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Feminismos é Igualdade

19
Out20

Sobre o Medo


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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E de repente o medo chegou, mas já não veio sozinho.

Como habitualmente, já sem forças para lutar,

deixou-se escoltar pelos seus companheiros de viagem habituais:

o egocentrismo e a discriminação.

 

Já todos sabemos, de tanto ouvir dizer, que vivemos tempos difíceis e que a tendência é para piorar.  Esta tem sido uma dissertação escrita a diversas mãos, com espaço permanentemente reservado na Comunicação Social e para a qual não têm faltado os indispensáveis argumentos, provas e exemplos, sem faltar a necessária validação da autoridade “científica”.

A narrativa que tem vindo a ocupar o espaço público de comunicação é de tal modo que nos pode levar a acreditar que a expressão tão popular “éramos felizes e não sabíamos” se aplicava a toda a população, no passado recente que a pandemia COVID-19 veio interromper. Mas, não esqueçamos que, para um grande número de cidadãos e cidadãs, a situação em que viviam já era marcada por enormes dificuldades, tornadas insustentáveis com esta pandemia. Nunca é demais lembrar que a pobreza, a violência e o abandono matam mais do que qualquer vírus e estão cada vez mais escondidos, ofuscados pelas contingências dos tempos atuais, em que, devagarinho o medo se instala.

Primeiro o medo do vírus, anónimo, irreconhecível - um inimigo que nos rouba o futuro e aqueles que amamos. Com ele, as prioridades mudam e os círculos fecham-se, ameaçando grupos que pela sua fragilidade e invisibilidade ficam fora de qualquer círculo, presos à sua sorte.

Depois, o vírus vai deixando o seu anonimato e ouvem-se os arautos, que começam a delinear as suas faces, os seus perfis. Não as situações, as dificuldades e o desconhecimento, afinal, isso não serve às audiências.

Finalmente, esse medo vago e impreciso começa a ter forma. É o estrangeiro, a viajante, o vizinho, a funcionária. Assim, começa a discriminação e o egocentrismo, companheiros do medo que o desumanizam. São estes os sentimentos que urge destruir e substituir por uma verdadeira responsabilização cívica, com a certeza de que são, sobretudo, as situações que nos colocam a nós e aos outros em risco.

Sendo importante reconhecer a importância de todas as medidas que visem a proteção da saúde de todas e de todos, daqui não se pode partir para a estratégia generalizada do medo. Devemos sim assumir a nossa responsabilidade cívica de não deixar ninguém para trás, pois não podemos correr o risco de perder a nossa a humanidade.

Aos profissionais de saúde cabe a hercúlea tarefa de salvar as vidas, mas salvar a fé na humanidade é um trabalho de todas e de todos nós.

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21
Set20

Retrocessos…


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Em breve, assim espero, ouviremos falar da Era Pós-Pandemia. Estamos em plena transição, inaugurando uma Nova Era mas, enquanto não completamos essa transição, façamos uma reflexão. Desde o início do ano, temos vindo a verificar alguns pontos de rutura, imensas alterações climáticas, a pandemia Covid-19, movimentos antirracistas um pouco por todo o mundo e a falta de uma liderança mundial com capacidade para avaliar situações de risco, que comprometem vidas e os direitos humanos.

Esta pandemia provocou um reset mundial em que, pela primeira vez na história, família, educação e trabalho passaram a acontecer de forma simultânea e no mesmo lugar, dentro de casa... Mas nem todo o cenário é bonito.

Sabemos que a igualdade é fruto de lutas por direitos, mas o que muitos desconhecem é que existem muitas formas de desigualdade, umas às claras e outras disfarçadas com hipocrisia. Ultimamente, o que mais tenho assistido é a pandemia servir de justificação para tudo. Já chega de taparem o sol com a peneira, muitos dos problemas já existiam aos olhos da sociedade hipócrita em que vivemos. Ora vejamos, esta pandemia só veio agravar as desigualdades existentes e revelar, uma vez mais, mas agora com mais intensidade, as deficiências nos sistemas sociais, políticos, económicos e ambientais. Não há respostas para tudo e a ajuda não chega a todos e todas. É preocupante a perda de milhões de postos de trabalho pelas mulheres, sobre as quais também recai a falta de partilha das tarefas de cuidar das crianças e dos idosos. É angustiante saber que a pandemia e as medidas de confinamento provocaram um aumento de casos de violência doméstica. Fico aterrorizada só de pensar que muitas mulheres e crianças ficaram à mercê dos agressores que ficaram em casa por causa da quarentena, com todos os riscos e perigos que essa presença em clima de tensão acrescida podia gerar. “Mais do que nunca, é preciso haver tolerância zero à violência doméstica”, escreveram os embaixadores dos 124 Estados-membros da ONU – portanto, mãos à obra e coloquem em prática. Lembro também os mais esquecidos, as pessoas sem abrigo, pois quem não tem habitação, quem não tem acesso a água e energia é mais vulnerável à contaminação e não tem como defender-se. Brevemente, mais propriamente daqui a um ano, lembrar-se-ão delas e imaginem lá porquê?

Há umas semanas via, incrédula, no telejornal que, em África, havia um aumento da fome e perda de vidas humanas, com mulheres a morrer em trabalho de parto por não conseguirem ter acesso ao hospital. Nos campos de refugiados, são muitos os dramas que por lá se vive – já existiam antes da crise sanitária é verdade, mas agora, aumentaram. O que temos sabido sobre estes seres humanos tão frágeis e vulneráveis, em particular sobre as mulheres e crianças refugiadas? Há respostas? Há soluções?

O novo coronavírus impôs-nos muitos desafios. Um vírus que apesar de não olhar a geografias, na verdade não atinge todos os países e povos da mesma maneira. 

Precisamos de inverter todas as desigualdades que esta pandemia nos trouxe. Na verdade, não foi a pandemia e sim o ser humano que estava à espera de um pé em falso para que estas desigualdades viessem ao de cima. Precisamos de acabar com a desigualdade entre homens e mulheres que, em momentos de crise, provoca sempre inaceitáveis recuos nos direitos das mulheres, sem esquecer que estas crises são uma ameaça à proteção dos direitos das crianças.

Se a recuperação mundial for apenas focada na eficiência e no lucro a curto prazo, sem um olhar cuidadoso para a inclusão, corremos o risco de perder décadas de avanço na igualdade, o que seria péssimo para todos e todas.

Estão, assim, a surgir novos perigos, face a este novo padrão para o qual todos e todas devemos estar atentos e atentas. Que as pessoas tenham consciência: está à porta uma 2ª vaga, não ignoremos os gritos silenciosos. Os direitos humanos não podem ficar de quarentena, há que os defender diariamente.

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13
Jul20

Mudam-se os tempos... E as vontades?


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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O mundo está em ebulição. De um tempo de confinamento, em que a palavra de ordem era “vai ficar tudo bem” e a solidariedade estava na moda, a urgência de voltar ao dito “normal” e a necessidade de manter o sistema tal como estava antes da pandemia, a todo o custo, está a fazer com que assistamos a, cada vez mais, dualidade e extremismos no mundo.

Custa perceber como é que grande parte da Humanidade não aprendeu nada com estes últimos meses. Como ignorou os sinais do planeta e tentou pintar a pandemia ou de cor-de-rosa, ou de negro. Mais uma vez, dois extremos…

As notícias são quase que um diário da pandemia, salientando claramente os países onde a situação está “pior”. Lançar permanentemente o medo para formatar as mentes é o que está na ordem do dia. Ao mesmo tempo, novamente no lado oposto, surge o discurso da retoma económica e do “vai ficar tudo bem” quando não está tudo bem. E passa-se dum extremo para o outro, saltitando e confundindo quem se deixa absorver.

As desigualdades quase que passam ao lado por entre os pingos da chuva de discursos em tempos de COVID-19, mas estão a tornar-se cada vez mais evidentes. Não apenas desigualdades, mas também os tratamentos desiguais em todo este processo.

Há quem tenha que se deslocar diariamente para o trabalho em transportes públicos lotados, sem qualquer segurança. Há quem trabalhe em empresas sem quaisquer condições, mas que não possa abrir a boca porque precisa dum trabalho temporário e altamente precário para sobreviver. Há quem esteja a sofrer com o desemprego ou com a suspensão da sua atividade, e tenha muito pouca proteção social. Há quem seja estigmatizado/a pelo local onde vive. Há quem tenha que se desdobrar em mil e uma funções entre quatro paredes, num espaço minúsculo, onde ter um tempinho para si passou a ser um luxo. Há quem conviva diariamente com a violência e se sinta sem saída. Há quem esteja só. Há quem não tenha o que comer, há quem esteja no fundo do poço, há quem não saiba o que mais fazer para continuar… Enquanto outros/as se queixam de não poder viajar nas férias, ou de não poder assistir a um festival…

Pouco se fala destas situações. Porque o fundamental é falar da pandemia e da retoma económica, sem fazer as mudanças estruturais necessárias para dar o salto evolutivo e se preparar para a próxima fase. Investe-se em “cuidados paliativos” económicos, em vez de apostar na dignidade humana. Exige-se muito a muitas pessoas, e faz-se o oposto. Manipula-se as mentes para se vigiarem umas às outras. Culpabiliza-se o lazer e o fazer o que se gosta. Agarra-se ao exterior, ao viver para fora, fugindo a sete pés do interior. Assiste-se a quem brinca com o vírus, e a quem se isola com medo de tudo. Promove-se a desunião em todo o lado, até dentro de grupos que deveriam ser mais unidos e tolerantes. Cada vez menos se aceitam verdades diferentes, perspetivas diversas e olhares distintos. “Tenham medo, sintam raiva, sejam intolerantes… Mas… vai ficar tudo bem.”

Nesta curva pandémica de dualidade, estamos a caminhar a largos passos para o seu pico. Agarrando-se aos alicerces que sustentam a mesma curva, que são feitos de madeira altamente corroída por térmites. Foge-se da mudança, repete-se os erros e aposta-se na mesma fórmula, vezes e vezes sem conta…

Deseja-se um mundo melhor, mas faz-se exatamente a mesma coisa, dia após dia. Resiste-se à mudança, de dentro para fora... Deseja-se paz, mas promove-se constantemente a guerra, seja ela física, verbal ou escrita. Prega-se tolerância e convivência pacífica, mas pratica-se a intolerância para com quem não pensa ou sente exatamente da mesma forma. Defende-se os direitos humanos, mas na prática pratica-se a desigualdade em muitos campos da sociedade.

Sem coerência entre a palavra e a prática, o mundo não irá mudar para melhor. Sem integração da aprendizagem, tudo irá continuar igual. Os seres humanos são cocriadores da sua realidade, mas quando é que terão a coragem para se libertar da dualidade e do materialismo para criar, realmente, um mundo mais pacífico e igualitário?...

Esperemos por cenas dos próximos capítulos.

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29
Jun20

Como está o Mundo?


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Nas últimas semanas, tenho observado e pensado bastante. O mundo continua a lutar contra a pandemia COVID-19 e se adaptando aos novos dias que virão.

Não consigo deixar de observar as muitas pessoas que tentam ajudar outras. Muito rapidamente vem-me à cabeça os profissionais de saúde que, mesmo exercendo a sua profissão, não deixaram de doar o seu tempo livre para estar na linha da frente e estender a mão a quem mais precisava. Vi pessoas a ajudarem-se umas às outras e tive pessoas que me ajudaram quando temi pela privação da minha liberdade. Vi outras tantas contribuírem com dinheiro para ajudar as mais afetadas pela pandemia e outras mudaram as suas vidas para limitar que o vírus se alastrasse, mesmo que essas mudanças tenham sido inconvenientes para elas mesmas. Por alguns momentos, os Direitos Humanos vieram ao de cima e a pandemia, para muitas pessoas, trouxe o melhor.

Por outro lado, observo e sinto o egoísmo crescer, a pouca empatia que existe desvanecer…. Vejo vários exemplos de pessoas que não parecem estar a contribuir para o bem comum, recusando-se a usar máscaras e até tornando-se violentas quando lhes é pedido para a colocarem. Pessoas que agem como se estivesse tudo bem e nem fazem um esforço para manter o distanciamento, e outras que insistem em não perceber que o mundo, quer queiramos ou não, mudou! E nós temos que mudar também.

É confuso, não conseguir entender o porquê das pessoas se recusarem a fazer, cada uma, a sua parte. Acho que o ser humano, quando nasce, vem com chip e é programado para satisfazer primeiro as suas necessidades e desejos. Mas não podemos continuar a viver numa sociedade egoísta. As pessoas não podem fazer o que quiserem sem ter consideração pelas outras. Uma vida civilizada exige que todas as pessoas considerem os seus interesses e o bem estar uns dos outros.

Não é fácil chamar à razão alguém, dizendo que o correto é o ser humano se preocupar mais com os outros. Obviamente que, para isso acontecer, esse alguém teria que estar ciente e sensível para se colocar no lugar do outro. O problema é que, se já havia falta de empatia, agora noto, ainda mais, pessoas com falta de capacidade de reconhecer, entender, compartilhar os pensamentos e os sentimentos. Existem, cada vez mais, pessoas indiferentes aos problemas dos outros, com pouca compaixão, não dando uma palavra amiga, sendo cada vez mais egoístas com o seu o ego lá em cima e para quem só importa o seu próprio umbigo.

O mundo mais parece uma luta de Wrestling - solidariedade vs egoísmo. Por um lado, a disposição para ajudar os mais próximos, por outro, o Eu em primeiro lugar. Dá que pensar… são duas caraterísticas bem opostas do ser humano.

Assusta-me pensar num mundo povoado por pessoas assim… Se a maioria não aprendeu nada com o que se passou nos últimos meses, como será o futuro? Será que não conseguem realmente entender que estamos todas e todos juntas/aos nisto?

Afinal como está o Mundo?

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18
Mai20

O Significado da Solidão


umarmadeira

ARTIGO DE CARINA JASMINS

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Resolvi escolher este tema e fazer uma reflexão. Embora a maioria das pessoas do Mundo tenha crescido com a companhia de família e amigos, a relação connosco próprios é construída especialmente nos momentos de solidão e reflexão, aprendendo a nos conhecer melhor através do silêncio. Aqui, a solidão não é examinada sob uma perspetiva negativa, mas sob uma visão positiva de que, em certas fases da vida, esses momentos servem para o nosso crescimento e aprofundamento, se realmente estivermos dispostos a aprender. E aqui mostro uma perspetiva particular, fruto das minhas próprias vivências que agora compartilho com vocês.

