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Feminismos é Igualdade

19
Out20

Sobre o Medo


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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E de repente o medo chegou, mas já não veio sozinho.

Como habitualmente, já sem forças para lutar,

deixou-se escoltar pelos seus companheiros de viagem habituais:

o egocentrismo e a discriminação.

 

Já todos sabemos, de tanto ouvir dizer, que vivemos tempos difíceis e que a tendência é para piorar.  Esta tem sido uma dissertação escrita a diversas mãos, com espaço permanentemente reservado na Comunicação Social e para a qual não têm faltado os indispensáveis argumentos, provas e exemplos, sem faltar a necessária validação da autoridade “científica”.

A narrativa que tem vindo a ocupar o espaço público de comunicação é de tal modo que nos pode levar a acreditar que a expressão tão popular “éramos felizes e não sabíamos” se aplicava a toda a população, no passado recente que a pandemia COVID-19 veio interromper. Mas, não esqueçamos que, para um grande número de cidadãos e cidadãs, a situação em que viviam já era marcada por enormes dificuldades, tornadas insustentáveis com esta pandemia. Nunca é demais lembrar que a pobreza, a violência e o abandono matam mais do que qualquer vírus e estão cada vez mais escondidos, ofuscados pelas contingências dos tempos atuais, em que, devagarinho o medo se instala.

Primeiro o medo do vírus, anónimo, irreconhecível - um inimigo que nos rouba o futuro e aqueles que amamos. Com ele, as prioridades mudam e os círculos fecham-se, ameaçando grupos que pela sua fragilidade e invisibilidade ficam fora de qualquer círculo, presos à sua sorte.

Depois, o vírus vai deixando o seu anonimato e ouvem-se os arautos, que começam a delinear as suas faces, os seus perfis. Não as situações, as dificuldades e o desconhecimento, afinal, isso não serve às audiências.

Finalmente, esse medo vago e impreciso começa a ter forma. É o estrangeiro, a viajante, o vizinho, a funcionária. Assim, começa a discriminação e o egocentrismo, companheiros do medo que o desumanizam. São estes os sentimentos que urge destruir e substituir por uma verdadeira responsabilização cívica, com a certeza de que são, sobretudo, as situações que nos colocam a nós e aos outros em risco.

Sendo importante reconhecer a importância de todas as medidas que visem a proteção da saúde de todas e de todos, daqui não se pode partir para a estratégia generalizada do medo. Devemos sim assumir a nossa responsabilidade cívica de não deixar ninguém para trás, pois não podemos correr o risco de perder a nossa a humanidade.

Aos profissionais de saúde cabe a hercúlea tarefa de salvar as vidas, mas salvar a fé na humanidade é um trabalho de todas e de todos nós.

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05
Out20

BASTA!


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

Veio a público que um professor de Direito Penal, Francisco Aguilar, que leciona conteúdos de mestrado na Faculdade de Direito de Lisboa, defende que as mulheres são “pessoas desonestas, espertas e canalhas”. Num artigo seu, publicado na revista de Direito Civil da mesma faculdade, pasme-se!!!, escreveu que "Mesmo a resistência a leste começará a cair, se o mais criminoso regime da história - o feminismo político - não for derrubado e os seus responsáveis, as feministas, não forem julgados pelos seus crimes contra a ideia de Deus e do direito como justiça da espécie” (JN de 30 de setembro). Para além de muitas outras pérolas, compara o feminismo ao nazismo, fala na “miopia moral da fêmea” e no “assalto feminista ao Estado”. De acordo com a sua linha de pensamento, o sexo masculino é “biologicamente privilegiado por Deus” e as mulheres têm-lhe um ódio genético.

De realçar que uma das disciplinas onde leciona conceitos deste género é de caráter obrigatório.

