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Feminismos é Igualdade

01
Nov21

Invisibilidade das mulheres – mito ou realidade?


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

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Vivemos num mundo tão concebido e filtrado pela visão masculina que nem nos damos conta de como ele pode discriminar as mulheres, colocando-as em risco, sem ninguém se aperceber disso. Nem mesmo elas. Trago-vos alguns dados que resultam de investigações variadas e que ajudam a perceber o que acabei de afirmar.

Começo pelo mundo automóvel. Os automóveis são desenhados maioritariamente para os homens. São 71% menos seguros para elas do que para eles. Porquê? Porque o corpo masculino é a referência para todos os equipamentos de proteção do automóvel e os algoritmos ou testes que ajudam a calcular os riscos e o desenho dos equipamentos de proteção têm por base a noção de “ser humano” que se baseia no padrão do corpo masculino, que é anatomicamente muito diferente do feminino. Por isso, as mulheres estão mais expostas a acidentes rodoviários fatais. Não se compreende como, sendo as mulheres a maioria da população mundial, continuem a ser excluídas de testes e estudos que servem de base à melhoria das condições de segurança rodoviária, continuando esses estudos a usar quase exclusivamente os homens ou bonecos com a sua estrutura padrão. Por isso as mulheres têm mais 47% de probabilidade de ficarem feridas num acidente automóvel do que os homens, mais 71% de probabilidades de ficarem com lesões graves e mais 17% de probabilidades de morrerem.

Caroline Criado Perez fez investigação em diversas áreas e, no seu livro “Mulheres Invisíveis: Como os dados configuram um mundo feito para os homens”, relata uma série de casos em que se perceciona claramente que, no século XXI, o padrão em que se constrói o mundo continua a ser o masculino. De vários exemplos que ela dá refiro os seguintes:

  • Padrão de temperatura dos escritórios nos Estados Unidos – a fórmula usada para a calcular foi estabelecida em 1960 e tomou como padrão o metabolismo basal de um homem de 40 anos e 70kg de peso. Contudo, estudos recentes provam que as mulheres quando trabalham num escritório têm um metabolismo muito mais baixo, o que as leva a bater o dente e a embrulharem-se em casacos e cachecóis dentro do escritório, em pleno Verão, enquanto os homens andam de manga curta e se sentem confortáveis.
  • Coletes oficiais de proteção balística – concebidos para o corpo masculino, não se ajustam ao peito das mulheres, nem ao tamanho dos seus corpos, acabando por desprotegê-las e dificultar o seu trabalho. Relata aliás um caso de uma agente policial espanhola que adquiriu um colete no mercado particular que se ajustava ao seu corpo e que lhe custou 500€, para poder trabalhar de forma eficaz e segura. Teve de enfrentar um processo disciplinar.
  • Reconhecimento de voz – Em 2016, Rachel Tatman concluiu que o software da Google tinha mais probabilidade de reconhecer vozes masculinas (70%) do que femininas. Ou seja, quando muitas mulheres davam ordens o equipamento não obedecia, nem reconhecia a ação que lhe estava a ser ordenada. Se pensarmos na medicina, em que esta tecnologia é cada vez mais usada, o tempo para tentar que o software reconheça a instrução dada, pode ter consequências graves nos pacientes e reverte negativamente para as mulheres que o usam, pois acabam por demorar mais tempo a corrigir os enviesamentos tecnológicos pensados para os homens, podendo ser acusadas de serem mais lentas e menos eficazes na resolução das tarefas do que os seus colegas homens.

A tecnologia reforça esta discriminação de género, levando a que se cometam erros graves, pois os cálculos baseiam-se em dados do tal “ser humano” que mais não é do que a referência padrão do corpo masculino, fazendo com que os equipamentos de diagnóstico médico induzam em erro quem lê esses dados. Do diagnóstico ao tratamento, as mulheres correm riscos muito mais díspares do que os homens, precisamente pelos enviesamentos introduzidos nos cálculos e nos dados submetidos a exame.

A desigualdade de género está presente em todas as áreas da vida quotidiana, mesmo que não tenhamos consciência disso. Quanto mais percebermos que ela existe, mais nos envolveremos para a combater. Quanto mais lutarmos para que as mulheres estejam representadas em todas as áreas profissionais e políticas, mais garantias teremos de que o défice informacional de género diminua. Há casos de que os homens nem se lembram, pois não sentem essa necessidade, ou que acham nojentos. Pensemos, por exemplo, nos extratores de leite materno, nas soluções variadas para os dias em que a mulher está menstruada e que geraram a tantos homens nas direções das empresas esgares de nojo e repulsa, perante os projetos que várias mulheres lhes apresentaram.

Combatamos a invisibilidade das mulheres com a sua maior representatividade nas diferentes estruturas de poder e do conhecimento. Fazê-lo é garantir que a investigação não as esquece, de que elas estarão presentes na tomada de decisões e ajudarão a quebrar o enviesamento masculino que ainda existe em todos os setores das nossas sociedades.

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