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Feminismos é Igualdade

16
Jun21

Mural da História


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

 

Hoje venho falar-vos de um livro maravilhoso que se chama “Mural da História”. Foi escrito pela Carolina Caldeira e ilustrado pela Raquel Marques. Faz parte de um projeto que vai envolver pelo menos um muro (daí o nome “mural”), que será intervencionado artisticamente com uma das histórias que fazem parte do livro. Podem pensar que o livro é para crianças. E é. Mas também pode ser lido por pessoas adultas, pois tudo o que ele contém nos ajuda a refletir sobre a importância que as mensagens das “inocentes” histórias infantis passam, bem como sobre o papel que esses contos tiveram e têm nos comportamentos das meninas, das raparigas e das mulheres ao longo de muitas gerações, levando-as a acreditar que para terem sucesso devem esperar passivamente por um príncipe encantado, vivendo para ele e por ele, esquecendo-se delas próprias.

No “Mural da História” podem então ler e pintar novas e divertidas versões de contos infantis bem conhecidos. Já ouviram falar da Rapunzel? Aquela rapariga com longos cabelos arranjados numa looooongaaaa trança, que vivia numa torre à espera de um príncipe que a salvasse? E a Gata Borralheira, conhecem? A Carochinha, aquela que ficava à janela à procura de alguém com quem casar? Lembra-vos alguma história? E que tal a Princesa da ervilha, aquela que era mesmo tão, mas tãããããooooo PRINCESA que sentia uma ervilha na cama, mesmo que por baixo de um monte de colchões?

Pois agora têm a oportunidade de conhecer todas estas personagens femininas, em versão século XXI!!! São meninas que sabem quem são e do que gostam, que lutam contra os seus medos e partem rumo à aventura, para concretizarem os seus sonhos. E de que maneira o fazem! E que atraente é esta leitura, com desenhos lindos prontos a serem coloridos, com textos divertidos, com morais da história empoderadores e com espaço no fim de cada conto para que cada leitora ou leitor escreva ou desenhe o que lhe vai na alma, quando lê estas aventuras e sonhos concretizados.

Os contos de fadas com princesas e príncipes reproduzem a ideia de que as mulheres devem ser submissas, passivas, doces, obedientes, resignadas e humildes. Se forem bonitas têm mais hipóteses de casar com um príncipe encantado que as cuidará e alimentará, garantindo a sua subsistência. Daí terem de viver para a aparência física, usando a máxima “sofrer para ser bela”.

Neste “Mural da História”, Carolina Caldeira e Raquel Marques ajudam-nos a desconstruir estes estereótipos, redefinindo os papéis das mulheres e permitindo uma visão crítica da sociedade e das suas regras, adaptando histórias mágicas e tradicionais à realidade atual, sem eliminar a magia e o sonho. Estamos perante personagens femininas que lidam com o seu contexto, com os seus medos e que lutam pelos seus sonhos, avançando com o que têm à sua volta e tirando o melhor partido da análise que fazem ao seu contexto. Elas têm voz e usam-na para se afirmarem.

Parece-me que se têm crianças podem ler com elas estas histórias, divertirem-se e ajudarem a quebrar o feitiço que, ao longo de séculos, transformou as mulheres em seres pouco inteligentes e pouco poderosos que só conseguiriam encontrar a felicidade através do casamento.

O livro foi editado pela CADMUS, com o apoio da Câmara Municipal do Funchal. Custa 10€. O projeto pode ser consultado aqui: https://www.projetomuraldahistoria.com. No fim do mês, podem ir ver o mural que a Carolina Caldeira e as crianças estão a desenhar na escola do Livramento, no Funchal.

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25
Mai21

Errar é humano…?


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ARTIGO DE FÁBIO DINIZ

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É uma frase vulgarmente empregada, para nos livrar dos males e das atrocidades aparentemente minúsculas que cometemos.

A nossa superioridade egocêntrica nos levou a um estado atual de calamidade intensa e constante… Por alguns continua sendo negada.

As consequências das intervenções humanas têm-se mostrado difíceis de lidar e gerir. Assim então, alguns de nós insistem que, falhar faz parte da nossa aprendizagem… E sim, reaprender, reeducar e reestruturar é necessário, apenas ressalto que, nos dias atuais alguns deles já poderiam ter sido evitados.

Nos últimos anos tanto destruímos e detonámos a nossa casa planetária, abusando estupidamente dos recursos que nos são disponibilizados. Como consequência da arrogância maquiavélica manifestada retiramos espécies dos seus habitats, maltratamos os solos e, ainda assim continuamos à espera de um resultado diferente. O desmatamento é repetidamente levado em consideração, sejam nos meios urbanos, bem como nos espaços naturais e dos quais deveriam ser preservados. É de nossa inteira responsabilidade cuidar, manter, preservar, olhar, contemplar e, sim respeitar a fauna e flora.

Ainda que estejamos atravessando a atual crise pandémica, na qual vítimas mortais somam números diariamente, continuamos com a nossa compaixão e o respeito congelados.

Além dos incontáveis óbitos, observemos o grande recado que o microrganismo atual nos traz. Será que ele nos está a dizer que é hora de mudar e rever os nossos valores e princípios? Seria um momento de refletir sobre paradigmas, ética e moral? Talvez seja isso e tantas outras mensagens que todo o hemisfério cósmico nos envia a cada minuto vivido.

Olhar para os seres vivos de outra forma… Como por exemplo, os animais? As florestas, as várias espécies vegetais? Seria mesmo racional e lógico destruir árvores, poluir e exterminar os oceanos?

Provavelmente é chegada hora de revermos os nossos conhecimentos que já não se adequam.

Como diz o Dalai Lama: “A destruição da natureza resulta da ignorância, cobiça e ausência de respeito para com os seres vivos do planeta.”

Há quem prefira negar toda esta conjuntura e, no final de tudo, mesmo sem respeitar as várias formas de vida, nos desculpamos com a frase… Errar é humano.

Sim, é muito mais fácil dizer que sou humano e posso errar… Espera lá! Quem nos disse e ensinou isso?

Ah, pois, fomos nós, humanos, pois somos tão soberanos que podemos falhar sem problema, sem responsabilidade, sendo inconsequentes.

Afinal… Errar é humano…?

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04
Mai21

A Pandemia dos Afetos: Luz e Sombra


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINSiStock-1161961593-1

"Seis em cada dez portugueses passaram a valorizar mais os afetos com a pandemia." (Estudo Free Now)

 

A pandemia ainda não chegou ao seu fim, e continuamos num ciclo de vagas que sobem e descem ao sabor de números maiores e menores de casos de COVID-19. A cada nova vaga, mais estragos se fazem nas estruturas da sociedade que vão além das pessoas que são infetadas pelo vírus, e as que partem. Poderia falar dos estragos económicos, do encerramento de empresas, do desemprego, da pobreza, da incerteza no amanhã. Poderia falar no desgaste no sistema de saúde e de ensino, e das consequências da sua fraca valorização nas últimas décadas. Mas hoje, decidi abordar algo diferente.

Diz um estudo, realizado em oito países europeus, que os portugueses são os que mais passaram a valorizar agora as manifestações de afeto – abraços, beijos, etc. – do que antes da pandemia. O que dávamos por garantido, foi abalado num piscar de olhos, há pouco mais de um ano. Em nome da saúde e da segurança dos/as familiares e amigos/as, deixámos de conviver sem restrições, deixámos de visitar os/as nossos/as idosos/as, deixámos de trabalhar lado a lado com os/as nossos/as colegas, e todos os contactos presenciais tornaram-se cada vez mais raros e restritos.

Tentámos compensar a solidão e a carência afetiva com o contacto virtual. Salvou-nos (ou assim pensávamos) as videoconferências, as chamadas e as mensagens. Continuámos a trabalhar, através dum ecrã, muitas vezes sem fronteiras entre o pessoal e o profissional, entre o dia e a noite. Tudo se passou a fazer à distância dum clique. Mas o vazio, esse, continuou a crescer dentro de nós.

Fomos forçando a barra, muitas vezes lutando contra nós mesmos/as e contrariando aquilo em que sempre acreditámos, tentando surfar as ondas que surgiam, uma atrás da outra. Tal como surfistas frescos/as na competição, não sentimos o forte embate das primeiras ondas. Mas, à medida que o cansaço se foi instalando nos músculos e na mente, fomos perdendo o controle sobre a prancha, o equilíbrio, e acabamos desmoronando pouco a pouco, enrolados pelas ondas.

A princípio, não aceitámos que tal fosse possível. Afinal de contas, éramos “fortes e resilientes”. Só que, agora, fomos obrigados/as a estar mais connosco mesmos/as, a passar mais tempo dentro de casa, dentro de quatro paredes. E começou a emergir a Sombra, aquilo que passámos a vida toda a varrer para debaixo do tapete, aquilo que nunca quisemos conhecer e integrar.

A Sombra manifestou-se de forma diferente em cada pessoa. Revelou o que precisa ser curado, seja individualmente, seja enquanto Humanidade. Vieram à tona as intolerâncias para com as diferenças, a xenofobia e o racismo. A todo o custo, quisemos arranjar culpados/as para o que estava a acontecer, e descarregámos as nossas frustrações em quem estava mais próximo de nós, muitas vezes na forma de raiva – que nada mais é do que um reflexo do medo – e de comportamentos violentos. Procurámos subterfúgios para não querer trazer a Luz à Sombra.

E os meses foram passando. E a Sombra e a Luz foram dançando o seu tango, ora à luz do dia, ora ao luar. A dualidade tornou-se cada vez mais evidente e muitas pessoas também começaram a se tornar mais conscientes da necessidade duma mudança de paradigmas.

Só que a Sombra quer manter o status quo, o sistema tal como era antes da pandemia. A Sombra alimenta-se dos nossos medos, e alimenta o nosso Ego. E a Luz treme com o vento que agita as ondas, maiores ou mais pequenas, a cada mês que vai passando neste planeta, neste país, nesta ilha.

Estamos a chegar a um ponto onde já não aguentamos mais e precisamos de expressar os nossos afetos, de visitar os nossos entes queridos, de conviver. Mas, logo em seguida, vem aquele sentimento de culpa exacerbado por quem aponta o dedo e pelos mídia… “E se apanhei?… E se contagiei?” E surge o medo. E segue-se o confinamento, o teste, a espera silenciosa… A doença é mais contagiosa nos convívios e nos momentos de lazer, dizem… E as vacinas não impedem o contágio, dizem… A cada dia, uma nova notícia, uma contradição, um novo medo… e instala-se a confusão mental.

No entretanto, muitas pessoas vão morrendo, pouco a pouco, de solidão, de tristeza, de desalento. Outras, vão desesperando e acumulando dores profundas. E ainda, outras vão seguindo cada dia em modo automático, com olhares vazios perdidos num pequeno ecrã que seguram nas mãos e levam para todo o lado. Sorriem para as imagens que lá surgem, mas a tristeza nos seus olhares mostra que a alegria está algures perdida, dentro do peito, à espera de ser resgatada.

Esta pandemia é também uma pandemia de afetos. E por mais que pretendam transformar-nos em robôs, virados/as para a produtividade a todo o custo e com medo do lazer, somos Seres Humanos. Como Humanidade, precisamos encontrar uma nova forma de viver, equilibrando o presencial com a tecnologia, uma vida mais sustentável em todos os aspetos.

Que não precisemos de perder para valorizar. Que possamos novamente abraçar e beijar livremente. Que consigamos nos recuperar, também, desta pandemia dos afetos, e nos tornemos mais Humanos/as do que antes.

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19
Abr21

Petição pública para termos calma com as petições públicas


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Fleabag, para mim, uma das melhores séries feitas nos últimos anos, tem uma frase que podia ter sido escrita por mim, caso tivesse o talento da Phoebe Waller-Bridge. Enquanto caminha na rua com o seu “Padre Amaro”, Phoebe responde às suas palavras motivacionais com um “não me tornes uma optimista, vais arruinar a minha vida”. Como pessimista militante, padeço do mesmo receio. A minha sorte é o ser humano ser bastante consistente em práticas que me levam a achar que estou do lado certo da barricada – alerta “não sou niilista, mas…”.

No meu penúltimo rabisco aqui no blog irritei-me com o comportamento questionável – fazendo uso de um eufemismo – com que a população estava a lidar com a pandemia e teorias da conspiração.

Hoje, este avô rezingão que vos escreve, qual Larry David, está com urticária por causa das petições públicas. São um instrumento democrático muito valioso, sem dúvida, que têm como objectivo dar voz a causas ou injustiças que não têm o merecido mediatismo. E, caso atinjam as 10 mil assinaturas, serão debatidas em plenário da Assembleia da Républica. Problema: nos últimos tempos, sempre que há algum ruído acerca de petições é pela sua boçalidade gritante – segundo e último eufemismo, prometo.

Uma das mais faladas foi a que visava Mamadou Ba. A petição, que conta com mais de 32 mil assinaturas, pedia a expulsão do activista de Portugal. Quando vi o título até pensei, por momentos, que o Dirigente da SOS Racismo tivesse entrado num desses reality shows bizarros que nos tem invadido os televisores nos últimos tempos. Depois, fui ler o texto em questão e concluí que dizia algo como “nós não somos racistas, mas se queres ter uma voz activa vai para a tua terra”. Lamento ser o portador das más notícias, porém o pós-virgula anula brutalmente o pré-virgula da frase.

Lembrei-me que Joacine também tinha sido protagonista de uma dessas petições; no seu caso, exigiam o seu impedimento de tomada de posse como deputada. Com mais de 22 mil pessoas a subscrever essa intenção, os motivos eram semelhantes aos das 32 mil que desejavam ter o poder de Teresa Guilherme ao exigir que o concorrente Mamadou abandonasse, não o Big Brother, mas neste caso, Portugal.

O juiz Ivo Rosa também já leva com quase 200 mil pessoas a quererem que seja “afastado de toda a magistratura”. Estou a anos-luz de ser um socratista pois confesso-vos não ser um especial apreciador de pessoas egocêntricas e mitómanas, mas parece-me que estamos perante uma cultura do cancelamento mais formal, para quem não tem conta no Twitter.

Todavia, não se deixem enganar, isto não é só para quem não perde um episódio da Quadratura do Círculo desde 2005. Há também algumas mais diversificadas como uma que pede o regresso das bombocas – o doce, não o duo de música popular, autor de temas como "Roda roda a cabecinha” – outra que exige uma auditoria à votação do último Big Brother Duplo Impacto, num processo que, caso aconteça, sugiro que se chame “Operação Abre-Olhos™”, ou mesmo uma que pede que proíba o ananás na piza – se bem que esta já me parece mais sensata.

Mas se a ânsia do leitor por assinar coisas for assim tão incontrolável sugiro, antes, que assinem a Amazon Prime e vejam a deliciosa série Fleabag.

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29
Mar21

Num Planeta distante


umarmadeira

ARTIGO DE CARINA JASMINS

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Era uma vez um Planeta muito distante, onde as pessoas tinham uma aparência semelhante à nossa, viviam de uma maneira tranquila, formavam uma única sociedade interdependente, com muita diversidade na aparência e na maneira de ser, mas havia uma admiração e um respeito pela individualidade de cada um, consideravam essa diversidade a sua maior riqueza.

