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Feminismos é Igualdade

26
Jan21

Segurar quem nos ampara


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

monalisamascara

Todos nós já tivemos um daqueles dias no qual pensamos que não deveríamos ter saído da cama, onde tudo corre surrealmente mal. Acredito que tenha sido isso que os/as trabalhadores/as do sector cultural tenham sentido em 2020. Só que, em vez de um dia aqui e ali, tirando algumas excepções – obviamente -, foram 366 dias. Ainda por cima, foi um ano bissexto, para que houvesse um dia extra de desencantamento com este ofício de existir.

É sabido que uma esmagadora parte dos espectáculos teve que ser cancelada, o que levou a, por exemplo, milhões de despedimentos, ao encerramento de teatros, cinemas ou livrarias. Infelizmente, esta situação acabou por resultar a que muitos desses profissionais ficassem sem condições para se alimentar, ou seja, uma afronta colossal à dignidade humana.

Nos momentos mais complicados da minha vida, além das pessoas que me amparam, a arte teve sempre um papel essencial na manutenção da minha (parca) sanidade mental. É nos filmes, nos discos ou nos livros que encontro um pouco de luz quando o breu teima em me rodear.

No primeiro confinamento, fui mais uma vez salvo pela arte. Agora, que voltamos a ser encarcerados, voltarei, certamente, a socorrer-me nela. Aproveitando a habitual reflecção e as inevitáveis listas com o melhor do ano que nos invadem por esta altura, deixo aqui algumas recomendações daquilo, que para mim, foi o melhor de 2020, com o intuito de tornar estes longos dias mais airosos – alerta pretensiosismo.

Começando pela música, foi praticamente consensual que Fetch the Bolt Cutters, da singular Fiona Apple, foi o disco do ano. Lançado no pico da pandemia, a crueza aliada à beleza da composição, tornou a quarentena de milhões de pessoas por esse mundo fora mais fácil.

Moses Sumney, um dos novos diamantes da música mundial, depois de um maravilhoso Aromanticism, em 2017, conseguiu elevar ainda mais a fasquia com um poético e hipnotizante græ.

Num ano também marcado pelo movimento #BlackLivesMatter, o misterioso grupo britânico SAULT, lançou um poderoso e reivindicativo Untitled (Black Is). O poder do funk, da soul ou do R&B junta-se ao protesto e resulta num álbum denominado mundialmente como a “banda sonora da revolução de 2020”.

Em Março, sem aviso, o lendário Bob Dylan, disponibilizou no seu canal de Youtube, o tema Murder Most Foul, o seu primeiro original desde 2012, onde deambula sobre o assassinato de John F. Kennedy. O tema de 17 minutos seria o single de avanço de Rough and Rowdy Ways, mais uma obra de arte do Nobel.

Run The Jewels, a dupla americana composta por El-P e Killer Mike, voltou com um criativo e assertivo RTJ4, onde mantêm a sua sonoridade característica, conjugada com uma mensagem forte da actualidade, directa e sem soar condescendente.

De uma forma mais sintética, também há que mencionar discos como Set My Heart on Fire Immediately, de Perfume Genius; A Hero's Death dos Fontaines D.C.; It Is What It Is, do Thundercat; What Kinda Music, do Tom Misch & Yussef Dayes; Source, da Nubya Garcia ou Alfredo, de Freddie Gibbs & The Alchemist.

Em Portugal, também tivemos excelentes projectos como o delicioso Kriola, de Dino D'Santiago, que é um hino à diversidade e orgulho negro; o encantador Madrepérola, da Capicua, onde a rapper portuense dá um necessário nocaute ao patriarcado, com o seu jeito aguerrido e poético; Rapazes e Raposas, do singular B Fachada, após o seu hiato; Canções do Pós-Guerra, do Samuel Úria; Eva, pela voz quente e bela de Cristina Branco; o homónimo Lina_Raül Refree, que junta a fadista com o produtor espanhol; Revezo, de Filipe Sambado; Liwoningo da talentosa Selma Uamusse; Uma Palavra Começada por N, do Noiserv; o fresco Meia Riba Kalxa, do Tristany; a doce simbiose de Fado Jazz Ensemble, do pianista Júlio Resende; ou o intemporal Caixa de Ritmos, álbum de instrumentais do poeta urbano Sam The Kid.

