Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Feminismos é Igualdade

30
Jun21

Migrações involuntárias ou a história da humanidade


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

naom_5f758d2743cde

A história das migrações é indissociável da história da humanidade e o seu percurso constitui um manancial de referências que ecoa naquilo que somos e na riqueza pessoal que todos os processos de aculturação foram trazendo para a nossa construção.

Quando começou a luta pela posse de um território através da demarcação de fronteiras? Sabemos que algures durante o processo de sedentarização ela começou a intensificar-se e que o que até ali fora um confronto entre concorrentes pela sobrevivência foi ganhando outros contornos e a ideia da “posse” foi-se instalando, século atrás de século, trazendo consigo o medo da perda dos bens conquistados. Estava lançada assim, irremediavelmente, a semente da discórdia.

A confusão entre o ser e o ter que esta situação provocou, atingiu os povos de tal modo que a velha Europa se arrogou, com a sabedoria que julgava ter, ao direito de possuir outros continentes e subordiná-los à sua vontade e aos seus dogmas, que séculos de luta e outras tantas conquistas não conseguiram apagar completamente.

E assim chegamos ao dia de hoje, em pleno século XXI, com a palavra diferença a provocar ainda muito sofrimento, quando aplicada a outros seres humanos, num momento da nossa história colectiva  em que os direitos universais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade já fazem parte do nosso ADN e, por isso mesmo, nem esses nem outros direitos que desses advêm deviam ser colocados  em causa,

Não podemos mudar a história, é verdade, por isso, hoje temos de nos aceitar como produtos de uma construção milenar. No entanto, essa aceitação não se pode manifestar através de saudsaudosis de um tempo marcado pela conquista desenfreada e pelo imperialismo que destruiu outros seres humanos, retirando-lhes o direito à sua identidade. Aprendamos sim, com o passado, mas para não cometer as mesmas atrocidades, usando para isso todos os meios que hoje temos ao nosso dispor. Assim, talvez possamos, por fim, experimentar uma reconciliação com esse mesmo passado.

Aceitemos que toda a humanidade descende desses migrantes involuntários que um dia procuraram espaços onde se encaixar e talvez assim seja possível respeitar as pessoas que, agora, procuram um espaço onde possam exercer um dos direitos humanos, essa conquistas da modernidade de que nos devemos orgulhar e que temos o dever de defender - o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Todas as sociedades que encontraram no seu seio espaços para albergar as diferenças são sociedades mais felizes e equilibradas.

É urgente destruir as novas ideologias vestidas com as velhas roupagens, que procuram com falácias oportunistas destruir os ideais humanistas e traçar fronteiras não só no espaço mas também na sociedade, pois, quando se começam a implementar desigualdades, esse processo não termina num grupo, numa língua, numa ideologia, numa religião ou numa orientação social. Não pode haver a mínima cedência dos direitos conquistados, em vez disso é urgente inverter a marcha que nos ameaça e caminhar na defesa intransigente de uma sociedade onde o direito à felicidade seja universal e nunca mais nos envergonhemos da nossa condição humana.

bannerLuisanovo

 

 

29
Jun21

Enquanto esfregas um olho, a liberdade vai-se!


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO TELO PESTANA

liberdade

Não é segredo nenhum que a política faz já parte do meu percurso e dos meus interesses diários. A política, essa nobre causa, deveria ser praticada por via de uma dose generosa de bom senso e, igualmente, levada a cabo por homens e mulheres de bem, honrosos e capazes ao nível técnico e humano. Que reconheçam as limitações daquilo que governam e com o foco no único objetivo de fazer mais e melhor do que aquilo que outrora era o estado das coisas. Conheço algumas pessoas que congregam em si estas capacidades únicas e elas estão espalhadas, e divididas, da esquerda à direita. Lamento profundamente que assim os ideais nos dividam a todos quando juntos poderíamos fazer do mundo um lugar melhor e não, não falo de utopias, falo de possibilidades imensas de mudar o que nunca se conseguiu mudar, sem cores, sem divisões, sem partidos. Talvez seja por isso que reconheço cada vez menos legitimidade partidária num país cada vez mais dividido pelos partidos. