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Feminismos é Igualdade

29
Jun19

O Ego do Orgulho


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ARTIGO DE EMANUEL CAIRES

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Ontem assinalaram-se 50 anos após o início das Revoltas de Stonewall - sim, foi uma sucessão delas! - em Greenwich Village, Nova Iorque, o grande marco que se considera ser o grande impulsionador do movimento pelos direitos LGBTI+. Hoje, em Lisboa, marcha-se pela 20.ª vez, onde pela primeira vez se faz história ao se formar um bloco insular que vai tirar as ilhas do armário. Um caminho percorrido por entre muitos obstáculos, tal como se pode verificar no documentário "A Vida e Morte de Marsha P. Johnson", que nos fala da vida de duas das grandes ativistas, também de Sylvia Rivera, que impulsionaram a Revolta.

Há duas semanas, ao ver o documentário, deparei-me com uma realidade que não é assim tão distante. É precisamente nos países desenvolvidos que as cores do arco-íris começaram a ser comercializadas pelas empresas, que viram nos eventos de Orgulho LGBTI+ uma oportunidade para lucrar. Nos anos 60, já esta era uma questão, com os estabelecimentos noturnos e os primeiros eventos de Orgulho a serem geridos pelas máfias, e com os lucros a não serem investidos de volta na comunidade e no combate à homobitransfobia. É uma promiscua realidade, que sendo difícil de combater deixa nas mãos da organização dos eventos de Orgulho LGBTI+, a responsabilidade de defender os interesses da comunidade sem que os interesses das empresas se sobreponham.

É importante salientar que mesmo nos anos 60 e 70, no início do movimento, já os egos, os atropelos e o oportunismo eram parte do ativismo LGBTI+. Neste caso, a luta era essencialmente feita por pessoas trans e de géneros não-binários, pretas, bissexuais, trabalhadoras do sexo, sem-abrigo e seropositivas, que eram invalidadas por homens cis gay brancos. Rivalidades que fizeram com que muitas destas pessoas, com altos níveis de intersecionalidade, acabassem por se retirar do ativismo e a não se identificarem com o que era feito, formando movimentos alternativos.

Marcha P. Johnson e Sylvia Rivera, viram mesmo as suas vozes abafadas e, durante algum tempo, foram personae non gratae. Esta é também uma realidade atual, até mesmo na nossa região. Depois de três anos de ativismo puro, com uma sinergia de pessoas e associações realmente empenhadas nos interesses da comunidade, na luta contra a homobitransfobia e na progressão da igualdade, tenho verificado nos últimos meses um afastar de pessoas e associações que eram pontes e pilares importantes no ativismo LGBTI+ na região.

Pessoalmente, acho que é altura de pausar e repensar se são realmente os interesses da comunidade que estão em cima da mesa, se são os egoísmos ou se é o oportunismo de se conseguir um tacho. Em 50 anos conseguiu-se tanto porque houve união e um conjunto de estratégias e sinergias internacionais. Em 20 anos de Orgulho em Portugal, conseguiram-se relevantes alterações legais porque houve, também, um trabalho conjunto. Na Madeira, em apenas 3 anos, conseguiu-se criar um núcleo local de uma associação de jovens lgbti, realizaram-se inúmeras atividades para jovens, implementou-se um projeto de debate e informação sobre questões LGBTI+ nas escolas, realizaram-se ciclos de cinema e ações para assinalar o Dia Nacional e Internacional de Luta Contra a Homobitransfobia, a Câmara Municipal do Funchal hasteou a bandeira arco-íris por duas vezes, juntámos associações à mesma mesa para trabalhar as questões LGBTI+, deu-se novo fôlego ao ativismo e associativismo regional, estamos a caminho do terceiro Madeira Pride, o Governo Regional quis apoiar a abertura de um Centro Comunitário LGBTI+ e começam a abrir-se portas para o turismo e comércio LGBTI+ através da abertura de um hotel hetero-friendly da Axel.

Conseguiu-se tanto progresso porque se criaram sinergias cruciais entre pessoas e associações que jamais devem ser destruídas, mas sim fortalecidas. É o meu apelo: pessoas lgbti+ e apoiantes, unam-se, pois quanto mais orgulho se encherem os nossos peitos, maiores feitos serão os que vamos conseguir.

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08
Jun19

Boy George e a Causa LGBTI+


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ARTIGO DE CARINA TEIXEIRA

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Hoje vou falar-vos de uma pessoa que, para mim, para além de ser um excelente cantor, é sobretudo um ativista. Um ativista da Causa LGBTI+. Falo-vos de Boy George, vocalista dos Culture Club. Boy George é considerado um dos grandes ícones da música pop dos anos 80. No entanto, ao longo da sua vida sofreu muita discriminação pelo facto de ser gay, de usar roupas extravagantes, cabelo longo com tranças e maquilhagem muito marcante. "Nunca pude esconder que sou gay desde os seis anos. Fui chamado de garota, de queer, de 'coisa'. Então sempre estive consciente que o mundo é um lugar horrível. Acreditei e reproduzi isso por muitos anos, que o mundo não mudou nem um pouco.", disse em entrevista à NME no final do ano passado.

Foi impedido, em 2009, de se tornar membro do movimento Hare Krishna (movimento ligado à espiritualidade), pelo facto de ser gay. Boy George sempre se declarou simpatizante deste movimento, mas para entrar não poderia ser LGBTI+, uma vez que segundo as crenças do movimento, o sexo e o desejo não conduzem à existência espiritual e o sexo só poderá ser feito para fins de reprodução.

Contudo, apesar de toda a discriminação vivida, o vocalista dos Culture Club sempre lutou de alma e coração pelos direitos LGBTI+, transpondo para algumas das suas letras e videoclips reinvidicações de direitos e a demonstração de amor homoafetivo. Alguns exemplos: "a música "No Clause 28" (álbum Sold - lançado em 1989), é uma afronta a Margaret Thatcher, que proponha a censura ao LGBTI+, a proibição de se falar na homosexualidade e fazer publicações sobre o assunto; a música "Turn 2 Dust" (lançada em 2011), que fala acerca do movimento LGBTI+, da importância de se lutar por aquilo que se acredita, independentemente do caminho ser difícil ou não; e, mais recentemente, a música "Love and Danger", em que é abordado no videoclip o relacionamento homoafetivo entre dois homens.

Hoje em dia, depois de uma carreira a solo, voltou a lançar um álbum com os Culture Club chamado "Life", que fala acerca das suas experiências de vida, nunca deixando de mencionar nas entrevistas a importância do ativismo, dos direitos LGBTI+ e a sua evolução ao longo dos anos. As pessoas consideram-no "pop ícone do género fluido", mas para Boy “O género fluido sugere que há a possibilidade de mudança e ela neste caso não existe. Eu sou um homem gay antiquado.”

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25
Mai19

Não deixar por mãos alheias o que é nosso!


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ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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O título deste artigo faz parte de um ditado popular que oiço desde pequena. Mas sabemos que nem sempre acontece assim. Houve sempre quem quisesse decidir por nós. Quem nos queira impingir o desconhecido, só porque sim. Quem nos trate ainda com menoridade, ou como minoria, quando sabemos que somos uma grande maioria que pode mudar muita coisa neste mundo.

No mundo em que vivemos estão a acontecer grandes coisas. Boas e más. O que mais me preocupa são os retrocessos no que diz respeito a direitos adquiridos com tanta luta e suor e que fazem parte das nossas vidas com toda a naturalidade. Sei que no mundo actual, outras questões estão na ordem do dia, como as alterações climáticas que influenciam toda a existência na Terra. Mas não considero contraditório continuar a estar atento e não deixar que haja retrocessos naquilo que foi adquirido e lutar com afinco por mudanças de mentalidade na forma como se encara a nossa vivência no Planeta Terra.

Mais do que nunca é preciso continuar a aliar ao que já foi conseguido outras conquistas. Mas há que saber tratar muito bem de tudo. Estar com atenção quando estamos a decidir, seja em relação a quem nos representa, seja em relação ao que vamos fazer. Se nada cai do céu, há coisas que só nós podemos decidir. Saber escolher de acordo com os balanços que fazemos. Não nos demitirmos e só dizer mal apenas porque sim.

Quando decidimos fazer uma escolha temos que conhecer bem o que estamos a escolher e não deixarmos que nos digam que o caminho é por ali, quando sabemos que é por aqui. Quando falamos de escolhas temos que estar conscientes, e seja qual for o resultado, sentirmos que as nossas consciências estão tranquilas.

Que não nos deixamos manipular com medo de maiorias, ou minorias. É tão bom ter o poder nas nossas mãos: de fazer, de dizer, de querer e de decidir. Nunca devemos delegar o nosso poder em quem não acreditamos que seja capaz de nos representar ou defender. Mesmo que nos digam “não vais por aí”, devemos fazer o que a nossa consciência manda. Só assim nos sentiremos realizadas e felizes.

Pela experiência da vida de feminista e activista, de corpo inteiro, pelos direitos das mulheres, sinto que cada vez mais precisamos de Gente que saiba o que fazer quando é preciso agir e defender o que nos interessa. Só assim podemos sentir segurança no prosseguimento da luta e no trazer para a agenda as novas questões que preocupam quem realmente defende os direitos humanos.

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05
Mai19

Divagações sobre a Arte...


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ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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A resiliência de todos os povos e grupos que foram ocupados, oprimidos, maltratados, ignorados e explorados das mais variadas formas, ao longo dos tempos, é conhecida e, para além de estar registada, diretamente ou sub-repticiamente, nos documentos históricos, é tema recorrente na Ficção Literária, nas Artes Plásticas, na Música e em todas as outras Expressões Artísticas, não esquecendo o Folclore a o Artesanato.

Ainda que dedicasse este texto apenas enumerar os Artistas e Peças Artísticas que perpetuaram essa resistência e homenagearam a luta desses seres humanos a quem tanto devemos, faltaria sempre alguém ou algo. No entanto, não podemos esquecer que, tal como a História, também as Expressões Artísticas, ao longo dos tempos, sofreram as influências do poder dominante, das regras ditadas pela sociedade da época e da manipulação levada a cabo pelos contextos sociais e políticos.

Nenhuma destas contingências deve, na minha opinião, servir para desvalorizar uma obra de arte, mas sim fazer-nos refletir, pois, felizmente, a nossa visão sobre o mundo está a mudar e é com o novo olhar que essa mudança nos traz que devemos analisar a Arte e honrá-la, em todas as suas formas. Não há dúvida que temos uma dívida para com a Arte e os Artistas, que só poderá ser paga se exigirmos condições para que exerçam em liberdade e igualdade o seu trabalho, de forma que todas as franjas da sociedade sejam representadas. Estes são direitos que têm de ser respeitados, pois coartar esses direitos será comprometer o futuro legado da Humanidade.

Ao longo dos tempos, a fome e o ostracismo acompanharam aqueles Artistas que ousaram ser diferentes e ir contra os poderes instituídos, sendo atirados para a margem da sociedade e, muitas vezes, para a mendicidade como única forma de sobrevivência.

Se é verdade que a Arte permaneceu enquanto o poder e os poderosos ficaram perdidos na nebulosidade dos tempos, não podemos continuar à espera que esse reconhecimento seja trazido pelo futuro. Não podemos continuar a aceitar que a mão protetora dos diferentes regimes nos guie pelas Galerias, pelos monumentos, pelas Livrarias e pelas salas de Espetáculo. Vamos valorizar os nossos Artistas Aqui e Agora.

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27
Abr19

Da liberdade de escrever...


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ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Abril, mês da liberdade. Ontem lancei um livro erótico. O ano passado, por altura do Dia das Mulheres, a Joana apresentou o seu primeiro livro de poesia. A Guida escreve mensalmente para o Diário, fora tudo o que já publicou. A Conceição também escreve desde há muito. Elas, assim como a Assunção, a Cássia e a Carina exprimem-se neste blog. Isto só é possível porque Abril, naquele 25 de cravos e esperanças, permitiu que as mulheres se expressassem livremente em Portugal.

A literatura escrita por mulheres não é moda; tampouco as opiniões escritas por elas. O que se destaca agora, e cada vez mais, é uma adaptação do mercado editorial, cultural e político à voz das mulheres, sendo que até há poucas décadas eram elas quem se encaixavam, secretamente, muitas vezes escondidas sob pseudónimos masculinos, a um mercado feito por e dirigido a homens.

O relato masculino sempre foi o favorito. Repare-se que as grandes figuras femininas da literatura, aquelas personagens marcantes, foram descritas por homens. Uma mulher que escreve sobre outra mulher terá, certamente, outra complexidade.