Tinham evoluído num respeito profundo pela Natureza e pelo Planeta onde viviam. Era um povo evoluído em consciência e também tecnologicamente e estando em paz com todos, assim como com a luxuriante natureza que os rodeava, decidiram que gostariam de explorar o Universo e conhecer outros planetas, outras culturas, outras maneiras de pensar e de viver. Tinham construído naves com sistemas de navegação que permitiam detetar as “autoestradas” do Universo, que eram túneis espaço-tempo que permitiam atravessar grandes distâncias em pouco tempo, conseguindo, assim, visitar zonas distantes do Universo.

Numa dessas explorações chegaram a um belíssimo Planeta Azul, num distante sistema solar. Este planeta destacava-se no negro do espaço, como uma linda esfera azul brilhante. Admirados com a beleza daquele planeta que lhes fazia lembrar o seu próprio planeta, idealizaram que deveria ser um planeta tranquilo onde imperava a paz.

Sempre que chegavam a um planeta, conseguiam ter acesso à memória desse Planeta, porque para eles os Planetas eram seres vivos que, além da sua própria memória, guardavam também a memória de todos os acontecimentos desde o início. Ao aceder, começaram a ver e a sentir os enormes tumultos, lutas, violência, separação que tinham ocorrido ao longo dos milhares de anos da existência da espécie humana, já que estes eram os habitantes principais e em maioria deste planeta. Era deveras impressionante como a sua parte animal estava tão presente ao longo de tantos milhares de anos, mas pensaram que isso era normal, toda a evolução começa de um nível mais baixo de consciência para o mais elevado.

A surpresa foi quando chegaram aos tempos recentes em que se deparando com uma imensa evolução desde os primórdios da existência, a humanidade ainda mantinha guerras em algumas partes do planeta e a maior parte dos territórios onde não haviam guerras externas mantinham grandes guerras internas, dentro de si próprios, o que levava a pequenas grandes guerras com aqueles que os rodeavam. Admiraram-se por ainda fazerem distinções baseadas na cor da pele, na aparência, e em tantas outras coisas, pensavam como era possível, porque eram todos humanos, iguais na sua matriz, apenas o exterior mudava, mas isso era bom e não conseguiam ver. Os estereótipos e preconceitos ainda imperavam na maioria dos seres humanos deste planeta e com a sua visão evoluída conseguiam ver a ignorância e imaturidade que ainda reinava. A força física era usada para dominar, maltratar, matar aqueles que eram mais frágeis. O poder e a ganância geravam desigualdades, que poderiam ser facilmente combatidas se houvesse mais partilha.

Ficaram chocados com o profundo desrespeito com que tratavam a natureza porque dependiam dela para a sua própria vida.  Olhavam para tudo com espanto e tristeza, falando entre si, refletindo sobre tudo aquilo que tinham visto e sentido.

Neste Planeta, a Humanidade ainda não percebeu que é Uma Unidade, que o tempo de vida é relativamente curto e que deveria ser aproveitado para se elevar, transcendendo os instintos de onde partiu para algo mais elevado que lhes traga alegria genuína, que expanda o amor que está dentro de todos e que encarceram no peito, essa é a sua maior miséria, aquela que gera tanto sofrimento em si e nos outros seres.

Que devem procurar a natureza e serem Um com ela, porque ela faz parte de quem são, viver o pouco tempo que estão neste magnifico planeta contemplando as belezas que os rodeiam: um pássaro a cantar, o voo de uma gaivota sobre o mar, o nascer e o pôr do sol, viver mais esses momentos mágicos que estão à disposição de todos, porquê não aproveitam? Não entendemos. Porque não aproveitam mais para se tratarem bem e se amarem para que possam viver em paz e amar verdadeiramente quem está à sua volta e puderem, assim, trazer uma Paz verdadeira a todo o planeta? O bem de um é o bem de todos, ainda não perceberam que dependem todos uns dos outros, que estão todos juntos nesta grande nave que é o Planeta Terra que os leva a viajar todos os dias pelo universo.

Voltaremos a este Planeta daqui a muitos anos para saberem como estão, temos esperança em vocês humanidade, para que percebam, finalmente, que apesar de serem todos diferentes, essa é a vossa grande riqueza, tal como acontece no nosso lindo Planeta. Somos todos únicos e é quando respeitamos e exercemos a nossa verdadeira essência que trazemos a riqueza e a evolução à nossa volta, porque trazemos o único à realidade.

Formam todos juntos HUMA UNIDADE e que vivam cada dia mais essa realidade, para que juntos, possam um dia viver em harmonia consigo, com os outros e com a Natureza que os rodeia, neste Planeta tão lindo que têm a honra de viver.