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Sabemos que a Constituição da República Portuguesa (CRP), no seu artigo 13º, afirma “Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei”. Sabemos igualmente que a CRP tem de ser cumprida por todas as entidades e em todas as esferas. Contudo, nesta escola pública, de Direito, parece que este documento fundamental da nossa democracia não é para ser levado a sério dentro das suas paredes. Talvez assim se comecem a perceber muitas decisões “estranhas” que saem das sentenças de tribunais portugueses…

Dias depois de se conhecer este caso, veio a público que o Ministério da Defesa pretendia promover a implementação de uma linguagem inclusiva nos diferentes ramos das Forças Armadas Portuguesas, contribuindo para a eliminação de perceções estereotipadas. Nessa diretiva sugeriam-se coisas tão básicas e simples como usar a expressão “a pessoa interessada” em vez de “o interessado”; “a classe política” em vez de “os políticos”; “a coordenação”, em vez de “o coordenador”; “direitos humanos”, em vez de “direitos do Homem”, etc. Fiquei muito orgulhosa desta medida política. Contudo, dias depois, li no Expresso que “o presidente do Conselho Nacional da Associação de Oficiais das Forças Armadas arrasou a diretiva, que descreveu como “baboseira”, e garantiu tratar-se de uma “provocação” aos militares, admitindo ainda uma “manifestação ruidosa”. Veio logo o Ministro da Defesa a terreiro, anulando a referida diretiva, alegando que era só um documento de trabalho e que não tinha sido validado superiormente…

Sabemos que quem sempre foi privilegiado, quando se sente limitado naquilo que considera como seus direitos intocáveis, vai sentir a igualdade como uma forma de opressão. É isso que Francisco Aguilar e muitos oficiais das Forças Armadas estão a sentir. E estrebucham.

Por isso é tão importante que cada um e cada uma de nós denuncie e não silencie a injustiça, a desigualdade, o reacionarismo. É preciso levantar a voz, defender sem medo os valores da igualdade, para construirmos um mundo mais justo e mais livre, onde as pessoas possam viver sem violência e com respeito.

Agradeço a todas as pessoas que sempre usaram os meios ao seu alcance para fazerem essa sensibilização e defenderem as suas ideias. Agradeço à juíza do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, Ruth Bader Ginsburg, que morreu aos 87 anos no passado dia 18 de setembro de 2020. Foi uma lutadora e defensora dos Direitos das Mulheres. Foi uma feminista. Nunca desistiu, nem se calou perante a desigualdade. Uma mulher notável a quem todos e todas nós temos de agradecer o empenho e a resiliência.

Agradeço também ao Quino, autor da contestária Mafalda, que faleceu também em setembro deste ano, no dia 30, com 88 anos. Com muito humor, inteligência e educação este homem usou o seu talento para alertar para todas estas questões tão atuais.

Tal como a Mafalda, hoje apetece-me gritar “BASTA!”

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28
Set20

A paridade versus o mérito


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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O caminho faz-se caminhando, dizia o maior de todos os poetas, Fernando Pessoa, e em boa verdade a inclusão e igualdade faz-se também caminhando em trilhos de pequenas conquistas, como é o caso da paridade entre homens e mulheres para listas para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para as autarquias locais, bem como para Governos Regionais.

A lei orgânica nº 3/2006 obriga a que todas as listas assegurem uma representatividade de 33% de cada um dos sexos em todas as listas para o poder político o que representa, a meu ver, uma forma de se corrigirem erros do passado. Alguns erros persistiam desde a fundação da democracia ateniense a qual permitia a participação activa de todos os cidadãos. À primeira vista não há nada de errado com esta última afirmação não fosse o facto do conceito de cidadão ser uma espécie de primeiro estágio em relação ao conceito de cidadão dos tempos modernos. Acontece que o ateniense para ter direito ao estatuto de cidadão tinha de ser filho homem de pai e mãe atenienses, maior de 19 anos e possuidor de terras. Isto implicaria que alguns membros da sociedade Ática não tivessem acesso ao estatuto de cidadão como é o caso dos escravos, dos estrangeiros e das mulheres.

O caminho fez-se caminhando durante este espaço temporal de cerca de 2500 anos desde a criação da democracia até aos nossos tempos e hoje talvez se possa respirar de alívio porque o conceito de cidadão vive num estágio mais avançado e evoluído, porém as vitórias apenas serão conquistas enquanto persistir a capacidade de vigilância activa e permanente dos nossos direitos. Para que hoje as mulheres pudessem ter direitos, outras sofreram e pereceram. Muitas são mulheres sem rosto, sem nome, sem família, enfim sem história, que apenas ousaram desafiar o patriarcado e as leis dos homens, e hoje importa recordá-las como as figuras que deram origem e alimentaram a máquina que nos fez caminhar até aos direitos de hoje mantendo a vigilância activa e permanente, uma vez que haverá sempre quem pretenda, consciente ou inconscientemente, um regresso ao passado.

As questões paritárias são aqueles não assuntos que tendem a ser discutidos com muita pomposidade e galanteio por parte daqueles que as desejam ver eliminadas enquanto legislação. Tudo isto com o argumento, também válido, de que o mérito deveria ser ponto de partida para a realização de listas para os órgãos de poder. Na verdade, qualquer sociedade deveria validar aqueles que pelo seu mérito são eleitos para nos governar mas este argumento não invalida que a paridade seja objecto de legislação pois pede-se ao estado que seja agente de vigilância activa e permanente para que não se perpetuem no tempo os erros ou lacunas do passado. Se se levar em consideração que as listas para órgãos de poder político exigem apenas que em cada sequência de três candidatos, pelo menos um deve ser do sexo oposto, não se está a definir que se invalide o mérito de todos os potenciais candidatos mas sim a regulamentar que todas as listas devem ter candidatos de ambos os sexos e a isto poder-se-á considerar vigilância activa e permanente nos direitos universais entre homens e mulheres. Se levarmos em consideração uma lista de onze candidatos para uma determinada autarquia, e se cumprir somente o mínimo exigido pela legislação, estamos perante um cenário onde oito candidatos poderão ser homens e apenas três deverão ser mulheres. Digam-me, nestas oito vagas não há espaço para o mérito? Caso entendam que não, estamos perante um outro assunto que não o da paridade.

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21
Set20

Retrocessos…


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Em breve, assim espero, ouviremos falar da Era Pós-Pandemia. Estamos em plena transição, inaugurando uma Nova Era mas, enquanto não completamos essa transição, façamos uma reflexão. Desde o início do ano, temos vindo a verificar alguns pontos de rutura, imensas alterações climáticas, a pandemia Covid-19, movimentos antirracistas um pouco por todo o mundo e a falta de uma liderança mundial com capacidade para avaliar situações de risco, que comprometem vidas e os direitos humanos.

Esta pandemia provocou um reset mundial em que, pela primeira vez na história, família, educação e trabalho passaram a acontecer de forma simultânea e no mesmo lugar, dentro de casa... Mas nem todo o cenário é bonito.

Sabemos que a igualdade é fruto de lutas por direitos, mas o que muitos desconhecem é que existem muitas formas de desigualdade, umas às claras e outras disfarçadas com hipocrisia. Ultimamente, o que mais tenho assistido é a pandemia servir de justificação para tudo. Já chega de taparem o sol com a peneira, muitos dos problemas já existiam aos olhos da sociedade hipócrita em que vivemos. Ora vejamos, esta pandemia só veio agravar as desigualdades existentes e revelar, uma vez mais, mas agora com mais intensidade, as deficiências nos sistemas sociais, políticos, económicos e ambientais. Não há respostas para tudo e a ajuda não chega a todos e todas. É preocupante a perda de milhões de postos de trabalho pelas mulheres, sobre as quais também recai a falta de partilha das tarefas de cuidar das crianças e dos idosos. É angustiante saber que a pandemia e as medidas de confinamento provocaram um aumento de casos de violência doméstica. Fico aterrorizada só de pensar que muitas mulheres e crianças ficaram à mercê dos agressores que ficaram em casa por causa da quarentena, com todos os riscos e perigos que essa presença em clima de tensão acrescida podia gerar. “Mais do que nunca, é preciso haver tolerância zero à violência doméstica”, escreveram os embaixadores dos 124 Estados-membros da ONU – portanto, mãos à obra e coloquem em prática. Lembro também os mais esquecidos, as pessoas sem abrigo, pois quem não tem habitação, quem não tem acesso a água e energia é mais vulnerável à contaminação e não tem como defender-se. Brevemente, mais propriamente daqui a um ano, lembrar-se-ão delas e imaginem lá porquê?

