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Feminismos é Igualdade

01
Out18

LGBTI+ na Madeira: a luta das pessoas trans


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Ela exibe uma longa cabeleira negra, bem tratada. Usa maquilhagem e saltos altos. O vestido combina com os brincos: com a sua alma. No entanto, ainda convive com o nome que mais odeia, em todas as circunstâncias da sua vida: António. Queria ser Maria. É Maria, simplesmente. Porque Maria é mãe e isso é algo que ela deseja, há muito. Há quem comente, entre dentes. Há quem sorria para ela. Há quem, até, pare para a ver passar. “Traveco”, diz um homem. Maria permanece envolvida numa aura de felicidade, como se nada, para além daquele desfilar de quem é, existisse. Mas existe e o que existe não é bonito.

O preconceito (ainda) embaça as vidas de quem se assume como é: gostar de pessoas do mesmo sexo; gostar de pessoas independentemente do sexo; confrontar um corpo que não se coaduna com aquilo que se sente; e toda uma série de questões ligadas à orientação sexual, expressão e identidade de género. A sigla foi crescendo, acompanhando as causas que defende e as pessoas que, ao mundo, querem gritar aquilo que são, que gostam e a forma como se expressam e, sobretudo, garantir para si, e para quem ainda vive em esconderijos, (alguns) direitos e liberdades que, há muito, já são miudezas do dia-a-dia para os/as que se encaixam no padrão heteronormativo socialmente aceite.

Ser LGBTI+, na Madeira e Porto Santo, é uma luta constante. Ser uma pessoa trans, na Madeira e Porto Santo, é uma luta ainda mais sofredora. O acesso a cuidados de saúde específicos para as pessoas trans são inexistentes e o serviço público deveria assegurar as especialidades de sexologia e endocrinologia, sendo que, para cirurgias, deveria garantir as despesas de deslocação até aos hospitais de Lisboa, Porto ou Coimbra – ainda que estes não se encontrem a funcionar de forma adequada. As pessoas trans madeirenses e portossantenses são obrigadas a deslocar-se para território nacional para aceder a estes cuidados de saúde. Esqueci de acrescentar: as pessoas trans madeirenses e portossantes que têm meios financeiros ou um suporte familiar que lhes permita esse direito. E quem não tem? Maria não arranja trabalho. Ninguém a contrata. Em casa, os pais ignoram a realidade. Maria continua a ser o António.

Dia 6 de outubro de 2018, pelas 15h00, com partida no Largo do Município, acontece a 2ª Marcha do Orgulho LGBTI+, na Região, sob o mote “Transpor Preconceitos”, seguindo-se o Arraial LGBTI+, no Jardim Municipal. Marcharemos pela reivindicação de direitos humanos para as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexo. Marcharemos para que a Maria deixe, de vez, o António nas suas recordações de uma vida passada.

 

*O Funchal Pride é organizado por: rede ex aequo; Organização Abraço - Delegação do Funchal; Fundação Portuguesa "A Comunidade Contra a SIDA"; UMAR/Madeira; Mad le's Femme; Núcleo Amnistia Internacional Funchal e Opus Gay Madeira.

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