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09
Fev21

B de Bissexual


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Vou acompanhando as polémicas dos reality shows através das páginas ativistas que sigo. Grande parte passa-me ao lado, mas esta semana o tema foi a bissexualidade de um concorrente do Big Brother Brasil e tomei a iniciativa de perceber melhor o que aconteceu. Para contextualizar, durante uma festa, os concorrentes Lucas e Gilberto beijaram-se, e aquilo que poderia ter sido um espaço de celebração – ao que parece foi o primeiro beijo entre dois homens num programa com tantas audiências, no Brasil – gerou mais um momento de questionamento sobre a sexualidade de um dos participantes. Depois do beijo, Lucas explicou às/aos colegas que é bissexual. Gilberto não teve o mesmo embate porque já havia entrado na casa com a bandeira LGBTI+ bem levantada (ênfase para o G). Lucas foi chamado de oportunista e de não ser realmente bissexual porque nunca o tinha dito antes e, pior, estas reações partiram de concorrentes mulheres, também elas lésbicas e bissexuais. Lucas ainda tentou justificar que não quis contar antes e que também tinha receio da reação da família e dos amigos. A frase dita por ele foi muito sentida: “Eu não vou ser aceite aqui, não vou ser aceite na comunidade, não vou ser aceite pela minha família, nem pelos meus amigos!”. Lucas é rapper, negro e bissexual, uma equação que é diminuída, desvalorizada e desacreditada pelas pessoas, inclusive aquelas que, aparentemente, deveriam acolhê-lo. Esta história terminou com a pedida de Lucas para sair do programa. A discriminação ganhou, mais uma vez.

Lucas é apenas um exemplo de bifobia. Este conceito refere-se à discriminação de pessoas que se identificam como bissexuais, ou seja, que têm atração sexual e/ou afetiva por indivíduos de mais de um género. Se quisermos simplificar muito as coisas, a bissexualidade pode ser entendida como a atração por mulheres e homens e dentro da própria bissexualidade esses níveis de atração podem variar imenso. As pessoas bissexuais estão cunhadas de muitos estereótipos, como serem imorais e instáveis, desleais e traidoras. São tidas como pessoas que não sabem o que querem, que não conseguem manter uma relação fixa ou que não querem assumir a sua verdadeira sexualidade. Spoiler: vocês vão conhecer pessoas bissexuais assim, tal como pessoas hétero, lésbicas, gays e por aí fora – as imperfeições humanas não escolhem géneros nem sexualidades!

No centro da tempestade destas informações, está uma pessoa em conflito consigo mesma. Estive eu, que estranhei quando o meu corpo e o meu coração identificavam as mesmas reações diante de um rapaz ou de uma rapariga. Que me escondi de toda a gente quando me relacionei com uma mulher. Que me encolhi quando, fechada no meu segredo, ouvia palavras de nojo dirigidas a pessoas bissexuais. Estive eu, também numa festa académica, ainda sem entender grande coisa sobre mim, na mesma situação que o Lucas: encurralada por perguntas, por insinuações e pela galhofa trocista, num momento que deveria ter sido, apenas, bonito e meu. Estou eu que, no meu ativismo LGBTI+ (ênfase para o B), ainda tenho que – acham os outros - justificar/esconder/alterar a minha sexualidade já que namoro com um homem.

No centro do preconceito está uma pessoa que só quer viver a sua vida, sem necessidade de expor o que é, de justificar como é e com quem está, que quer ser entendida como uma pessoa completa, de sexualidade completa e que não quer ser erotizada, fetichizada e associada à não monogamia, ao ménage à trois e à infidelidade.

Nós, pessoas bissexuais, queremos que a nossa sexualidade seja compreendida como verdadeira e existente, ao mesmo tempo que as nossas práticas e discursos não sejam marginalizados, silenciados e excluídos.

O B existe e não é de badalhoco/a, bizarro/a ou baralhado/a. É B de Bissexual, de beleza da vida, de bem-querer e de bem-estar connosco e com o mundo.

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02
Fev21

A Liberdade é uma luta constante


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Estamos a iniciar o mês de fevereiro de 2021 e mais parece que é uma espécie de prolongamento de 2020. Por mais que deseje diversificar estes textos de opinião, não consigo fugir à pandemia e às consequências sociais e económicas de toda esta situação.

Parece que já vimos este filme, ou que estamos na segunda (ou terceira) temporada da mesma série dramática, na qual todos e todas participamos. Mudam os protagonistas, mas a situação mantém-se semelhante, num enredo onde parece que, com muita tristeza, vira o disco e toca o mesmo.

Na verdade, as sociedades continuam focadas em regressar ao antigo normal, pré-pandemia, sem fazer as mudanças estruturais necessárias a uma transformação global que urge. Observo como se tenta tapar com remendos o que se poderia ter prevenido, houvesse a vontade e ousadia necessárias. Vejo como se tenta, a todo o custo, manter o sistema a funcionar da mesma forma, privilegiando “os grandes” em detrimento dos “pequenos”, onde as grandes fortunas ganham com a pandemia, a classe média empobrece ainda mais, o desemprego e a pobreza disparam, o acesso à informação está cada vez mais condicionado e os flagelos sociais crescem exponencialmente.

Apesar da pandemia afetar todas as pessoas, a história repete-se. São nestas alturas que o melhor e o pior da Humanidade vêm à tona, com mil cores e formas diferentes que ilustram somente a dualidade existente em cada ser humano. Os populismos e neofascismos grassam terreno, com discursos que apelam ao “confinamento mental” das pessoas, fechando portas à diversidade, às liberdades, às escolhas, à interculturalidade e ao que está “lá fora” e é “diferente” do dito “normal”, como que alimentando uma espécie de territorialidade primitiva da nossa espécie.