Antes, o tempo corria rápido, as horas disponíveis de um dia não chegavam para tudo o que havia para fazer, trabalhar, cuidar do filho, tratar das tarefas de casa, ir ao supermercado, ainda havia muitas mais, e os dias iam passando alucinantes, fazendo as tarefas a correr, muitas vezes sem colocar consciência naquilo que fazia. Às vezes, o tempo que sobrava para parar era gasto a pensar naquilo que ainda tinha para fazer, depois era dormir para que chegasse mais um dia e voltar à mesma velocidade.

Tive muitos momentos destes na minha vida, mas também tive muitos que mesmo sem querer, fui obrigada a parar, tanto por questões de saúde como situações de desemprego que se prolongaram, sempre tinha muita dificuldade em parar, em ficar comigo, fugia, não me sentia bem a sós comigo. Mas nesses momentos, especialmente em alguns em que me vi impossibilitada de poder andar, devido a um problema nas ancas com que nasci, sentia-me como uma âncora presa ao fundo do mar. Nesses momentos duros, fui mesmo obrigada a estar comigo e a lidar com todas as emoções e dores que tentava a todo o custo evitar. As dores físicas, durante muito tempo, eram tantas que mal conseguia pensar, apenas o que podia fazer era sentir.

Agora, ao olhar para esta experiência, vejo que o que precisava era de olhar para as minhas emoções e simplesmente sentir, tirando o foco dos pensamentos e da parte mental que ao longo dos anos tinha-se sobreposto. Quando não queremos que algo nos continue a magoar, muitas vezes, o caminho é virarmo-nos para a Mente e desligarmos o coração. Isso acontece para podermos, simplesmente, sobreviver porque as emoções são avassaladoras, mas esse não é o caminho que nos faz feliz, temos que voltar a religar.

E por quê falo nisto? Porque nessas alturas parei e o mundo continuou na sua corrida contínua e louca, e eu de facto sentia-me parada, como se estivesse a perder tempo e, muitas vezes, sentia-me inútil, mas no fundo estava a fazer uma grande aprendizagem sem perceber, só agora entendo o significado de tantos momentos forçados de paragem.

Quando surgiu esta situação, primeiro de epidemia e depois de pandemia, no início, sou sincera, pensei que seria mais uma situação como a gripe A e não lhe dei a devida importância. Com o tempo, percebi que não se tratava de mais um aviso, mas desta vez seria mesmo a sério.

Quando fomos chamadas/os a ficar em casa, em confinamento, pensei que se me sentisse aflita, simplesmente pegava no carro e ia dar uma volta para desanuviar. No entanto, para meu espanto, essa vontade não surgiu. Eu, desta vez, tinha parado, mas o Mundo tinha parado comigo, era como se tudo abrandasse, até o dia parecia ter mais horas, até o respirar com o tempo tornou-se mais lento e consciente, a serenidade era surreal, os carros já não passavam a correr na estrada, ouvia-se nitidamente o som dos pássaros. Nem na minha imaginação mais exacerbada poderia pensar viver um momento assim.

No momento inicial foi esta a sensação, mas com o passar do tempo começaram a aflorar emoções e sentimentos, lembrando que ainda havia limpezas interiores a fazer, tinha que voltar para dentro, abrir velhos baús, onde surgiam emoções guardadas, padrões que se repetiam e tudo o que podia fazer era olhá-los com coragem para que os pudesse resolver dentro de mim.

Neste momento de confinamento, estranhamente surgiu a vontade de cuidar das plantas que eram da minha querida avó, e digo estranhamente porque, embora ame a Natureza, nunca fui muito dada a cuidar de plantas, nunca achei que tivesse muito jeito. Minha avó dizia com alguma tristeza “Quando me for embora, as minhas plantas vão morrer todas” e eu dizia-lhe “A avó ainda vai viver muitos anos para cuidar das suas flores”. A minha vontade era que a minha avó estivesse sempre ao meu lado, mas sabia que um dia iria perdê-la.

Arranjei os vasos e a terra e, aos poucos, fui mudando vasos que estavam partidos, o meu filho ia ajudando, brincando com a terra, mas passado algum tempo cansava-se e ia buscar outra coisa para fazer. Nos meus pensamentos, enquanto arranjava os vasos, pensava na minha avó e dizia-lhe em pensamento “Avó, estou a cuidar das tuas plantas, como tanto querias, espero que gostes”. E, nesses momentos, sentia-me ligada à minha querida avó, que tanto amor me deu. Nesse momento a sós, podia senti-la e sentir também o seu amor. A maior herança que deixamos no Mundo é o Amor que partilhamos, tudo o resto se desfaz com o tempo.

Foi neste momento de confinamento que pude ter esta experiência e outras mais, muitas vezes nesta solidão, a relação connosco próprios cresce e fortalece-se. Esta paragem faz com que nos possamos ligar ao que realmente interessa. Aprendemos a dar valor às coisas simples, um abraço, um pequeno gesto, o saborear de um café e de um pão quente, coisas que eram garantidas e nos passavam despercebidas antes do confinamento.

Infelizmente, foram após grandes catástrofes que caíram sobre a Humanidade, que foram realizadas as mais profundas reflexões e mudanças. Um exemplo é a criação da ONU após a 2ª Guerra Mundial. Nestes momentos são necessárias reflexões para a mudança, queda de velhos paradigmas com os quais o mundo ainda é governado, maneiras de viver e de pensar que já não funcionam, sem consciência. Acredito que tudo isto sucumbirá perante os novos tempos que se avizinham.

Talvez seja uma sonhadora, mas acredito com todo o meu coração, que o Mundo se tornará um lugar melhor, mais consciente, um lugar de diversidade, onde se respeita e se honra a individualidade de cada um/a. Poderá levar muito tempo, mas acredito que esse mundo já esteve mais longe de chegar.

Esta foi parte da minha experiência que partilho agora convosco. Outros terão outras experiências e outras maneiras de ver e pensar sobre este momento que atravessamos. E está tudo bem e tudo certo, cada um tem a sua experiência, somos aproximadamente 7,5 mil milhões de habitantes neste planeta, cada um/a com a sua própria visão única deste mundo, somos todos/as diferentes, mas, ao mesmo tempo, iguais na nossa matriz.

É por isso que o mundo é maravilhoso e rico na sua diversidade porque cada ser humano é único e tem algo também único para trazer ao mundo. Trazemos essa unicidade para o exterior cada vez que nos aprofundamos e nos conhecemos melhor.  Na viagem maravilhosa ao nosso interior, percorremos caminhos de solidão onde toda a experiência que vivemos no exterior é refletida e incorporada.

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04
Mai20

As desigualdades no século XXI


umarmadeira

ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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No actual contexto, pelo facto de permanecer em casa há já algum tempo, tem-me feito reflectir sobre as oportunidades e os vários níveis de desigualdades, que abrangem todos/as, mas de forma mais acentuada as mulheres. Mas por outro lado, a palavra que eu mais retive ao longo deste período de emergência, foi que todas/todos estavam no mesmo pé de igualdade, quanto à pandemia, e que tudo ia ficar bem…

Então, dei por mim a pensar que as desigualdades, queiramos ou não, começavam antes de nascermos, assim como o desenvolvimento das pessoas ao longo da vida, influenciado não só pelas decisões que as/os mães/pais fazem relativamente à educação, das/dos suas/seus filhas/os, mas também pelas oportunidades, económicas, políticas e sociais, que as famílias com mais poder económico tendem em preservar esse poder, para elas mesmas e para os seus, ao contrário das de menores posses.

 Por outro lado, constatando que nos países mais desenvolvidos, as desigualdades estão concentradas na distribuição dos rendimentos que é maior, que nos menos desenvolvidos, e que a distribuição dos rendimentos diminuiu bastante nos últimos anos, mas ao contrário do que deve ser a informação, o que nos é transmitido via sondagens de opinião em todo o mundo, é que a proporção da população que se dizia importante diminuía e a desigualdade vinha aumentando a vários níveis.

Há informações que parecem dar a entender que o desconforto em relação às desigualdades vai num sentido mais abrangente, e que as causas estavam mais relacionadas com a forma como as pessoas viam as oportunidades que tinham, olhando para o futuro, num mundo em grande mudança.

Por isso, verifico que, em alguns aspectos, as desigualdades têm diminuído, mas noutras têm aumentado, havendo convergência, mas também divergências. Tenho consciência de que houve progresso em alguns indicadores de desenvolvimento, que a pobreza extrema tem vindo a cair e também a mortalidade infantil, mas, em Janeiro de 2020, um órgão de comunicação social tornava público haver 500 milhões de pessoas a trabalharem, sem receberem salário e que os/as jovens eram os/as mais excluídos/as, apesar do progresso e do avanço das novas tecnologias, concluí que as grandes desigualdades persistem em todos os domínios de desenvolvimento humano.

No campo da educação é sabido que, em vários países, a taxa de escolaridade primária tem caído, muitas crianças têm deixado de poder frequentá-la, e nos ciclos seguintes há divergências entre países, assim como dentro dos países, contribuindo para que os mesmos não sejam para todas/os. Quanto ao ensino superior, está cada vez menos acessível a todas/os, porque a situação económica de muitas famílias, devido às frágeis condições de trabalho, e às baixas remunerações, não lhes permitem, que os/as seus/suas filhos/as possam também sonhar com a universidade. O que está mais do que visto é que há uma grande desigualdade na área da educação.

