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Feminismos é Igualdade

20
Jul19

Num mundo de predadores sexuais, seja Fernanda Colombo


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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Acordos prévios em primeiro lugar: o mundo em que vivemos está longe de ser perfeito, parece-me que podemos concordar com esta ideia e portanto considera-la consensual. Homem e mulher contribuem negativamente para a imperfeição mundana ou não fossemos todos parte da mesma esfera que poluí a natureza e a sociedade com a naturalidade inconsciente de quem actua sem olhar o dia de amanhã; com a imaturidade de um recém-nascido; com o desdém cúmplice de quem assiste ao genocídio dos seus descendentes mas falta-lhes a iniciativa motivadora de quem sente na pele a dor dos demais. Não pretendo vos falar de ambiente (apesar de ser um tema em que ambos, homens e mulheres, mereceriam uns tabefes bem aplicados pois todos, somos desprezíveis nesta matéria), mas sim de comportamentos positivos que diferenciam os “justos” dos “pecadores”.

Fernanda Colombo, a jornalista e árbitra de futebol que no último mês se notabilizou por proporcionar uma cena engraçada num jogo em que arbitrou, foi mais uma vítima do poder da testosterona que vem dominando o mundo desde o inicio do patriarcado e cuja aplicação é absolutamente generalizada a todas as áreas da sociedade. Após o vídeo em que brincou com um jogador de futebol se ter tornado viral na internet, Fernanda Colombo recebeu uma proposta sexual desprezível via e-mail e na qual lhe propunham encontrar-se com "clientes" por um "cachê mínimo de 7 mil”, reais, presumo. O autor do e-mail, um rapaz de boas famílias, presumo também, adianta que não se trata de prostituição (tratemos as coisas pelos nomes próprios) mas sim de uma “coisa” sem compromisso e cujos seus “clientes” são tipos novos, educados, respeitosos e inteligentes que apenas não têm tempo para socializar e que precisamente por esse facto a procuravam. Bem, se a questão é socializar, eu tenho uma série de amigos que não se importava de tomar umas cervejas e socializar com um tipo que nunca vimos na vida e se ainda receberemos 7 mil reais ou euros tanto melhor. Fica desde aqui a contraproposta do convite. Parece-me que, tal como o mundo à nossa volta aprendeu a designar as coisas e coisinhas com eufemismos, os predadores sexuais também o fizeram, consideremo-lo evolução. Não podemos considerar prostituição porque é apenas para socializar e também não podemos considera-los predadores porque são indivíduos simpáticos e inteligentes que apenas têm problemas no que respeita à socialização. O famigerado professor Taveira também não aliciou alunas e Bill Clinton continua a manter a palavra inicial sobre Monica Lewinsky: “I did not have sex with that woman”.

Fugindo ao tom irónico (parece-me cada vez mais frequente, já não consigo levar estas coisas a sério) deixo os parabéns a Fernanda Colombo pela coragem em denunciar a proposta que recebeu. O poder corrompe e corrompe sexualmente se for necessário. Fernanda Colombo bateu o pé e bem. Quantas outras mulheres já receberam propostas indecentes e calaram-se? Quantas mulheres foram assediadas e pressionadas sexualmente para poderem progredir nas carreiras? Enfim, perguntas que ficam na consciência de cada uma de vós e que pelo menos para vós próprias possam dizer “eu já!” ou “eu nunca, mas conheço quem já tenha passado por isso.”

Batam o pé. Não é não!

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18
Mai19

Unlucky Louie


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Louis C.K., um dos melhores e mais visionários humoristas contemporâneos vai actuar em Portugal pela primeira vez. O circuito de “primeira liga” do stand-up mundial nunca tinha visitado o nosso país, apesar do paradigma estar a mudar com as vindas de Jimmy Carr, Jim Gaffigan ou Judah Friedlander.

Para quem não conhece C.K., ele é o criador de quase duas mãos cheias – péssima escolha de expressão – de espetáculos de stand-up; de Louie, uma das melhores sitcoms internacionais; Horace and Pete, uma série que tanto é capaz de arrancar a maior gargalhada como a mais sentida lágrima; escreveu também para nomes como Chris Rock, David Letterman ou Conan O´Brian; além de ter feito parte do elenco de filmes “oscarianos” como American Hustle, Trumbo ou Blue Jasmine.

Não é, propriamente, um curriculum que envergonhe ninguém. O que não o pode orgulhar, certamente, é o motivo pelo qual viu o seu nome nas bocas do mundo no final de 2017. O humorista americano foi um dos nomes envolvidos no movimento #MeToo, sendo acusado por várias mulheres de se “auto-gratificar” em frente a elas. As denunciantes eram humoristas em início de carreira e membros das equipas de produção de alguns projectos de C.K. Justificaram a não apresentação de queixa na altura das ocorrências por medo que as repercussões levassem à perda de trabalho. Acrescentando ainda, que o manager - um dos poderosos na América - do humorista as contactou a pedir o seu silêncio.

As acusações foram prontamente confirmadas pelo humorista, onde admitiu a conduta sexual imprópria e o abuso de poder sob essas mulheres. O escândalo levou a que visse o lançamento do seu novo filme e várias séries que produzia canceladas, resultando na perda de mais de 35 milhões de dólares. A polémica não teve impacto na bilheteira do nosso país pois, as quatro datas que foram abertas com o preço individual de 45 euros esgotaram nuns impressionantes quatro minutos.

Levantou-se, novamente, o dilema da separação da obra e do artista. Questão essa que não me consegue ter por inteiro em nenhum dos lados. Acredito que uma péssima pessoa possa criar um objecto artístico incrível. A história da arte dá-nos milhões de exemplos como: Picasso ou Bukowski eram misóginos convictos; Wagner, Ezra Pound, T.S. Eliot ou Walt Disney eram antissemitas; Flaubert pagava para ter relações com menores; Caravaggio matou uma pessoa; Bill Cosby drogou e violou mulheres; Roman Polanski abusou de uma menor, … Será que o filme “O Pianista” passa a ser mau? Ou o “Madame Bovary” torna-se em lixo literário? Não creio. Mas as atitudes destas pessoas são altamente repugnantes e condenáveis.

Como tal, não consigo admirar estas pessoas, mesmo conseguindo gostar do que criam. Parece ambíguo? Sim. Sem dúvida. Mas alguém ser capaz de criar algo colossal na vida de milhões de pessoas e de arruinar a existência de outras, também o é.

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05
Nov18

Je suis Trump


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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Kathryn Mayorga é hoje um nome amplamente conhecido pelos portugueses, e pelo mundo em geral por ter vindo a público afirmar ter sido vítima de violação de Cristiano Ronaldo. Não podia deixar passar a oportunidade de postular a minha visão sobre o sucedido nos últimos meses. A americana, como ficou simplesmente conhecida, tornou-se para milhões no rosto da infâmia, do desplante e do profano ao acusar o melhor jogador de futebol de todo o planeta de a ter sodomizado num quarto de hotel em Las Vegas há sensivelmente nove anos, altura em que Cristiano estaria a chegar a Madrid para abraçar uma feliz carreira no Real.

Sobre esta denúncia cabe-me explorar apenas dois factos que me parecem ser inquestionáveis:

Facto número 1: Cristiano Ronaldo é indubitavelmente o melhor jogador de futebol da nossa época e provavelmente o melhor de sempre (G.O.A.T.), tem sido um exemplo dentro e fora do campo ao contribuir financeiramente para diversas causas, tem sido igualmente uma das principais razões pela qual a Madeira tem vindo a estar na boca do mundo e eu quero que ele seja inocente partindo sempre do pressuposto de que toda a pessoa é inocente até prova em contrário.

Facto número 2: Com a denúncia pública, Kathryn Mayorga submeteu-se ao escrutínio dos jornais e ao julgamento popular sendo que este último demonstrou estar à altura da inquisição e da caça às bruxas e no caso particular do que foi possível ler nas redes sociais, digno de um reino sem lei.

O povo, soberano e sóbrio, metódico e justo como habitualmente não se coibiu de julgar na praça pública (ou nas redes sociais, o que é o mesmo). Com toda a sua sapiência e mesmo sem conhecerem os factos da noite em que tudo aconteceu, muita gente foi célere em afirmar que “A americana” era tudo e mais alguma coisa menos uma mulher que não quisesse ser violada por uma celebridade. Muitas das pessoas que se apressaram a lançar os mais diversos epítetos contra a senhora sem conhecimento de causa são as mesmas que se riem de Donald Trump quando este afirma que o aquecimento global é um embuste porque tem um dom natural para a ciência uma vez que teve um tio que foi professor de ciências numa prestigiosa universidade (sim, isto é verídico!).

Não obstante Ronaldo ser Ronaldo e eu sentir orgulho na sua carreira futebolística, abstenho-me de fazer julgamentos em praça pública contra uma mulher que diz ter sido violada. A violação é um acto de violência e não de amor propriamente dito e eu não estava presente no local e não assisti ao ocorrido logo não posso, em plena consciência, adjectivar seja lá quem for, mas conheço muita gente que o pode fazer, é caso para dizer que em algum momento das nossas vidas todos nós somos Trump dependendo da visão sobre o mundo.

O que se disse nas redes sociais serviu para demonstrar que Portugal, em particular, ainda é um país embebido num machismo cego. Resta-nos remar contra a maré até que a maré corra no nosso sentido.

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12
Out18

Tens razão, mas eu gosto tanto dele...


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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As redes sociais têm coisas muito giras: é maravilhoso encontrarmos um primo em vigésimo sétimo grau que vive no Burundi sem precisar de ir ao Ponto de Encontro; é fascinante saber que a vlogger do momento gosta de comer rúcula depois de fazer pilates, ou mesmo, ver aquele deputado conservador no parlamento com aquele nariz e orelhas fofíssimas de cachorrinho. 

Como todas as coisas boas da vida, tem o seu lado negro da força. Quando vislumbram opiniões contrárias aos seus dogmas, as pessoas abusam da libertinagem de expressão e fazem da sua opinião a lei. São rac… e tudo o tipo de «istas» que existem. Mas principalmente desumanos. Fazem comentários com uma malícia tão apurada que deixaria invejoso o mais malévolo general de Auschwitz.

Esta verborreia toda para introduzir um dos assuntos do momento: a acusação de violação que Cristiano Ronaldo é alvo. 

Eu, ainda abalado com a turbulência da notícia, cometi o maior dos erros que se pode cometer. Sim. Fui parar à caixa de comentários. Lá, nesse mundo sombrio onde impera a falta de civismo, deparei-me com centenas e centenas de pessoas a apoiar o acusado. A alegada vítima era, surpreendentemente, a criminosa e o acusado, afinal, era a vítima - qual telenovela da TVI, qual quê.

O ser um humano é um bichinho que normalmente gosta de gostar. E gosta muito. Gosta como um fanático insano. Seja do presidente da junta, do Tony Carreira ou do avançado do seu clube. E ai de quem ouse blasfemar sobre essa bolha divina de anjos alados.

É verdade que Ronaldo tem uma aura de D. Sebastião, mas não está imune à lei. Quando digo o futebolista, digo o tal presidente da junta, o rei do Mónaco ou o barbeiro Zézito. E como alguém que gosta tanto, odeia estar errado ou sentir que foi traído pelo Romeu a quem entregou o seu coração. O problema é que acontece e, como não há um Shakespeare que possa reescrever o enredo, temos que possuir o discernimento de matar a nossa personagem principal. Usando a analogia que a Sarah Silverman fez em relação a perder muitos ídolos com o movimento #MeToo “É como cortar tumores: é muito complicado e doloroso, mas é algo necessário e no fim seremos todos muito mais saudáveis”.

Se Ronaldo é efetivamente culpado ou inocente, não faço a minima ideia, mas algo está muito errado quando uma alegada vítima de violação é a puta, sem ninguém saber rigorosamente nada sobre o caso apenas se guiando pela reputação do ídolo. Tremendamente errado.  

Já que falei tanto de Cristiano Ronaldo, aproveito para rematar finalmente com um "vamos acabar com o seguidismo incondicional?” - SIIIIIIII.

P.S. – Em momento algum questiono a inocência (ou não) de Ronaldo.

P.S. 2 – Faço estes post scriptum pelo que escrevi no segundo parágrafo.

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03
Ago18

O Assédio e a FIFA


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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A poucos dias da final do campeonato do mundo de futebol masculino sénior a FIFA recomendou aos produtores das principais estações televisivas que evitassem transmitir imagens de mulheres atraentes nas bancadas dos estádios. Assim que se começou a falar do assunto, confesso que não compreendi a diretiva pois não posso negar que uma mulher bonita num estádio de futebol chama a atenção dos olhares, quer sejam mais discretos ou não. Ainda assim fiz o que me competia e esmiucei as verdadeiras intenções daquele organismo e acontece que as razões prendem-se com um aumento substancial de casos de assédio sexual às mulheres durante o torneio e em especial às jornalistas que simplesmente estavam a cobrir o evento. Ora sobre esta díade (assédio/mulheres nos jogos de futebol) gostaria de tecer as seguintes considerações:

O futebol tem assistências de ambos os géneros e o aumento dos casos de assédio sexual durante o mundial de futebol pode estar relacionado com a tendência de televisionar as espectadoras mais bonitas nos estádios mas para se auferir esta possibilidade seria necessário efectuar-se um estudo e até ao momento desconheço a existência de um. Mais, a mulher, gorda, magra, alta ou baixa tem o direito de se sentir bem da forma que melhor entender e tem, naturalmente, o direito a se sentir bonita perante a sociedade. O problema do assédio é do homem que não sabe discernir um jogo de futebol e a sua sexualidade. O problema, em meu entender, nem sequer é da generalidade dos homens mas sim de uns quantos homo sapiens a quem ainda não se desenvolveu um neocórtex que lhes permita pensar e actuar como uma pessoa civilizada. Convenhamos, a evolução humana está ainda longe de ter chegado à maioria dos homens e infelizmente assiste-se a esta dominância da testosterona nas sociedades que se querem civilizadas. Ainda no decorrer deste mês, uma libanesa foi assediada no Egipto por dois arrumadores de carros e ao que parece até os condutores da Uber não foram muito diferentes, como se isto não bastasse a mulher criticou o país nas redes sociais e acabou por ser condenada a oito anos de prisão efectiva. Estes casos são preocupantes e merecem toda a atenção mas e aquelas mulheres que são vítimas de assédio longe das televisões!? A responsabilidade também cai sobre as mulheres que vão aos estádios? E as mulheres vítimas de assédio nas empresas onde trabalham? O problema do assédio não se prende, ou pelo menos não deveria se prender, com o facto de alguém estar a ver as pernas de onze homens a correr atrás de uma bola e assim que a imagem passa para a bancada a testosterona sobrepõe-se ao neocórtex ou às emoções do futebol.

Em suma, não creio que se resolva o assédio minimizando as aparições de mulheres bonitas nos estádios, como já referi anteriormente, o problema não é da mulher que gosta de se sentir bonita mas sim de alguns homens e da actuação da justiça que deixa a desejar e faz vista grossa quando o problema é o assédio!

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