Há umas semanas via, incrédula, no telejornal que, em África, havia um aumento da fome e perda de vidas humanas, com mulheres a morrer em trabalho de parto por não conseguirem ter acesso ao hospital. Nos campos de refugiados, são muitos os dramas que por lá se vive – já existiam antes da crise sanitária é verdade, mas agora, aumentaram. O que temos sabido sobre estes seres humanos tão frágeis e vulneráveis, em particular sobre as mulheres e crianças refugiadas? Há respostas? Há soluções?

O novo coronavírus impôs-nos muitos desafios. Um vírus que apesar de não olhar a geografias, na verdade não atinge todos os países e povos da mesma maneira. 

Precisamos de inverter todas as desigualdades que esta pandemia nos trouxe. Na verdade, não foi a pandemia e sim o ser humano que estava à espera de um pé em falso para que estas desigualdades viessem ao de cima. Precisamos de acabar com a desigualdade entre homens e mulheres que, em momentos de crise, provoca sempre inaceitáveis recuos nos direitos das mulheres, sem esquecer que estas crises são uma ameaça à proteção dos direitos das crianças.

Se a recuperação mundial for apenas focada na eficiência e no lucro a curto prazo, sem um olhar cuidadoso para a inclusão, corremos o risco de perder décadas de avanço na igualdade, o que seria péssimo para todos e todas.

Estão, assim, a surgir novos perigos, face a este novo padrão para o qual todos e todas devemos estar atentos e atentas. Que as pessoas tenham consciência: está à porta uma 2ª vaga, não ignoremos os gritos silenciosos. Os direitos humanos não podem ficar de quarentena, há que os defender diariamente.

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14
Set20

Desemprego no Feminino


umarmadeira

ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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Durante esta pandemia, há palavras que de tanto se ouvir ficaram na mente, tais como: pobreza, desemprego, violência, assédio e desigualdade salarial. A situação que vivemos é problemática e a perspectiva para continuar a dar passos em frente não é fácil, com o crescer do desemprego e a perda de autonomia financeira. O não se poder dar resposta a questões básicas leva ao crescimento da pobreza que acaba por ter um forte impacto na saúde mental, em particular das mulheres, ficando com maiores vulnerabilidades psicológicas que podem ser fatais.

Por força da tradição, em cada 10 trabalhadores que estiveram na linha da frente neste período da pandemia, nove eram mulheres, fosse no sector social, hospitais, lares ou limpezas etc., por isso é mais do que justo ser reconhecido que as mulheres estiveram na frente do combate. Embora a sua maioria aufira o salário mínimo, aflige-me saber que lhes seja exigido que não abandonem o barco, sendo que o seu trabalho é pesado e de risco, exige proximidade e contacto físico com utentes e clientes, sem que estejam muitas vezes em segurança. Aliado a tudo isso, o tempo de descanso é, não raras as vezes, comprometido e sem a devida e justa compensação e sem que sejam asseguradas as suas condições.

 Era de esperar que as entidades fiscalizadoras estivessem capacitadas para actuarem em casos de violência e assédio, mas a maioria deles não é levada a sério, colocando em risco a saúde psicológica e física de quem trabalha. Repare-se que, além de se tratarem de práticas proibidas e inaceitáveis para a dignidade humana, não se reconhece os efeitos da violência no mundo do trabalho, nem o alcançar da igualdade salarial entre homens e mulheres, sendo público que a diferença salarial entre mulheres e homens era de 14,4%, mas nas grandes empresas ronda os 26%. Não é por acaso que o Comité de Direitos Humanos do Conselho da Europa já concluiu que Portugal tem violado a Carta de Direitos Sociais da organização por falta de progresso em alcançar igualdade salarial entre mulheres e homens. As leis asseguram a transparência e permitem comparações sociais, só que na prática, isso não se reflecte na vida dos/as trabalhadores/as.

Por isso, é mais do que justo, pelo que atrás é dito, que seja reforçada a protecção social dos/as trabalhadores/as, porque dois terços dos desempregados ficam de fora do subsídio de desemprego, há muitas pessoas a trabalhar e que não têm nenhum apoio, nem social nem de desemprego, e as mulheres estão sempre na linha da frente.