Sylvia Plath, Judith Shakspeare e Virgínia Stephen tentaram reivindicar igualdade através dos seus textos. As três suicidaram-se porque a pressão era muita. Por cá, em altura de repressão, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa decidiram escrever um livro juntas (“As Novas Cartas Portuguesas”), desafiando os papéis sociais e sexuais esperados das mulheres. Foram censuradas, perseguidas, interrogadas.

A literatura escrita por mulheres é fundamental: mais não seja por sermos mais de metade da população, por termos, como qualquer ser humano, ideias e ideais, sentimentos e opiniões, momentos e movimentos. Conquistamos, aos poucos, o nosso espaço merecido após séculos de opressão, de barreiras, de nãos. Queremos que a interação do feminismo com as artes faça com que a história deixe de ser escrita apenas por homens. Queremos participar. Queremos dar a cara e a voz. Queremos assinar com o nosso nome: Valentina, Joana, Guida, Assunção, Cássia, Carina e Conceição.

Abril trouxe-nos isto: esta gigante pertença a um mundo que é cada vez mais nosso, mais feito das nossas palavras – palavras diferentes porque somos todas mulheres diferentes, porque nos expressamos de forma diferente. A riqueza desta diversidade é o que se impõe agora. Escrevamos mais. Com gritos, se preciso for. Com fúria. Com sede. Mas escrevamos. Ninguém mais nos cala. Obrigada, Abril.

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13
Abr19

Batalhar na Igualdade de Género, faz sentido?


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ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Não há dúvida de que houve um progresso nas últimas décadas, este progresso deveu-se em parte à custa da luta incansável de ativistas. Para mim, nos dias de hoje o maior desafio no que diz respeito à igualdade de género, é a educação. A mudança começa dentro da casa de cada um e de cada uma. Eu acredito que se começarmos a educar as nossas crianças, a nossa mãe, o nosso pai, o nosso irmão ou irmã para a igualdade, para os direitos humanos, para a cidadania, para a paz, daqui a uns anos estaremos com as várias formas de desigualdade menos visíveis.

Muitas vezes questiono “e se acontecesse/fosse contigo?” Tento sempre fazer com que cada pessoa que está no meu ambiente familiar se coloque no lugar da outra pessoa. As pessoas precisam urgentemente de aprender a parar e ouvir, compreender e respeitar. Aprender a respeitar cada pessoa independentemente de diferenças das capacidades, género, orientação sexual, raça, cultura… Se tenho visto resultados? Claro que sim. Eu não nasci a saber o que era a igualdade de género ou numa bela amanhã acordei e saltei da cama a dizer “sou feminista”. Eles e elas também não. É preciso educar!

Existe um preconceito que deriva sobretudo da ignorância, a maior parte das pessoas não sabe o que é ser feminista. Por isso, hoje passo a mensagem, amanhã volto a fazê-lo, depois de amanhã e depois, depois, depois…. E todos os dias o meu pai, a minha mãe, a minha sobrinha e todas as pessoas que convivem comigo vão interiorizando cada palavra e essa palavra passa para onde quer vão, para o trabalho ou para a escola.

Mas... Em todas as vidas existe um mas. Isto é dentro do meu seio familiar, no meu lar, onde existe diálogo, compreensão e união. Não é possível promover a igualdade de género se não houver condições dignas de sobrevivência. Na mesma, tento passar a mensagem às pessoas que vou encontrando no meu dia a dia e tento trabalhar a mentalidade dessas pessoas para que de alguma forma essas pessoas se sintam respeitadas nos seus direitos, não apenas por serem mulheres ou homens, mas por serem mulheres e homens que têm determinadas características que as e que os tornam mais vulneráveis.

A igualdade de género ainda está longe de ser uma verdade absoluta, mas como sou uma sonhadora não deixarei de lutar, sei que daqui a alguns anos a questão ainda não estará resolvida, mas, acredito que todos e todas terão um maior usufruto dos seus direitos.

Nesta luta, juntar-se-ão outros e outras feministas e lutaremos por um conjunto de exigências curriculares e sociais, lutaremos sempre pela promoção da igualdade de género, pela mudança de mentalidades, por uma maior liberdade, sempre que necessário sairemos à rua, em todo o lado encontrar-nos-ão. Acreditem muito ainda vai acontecer… Por isso sim, faz sentido batalhar na igualdade género!

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08
Mar19

As Operárias foram as primeiras!


