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Feminismos é Igualdade

11
Fev19

A pobreza, a exposição à violência e as leis que não saem do papel


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

pobreza

O risco de pobreza que atinge a nossa sociedade é escandaloso e constitui uma das maiores provas da crueldade humana, sobretudo porque faz as suas vítimas entre os grupos mais frágeis, nos quais se incluem aqueles que sofrem todo o tipo de violência, nomeadamente a violência doméstica, que, em Portugal, continua a alastrar de forma assustadora, apesar de todos as batalhas travadas, e de toda as leis criadas, pois a aplicação das mesmas esbarra, sistematicamente, com a força dos modelos tradicionais da sociedade patriarcal que continua a dominar.

É essa tradição secular que castiga duplamente as vítimas, que deveriam encontrar segurança e proteção no sistema judicial para prosseguirem as suas vidas, mas, em vez disso têm de lutar para se defenderem de um sistema que as fragiliza ainda mais, deixando-as em risco.

Num contexto de violência doméstica, não podemos negar que a pobreza está maioritariamente associada ao desemprego das mulheres, resultante da pressão social que as levou a optarem pela vida familiar em detrimento de uma carreira profissional; às desigualdades salariais, resultantes de discriminações várias, e à grande injustiça que é a não contabilização do trabalho doméstico para a economia familiar e do país, nomeadamente o papel de cuidadoras, que é automaticamente atribuído às mulheres, dentro do universo familiar e que as impede, tantas vezes, de desenvolver uma carreira.

Todas estas situações contribuem para os riscos de pobreza das vítimas, entre as quais, não esqueçamos, se incluem os filhos. No entanto, mesmo quando o contributo das mulheres para a economia familiar em termos monetários é preponderante, continuam as ser elas e as suas crianças que correm mais riscos de pobreza, pois, em qualquer uma das situações o/a agressor/a fica na casa de família, perpetuando, assim, o poder que tem sobre a vítima.

Mau grado esta realidade com que nos deparamos todos os dias, a luta pela igualdade continua a ter um papel secundário em todas as organizações, com a perigosa e falaciosa constatação de que o tratamento desigual está a desaparecer.

Se dúvidas houver do quanto há ainda a fazer, olhemos à nossa volta. No nosso país, onde vigora uma democracia, baseada numa constituição recheada de leis que nos deviam defender, a violência doméstica mata, o machismo mata. Mas o mundo é uma aldeia, lancemos também o olhar para longe, para outros países e veremos o assalto ao poder daqueles que defendem um retrocesso nos direitos alcançados, pondo em causa direitos que levaram séculos a conseguir, e veremos que a luta continua a ser urgente e necessária, sobretudo por uma intervenção judicial que não desvalorize a violência doméstica ou qualquer outra forma de violência com base em preconceitos ou estereótipos.

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