 A pandemia fez com que se atrasassem direitos específicos e se agravasse a desigualdade de género, uma vez que as práticas tradicionais se baseiam, quase sempre, na ideia de que o bem-estar dos homens é mais importante do que o bem-estar das mulheres e, por isso, o financiamento para as suas especificidades é normalmente sempre escasso e as necessidades com a pandemia ainda veio atrasar mais. É sabido que as crises afectam sempre mais as mulheres, pois estão mais expostas ao risco, são discriminadas no acesso à saúde, etc. O custo mais elevado é a dignidade destas mulheres e a violação dos direitos humanos.

É visível que esta pandemia veio por a nu as várias discriminações que já existiam, se pensarmos nas mulheres idosas, nas portadoras de deficiência e nas taxas de doenças cancerígenas que afectam as mulheres mais velhas, estas deixaram de ser prioridade para os governos com todas as suas consequências.

 Os/as trabalhadores/as vão perdendo, assim, cada vez mais emprego, direitos e rendimentos, pois a crise económica e social aprofunda as vulnerabilidades, a desorganização e a quebra de actividade. O coronavírus parece que serve para ocultar tudo isso.

O insuficiente e frágil crescimento da economia, assim como o seu distorcido desenvolvimento, baseado em baixos salários e na exploração de quem trabalha com qualificações mais elevadas, obrigou muitos/as a saírem do país à procura de melhores rendimentos. O teletrabalho foi utilizado para instalar o medo entre os trabalhadores/as, para os/as isolar e fragilizar e levá-los/las a aceitar a destruição de direitos. E as/os trabalhadores/as que hoje mais perdem e continuam a perder são os/as de menor escolaridade.

A luta por emprego com direitos e melhores salários tem de continuar, pois só assim será possível sairmos desta situação, por muito que custe.

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15
Jun20

Lutar contra a invisibilidade do Bem, vencer o mal


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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«Sonhei um dia perseguir a utopia

Trilhar caminhos nunca dantes percorridos

Atingir e semear a alegria»

Conceição Pereira, in A Vida em Movimento

 

Este é o primeiro texto publicado no Blog da UMAR Feminismos é Igualdade que não será lido pela nossa companheira Conceição Pereira, mas é pensando nela que o escrevo, no que ela disse e no que diria destes tempos conturbados em que todas as desigualdades se agudizam. Tempos que ela presenciou e em cuja resolução estava, de certeza, pronta para participar, como sempre esteve ao longo da sua vida, com coragem e determinação.

No dia 24 de abril, num poema publicado no Diário de Notícias, falava da alegria e emoção trazidas pela conquista da liberdade, que só não tocou “os duros de coração”. Também na página do SPM, como homenagem ao 25 de Abril, ficará para sempre o seu maravilhoso contributo para o PROF#fica em casa, no qual, com a magia da sua escrita, homenageia as palavras de Zeca Afonso, Martins Júnior, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília.  Deste texto, escolho o registo da tomada de consciência, pelo povo, dos seus direitos, que foi uma das conquistas da liberdade. Com a emoção que lhe era habitual, recorda que nem as bombas da FLAMA e os ataques dos saudosistas da ditadura fizeram desaparecer essa consciência.

Fala-se na Conceição e pensamos logo na voz dos Invisíveis, na Liberdade, na Justiça, na luta pela Dignidade Humana, em todas as suas vertentes. Uma voz que se erguia pelo povo e para o povo.

O que nos diria a Conceição das últimas manifestações racistas, prova evidente de que, nem mesmo com a ameaça da sua destruição os tais “duros de coração” conseguem encontrar uma forma de viver em igualdade, no respeito pelo outro. Triste prova de que os direitos humanos continuam a ser uma utopia! Até quando?

Mal começou o período de desconfinamento e, ainda com a ameaça de novo{s) confinamento(s), os sentimentos xenófobos e racistas voltam a lançar as suas sementes e abrem caminho a outras violências.

Pelo caminho, outras injustiças se cometem, sem dúvida, e são todas condenáveis. Mas não podemos usar esses efeitos colaterais para o apagamento do sofrimento que dura há séculos. Fingir que partimos todos do mesmo patamar, independentemente da cor da pele, da origem, da religião, da orientação sexual ou da sua aparência física, entre outras diferenças, será perpetuar e validar esses comportamentos discriminatórios a que, eventualmente, nenhum de nós escapará, desde que a sua vida deixe de se enquadrar dentro das «normas» aceites numa determinada organização social, imposta pelos grupos que detêm o poder.