No cinema, apesar de uma grande parte dos filmes mais aguardados do ano ter visto as suas estreias adiadas, também tivemos um 2020 com qualidade e variedade, para todos os gostos.

Destaco Nomadland, da cineasta chinesa Chloé Zhao, que nos mostra a vida de uma mulher nómada, interpretado de uma forma brilhante por Frances McDormand – o que é uma redundância -, as dificuldades e prós que este estilo de vida acarreta, sempre presenteados com uma fotografia sublime.

Minari, de Lee Isaac Chung, onde acompanhamos uma família coreana que vai viver para o Arkansas, numa pequena fazenda em busca do sonho americano.

Listen, da portuguesa Ana Rocha De Sousa, é também um dos filmes do ano. Vemos por dentro o drama de uma família de emigrantes portugueses nos subúrbios de Londres, que vê a segurança social querer separar os filhos dos pais. Um valente murro no estômago, que nos deixa com a coração em estilhaços.

Da Dinamarca chega-nos Druk, mais um filme soberbo de Thomas Vinterberg, acompanhado de Mads Mikkelsen, com quem já tinha feito o memorável Jagten. Quatro professores testam a teoria que diz que manter constantemente um certo nível de álcool no sangue traz imensos benefícios à vida das pessoas.

Never Rarely Sometimes Always, da realizadora Eliza Hittman, vivemos de perto o drama de uma adolescente natural de um meio pequeno, que descobre estar grávida e tem que ir para Nova Iorque com a sua prima – também menor – para conseguir abortar. É um retrato dos perigos que uma jovem mulher pode passar.

Destaque, ainda, para I'm Thinking of Ending Thing, do genial Charlie Kaufman; The Trial of the Chicago 7 do reputado Aaron Sorkin, criador de The West Wing; Promising Young Woman da talentosa Emerald Fennell; o tocante Dick Johnson Is Dead, de Kirsten Johnson; o importante Soul, de Pete Docter; ou os documentários Beastie Boys Story, de inovador Spike Jonze e Crip Camp: A Disability Revolution, escrito e co-produzido por Nicole Newnham e James LeBrecht.

Queria deixar mais recomendações de outras áreas culturais, mas creio que já me tenha alongado, portanto ficar-me-ei por aqui. Espero que encontrem algo que possa tornar o vosso confinamento mais agradável.

Enquanto fazia estas listas, ia constatando no quão democrática é a arte, com homens e mulheres, dos quatro cantos do mundo, das mais variadas raças e etnias, expressões de género e orientações sexuais, estão aqui representados/as.

Se a arte tem todo este poder de nos ajudar nestas fases, acho que o mínimo é valorizar os/as seus/suas profissionais com a compra do seu trabalho. Nunca vos pedi nada, portanto, quem puder, não deixe de apoiar quem tem um papel tão importante na nossa sociedade.

P.S. – Juro que não tenho direito a qualquer tipo de comissão.

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20
Abr20

Zaha Hadid (1950-2016): O poder transformador da arquiteta na profissão e na arquitetura


umarmadeira

ARTIGO DE BRUNO MARTINS

549-Zara Hadid

Para se compreender Zaha Hadid, é preciso antes entender o estado da arquitetura em 1980, numa altura em que os modelos modernistas que se instalaram definitivamente na segunda metade do século XX eram contestados por uma significativa parte da crítica. Muitos diziam, nessa altura, que o desenho era uma matéria quase decorativa e semiótica, e tudo o que interessava era como o edifício se relacionava com a envolvente, de preferência educadamente e timidamente.