A saúde, que é um bem essencial à vida de qualquer ser humano, deve estar acessível a todas/os, mas contínua a haver muita desigualdade. Quem detém poder económico, tem acesso a melhores meios de diagnóstico e de tratamento, enquanto os/as mais vulneráveis morrem por não ter acesso nem a uma coisa nem outra. Está mais do que visto que só através de políticas públicas e de acções dos decisores políticos é possível tomar medidas que reduzam as desigualdades, mas é visível também que essas decisões são condicionadas por aqueles que querem manter as suas posições privilegiadas.

Por isso, defendo que é fundamental haver oportunidades mais equitativas para todas/os, porque não é só uma questão de justiça, é também uma questão de eficiência económica, até porque é provável que os/as filhos/as dos/as mais privilegiados/as, não sejam os/as mais preparados/as, para as ocupações de empregabilidade melhor remuneradas.

Por outro lado, também o impacto das alterações climáticas afecta mais rapidamente e de forma mais profunda os/as mais vulneráveis e que têm menos recursos. Por isso, tende a aumentar as desigualdades e as respostas a serem mais difíceis, o mesmo se passando com as novas tecnologias. Há actividades com remunerações baixas que não podem ser automatizadas, por exemplo, os serviços de limpeza e as/os empregadas/os domésticas/os, entre outros, tarefas que maioritariamente são desempenhadas por mulheres, o que contribui para que, tanto na doença, como na velhice, haja grandes desigualdades, e se é verdade que já se deram alguns passos, muitos ainda terão de ser dados.

A desigualdade de género continua a ser uma das maiores barreiras do desenvolvimento humano. Porque o preconceito contra a igualdade de género ainda está longe de ser ultrapassado. Ainda existem empresas que, na admissão de trabalhadoras/os, elaboram inquéritos e fazem questionários onde é perguntado às candidatas, por exemplo, se um homem não é melhor líder político do que uma mulher ou se tencionam engravidar, e a ambos os sexos se estão inscritos/as no partido do poder, entre outros. Estas normas sociais condicionam, e de que maneira, o papel das mulheres na sociedade. É crucial olhar, também, para a forma como as desigualdades podem evoluir ao longo da vida das pessoas, não só antes de nascerem, mas também para a forma como os mercados funcionam.

Com o COVID-19, as mulheres mais vulneráveis e com menos recursos serão as mais afectadas. Neste momento, as mulheres que são mães, trabalhadoras e professoras em simultâneo, não deve ser nada fácil desempenhar todas estas tarefas. Por outro lado, com a solução encontrada de aulas dadas à distância, muitos/as alunos/as filhos/as das classes menos favorecidas sentem-se descriminados/as, porque os/as seus/suas pais/mães não têm condições económicas para lhes proporcionar essa ferramenta de aprendizagem, faltando-lhes computador, impressora e Internet. Enfim, a luta pela igualdade não pode parar. Todas/os temos de continuá-la porque nesta vida nada está seguro.

Concluo fazendo votos que o Estado de Emergência, no país e na região, esteja próximo do seu fim, deixando todas/os profissionais de saúde, às centenas de mulheres que limpam escritórios, hospitais e centros de saúde, assim como a todos/as que já há quase dois meses trabalham, para que a quem se encontra em casa nada falte.

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27
Abr20

Feminismo na era do confinamento viral


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Estamos a viver um momento extraordinário das nossas vidas. De repente, sem termos aviso prévio, ficamos confinadas/os em isolamento social sem podermos contatar, pessoalmente, familiares e amigos/as e, sobretudo, sem poder sair à rua quando nos apetece, só porque sim.

Este corte de liberdade, aquela liberdade tão primária que é caminhar na rua, ver pessoas, conversar, olhar o mar, as árvores, as flores da primavera, foi-nos cortada tão bruscamente que até parece que estamos a viver um filme de ficção. Não podemos cumprimentar as pessoas de quem gostamos e amamos, com um simples aperto de mão, com um abraço e, muito menos, com beijos. Agora até nos dizem que, quando voltarmos à rua, será com máscara e mantendo distanciamento social de dois metros em relação a cada pessoa, mesmo as mais próximas da nossa família com quem nos queiramos encontrar. Não há cafés nem restaurantes abertos e não sabemos quando vão reabrir, nem em que condições o farão. Não haverá praias abertas até quase o fim do verão. Não há eventos culturais com ajuntamentos de pessoas, não haverá vida para além das nossas casas e das ruas confinadas ao distanciamento social. Que situação tão estranha numa era que devia ser cada vez mais dos afetos. Que poder tem um “microrganismo desconhecido” nesta era da globalização? Que implicações irá ter no futuro das nossas vidas?

Numa situação mais dolorosa encontram-se os/as doentes e internados/as em lares, ou noutras casas de saúde, que nem visitas podem receber. Algumas pessoas morrem, numa imensa solidão, sem perceber porque, de repente, ficaram sem ver os entes mais queridos.