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ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Elas foram as primeiras a fazer greve. Elas foram as primeiras a se manifestar nas ruas. Elas morreram ao reivindicar melhores condições de vida e de trabalho. Elas saíram das empresas e vieram para as ruas gritar liberdade. Elas saíram das suas casas e quebraram tradições, tirando os lenços e os véus da cabeça, assumindo que também eram trabalhadoras. Elas deram a vida a novos sectores e foram um exemplo que nós recordamos neste 8 de Março.

As mulheres operárias, de quem hoje quase ninguém fala, – e quando falam é como se estivessem a lembrar um passado “atrasado” – foram pioneiras na luta pelos direitos das mulheres, que beneficiou muitas outras profissões. Raramente é feita uma homenagem a estas mulheres. Dizem que ser operária passou de moda. Eu tenho muito orgulho de ter sido uma delas que, no século XX, juntamente com outras camaradas de profissão e de luta, prosseguiu o desígnio da conquista de direitos muito importantes, que ainda beneficiam as novas gerações. É por isso que me indigna que, quando é apresentado um curriculum de uma pessoa (então, se for mulher, ainda puxam mais pelos galões), não se dá importância se é uma interventora social. Isso também passou de moda. Só se realçam os títulos de isto e daquilo que ganhou, como se os títulos mostrassem o caráter de uma pessoa.

Uma mulher ou um homem, quando é apresentado, nunca o é como operária/o porque, na visão de muita gente, ser operária/o não dignifica ninguém. Ninguém deve envergonhar-se da sua profissão. Na minha juventude, ser operária/o, era saber produzir algo de útil para a sociedade. Era conhecer um ofício. Os tempos evoluíram. As máquinas foram introduzidas e substituíram muito trabalho manual. No entanto, ainda são aa pessoas dos ofícios que chamamos para nos acudir quando uma das máquinas avaria, ou quando precisamos de um produto exclusivo, mostrando a importância do ser humano com conhecimento especializado. Estamos a viver noutra época. Hoje, quase toda a gente tem mais estudos e formação do que as operárias/os de outros tempos. Mas se existe este dia 8 de Março, foi porque operárias uniram-se e lutaram, mesmo sem currículos ricos e sem estudos, e ajudaram a que hoje o mundo do trabalho seja melhor, e contribuíram para o avanço da sociedade.

Existem novos problemas. Claro que sim. É preciso continuar a luta. Claro que sim. Vamos honrar a memória das que já partiram, lembrando a sua existência para que sirva de exemplo, e que o dia 8 de Março nunca morra nas memórias. Vale a pena nunca desistir e lutar por aquilo em que acreditamos. Eu continuo a acreditar que só lutando se conseguirá um mundo melhor e mais justo.

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22
Fev19

Fazer Acontecer


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ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

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Já alguma vez experimentaram dar a vossa opinião numa reunião ou conversa e ninguém parecer ligar? Já se deram conta de que, passado pouco tempo, ouvem alguém a repetir o que vocês disseram, como se a ideia tivesse partido de si e não de vocês, sendo então essa ideia altamente aplaudida? Grrrrrr!!!!!

Já alguma vez se deram conta de que quando estão a expor um conceito ou ideia, outra pessoa vos interrompe, afirmando que explicam melhor, voltando a dissertar sobre o que vocês tinham estado a comunicar e retirando-vos o uso da palavra? Buuuffffff!!! Grrrrrrrr!!!

Já alguma vez experimentaram estar a falar e serem constantemente interrompidas ou interrompidos, sentindo que são sistematicamente ignoradas ou ignorados? Arre!!!! Buuufffff!!! Grrrrrr!!!!!

Já alguma vez saíram de uma reunião, com um sentimento de frustração monumental, sentindo que se estivessem num filme de desenhos animados as vossas orelhas deveriam estar a emitir um fumo explosivo e uns sons estridentes, tipo apito de um comboio? Humpffff!!! @#$#@$%$#!!!

Já alguma vez tiveram vontade de esbofetear alguém no fim de uma reunião ou de um grupo de conversa, mesmo que vocês se considerem pessoas do bem? 💣 💣 💣 ☠ ☠ ☠ 💣 💣 💣!!!!

Bem-vindos e bem-vindas ao mundo diário das pessoas mais tímidas, mas maioritariamente, ao mundo das mulheres. Sei como se sentem. Espero que também vocês percebam como eu me encontro muitas vezes… Se acham que isto vos acontece com alguma regularidade, não desistam de intervir e vejam algumas formas que podem ajudar a ultrapassar estas situações:

- Se forem vocês a conduzir uma reunião, não aceitem que as pessoas sejam interrompidas quando estão a usar da palavra;

- Se estão a usar da palavra e alguém decidir meter a colher, não o permitam. Continuem a falar, falem mais alto, ou interrompam e digam que poderão intervir quando vocês tiverem acabado;

- Preparem as vossas intervenções, evitando usar pausas longas. Alguém vai logo interromper, de certeza. Não lhes dêem essa oportunidade;

- Usem um tom de voz confiante, seguro e audível. Se for preciso treinem em casa, ou gravem com o telemóvel a vossa intervenção de preparação e… critiquem-se sem piedade, tentando perceber como podem melhorar a vossa exposição;

- Se tiverem pessoas na reunião que se sentem também ignoradas, ultrapassadas e forçadas a ouvir os outros, sendo-lhes retirada visibilidade, montem uma estratégia de solidariedade, como as mulheres na Casa Branca de Obama usaram – amplifiquem o que foi dito por um ou uma de vocês. Isto é: combinem antes que, quando alguma das pessoas do vosso grupo apresentar uma ideia, a outra pessoa a usar da palavra reforça o que foi dito, mencionando o nome do autor ou da autora da ideia;

- Não aceitem, de modo nenhum, ser interrompidas ou interrompidos. Façam-no com educação e algum humor, se conseguirem. Caso não consigam, deixem-se de pruridos, usem a assertividade e deem um “Chega p’ra lá!”

- Se queremos que a mudança aconteça, temos de fazer por isso. Tomem consciência da descriminação de que se sentem vítimas e pensem que deve haver outras pessoas a sentir o mesmo. Conversem, troquem ideias, mas não se fiquem pelos lamentos.

Arranjem aliadas e aliados. Façam diminuir a desigualdade e a descriminação todos os dias, em todos os pequenos e grandes momentos.

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18
Jan19

Situação das mulheres pelo mundo...


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ARTIGO DE CONCEIÇÃO PEREIRA

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Rahaf Mohammed Al-Qunun está está neste momento sob a protecção do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, uma vez que fugiu da sua família que a obrigava a casar sem o seu consentimento. Ela pediu protecção porque, segundo a mesma, os pais a matariam por ter fugido de um casamento que a família planeou para ela. Quem tem uma família destas tem de fugir para bem longe e procurar a sua libertação.

O casamento por obrigação foi instituído há muitos milhares de anos, quando os humanos começaram a cultivar terras e os homens sentiram necessidade de deixar os seus bens aos seus descendentes. Daí se constituíram contratos de casamento, combinados entre os pais dela e dele, cujo fim prioritário era ser exclusiva daquele homem e dar-lhe filhos, que mais tarde seriam os seus herdeiros. O marido não tinha nada que respeitar essa exclusividade e poderia ter encontros sexuais com outras mulheres.

Passados tantos milhares de anos, ainda há sociedades em que os casamentos são arranjados pelos pais, com carácter obrigatório. Mais; Segundo notícias vindas a público, há famílias que vendem meninas, às vezes com menos de 10 anos, para receberem dinheiro e satisfazerem manias sexuais de homens monstruosos, que chegam a matá-las sob os seus actos sexuais. Em muitos países do mundo as meninas são submetidas à mutilação sexual e, se não morrerem dessa intervenção bárbara, terão muitos problemas quando derem à luz os seus filhos.

Já estamos a viver no Séc XXI, os humanos elevaram os seus inventos às mais diversas áreas, até no espaço, têm feito descobertas impensáveis nas áreas tecnológicas, por exemplo e, ao mesmo tempo, ainda subsistem mentalidades tão absurdas, muitas lavradas em leis, como obrigar raparigas a casar, vender meninas com 8 anos de idade, proibir raparigas de frequentarem a escola, como a Iala e por aí adiante.

Porquê? Como é que as mulheres, constituindo metade da Humanidade, promotoras da vida e, em grande parte, responsáveis pela educação dos filhos e filhas, ainda não foram capazes de se libertar, não apenas algumas em nome individual, mas em conjunto desfazerem as muitas tradições que permitem os maus tratos, violações e muitas outras barbaridades bastante arreigadas nas mentes de tanta gente?

