Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Feminismos é Igualdade

14
Ago18

Pode o Feminismo ser especista?


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

animais

Começo este meu primeiro artigo no blog sabendo, de antemão, que levantarei polémica. Antes de mais, quero que encarem estas palavras como uma reflexão e, jamais, como um dedo apontado a qualquer escolha. Até porque eu sou fruto de reflexões e mudanças diárias e aquilo que encaro como certo, hoje, pode não ser escolha para o futuro. No entanto, no último ano, tenho vindo a estudar as ligações entre as opressões de género e espécie. Mas o que tem a ver uma coisa com a outra, perguntam. Acho que tudo.

A indústria do leite é medonha. As vacas são emprenhadas à força, numa prática que é altamente invasiva, em que os agricultores colocam quase todo o braço no reto delas. Um procedimento que é repetido a cada 12 meses. As vacas leiteiras são mantidas num ciclo constante de gravidez, parto e lactação, produzindo quantidades anormais de leite. Esta produção não natural, combinada com a falta de cuidado que o equipamento de ordenha faz no corpo do animal, gera mastites, infeções mamárias dolorosas. Para além disso, ao mesmo tempo que as vacas sofrem fisicamente, a cada parto, os bezerros são retirados das mães, poucas horas após o nascimento, o que faz com que as fêmeas, cheias de ocitocina (hormona que está relacionada à ligação mãe-bebé), fiquem tristíssimas. As porcas também sofrem esta perda brutal quando os seus leitões são retirados, ainda em fase de amamentação, para abate. Essa separação forçada, normalmente, faz com que as fêmeas chorem por horas, à procura das suas crias. Finalmente, neste longo processo de vida infeliz, as vacas leiteiras mais velhas são, a maior parte das vezes, brutalmente espancadas (dizem que torna a carne mais macia) antes de serem abatidas e processadas como carne moída. Quem fala em vacas, refere-se, também, a cabras e ovelhas, embora em quantidades menores.

Conhecem a indústria dos ovos? As galinhas vivem a sua vida toda em gaiolas minúsculas, onde mal podem esticar as asas, não podem socializar e sofrem graves lesões como ossos fraturados, pés mutilados e problemas musculares. Ainda bebés, os pintainhos fêmeas são mutilados nos seus bicos, a sangue frio, para evitar o canibalismo, fruto dos elevados graus de stress. As galinhas poedeiras desta indústria não vivem mais que 2 anos, quando o normal seria entre 10 a 12.

Poderia continuar a falar nos terrores da indústria animal mas remeto-me a um último exemplo: a criação de cães e gatos de raça, sem qualquer cuidado com a progenitora, colocando-a sob altos níveis de cansaço físico e psicológico, em que são violadas quando ainda estão a amamentar as crias do último parto. Este aleitamento constante faz com que, tantas vezes, problemas de saúde mamários surjam.

Todos estes casos servem para eu chegar à minha conclusão: através da dominação e manipulação da sexualidade e dos sistemas reprodutivos femininos, o patriarcado apropria-se do poder geracional da sociedade. A mulher tem vindo a ser encarada como um ser quase assexual, cuja finalidade da sua sexualidade é, primeiro, a reprodução e, segundo, o prazer ao homem. As fêmeas, de que espécie for, seguem uma mesma linha – o controlo da sua vida sexual, pela indústria, é completo e absoluto. Mulheres e animais, com especial incidência nas fêmeas, partilham, em níveis diferentes, de situações similares de violência, de controlo das suas vidas, das suas possibilidades de escolha, das suas sexualidades. Por isso, cada vez mais, assombra-me esta pergunta: pode o feminismo ser especista?

bannerValentina