por causa do meu cabelo. Ou da minha roupa. Ou da minha maneira de ser. Ou da minha profissão. Quero que me respeitem por mim: eu, mulher, ser humano, dona de um corpo, de uma cabeça, de um coração. Quero que nos respeitem por sermos simplesmente nós – mulheres: magras, gordas, donas de casa, empresárias, vistosas, recatadas, hétero, lésbicas, bissexuais, assexuais, trans, tímidas, extrovertidas, de cabelos rapados ou compridos, na rua, em casa, na família, no emprego, com deficiência, com limitações, com depressão, negras, brancas, latinas, asiáticas, solteiras, casadas, viúvas, meninas, raparigas, idosas. Todas temos uma voz e não queremos nada que se sobreponha a ela.

E já que falamos de cabelos: os meninos, rapazes e homens podem tê-lo comprido. Chega de estereótipos, sim?

bannerValentina

03
Dez18

As Super-Mulheres


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

supermulheres

Às mulheres de hoje em dia, de países desenvolvidos como o nosso, são, muitas vezes, exigidos superpoderes para levar a cabo com todas as responsabilidades que têm no dia-a-dia, assim como para provar o que valem, numa sociedade onde cada vez mais impera a concorrência e a superficialidade.

As mulheres trabalham mais em casa. As mulheres cuidam mais dos/as filhos/as e familiares doentes. As mulheres fazem mais voluntariado. As mulheres estudam mais. Mas as mulheres têm mais dificuldade em aceder a cargos de topo nas carreiras e ganham, em média, para o mesmo trabalho menos 18% do que os homens. Estes são, de forma muito geral, os dados de vários estudos atuais feitos em Portugal. No entanto, apesar de todas as desigualdades que persistem, às mulheres é sempre exigido mais. Têm que se encaixar nos padrões sociais – e nem sequer falo dos padrões de beleza – ou são olhadas de lado, com estranheza. Têm que casar e ter filhos/as. Senão, são egoístas. Têm que escolher uma carreira com horários que lhes permitam fazer tudo o resto, mesmo que não lhes traga qualquer realização pessoal. Senão, são extraterrestres (“o que é essa coisa de escolher a felicidade em primeiro lugar?”). Têm que trabalhar fora pois, se trabalham em casa (às vezes, mais do que 8h por dia), mesmo pagando os seus impostos e descontos, são vistas como “eternamente desempregadas e disponíveis”, sendo sobre elas que, muitas vezes, a família coloca o peso de responsabilidades familiares. Senão, se impõem respeito pelo seu trabalho, não prestam.

As mulheres têm que se comportar e vestir de determinada maneira, discretas e recatadas. Senão, são p…. As mulheres têm que ser calmas e compreensivas, mesmo com quem lhes ofende ou ataca. Senão, são intolerantes. As mulheres têm que ser assim ou assado, as mulheres têm que fazer isto ou aquilo, as mulheres têm que… têm que… têm que… Ao mínimo “deslize” ou “fuga dos padrões impostos”, cai-lhes o mundo em cima. E, infelizmente, são outras mulheres que, em primeiro lugar, apontam o dedo.

Nesta era das redes sociais, onde o que vale, em primeiro lugar, são as aparências, é bastante evidente este apontar de dedos e julgamentos imediatos, irracionais e cheios de preconceitos. Enquanto esta mentalidade se mantiver, muitos flagelos vão também se manter. Enquanto se encontrar desculpas para o gap salarial e falta de partilha das tarefas domésticas (“ele chega tão cansado a casa, trabalha tanto”), para a violência doméstica (“ele era bom vizinho e tão boa pessoa, deve ter perdido a cabeça”), para o assédio sexual e violações (“ela estava a pedi-las, vestida dessa maneira, eles não resistiram”) e para tudo o resto, nunca existirá uma verdadeira igualdade de género.

Igualdade de género é, em primeiro lugar, sinónimo de respeito. Respeito pelas diferenças, permitindo que, seja qual for o sexo e género duma pessoa, ela possa ter os mesmos direitos e oportunidades. Feminismo é lutar para que as mulheres tenham os mesmos direitos do que os homens. É sinónimo de igualdade.

As mulheres não têm superpoderes, nem têm que os ter. As mulheres não têm que ser super-mulheres, super-mães, super-isto ou aquilo. As mulheres têm o direito a ser como quiserem, fazer o que quiserem, e escolher o que quiserem para a sua vida. Sem que lhes apontem o dedo e lhes caiam em cima, com falsos moralismos.

O que é bom para uma mulher, pode não ser bom para outra. Isto é respeito. Sejam super-mulheres sim, mas naquilo que quiserem. E, principalmente, umas para as outras. Precisamos de mais respeito, sororidade e solidariedade.

bannerJoana

05
Nov18

Je suis Trump


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

800

Kathryn Mayorga é hoje um nome amplamente conhecido pelos portugueses, e pelo mundo em geral por ter vindo a público afirmar ter sido vítima de violação de Cristiano Ronaldo. Não podia deixar passar a oportunidade de postular a minha visão sobre o sucedido nos últimos meses. A americana, como ficou simplesmente conhecida, tornou-se para milhões no rosto da infâmia, do desplante e do profano ao acusar o melhor jogador de futebol de todo o planeta de a ter sodomizado num quarto de hotel em Las Vegas há sensivelmente nove anos, altura em que Cristiano estaria a chegar a Madrid para abraçar uma feliz carreira no Real.

Sobre esta denúncia cabe-me explorar apenas dois factos que me parecem ser inquestionáveis:

Facto número 1: Cristiano Ronaldo é indubitavelmente o melhor jogador de futebol da nossa época e provavelmente o melhor de sempre (G.O.A.T.), tem sido um exemplo dentro e fora do campo ao contribuir financeiramente para diversas causas, tem sido igualmente uma das principais razões pela qual a Madeira tem vindo a estar na boca do mundo e eu quero que ele seja inocente partindo sempre do pressuposto de que toda a pessoa é inocente até prova em contrário.

Facto número 2: Com a denúncia pública, Kathryn Mayorga submeteu-se ao escrutínio dos jornais e ao julgamento popular sendo que este último demonstrou estar à altura da inquisição e da caça às bruxas e no caso particular do que foi possível ler nas redes sociais, digno de um reino sem lei.

O povo, soberano e sóbrio, metódico e justo como habitualmente não se coibiu de julgar na praça pública (ou nas redes sociais, o que é o mesmo). Com toda a sua sapiência e mesmo sem conhecerem os factos da noite em que tudo aconteceu, muita gente foi célere em afirmar que “A americana” era tudo e mais alguma coisa menos uma mulher que não quisesse ser violada por uma celebridade. Muitas das pessoas que se apressaram a lançar os mais diversos epítetos contra a senhora sem conhecimento de causa são as mesmas que se riem de Donald Trump quando este afirma que o aquecimento global é um embuste porque tem um dom natural para a ciência uma vez que teve um tio que foi professor de ciências numa prestigiosa universidade (sim, isto é verídico!).

Não obstante Ronaldo ser Ronaldo e eu sentir orgulho na sua carreira futebolística, abstenho-me de fazer julgamentos em praça pública contra uma mulher que diz ter sido violada. A violação é um acto de violência e não de amor propriamente dito e eu não estava presente no local e não assisti ao ocorrido logo não posso, em plena consciência, adjectivar seja lá quem for, mas conheço muita gente que o pode fazer, é caso para dizer que em algum momento das nossas vidas todos nós somos Trump dependendo da visão sobre o mundo.

O que se disse nas redes sociais serviu para demonstrar que Portugal, em particular, ainda é um país embebido num machismo cego. Resta-nos remar contra a maré até que a maré corra no nosso sentido.

bannerclaudio

22
Out18

Falando sobre publicidades...


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Nos anúncios publicitários, sejam eles sobre cerveja, refrigerantes ou até mesmo detergentes, quase sempre vemos as mulheres a serem tratadas como um brinde idiota, estereotipada ou até mesmo sedenta de desejo carnal.

Ora vejamos, na época de Verão é comum passar campanhas publicitárias sobre a cerveja X e Y. É Verão, está calor e as mulheres aparecem de biquíni ou de calções muito reduzidos nos seus belos corpos. Corpos sem voz. Sim, sem voz, porque elas nunca falam.

O comum de quase todas as publicidades de cerveja é que andam à volta de um grupo de homens que se encontram num bar ou numa praia, onde as mulheres aparecem representadas como jovens belas, exibindo os seus belos corpos com pouca roupa e cujo papel na publicidade não é aparecer como amigas, ter uma conversa e, ao mesmo tempo, saborear a cerveja que estão a promover. A única função das mulheres nestas publicidades é servir de objeto de desejo para esses homens.

Começo a pensar que os responsáveis por este tipo de publicidade não entendem que as mulheres também consomem a cerveja. Parecem ter parado no tempo onde “as mulheres de família” não frequentavam bares, não bebiam, não tinham amigos homens. Deve fazer algum sentido para eles, mas no meu raciocínio não encontro um motivo que direcionem a publicidade de cerveja somente para o público masculino, quando este produto que grande parte dos adultos consome, sejam eles, homens, mulheres, transexuais, homossexuais, etc.