Estão a aparecer alguns sinais que podem constituir uma brecha por onde se possa entrar e abrir caminho. Na Índia, país dividido por castas e tantas tradições maléficas e opressoras, mulheres manifestaram-se, cerca de 5 milhões, formando um cordão de muitos quilómetros. Nós, mulheres ocidentais, que já adquirimos mais direitos cívicos e sociais que as mulheres indianas, devemos apoiá-las e divulgar as suas lutas.

Em França, depois das manifestações dos coletes amarelos (homens) que assustou o Governo Francês, manifestaram-se mulheres de coletes amarelos, lutando como os homens, mas com uma grande diferença: não se confrontaram com a polícia nem causaram destruições. Uniram-se, manifestaram-se e apresentaram as suas reivindicações.

Estamos a viver momentos muito difíceis: racismo, discriminações várias, desigualdades profundas, violências dos mais fortes contra os mais fracos, as corrupções surgem diariamente donde menos se esperava, os salários mais baixos são muitíssimos distantes dos mais altos, a pobreza agrava-se cada vez mais porque os poderosos açambarcam tudo o que podem e o que não podem, deixando grande parte da humanidade desamparada.

E que fazemos nós, mulheres comprometidas por uma sociedade mais justa, equilibrada, sem machismo e onde todos e todas possam ser felizes? Se houver vontade, determinação, união de esforços, construiremos esse mundo onde possamos viver em PAZ, TRANQUILIDADE e AMOR entre os seus humanos. Vamos começar a construir esse mundo neste ano de 2019.

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15
Jan19

Ser apenas mulher não basta!


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Muitas vezes perguntam-me porque gosto tanto da cor amarelo/dourado. Não sei. Talvez por me lembrar do sol, das estrelas, dos quadros do Vincent Van Gogh e do Gustav Klimt que matizei em tela nos 70. Ou então dos girassóis que adoro. Ou das bananas que gosto de comer, etc…

Mas também gosto do azul, a minha cor preferida para me vestir, em todas as suas matizes. E do rosa, sobretudo em roupa para dormir. E do preto e branco. E do cinzento. E do castanho. E do bege. E do verde do meu Sporting…E do vermelho, a cor da minha bandeira preferida. Enfim. Gosto do arco Iris.

Gosto de gostar e não gosto que me imponham regras no meu gosto. E, por isto mesmo, já não consigo suportar as declarações da ministra Brasileira que quer impor regras nas cores a serem usadas pelas pessoas dos diferentes sexos. Para além de demonstrar ter uma mentalidade em desuso, é completamente idiota dar ordens sobre a forma como a sociedade se deve comportar em relação à forma de se vestir.

Nem no tempo do fascismo em Portugal tivemos tal imposição. Vivíamos numa sociedade cinzenta e a preto e branco mas ainda conseguíamos mandar no nosso gosto. Muitas vezes faltava o dinheiro para concretizarmos o que gostávamos de vestir.

E, ainda por cima, a senhora “rosa” vem comparar o amor entre seres humanos a animais. Com todo o respeito pelo direito ao amor entre os animais, acho que esta ministra já não sabe o que diz. É tão estúpido, uma pessoa que tem como responsabilidade defender a família e os direitos humanos, vir fazer este tipo de comparações. Garanto-vos que me arrepia os cabelos.

Em pleno século XXI, quando achamos que muita coisa já está assumida e que temos é que partir para outras exigências, vem este tipo de gente nos alertar que nada está seguro e, por isso, há que estar vigilante, reagindo e desmontando os falsos argumentos educativos que querem fazer com que as sociedades voltem para trás. As mulheres e os homens, que se prezam de o ser, querem vestir todas as cores, querem amar quem quiserem, e querem que os seus direitos sejam plenamente concretizados. Não querem que ministras como estas mandem nas suas vidas.

O colorido lindo do povo Brasileiro não merecia ter uma mulher, ministra, tão reacionária como esta. Sei que o problema político foi a maioria dos eleitores terem votado num governo de direita. Mas lá porque foram eleitos não vamos deixar de fazer oposição ao que não achamos correto. Nunca votei nos governos regionais que nos governam há 43 anos mas nunca me calo quando acho que devo contradizer o que está mal.

Uma lição a tirar disto é que não basta ser mulher e estar no poder. O que move e transforma as sociedades são as ideias e as propostas concretas. Ser apenas, mulher, não basta. Este exemplo lembra-nos que temos que ter muito cuidado antes de escolhermos quem nos representa.

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