No entanto, a História já nos tem mostrado, por diversas vezes, que onde há fumo, há fogo. Ou seja, que estes movimentos surgem para chamar a atenção de que o sistema está a fraquejar e as mudanças são urgentes, antes que haja mais retrocessos em direitos fundamentais e ameaças à liberdade e igualdade entre todos os seres humanos – o que já aconteceu em vários países do mundo. Só que, quando se combate o fogo com o fogo, a chama tende a crescer e caminha-se para uma guerra, seja que forma tiver. Isso já aconteceu várias vezes na História da Humanidade… Será que aprendemos a lição?

Mudanças de fundo precisam-se. Propostas concretas, que cheguem a todas as pessoas e que mudem diversos paradigmas que só têm aprofundado, cada vez mais, desigualdades e violências. O sistema global precisa de mudar, para que caminhemos para uma verdadeira sustentabilidade social, económica e ambiental – na prática, não somente em discursos e documentos. Essa mudança começa em cada um/a de nós. Aproveitemos estes tempos para olhar para dentro, para observar a nossa vida, a nossa casa, a nossa família, e tentar perceber de que forma podemos concretizar mudanças para viver num maior equilíbrio com a Terra.

Sei que há quem lute diariamente para sobreviver, e que não tenha qualquer espaço mental ou emocional para pensar em mudanças. Exatamente para permitir que todas as pessoas sejam agentes da transformação na Terra, deveria ser aplicado um Rendimento Básico Universal para permitir que todas e todos, sem exceção, tenham o suficiente para as suas necessidades básicas, sem necessidade de fazer provas burocráticas disto e daquilo. Acabar com o paradigma de aceitar qualquer trabalho com quaisquer condições (muitas vezes, miseráveis) somente para sobreviver. Acabar com as vidas de sacrifício permanente, de décadas de trabalho para depois usufruir reformas miseráveis. Acabar com as desigualdades, e a falta de empoderamento das/os mais desfavorecidas/os. Acabar com os apoios míseros, que muitas vezes nem permitem pagar as contas básicas de água e luz, e substituí-los por este rendimento. Por mais dignidade.

Afinal de contas, o Estado somos nós. O dinheiro que circula diz respeito à contribuição de todas e todos nós. E se somos todos/as um/a só, também somos capazes de trabalhar em conjunto, em prol dum novo mundo, quebrando paradigmas ultrapassados e deixando vislumbrar novos horizontes, onde a liberdade seja uma constante, onde haja respeito por todas as diferenças e origens, onde os talentos e aptidões possam ser desenvolvidos e contribuir para a felicidade e bem-estar de todas e todos, onde possamos deixar brilhar, simplesmente, a nossa luz, de mil e uma cores.

Sei que as mudanças estruturais levam tempo, e não são fáceis. Até lá, comecemos por olhar à nossa volta e valorizar aquelas coisas tão belas e tão simples, que estão mesmo à nossa frente e que raramente “vemos com olhos de ver”. Observemos o céu, a paisagem, escutemos os sons da Natureza e procuremos focar a atenção, sempre que possível, no momento presente e no que nos faz sentir em paz. É aqui que começa a verdadeira transformação da Humanidade. Dentro de cada um/a de nós.

Que a liberdade seja uma constante nas nossas vidas.

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16
Nov20

Rebenta a bolha


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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“Nicolas Cage”, em 1870.

Dentro dos apreciadores de arte, há um grupo que me causa um pouco de comichão, os hipsters-no-início-é-que-era-giro. Este grupo de pessoas destaca-se por proferir a frase “bro, curtia muito deles no primeiro álbum, mas agora são bué comerciais” com frequência. Ou seja, por exemplo, na música, gostam de uma banda enquanto os/as seus/suas integrantes vivem na casa dos/as pais/mães. Quando conseguem pagar pela própria comida e começam a ter alguma visibilidade, deixam de ter interesse para esses grupos, pois começam a ser conhecidos por uma boa parte da população e o hipster-no-início-é-que-era-giro sente-se menos especial. O abandono é inevitável, e vão à procura de outra banda com cerca de 80 seguidores nas redes sociais.  Essa malta chateava-me, e hoje sinto que estou perto de me tornar um deles. Não em relação à arte, mas sim às teorias da conspiração.

No meu tempo – sempre que digo esta frase sinto a minha juventude a afastar-se num horizonte longínquo – as teorias da conspiração eram criativas e com um mínimo de lógica plausível. Mesmo não acreditando, entretinham-me e faziam-me crer, por meros instantes, que podia ser um visionário. Quem não recorda com saudosismo, e mesmo com um leve marejar nos olhos, a teoria que, em 1969, o homem não chegou mesmo a ir à lua, e foi o lendário realizador Stanley Kubrick, a mando do governo americano, a encenar as famosas imagens que todos conhecemos? Esta teoria acredita que foi tudo gravado num estúdio, com patrocínio de Walt Disney, e que a viagem nunca aconteceu. Ou se aconteceu, aquelas não são as filmagens reais. Entre as justificações está o abanar da bandeira americana, as sombras ou a falta de estrelas. Como Kubrick teria sido contratado pelo governo nesta missão secreta, nunca poderia desvendar este segredo, então decidiu vestir o jovem Danny, no clássico The Shining, com uma camisola do Apollo 11. Esta teria sido a forma do cineasta confirmar este pensamento, com uma mensagem encriptada para os illuminati.