Os mais otimistas viram no isolamento social uma oportunidade para a humanidade repensar a sua atuação no planeta. Os realistas consideraram que a Pandemia não era democrática.

Neste momento, o que se conclui é que o confinamento foi, sem dívida uma necessidade, mas o reverso da medalha é demasiado doloroso para ser ignorado. Não tenhamos dúvidas de que foi e é um terreno fértil para o exacerbamento das desigualdades, das injustiças, da violência e da solidão. São estas feridas, agora mais profundas, que começam a sangrar e que, com urgência, é necessário curar.

A história mostra-nos que as crises são momentos propícios para regimes totalitários, para ondas de pânico que levam a que a domine a lei do mais forte, daqueles que se apresentam como “salvadores”, escolhendo culpar um grupo «incómodo» que será o alvo da perseguição. É isto que começa a acontecer pelo mundo, mesmo na tão aclamada cultura ocidental, e as vítimas estão aí à vista de todos. Se não houver um verdadeiro movimento de todas as forças humanistas, podemos ficar nas mãos destes movimentos populistas, que farão retroceder todas as vitórias pela dignidade humana que foram alcançadas, a conta gotas, nas últimas décadas.

Não podemos esquecer que, ao longo dos tempos, o mal, sempre, contou com a timidez do Bem para vencer.

Não deixaremos que, desta vez, isso aconteça, com a certeza de que a nossa companheira Conceição Pereira continuará presente em todas as nossas lutas.

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25
Mai20

Obrigada, Maria Velho da Costa


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ARTIGO DE MADALENA NUNES

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Maria Velho da Costa faleceu no dia 23 de maio de 2020. Sendo uma perda enorme para a nossa cultura, para a defesa dos direitos das mulheres, para a leitura lúcida da realidade, dei por mim a pensar que foi uma mulher que soube usar a sua vida na defesa das causas em que acreditava. As armas que escolheu utilizar foram a sua voz ou as palavras que escreveu em textos que vão continuar a ser lidos durante séculos. Lutou sem ceder, mesmo quando isso implicava ser perseguida, presa, ameaçada, torturada. Acho que honrou a vida que recebeu e agradeço-lhe tudo o que fez na defesa da causa das mulheres. Se hoje temos um país com uma Constituição que defende o direito de todas e todos nós à igualdade, também a ela lhe devemos agradecer.

Está ao alcance de cada pessoa usar a vida como entender. Podemos passar por ela, como quem passa pelas gotas da chuva, tentando sempre não se molhar. Podemos lutar por ter uma vida boa, sem olhar aos meios que usamos. Podemos também escolher acionar os nossos talentos para lutarmos pelas ideias em que acreditamos.

Às vezes achamos que só quem está em posições de poder é que poderá fazer a diferença e, de forma comodista, delegamos nessas pessoas o que elas quiserem fazer. Não é verdade! As mudanças só se efetuam se cada uma de nós, se cada um de nós, se levantar e atuar no metro quadrado à sua volta.

Por vezes esquecemo-nos de que toda a gente possui talentos para áreas diversas. E esquecemo-nos também de que cada um desses talentos é fulcral para que consigamos construir um mundo mais justo e feliz. Não há talentos mais importantes do que outros. Todos eles são necessários e uns não existem sem os outros. Estão interligados.

Hoje em dia parece que só o que se vê nas diferentes redes sociais, nos écrans da televisão ou dos cinemas é que tem valor. Contudo, o que será de um líder sem uma equipa por detrás que o suporte, mesmo que na sombra? Como poderá um espetáculo acontecer sem toda uma equipa invisível, mas fundamental? Reconheço que existe quem pretenda ocultar os talentos e o trabalho de muita gente, desvalorizando-o e diminuindo-o. Durante o período de quarentena li a seguinte frase numa rede social: “A economia não está fechada. Toda a gente está a limpar, a cozinhar, a tomar conta dos que nos são queridos. Isso só não é valorizado pelos economistas porque normalmente é trabalho não pago feito por mulheres.” Esta ideia de que a ação de todas as mulheres, apesar de escondida e diminuída, é fundamental para a vida dos países, está muitíssimo bem retratada num dos textos de Maria Velho da Costa, “Mulheres e Revolução”, in Cravo, 1976: “(…) Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para onde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.”