Vivemos uma época que mais parece um filme de terror. E nesta situação, como fica o trabalho feminista da UMAR? Estávamos a iniciar um ano promissor em termos de iniciativas. Fizemos uma importante Assembleia de Associadas em Janeiro que aprovou um plano e orçamento que, neste momento já está desatualizado em alguns aspetos. Estávamos muito entusiasmadas com iniciativas originais que iríamos promover e, de repente, está tudo em stand by.

Lançámos o concurso de Artesanato e Artes Plásticas “Feminismos é Liberdade”, que se mantém com a entrega de prémios em Julho. Esperemos que seja presencialmente. Divulgámos, com muito êxito, os resultados distritais do Estudo Nacional da Violência no Namoro. Fizemos ações nas escolas. Lançamos um livro com a primeira coletânea dos artigos deste blogue que, entretanto, recomeçou a sua atividade no início de abril, já em pleno estado de emergência.

Estávamos a desenvolver o Projeto ART’THEMIS+ nas escolas com muito êxito, onde já estavam a ser preparados os produtos finais que seriam apresentados num seminário em Maio. Mesmo com as dificuldades atuais, esse trabalho vai continuar em outros moldes e os trabalhos serão apresentados noutra altura, assim esperamos.

A feira semanal que organizávamos está suspensa por orientação da edilidade do Funchal, colocando várias das nossas associadas numa situação de grande precariedade pessoal. Já deliberámos alguma ajuda, mas temos plena consciência que a situação é muito difícil para as famílias que dependem da realização das feiras para poderem sobreviver.

Vivemos tempos difíceis que nos colocam desafios incríveis, e ainda estamos a aprender como continuar a trabalhar em prol da igualdade nesta era do vírus invisível, que é a maior das ameaças à humanidade desde a minha existência. Mas as feministas, ao longo da História, nunca desistiram nos momentos mais difíceis, e nós também não o vamos fazer. Até porque velhos problemas se vão agudizar e direitos que estavam assegurados já começam a ficar em causa, como o direito ao trabalho e ao emprego com direitos. Já dizia Simone de Beauvoir ”É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta”.

Ora, é exatamente isso que nos começa a preocupar. Quando o trabalho falta às mulheres, a sua independência fica em causa e, com essa falta de independência, volta tudo atrás na História. Muita coisa vai acontecer, e temos, de certeza, muito trabalho pela frente, até porque na semana passada comemorámos o 25 de Abril, que também significou a liberdade da mulher portuguesa sair de casa e conquistar direitos de cidadania, que nenhum vírus pode colocar em causa.

Podemos ainda continuar confinadas por mais algum tempo, mas não deixaremos de estar atentas a tudo o que se passa à nossa volta. Mesmo com muitas dificuldades, a vida vai continuar e cá estaremos para intervir na defesa dos nossos direitos, a todos os níveis. Tenhamos saúde para isso.

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06
Abr20

Vai ficar tudo bem?...


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Foi-me dada a responsabilidade de ser a primeira pessoa a escrever para o blogue da UMAR Madeira, após um interregno. Não poderia fugir ao tema da pandemia do COVID-19, que atinge toda a humanidade neste momento.

Não me considero uma otimista militante, nem uma pessimista dramática. Ando ali pelo meio… Considero que esta pandemia é uma oportunidade de ouro para a humanidade repensar a sua forma de vida, a sua relação com a Terra e para haver um recomeço geral, que implique a queda de muitos sistemas que já andam a falir há muito, muito tempo. Mas, será que é isso que vai acontecer? Infelizmente, e por mais que deseje que assim seja, duvido.

Neste preciso momento, existem pessoas a sofrer e a morrer, vítimas do vírus. Mas, também, existem muitas mais a sofrer com o isolamento social. Sejam aquelas pessoas idosas que vivem sós, pessoas portadoras de diversas patologias crónicas, pessoas com doenças graves, aquelas famílias que estão a sentir na pele uma bruta redução nos seus rendimentos – ou mesmo, o peso amargo do desemprego –, ou pessoas inseridas em famílias desestruturadas, onde a violência doméstica é uma presença assídua que também ceifa vidas, especialmente de mulheres. Não poderia deixar de falar daquelas pessoas que estão na linha da frente, expondo-se ao perigo: profissionais de saúde, bombeiros/as, funcionários/as de lojas de bens essenciais, os/as que transportam os bens e entregam ao domicílio, etc., etc.. Profissionais estes/as que só são valorizados/as em crises graves como esta. E ainda assim…

As pessoas querem culpados/as. Desejam apontar o dedo a quem foi o/a responsável por tudo isto. Nas redes sociais, assisto a verbalizações de quem exerce, orgulhosamente, xenofobia para apontar o dedo a todo um país, a quem exalta o seu ego e diz que o seu estilo de vida é o melhor e quem tem culpa disto tudo são “os outros”. Etc., etc.. Na verdade, ninguém quer perceber que tudo o que está a acontecer é da responsabilidade de todos os seres humanos. Que invadem todo o planeta. Que esgotam os seus recursos a um ritmo alucinante, como se os mesmos fossem infinitos. Que poluem ar, terra e água, incessantemente. Que estão a ser os responsáveis pela sexta extinção em massa. Que criam um sistema alicerçado num crescimento económico ilusório, no enriquecimento de alguns através do consumismo feroz e imparável de muitos/as, que amplia as desigualdades, que impede que todos/as os/as humanos/as tenham os mesmos direitos, em todo o planeta. Que fazem tudo isto para manter um estilo de vida que não é sustentável, nunca foi.