Na cultura pop também há espaço para actores vampiros, como Nicolas Cage ou Keanu Reeves. O primeiro porque há uma fotografia datada de 1870 de um sósia dele, e estas pessoas não estão a par do conceito de doppleganger. Simpatizo com esta ideia, pois o excesso de tempo que implica ser imortal, justificaria a enorme disponibilidade que o actor tem para perder anos da sua vida a fazer filmes de qualidade questionável - fazendo uso de um eufemismo. O segundo porque o homem que dá vida a Neo, no Matrix, não envelhece e mantém o seu rosto inalterado há décadas. Vai-se a ver e, na verdade, a pílula vermelha que ele toma no filme, que supostamente lhe permitia ver o mundo real tal como ele é em vez de viver enganado, no final de contas não é nada menos que o “milagroso” Cogumelo do Tempo. Há, ainda, quem acredite que os cantores Paul McCartney, Avril Lavigne e até mesmo a Anitta faleceram há imenso tempo, mas que têm sido substituídos por sósias ao longo dos anos. Se um dia desconfiarem que fizeram o mesmo comigo, verifiquem o canto superior esquerdo do meu lábio, que tem uma micro cicatriz de infância, resultado de uma pancada que um primo me deu. Nem imaginam como é que ele ficou… Como podem ver, há uma variedade tão vasta e criativa de teorias da conspiração, que é impossível não rejubilar com elas.

O problema é quando isto deixa de ser uma brincadeira, e grupos enormes ganham poder político com pensamentos substancialmente mais descabidos. Nos Estados Unidos, vai ganhando relevância mediática um movimento chamado QAnon. Este grupo acredita que Donald Trump é um messias, que tem um projecto secreto com o objectivo de combater as elites políticas e de Hollywood. Para eles, estas pessoas são basicamente todos pedófilos, canibais, satanistas e responsáveis pelo tráfico sexual infantil. Nomes como Barak Obama, Tom Hanks, Hillary Clinton, George Soros, Angela Merkel, Bill Gates, Papa Francisco ou Oprah Winfrey são alguns dos mais visados. Com a eleição de Marjorie Taylor Greene à Câmara dos Representantes pelo estado da Geórgia, o grupo QAnon vê-se representado no Congresso americano pela republicana, apoiante deste movimento. Este movimento que começou em chats virtuais como o 4chan, ganha agora outra dimensão.

Em Portugal, como povo competitivo que não fica a dever nada aos estrangeiros, também já tivemos um ar da sua graça com manifestações de pessoas que afirmavam coisas como: o confinamento serviu apenas para instalar o 5G; a covid-19 foi criada pelo lobby farmacêutico para vender medicamentos; o vírus foi criado para matar os/as idosos/as, pois dão despesa ao Estado com as suas reformas; o aborto foi legalizado até aos 9 meses para esquartejarem bebés vivos; os/as mais poderosos/as, só o conseguem ser porque comem criancinhas ao pequeno-almoço.

Numa era em que nunca tivemos tão fácil acesso à informação, e em que nunca tivemos tanta desinformação, também temos um papel importante nisto. Temos o dever de confirmar as informações que decidimos acreditar e que acabamos por disseminar. Portanto, hoje sinto-me um desses hipsters. Ou seja, embora não acreditasse, achava piada a algumas das teorias da conspiração no primeiro álbum. Só que acho que levaram isto longe demais e, em vez de se tornarem comerciais, tornaram-se perigosos lunáticos.

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19
Out20

Sobre o Medo


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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E de repente o medo chegou, mas já não veio sozinho.

Como habitualmente, já sem forças para lutar,

deixou-se escoltar pelos seus companheiros de viagem habituais:

o egocentrismo e a discriminação.

 

Já todos sabemos, de tanto ouvir dizer, que vivemos tempos difíceis e que a tendência é para piorar.  Esta tem sido uma dissertação escrita a diversas mãos, com espaço permanentemente reservado na Comunicação Social e para a qual não têm faltado os indispensáveis argumentos, provas e exemplos, sem faltar a necessária validação da autoridade “científica”.

A narrativa que tem vindo a ocupar o espaço público de comunicação é de tal modo que nos pode levar a acreditar que a expressão tão popular “éramos felizes e não sabíamos” se aplicava a toda a população, no passado recente que a pandemia COVID-19 veio interromper. Mas, não esqueçamos que, para um grande número de cidadãos e cidadãs, a situação em que viviam já era marcada por enormes dificuldades, tornadas insustentáveis com esta pandemia. Nunca é demais lembrar que a pobreza, a violência e o abandono matam mais do que qualquer vírus e estão cada vez mais escondidos, ofuscados pelas contingências dos tempos atuais, em que, devagarinho o medo se instala.