Em contraste, a arquitetura de Zaha Hadid começa a ganhar o interesse da vasta comunidade de arquitetos, com propostas destemidas e ousadas, projetos de puro talento, e em rutura com uma profissão que parecia assustada de si mesmo e da modernidade.

Controversa, as opiniões sobre a importância do seu trabalho dividem-se. Mas foi certamente uma das mais importantes influencias na arquitetura dos últimos 30 anos, e não apenas como mulher. E mudou a dinâmica de poder de uma profissão que precisava desesperadamente de evoluir. Não apenas a profissão, mas a arquitetura também.

*

A convite da UMAR, que muito me honrou, escolho falar desta arquiteta. Em primeiro lugar porque adoro o seu trabalho, mas também porque permaneceu honesta para com as suas próprias convicções, apesar de contar com uma critica muito pouco construtiva, que descrevia os seus projetos como não passiveis de serem construídos. Num mundo onde quem investia em criações experimentais arriscava criticas destrutivas, Zaha Hadid aparece a contestar a “função acima da arte”. Para ela, o edifício deve ser um objeto significante, uma junção entre o programa arquitetónico e uma pintura ou escultura. Defende que os critérios estéticos são uma conquista funcional, e que como Óscar Niemeyer “a arquitetura deve ser primeiramente bela”. Uma luta que travou toda a sua vida e que opôs progresso e evolução ao tradicionalismo.

Gosto muito da arquiteta, mas ainda mais da sua ousadia, de ter acreditado que o significado e poder na arquitetura encontra-se na forma, mais do que o seu papel social ou humanitário. Não se trata de arquitetura, mas de salvar o mundo através da arquitetura. Ou morrer a tentar.

*

Nascida em Bagdade em 1950, Zaha Hadid estuda em Londres, na Architectural Association, onde tem como professor o então muito reputado Rem Koolhass, do qual os portugueses conhecem pela “casa da musica” do Porto. A arquiteta começa assim o seu percurso profissional, mas em 1979 inicia a sua própria prática profissional, investindo nas ideias que a tornaram mais tarde uma referencia incontornável da arquitetura.

Os primeiros anos de profissão trazem muitos projetos conceptuais que nunca foram construídos. Não foi fácil a uma mulher fazer vingar as suas convicções num mundo da construção dominado por homens, onde todo o reconhecimento até então estava reservado a um pedestal exclusivamente masculino.  Vencedora de inúmeros concursos internacionais, ficam assim por concretizar projetos como o “the peak club de Hong Kong” com que inicia a sua carreira, mas também o “Arte e Media Center de Dusseldorf” ou o “Ópera da Baía de Cardiff”.

O reconhecimento viria mais tarde, tendo sido a primeira mulher em 167 anos de historia a vencer a “royal gold medal for architecture”, e dois “Stirling awards”, entre outros. Em 2004 torna-se também a primeira mulher a receber aquele que é conhecido como o “óscar” da arquitetura - o “premio Pritzker”- como reconhecimento da sua obra.

Como mulher e árabe, foi sempre descrita por alguma critica de forma exótica, enfatizando as suas roupas, as suas maneiras, algo inconcebível quando comparada por um Eisenman, ou outros arquitetos. Resistiu sempre à ideia de ser considerada uma mulher na arquitetura, mas antes apenas uma arquiteta. E pareceu sempre indiferente às criticas até à data da sua morte, em 2016.

Para mim, ela é um dos maiores talentos da arquitetura, uma visão original e livre que trouxe outros caminhos para a minha profissão, que mudou a maneira como pensamos e vemos o espaço. Os seus projetos mostram-nos que não há limites para a imaginação, mesmo quando ela tem de obedecer a aspetos funcionais. Através deles encontro uma perspetiva diferente para a arquitetura em relação ao que me foi ensinado, onde o objeto arquitetónico ganha maior significado e expressão, maior beleza e fluidez. Não é assim afinal, este mundo dinâmico em que hoje vivemos?

 

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