Felizmente há cada vez mais mulheres e homens a dar visibilidade à causa da igualdade. Na Câmara Municipal do Funchal temos levado a cabo esta ação de forma intencional e não queria acabar este meu artigo sem mencionar que a vencedora da edição de 2019 do concurso municipal de vídeo “Caminhando para a Igualdade” foi Georgina Abreu, com o trabalho “Libertação”. Essa jovem portuguesa da Madeira ganhou pouco tempo depois um concurso internacional de fotografia, na Alemanha, para o Dia da Mulher 2020. O seu trabalho foi escolhido entre 35 mil candidaturas de todo o mundo. E ela ganhou o primeiro prémio! É um bom sinal termos jovens que usam os seus talentos para a construção de um mundo melhor. Podem ler a entrevista de Georgina Abreu à EyeEm seguindo esta hiperligação: https://www.eyeem.com/blog/in-conversation-with-our-international-women-s-day-2020-winner-georgina-abreu

Obrigada a todas as pessoas que se importam e não viram a cara para não verem.

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15
Out19

15, 16 e 17 de outubro. Três dias para lembrar. Três dias para exigir Direitos


umarmadeira

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15, 16 e 17 de outubro são dias que se entrelaçam na defesa dos direitos das mulheres.

Declarado pelas Nações Unidas como Dia Internacional das Mulheres Rurais, o 15 de outubro, faz-nos lembrar que as mulheres rurais representam mais de um terço da população mundial e são afetadas de forma desproporcional pela insegurança alimentar e a pobreza.

O dia 16 de outubro, como Dia Mundial pela Alimentação, lembra-nos que o acesso à alimentação é um direito humano, que não pode ser ignorado e que as mulheres que constituem 43% da mão-de obra agrícola, desde que apoiadas com recursos, podem contribuir para uma diminuição substancial da população subnutrida.

17 de outubro, o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, lembra-nos que 1,2 biliões de pessoas ainda vivem em extrema pobreza sendo a maioria mulheres e crianças.

A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) tem vindo a propor um conjunto de iniciativas e programas que apostando no apoio às mulheres rurais se possa evoluir no combate à pobreza e à desnutrição.

Quando se vive num país europeu como o nosso, há tendência para que estas realidades nos passem ao lado, apesar de sabermos que muitas e muitas das aldeias do interior do país, quase desertificadas e sem esperança de desenvolvimento, serem constituídas fundamentalmente por mulheres, a maior parte idosas, porque as mais jovens tendem a migrar.

A UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta, como associação que entende que os feminismos não podem ser só urbanos e que as mulheres das zonas rurais não podem ficar esquecidas, considera que no Estatuto da Pequena Agricultura Familiar já previsto governamentalmente, se deve dar particular relevo aos direitos das mulheres rurais em termos de apoios efetivos para iniciativas de emprego, formas coletivas de produção, redes de mulheres inter-aldeias valorizando aquilo que elas produzem em termos de cultura e artes locais, de aproveitamento dos recursos naturais e paisagísticos para um turismo de proximidade, suficientemente atrativo para o envolvimento de jovens nas suas aldeias.

Lisboa, 13 de outubro de 2019
A direção da UMAR

05
Out19

O Feminismo e o Machismo


umarmadeira

ARTIGO DE CONCEIÇÃO PEREIRA

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Muita gente pensa que o feminismo é o contrário de machismo. Se o machismo é um modo de pensar em que os homens são superiores às mulheres e mandam nelas, o feminismo seria as mulheres a mandarem nos homens. Nos anos 60 do século passado, Maria Lamas, grande lutadora pelos direitos das mulheres (e não só), escreveu um artigo para o jornal Comércio do Funchal com o título MULHERES CONTRA HOMENS? Nesse artigo ela explicava que o feminismo era apenas uma luta pela igualdade de direitos e não para as mulheres se revoltarem contra os homens. O feminismo luta por uma sociedade equilibrada, mais justa, em que as mulheres usufruem dos direitos sociais, tal qual os homens. Somos todos humanos, vivemos no Planeta Terra e todos nós, homens e mulheres, de todas as raças, temos o direito de usufruir dos recursos naturais e civilizacionais.

Segundo uma corrente de pensamento, o machismo nasceu com a sedentarização dos povos. Deixaram a vida nómada, tinham propriedades e os homens, sendo mais fortes fisicamente, impuseram a sua autoridade. Exigiram contrato de casamento e fidelidade das mulheres para terem a certeza que as crianças que elas punham no mundo eram efectivamente seus filhos, que haviam de herdar os seus bens. O problema maior é que a mulher não escolhia marido, a família negociava o casamento, ela deixou de ter qualquer poder, se não tivesse filhos era repudiada, jogada ao abandono e o marido ia buscar outra que lhe desse herdeiros. Esta teoria percorreu milénios, foram criando regras opressoras, inventou-se doutrinas perversas e a mulher continuou a ser humilhada e maltratada. Inventou-se a Eva que pecou e por causa dela os humanos foram expulsos do paraíso e herdaram o pecado original. O antigo testamento trata as mulheres pior que os animais. O apedrejamento, defendido na bíblia e praticado pelos seus seguidores, é um castigo que nem se aplica a animais e ainda bem.

Dando um grande salto no tempo, chegámos ao século XVIII, em que na Europa surgem grandes pensadores que defenderam uma outra ordem social. Rosa Montero, escritora espanhola, afirma que o filósofo Locke, defensor da liberdade natural do homem, dizia que nem os animais nem as mulheres participavam dessa liberdade, pois tinham de estar subordinadas ao homem. Rousseau dizia que uma mulher sábia era um castigo para o esposo, para os filhos, para toda a gente. Kant afirmava que o estudo laborioso e árduas reflexões, inclusivamente quando uma mulher tinha êxito nesse aspecto, destruíam os méritos próprios do seu sexo.

Como é que podemos acreditar que pessoas inteligentes e sábias, grandes pensadores da época, acreditavam mesmo no que diziam sobre as mulheres? Em minha opinião, eles ficaram assustados quando viram que, apesar da opressão sobre as mulheres, inclusive ao nível da educação, em que as meninas das classes superiores (os pobres não iam à escola) frequentavam escolas onde apenas aprendiam a ler e algumas a escrever e pouco mais, enquanto os rapazes eram enviados para escolas mais evoluídas e para as universidades. Mesmo assim, algumas começaram a afirmar-se como escritoras e a defender os seus direitos em obras publicadas. O Feminismo começou a nascer e muitos homens sentiram que algo estava a mudar nas relações entre mulheres e homens e sentiram-se desconfortáveis.

As feministas eram apelidadas de loucas e infelizes. Sempre citando Rosa Montero, em 1908, em Espanha, o Jesuíta Alarcón escreveu num livro que “a emancipação da mulher é aberrante e que essas Euménides têm de ser encerradas em casas de correcção ou nos manicómios”. E em 1927, a revista Iris da Paz insurgia-se, dizendo que a “sociedade faria muito bem encerrando as feministas como loucas e criminosas”. E nós sabemos que muitas mulheres foram encerradas em manicómios por quererem impor a sua vontade e não seguir a vontade do pai ou do marido. Maria Adelaide Coelho da Cunha, uma senhora da alta sociedade lisboeta, foi encerrada num manicómio, onde passou cerca de quatro anos. Quando lá chegou, encontrou uma ala do manicómio composta de outras mulheres como ela, no gozo das suas faculdades mentais, mas tinham cometido o pecado de não obedecerem aos maridos, aos pais ou outros homens da família.

Ainda hoje o feminismo é mal visto ao ponto de ouvirmos mulheres a dizerem: Eu defendo os direitos das mulheres, mas não sou feminista. De modo que uma das tarefas da UMAR é reabilitar o feminismo, mostrar que somos feministas porque lutamos pela igualdade de género e por um mundo justo e igualitário em direitos e deveres.

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