Primeiro o medo do vírus, anónimo, irreconhecível - um inimigo que nos rouba o futuro e aqueles que amamos. Com ele, as prioridades mudam e os círculos fecham-se, ameaçando grupos que pela sua fragilidade e invisibilidade ficam fora de qualquer círculo, presos à sua sorte.

Depois, o vírus vai deixando o seu anonimato e ouvem-se os arautos, que começam a delinear as suas faces, os seus perfis. Não as situações, as dificuldades e o desconhecimento, afinal, isso não serve às audiências.

Finalmente, esse medo vago e impreciso começa a ter forma. É o estrangeiro, a viajante, o vizinho, a funcionária. Assim, começa a discriminação e o egocentrismo, companheiros do medo que o desumanizam. São estes os sentimentos que urge destruir e substituir por uma verdadeira responsabilização cívica, com a certeza de que são, sobretudo, as situações que nos colocam a nós e aos outros em risco.

Sendo importante reconhecer a importância de todas as medidas que visem a proteção da saúde de todas e de todos, daqui não se pode partir para a estratégia generalizada do medo. Devemos sim assumir a nossa responsabilidade cívica de não deixar ninguém para trás, pois não podemos correr o risco de perder a nossa a humanidade.

Aos profissionais de saúde cabe a hercúlea tarefa de salvar as vidas, mas salvar a fé na humanidade é um trabalho de todas e de todos nós.

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05
Out20

BASTA!


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

Veio a público que um professor de Direito Penal, Francisco Aguilar, que leciona conteúdos de mestrado na Faculdade de Direito de Lisboa, defende que as mulheres são “pessoas desonestas, espertas e canalhas”. Num artigo seu, publicado na revista de Direito Civil da mesma faculdade, pasme-se!!!, escreveu que "Mesmo a resistência a leste começará a cair, se o mais criminoso regime da história - o feminismo político - não for derrubado e os seus responsáveis, as feministas, não forem julgados pelos seus crimes contra a ideia de Deus e do direito como justiça da espécie” (JN de 30 de setembro). Para além de muitas outras pérolas, compara o feminismo ao nazismo, fala na “miopia moral da fêmea” e no “assalto feminista ao Estado”. De acordo com a sua linha de pensamento, o sexo masculino é “biologicamente privilegiado por Deus” e as mulheres têm-lhe um ódio genético.

De realçar que uma das disciplinas onde leciona conceitos deste género é de caráter obrigatório.

Mafalda_Basta

Sabemos que a Constituição da República Portuguesa (CRP), no seu artigo 13º, afirma “Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei”. Sabemos igualmente que a CRP tem de ser cumprida por todas as entidades e em todas as esferas. Contudo, nesta escola pública, de Direito, parece que este documento fundamental da nossa democracia não é para ser levado a sério dentro das suas paredes. Talvez assim se comecem a perceber muitas decisões “estranhas” que saem das sentenças de tribunais portugueses…

Dias depois de se conhecer este caso, veio a público que o Ministério da Defesa pretendia promover a implementação de uma linguagem inclusiva nos diferentes ramos das Forças Armadas Portuguesas, contribuindo para a eliminação de perceções estereotipadas. Nessa diretiva sugeriam-se coisas tão básicas e simples como usar a expressão “a pessoa interessada” em vez de “o interessado”; “a classe política” em vez de “os políticos”; “a coordenação”, em vez de “o coordenador”; “direitos humanos”, em vez de “direitos do Homem”, etc. Fiquei muito orgulhosa desta medida política. Contudo, dias depois, li no Expresso que “o presidente do Conselho Nacional da Associação de Oficiais das Forças Armadas arrasou a diretiva, que descreveu como “baboseira”, e garantiu tratar-se de uma “provocação” aos militares, admitindo ainda uma “manifestação ruidosa”. Veio logo o Ministro da Defesa a terreiro, anulando a referida diretiva, alegando que era só um documento de trabalho e que não tinha sido validado superiormente…

Sabemos que quem sempre foi privilegiado, quando se sente limitado naquilo que considera como seus direitos intocáveis, vai sentir a igualdade como uma forma de opressão. É isso que Francisco Aguilar e muitos oficiais das Forças Armadas estão a sentir. E estrebucham.

Por isso é tão importante que cada um e cada uma de nós denuncie e não silencie a injustiça, a desigualdade, o reacionarismo. É preciso levantar a voz, defender sem medo os valores da igualdade, para construirmos um mundo mais justo e mais livre, onde as pessoas possam viver sem violência e com respeito.

Agradeço a todas as pessoas que sempre usaram os meios ao seu alcance para fazerem essa sensibilização e defenderem as suas ideias. Agradeço à juíza do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, Ruth Bader Ginsburg, que morreu aos 87 anos no passado dia 18 de setembro de 2020. Foi uma lutadora e defensora dos Direitos das Mulheres. Foi uma feminista. Nunca desistiu, nem se calou perante a desigualdade. Uma mulher notável a quem todos e todas nós temos de agradecer o empenho e a resiliência.

Agradeço também ao Quino, autor da contestária Mafalda, que faleceu também em setembro deste ano, no dia 30, com 88 anos. Com muito humor, inteligência e educação este homem usou o seu talento para alertar para todas estas questões tão atuais.

Tal como a Mafalda, hoje apetece-me gritar “BASTA!”

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