Num anúncio, que foi lançado há já alguns anos de uma conhecida marca de refrigerante, nota-se claramente que é dirigido ao público feminino. Na publicidade, observamos o homem da limpeza aproveitando a sua pausa laboral sem t-shirt, exibindo os seus incríveis abdominais e saboreando o refrigerante, enquanto um grupo de mulheres observa e suspira, ao som de uma música, imaginando um striptease sensual. Agora pergunto, estão a promover o refrigerante? Algum ginásio? Ou simplesmente querendo dizer que as mulheres são umas sedentas de desejo carnal e que não estão nem aí para o refrigerante ou só irão beber o refrigerante pela imagem dos incríveis abdominais?

Recentemente começou a passar a publicidade do detergente perfumado à volta de um homem todo jeitoso de tronco nu a tirar a roupa da máquina de lavar. Mais uma vez, não consigo entender a mensagem. Querem passar a mensagem de que o homem deve partilhar as tarefas domésticas? Querem promover o produto que supostamente serão as mulheres a comprar? Ou será que por ser a imagem de um homem em tronco nu faz disparar as vendas do produto?

Na verdade, as pessoas não observam com a atenção devida as mensagens que as publicidades passam, geralmente fazem zapping ou simplesmente pensam “é só mais uma” ou, então, se uma de nós comentar a má representação das mulheres nos anúncios provavelmente iremos ouvir que “não temos nada para fazer para darmos importância a publicidades”. Se tivermos a ideia de colocar nas redes sociais a nossa opinião, levamos com uns engraçadinhos a nos dizerem que o lugar das mulheres é na cozinha!

A pergunta é “as publicidades são más porque o público é mau, ou é ao contrário”?

Não consigo encontrar uma solução para que terminem com este tipo de publicidades que gostam de passar a imagem de que as mulheres são fúteis e vazias. Mas acredito que, se as mulheres que não gostam de se ver representadas por aquelas mulheres dos anúncios se unirem, se reivindicarem e fizerem pressão, são passos importantes e necessários para uma sociedade igualitária.

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08
Out18

Funchal Pride e os Preconceitos


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Pelo segundo ano consecutivo, participei na marcha e arraial do Funchal Pride, como pessoa, ativista, humanista e UMARista. Ainda me faz muita confusão a hipocrisia e quantidade de preconceitos patentes na sociedade quando, na realidade, cada pessoa tem o direito a ser como é, a se expressar como deseja e a amar quem ama, sem ter que estar constantemente sujeita a juízos de valor, a discriminações e a insultos. A diversidade deve ser apoiada, respeitada e abraçada.  Só o Amor é real. Isto deveria ser claro como água e o respeito deveria estar acima de tudo.

Mas, infelizmente, ainda há um longo caminho a percorrer. Apesar de ser heterossexual, julgo ser importante fazer parte da causa LGBTIQ, como feminista que sou, que defende a igualdade de género. A luta pela igualdade não tem sexo, nem género, nem orientação sexual. É de todas e de todos. Enquanto houver discriminação e incompreensão, não existirá uma verdadeira igualdade.

Deixo-vos um poema sobre os preconceitos, que poderão encontrar no meu livro “O Sonho, a Vida e o Universo: pelos olhos de uma mulher”. Sejam quem são, aceitem as outras pessoas tal como são, e sejam felizes. O mundo irá se tornar, de certeza, um lugar bem melhor.

 

PRECONCEITOS

 

Se emagreço estou doente,

Se engordo sou descuidada…

Que sociedade exigente!

 

Se sou feia não tenho saída,

Se sou bonita não tenho conteúdo…

Que sociedade deprimida!

 

Se estudo não tenho mais que fazer,

Se trabalho sujeito-me a tudo…

Que sociedade de maldizer!

 

Se vou à missa sou uma beata,

Se não vou à missa sou má pessoa…

Que sociedade insensata!

 

Se gosto de homens estou desgraçada,

Se gosto de mulheres fujam de mim…

Que sociedade limitada!

 

Se não me caso sou pecadora,

Se me caso sou obediente…

Que sociedade conservadora!

 

Se não tenho filhos fico pra tia,

Se tenho filhos fico no lar…

Que sociedade negativa!

 

Se limpo a casa, sou uma rainha

Se não limpo, sou uma incapaz…

Que sociedade atrasadinha!

 

Deixem de lado a maldade

E ajam com mais delicadeza.

Entendam que na diversidade

É que está a nossa riqueza.

