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Feminismos é Igualdade

06
Abr19

ZIPPY - Coleção sem género


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

zippy

Eu também já fui jovem e já fui estúpido. Confesso que, por vezes ainda o sou. No entanto devo dizer que algumas atitudes me fazem espécie.

Este recente rebuliço em torno da nova coleção “sem género” da conhecida marca de roupa infantil Zippy é somente mais um exemplo de que a estupidez humana pode ir longe, muito longe mesmo. Pode ir a sítios e espaços onde o humano não chegou ainda. Pode contornar desejos e vergar vontades. A história pode ser esquecida ou simplesmente ignorada como é o caso concreto da indumentária e costumes.

Ainda não ouvi nenhum “macho” chamar a si o uso de saltos altos como sendo um acessório masculino pois a sua origem remonta ao pé masculino da antiguidade clássica. Desde o Egipto até à Grécia clássicas, passando pelos cavaleiros persas a e pela idade média até cerca de 1500 o salto alto era de uso exclusivo masculino. Tanto quanto se sabe, apenas se avançarmos até pouco depois do ano 1500, em França, reconhece-se Catherine de Médici como uma das primeiras mulheres a utilizar saltos altos e após esta data através do monarca Luis XIV o uso de saltos altos voltou a entrar na indumentária masculina. Diga-se ainda que Luís XIV usou e abusou de outros luxos da época como era as perucas. É caso para dizer que homem de barba rija usava salto alto e peruca no início do século XVI.

Diria o nosso maior vulto da poesia que se mudam os tempos, mudam-se as vontades. Devo concordar, mudaram-se os tempos e mudaram-se as vontades também, em particular aquela vontade de ser estúpido e de se discordar de ciências que não se conhecem, principalmente aquela que se chama história. Se eu recuar até à minha infância, dou por mim, menino franzino, a usar os fatos de treino, da moda à época, das minhas primas.

Querer marcar a diferença, por via de uma opinião estapafúrdia, deverá ser acompanhada de algum fundamento. E, para meu desespero, os fundamentos para a não aceitação da famigerada coleção da Zippy é de que Deus não quis assim. Aquela ampla deambulação do pensamento crítico que se faz quando não se tem outra explicação. Também Zeus fora responsável pelas tempestades quando não se ocupava da mulher do próximo. Assim vai a aceitação de sociedade à igualdade de género. Parece-me bem mas discordo!

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28
Jan19

Cromo-determinismo


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

damares

Segundo a nova ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do Brasil, Damares Alves, iniciou-se uma nova era naquele país de língua oficial portuguesa, uma era em que o menino vestirá azul e a menina vestirá cor-de-rosa. Este cromo-determinismo (escusam de procurar no dicionário) à brasileira é sinónimo do iluminismo democrático em que tendencialmente os vencedores eleitorais se julgam donos da verdade e representantes de Deus na terra e vai daí toca a desbobinar ideias mirificas e incutir os seus respectivos ideais nos seus países condenando os homens, mulheres e crianças às loucuras doentias com que diariamente vivem. Da minha parte, no caso de lá viver, já estaria a fazer contas à vida. Isto porque tenho três camisas cor-de-rosa das quais não gostaria de me desfazer nem ter de as tingir de azul.

Ironias à parte, ainda me lembro de ouvir o Maduro dizer que falou com um passarinho e este lhe disse que era a reencarnação de Hugo Chávez e eu, sendo inocente como sou, acredito cegamente que um povo deve ser liderado por gente desta índole, gente que fala com pássaros, gente que retrocede os avanços na igualdade de género e gente que rejeita as evidências.

Afinal de contas, sejamos pragmáticos, Deus enviou os dez mandamentos pela mão de Moisés e não pela mão de Darwin e isto só me diz que eu devo confiar cegamente nos enviados de Deus e não nos errantes deste mundo cruel e mortal.

Ora, eu sei que Bolsonaro foi enviado dos céus para melhorar o estilo de vida do Brasil e impor a ordem “em nome da moral e dos bons costumes” mas determinar uma criança a uma cor por causa do seu género é retroceder cem anos de avanços e conquistas feministas.

Passámos décadas a tentar erradicar o preconceito em relação ao género para agora nos cair dos céus esta gente que não se sabe bem se já nasceram assim ou se foram modificados geneticamente para se tornarem numa espécie de antimatéria humanística contrariando o sentido da maré. O menino não tem que vestir azul nem tem que ser ensinado a ser bruto como um homo sapiens; a menina não tem que vestir rosa nem tem que ser submetida à vontade do menino.

Como em todo o lado há sempre um saudosista que se recorda dos “bons” velhos tempos em que o género era um determinismo o que só nos deve relembrar que a liberdade nunca é uma garantia mas sim um motivo para continuar a lutar.

Com um eminente triunfo dos porcos à escala mundial protagonizado por Bolsonaros, Damares, Trumps, Maduros, Machados, Le Pens entre outros resta-me esperar que tudo tenha um fim e concluir o meu artigo da mesma forma que Dostoiévski concluiu o seu “Jogador”: “Amanhã, amanhã acabará tudo!”

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15
Jan19

Ser apenas mulher não basta!


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

arcoiris

Muitas vezes perguntam-me porque gosto tanto da cor amarelo/dourado. Não sei. Talvez por me lembrar do sol, das estrelas, dos quadros do Vincent Van Gogh e do Gustav Klimt que matizei em tela nos 70. Ou então dos girassóis que adoro. Ou das bananas que gosto de comer, etc…

Mas também gosto do azul, a minha cor preferida para me vestir, em todas as suas matizes. E do rosa, sobretudo em roupa para dormir. E do preto e branco. E do cinzento. E do castanho. E do bege. E do verde do meu Sporting…E do vermelho, a cor da minha bandeira preferida. Enfim. Gosto do arco Iris.

Gosto de gostar e não gosto que me imponham regras no meu gosto. E, por isto mesmo, já não consigo suportar as declarações da ministra Brasileira que quer impor regras nas cores a serem usadas pelas pessoas dos diferentes sexos. Para além de demonstrar ter uma mentalidade em desuso, é completamente idiota dar ordens sobre a forma como a sociedade se deve comportar em relação à forma de se vestir.

Nem no tempo do fascismo em Portugal tivemos tal imposição. Vivíamos numa sociedade cinzenta e a preto e branco mas ainda conseguíamos mandar no nosso gosto. Muitas vezes faltava o dinheiro para concretizarmos o que gostávamos de vestir.

E, ainda por cima, a senhora “rosa” vem comparar o amor entre seres humanos a animais. Com todo o respeito pelo direito ao amor entre os animais, acho que esta ministra já não sabe o que diz. É tão estúpido, uma pessoa que tem como responsabilidade defender a família e os direitos humanos, vir fazer este tipo de comparações. Garanto-vos que me arrepia os cabelos.

Em pleno século XXI, quando achamos que muita coisa já está assumida e que temos é que partir para outras exigências, vem este tipo de gente nos alertar que nada está seguro e, por isso, há que estar vigilante, reagindo e desmontando os falsos argumentos educativos que querem fazer com que as sociedades voltem para trás. As mulheres e os homens, que se prezam de o ser, querem vestir todas as cores, querem amar quem quiserem, e querem que os seus direitos sejam plenamente concretizados. Não querem que ministras como estas mandem nas suas vidas.

O colorido lindo do povo Brasileiro não merecia ter uma mulher, ministra, tão reacionária como esta. Sei que o problema político foi a maioria dos eleitores terem votado num governo de direita. Mas lá porque foram eleitos não vamos deixar de fazer oposição ao que não achamos correto. Nunca votei nos governos regionais que nos governam há 43 anos mas nunca me calo quando acho que devo contradizer o que está mal.

Uma lição a tirar disto é que não basta ser mulher e estar no poder. O que move e transforma as sociedades são as ideias e as propostas concretas. Ser apenas, mulher, não basta. Este exemplo lembra-nos que temos que ter muito cuidado antes de escolhermos quem nos representa.

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