Enquanto nos queixamos de “estar presos/as em casa”, “aborrecidos/as sem nada para fazer”, e não nos falta nada, pensemos naquelas pessoas que nem sequer têm acesso a água potável. Ou as que não têm capacidade financeira para aceder a um sistema de saúde. Ou a quem lhes falta comida, mesmo sem pandemias. Ou mesmo, um teto para habitar. E grande parte destas pessoas são mulheres e crianças. Acham que as consequências são iguais para todos/as? Por favor, deixemo-nos de queixinhas e reclamações por tudo e por nada. Deixemo-nos de vaidades. Aproveitemos o tempo para, por exemplo, partilhar as tarefas domésticas e estar mais presentes na parentalidade – agora não há desculpas. As escolhas são individuais, é verdade. Mas as consequências, essas, são coletivas. Mais do que nunca, durante esta pandemia.

Na verdade, muitas pessoas têm escolhido olhar e viver para fora, preenchendo a sua vida com coisas, e ocupando com eventos, isto e aquilo, fugindo a sete pés de olhar para dentro de si. Só que, pelo meio, esqueceram-se de… ser. E agora, que o vírus está a obrigar-nos a todos/as a parar e a olhar para dentro… é como se a Natureza estivesse a por o dedo na ferida. Talvez, uma piada de mau gosto, para algumas pessoas. Eu vejo mais como uma oportunidade para a introspeção, para nos conhecermos melhor, a nós próprios/as. Sem mais fugas e artifícios.

Pensando no futuro, vejo muita gente ansiosa para voltar ao “normal” depois de tudo isto passar. Então, vamos fazer tudo igual? Intensificar a atividade industrial (e poluição) para compensar as perdas dos meses de quarentena? Retomar a exploração laboral, com salários baixos? Não aprender nada com crises anteriores e abrir os cordões à bolsa da banca e fundos internacionais, com oferta de créditos e mais créditos – que depois os/as trabalhadores/as e reformados/as vão pagar, uma vez mais, a peso de ouro – e, novamente, alicerçar a vida num sistema falido no ambiente, na sustentabilidade, na economia, nas finanças e nos direitos humanos? Vamos continuar a agarrar-nos a um sistema que, simplesmente, não funciona? Que prioriza o lucro ao sistema de saúde? Que valoriza o ego à essência?...

Ainda tenho esperança que tiremos, enquanto humanidade, lições de tudo o que se está a passar. Que as novas tecnologias estejam acessíveis a todos/as, e evoluam para desenvolvermos novas formas de trabalho, de rendimento – o que já começa a acontecer. Que se encontre uma forma de todas as pessoas terem acesso a um rendimento base, igual para todas, que lhes garanta acesso ao essencial para viver. Que se regresse um pouco às origens, no que diz respeito à agricultura e à produção local, priorizando o que é de cada região e impedindo a massificação. Que o comércio passe a ser verdadeiramente justo, e sustentável. Que se desenvolva rapidamente novos meios de transporte, independentes de combustíveis fósseis ou baterias cuja produção é altamente poluente. Que haja menos competição e mais cooperação. Um mundo com mais respeito por todas as pessoas, sejam elas como forem. Um planeta mais igualitário, onde deixe de haver discriminação das mulheres, e onde nem mais uma sofra e/ou morra vítima de violência doméstica. E poderia continuar com mais e mais ideias… No fundo, que haja, finalmente, um respeito pela Natureza, por Gaia, por todas as pessoas.

É uma utopia, dirão. Reparem como um vírus, que nem é um ser vivo, está a parar o mundo. De repente, as guerras entre povos deixaram de ser importantes. Nunca estivemos tão distantes e tão unidos/as, ao mesmo tempo. Vamos acabar por ultrapassar a pandemia. Mas estejamos cientes que crises como esta irão emergir, uma atrás da outra, se não aprendermos, se não mudarmos profundamente… Enquanto isso não acontecer, não vai ficar tudo bem, e não vamos ficar todos/as bem.

Que cada ser humano faça a sua parte, pensando num todo. Só juntos é que podemos transformar profundamente o mundo em que vivemos num lugar melhor. O único planeta habitável que conhecemos.

 

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