 

Somos iguais e diferentes

Mas temos os mesmos direitos,

Sejamos então mais coerentes

E abandonemos os preconceitos.

bannerJoana

 

21
Set18

Sexismo: aqui, ali e acolá


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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A final do US Open feminino do passado dia 09 de Setembro ficou marcada por duas questões memoráveis: a primeira foi a vitória histórica da jovem nipónica Naomi Osaka; a segunda, bem mais relevante para este artigo, foram os acontecimentos dentro do campo que se fizeram repercutir pelo mundo do ténis e não só, e que são, infelizmente, tema de debate aceso das últimas semanas.

O encontro ficou manchado por uma discussão acesa entre Serena e o árbitro português, Carlos Ramos, que penalizou a norte-americana por indicações recebidas por parte do treinador; esta penalização levou a atleta a partir a raquete e a ter uma discussão acesa com o fiscal da partida invocando sexismo por parte do mesmo pois, a seu entender, o mesmo não teria acontecido a um atleta masculino. Ora, eu confesso que não sei se a Serena Williams tem razões para a acusação ou se foi uma atitude de mau perdedor mas o que eu sei, e tenho a certeza do que vou afirmar, é que o sexismo é um problema real e presente no desporto, na vida académica bem como no mundo empresarial.

Infelizmente a mulher continua a ser alvo de discriminação de género, ora porque aos olhos da banalidade e da ignorância são consideradas incapazes de desempenhar determinadas tarefas, ora porque aos olhos da sociedade é esperado que a mulher tenha um determinado tipo de comportamento e acredito que não deve haver nada mais difícil do que uma mulher querer ser simplesmente tratada ao nível de um qualquer homem e não o ser! Eu que sou determinado e não acredito em fatalismos ou determinismos fico apreensivo perante estes cenários que na verdade não abrem muitas portas no que respeita à igualdade de género. Nas empresas é esperado que a mulher tenha um alto desempenho, que receba (em média) menos do que um homem e que se silencie perante determinados casos de assédio, e refira-se que o mais pequeno piropo é também assédio e não uma mera piadinha para a malta se rir um bocado.

Na política continua a ser difícil atingir a paridade absoluta das listas eleitorais porque a maioria dos homens não pretende abdicar dos seus cargos , ou, numa outra vertente a própria população apresenta alguma resistência em votar numa mulher em detrimento de um homem. Longo é ainda o caminho a percorrer nesta vertente. No desporto, é esperado que a mulher tenha um determinado tipo de comportamento, nomeadamente que aceite todas as decisões da arbitragem sem que com isso tenha o direito de as contestar, quiçá esse seja o papel do homo sapiens; recordo-me de John McEnroe (o eterno bad boy do ténis) e das suas birras constantes no campo com árbitros e outros atletas mas no geral provocada risada do público e não as críticas que recebeu Serena Williams. Mas enfim, são estes facilitismos que tem o meu género, era um bad boy e não uma tipa qualquer que tem de dar o exemplo e não pode ceder às emoções.

Atenção - Muita Atenção, não pretendo, nem por um segundo, defender e desculpabilizar as atitudes em campo da estadunidense, um mau perder é sempre um mau perder e a raiva incontrolável no desporto é sempre condenável quer seja por parte de um homem ou de uma mulher e isto é igualdade de género.

 

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03
Set18

O livro feminista de 1715


umarmadeira

ARTIGO DE CONCEIÇÃO PEREIRA

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Fina d´Armada, uma companheira da UMAR entretanto falecida, viveu grande parte da sua vida a procurar livros e notícias de mulheres que protagonizaram grandes feitos, mas que os historiadores esqueceram, esconderam, desvalorizaram.

Assim, nas suas buscas pelos arquivos, encontrou um livro publicado pela 1ª vez em 1715 e que foi reeditado em 1741,1743 e 1793, sendo que este último se encontra na Biblioteca Pública Municipal do Porto. Esta obra foi publicada com o título: Bondade das Mulheres Vendicada e Malícia dos Homens Manifesta. Está assinada por “Paula da Graça, natural da Vila de Cabanas e assistente nesta Corte”.

Trata-se de um pequeno livro, escrito em verso, composto por 72 quintilhas (estrofes de cinco versos), tantas quantas os livros da Bíblia. A autora responde a uma jovem que lhe pede conselho sobre o seu casamento e ela vai abordando os problemas que as mulheres enfrentam:

- o casamento era um tirano estado;

- a não existência de equivalentes empregos, a riqueza e o gosto é dado aos varões;

- havia mulheres muito oprimidas;

- a interpretação desvirtuada da bíblia, valorizando a culpa feminina e ocultando a   masculina;

- só se falava dos heróis e não das heroínas;

- para entreter as mulheres destinaram-lhe os enfeites, retirando-lhe todo o resto;

- os direitos das mulheres foram-lhes retirados pelos homens;

- assassínio de esposas;

- violência doméstica (“depois partem-lhes as costas”).

Segundo Fina d’Armada, a autora estaria a responder ao autor do livro Malícia das Mulheres, em que este as acusa de manhosas, comedeiras, respondonas, astuciosas, falsas, vaidosas, inconstantes, interesseiras, velhacas. Por esta época e já no século anterior, foram escritos livros acusando e humilhando as mulheres de serem símbolo de astúcia e falsidade. E ainda davam conselhos, entre outros, aos homens para casarem com meninas muito novinhas, antes de adquirirem autonomia, para melhor as dominarem. Até havia o seguinte provérbio: Em dia de São Tomé, quem porco não tiver, mate sua mulher.

Fina d’Armada tece o seguinte comentário: “O que não deve ter passado pela cabeça de moralistas e seguidores é que algum dia algumas se erguessem e cumprissem a promessa de Paula da Graça, feita há 300 anos: “a todos hei-de tomar / conta igual das suas vidas”.

No entanto, muitos dos problemas enumerados por Paula da Graça ainda persistem, apesar dos avanços civilizacionais e das lutas que algumas mulheres têm vindo a implementar, de forma organizada. Porém, ainda falta quebrar muitas barreiras impostas às mulheres, que são mais de metade da humanidade.

António Salvado considera, assim, que talvez estejamos perante o 1º grito revolucionário feminista da nossa literatura.

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03
Ago18

O Assédio e a FIFA


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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A poucos dias da final do campeonato do mundo de futebol masculino sénior a FIFA recomendou aos produtores das principais estações televisivas que evitassem transmitir imagens de mulheres atraentes nas bancadas dos estádios. Assim que se começou a falar do assunto, confesso que não compreendi a diretiva pois não posso negar que uma mulher bonita num estádio de futebol chama a atenção dos olhares, quer sejam mais discretos ou não. Ainda assim fiz o que me competia e esmiucei as verdadeiras intenções daquele organismo e acontece que as razões prendem-se com um aumento substancial de casos de assédio sexual às mulheres durante o torneio e em especial às jornalistas que simplesmente estavam a cobrir o evento. Ora sobre esta díade (assédio/mulheres nos jogos de futebol) gostaria de tecer as seguintes considerações:

O futebol tem assistências de ambos os géneros e o aumento dos casos de assédio sexual durante o mundial de futebol pode estar relacionado com a tendência de televisionar as espectadoras mais bonitas nos estádios mas para se auferir esta possibilidade seria necessário efectuar-se um estudo e até ao momento desconheço a existência de um. Mais, a mulher, gorda, magra, alta ou baixa tem o direito de se sentir bem da forma que melhor entender e tem, naturalmente, o direito a se sentir bonita perante a sociedade. O problema do assédio é do homem que não sabe discernir um jogo de futebol e a sua sexualidade. O problema, em meu entender, nem sequer é da generalidade dos homens mas sim de uns quantos homo sapiens a quem ainda não se desenvolveu um neocórtex que lhes permita pensar e actuar como uma pessoa civilizada. Convenhamos, a evolução humana está ainda longe de ter chegado à maioria dos homens e infelizmente assiste-se a esta dominância da testosterona nas sociedades que se querem civilizadas. Ainda no decorrer deste mês, uma libanesa foi assediada no Egipto por dois arrumadores de carros e ao que parece até os condutores da Uber não foram muito diferentes, como se isto não bastasse a mulher criticou o país nas redes sociais e acabou por ser condenada a oito anos de prisão efectiva. Estes casos são preocupantes e merecem toda a atenção mas e aquelas mulheres que são vítimas de assédio longe das televisões!? A responsabilidade também cai sobre as mulheres que vão aos estádios? E as mulheres vítimas de assédio nas empresas onde trabalham? O problema do assédio não se prende, ou pelo menos não deveria se prender, com o facto de alguém estar a ver as pernas de onze homens a correr atrás de uma bola e assim que a imagem passa para a bancada a testosterona sobrepõe-se ao neocórtex ou às emoções do futebol.

Em suma, não creio que se resolva o assédio minimizando as aparições de mulheres bonitas nos estádios, como já referi anteriormente, o problema não é da mulher que gosta de se sentir bonita mas sim de alguns homens e da actuação da justiça que deixa a desejar e faz vista grossa quando o problema é o assédio!

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