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Feminismos é Igualdade

06
Dez18

Com o cabelo curto, os gajos deixam-te em paz, não?


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

monalisa

O título deste artigo foi-me colocado em forma de questão por um conhecido. No desenrolar de uma conversa banal, perguntou-me isso. Intrigou-me a assertividade com que o fez, como se soubesse, de antemão, qual seria a minha resposta. Preferi retorquir e colocar-lhe, antes, uma dúvida:

- Os homens são assim tão frágeis nas questões de feminilidade e masculinidade?

Não me respondeu.

Cortar o cabelo, uma decisão puramente estética e, convenhamos, de tentar perder menos tempo e dinheiro com cuidados capilares, trouxe-me duas coisas: a liberdade que eu procurava e um rol de opiniões. Não devias ter cortado. Estás doente?! Mulheres devem ter o cabelo mais comprido. Os homens não gostam de cabelos curtos em mulheres. O teu namorado gosta desse cabelo? Podem pensar que és lésbica. És machona?

Cortar o cabelo: uma coisa tão simples e feliz para mim, um modo de estar, uma banalidade. Para a sociedade: mais um problema, mais uma imposição, mais um senão. A sociedade acha que mulheres de cabelo curto não são femininas. Não são atraentes. Não são heterossexuais. A sociedade acha que as mulheres devem manter cabelos compridos e tratados para seduzir os homens, para estarem atraentes para os homens. A sociedade acha, como tem a mania de achar, em tudo o que diz respeito às mulheres, ao seu lugar no mundo, às suas vontades, aos seus desejos, às suas formas de expressão. E eu estou farta disso. Fartinha até às pontas dos meus cabelos curtos que achem por nós, que pensem por nós, que decidam por nós.

Cabelo não define caráter. Cabelo não define género. Cabelo não define orientação sexual. Cabelo não define expressão de género. Cabelo não define beleza ou sensualidade. Cabelo não define profissionalismo ou responsabilidade. Cabelo não define empenho ou inteligência. Cabelo só define uma coisa: a minha vontade. E uma coisa que deveria ser tão simples, tornou-se uma afirmação diária do meu empoderamento.

Todas nós temos algo que é apontado pela sociedade. Seja o tipo de corpo, a forma de vestir, as escolhas, os sonhos, de quem gostamos, como gostamos, como reagimos, como interagimos. Todos os dias essas coisas são alvo de opinião. Todos os dias sofremos algum tipo de opressão, de repressão, de silenciamento.

Eu quero que os homens respeitem o meu não sem ser preciso uma justificação. Não quero que o façam por causa do meu cabelo. Ou da minha roupa. Ou da minha maneira de ser. Ou da minha profissão. Quero que me respeitem por mim: eu, mulher, ser humano, dona de um corpo, de uma cabeça, de um coração. Quero que nos respeitem por sermos simplesmente nós – mulheres: magras, gordas, donas de casa, empresárias, vistosas, recatadas, hétero, lésbicas, bissexuais, assexuais, trans, tímidas, extrovertidas, de cabelos rapados ou compridos, na rua, em casa, na família, no emprego, com deficiência, com limitações, com depressão, negras, brancas, latinas, asiáticas, solteiras, casadas, viúvas, meninas, raparigas, idosas. Todas temos uma voz e não queremos nada que se sobreponha a ela.

E já que falamos de cabelos: os meninos, rapazes e homens podem tê-lo comprido. Chega de estereótipos, sim?

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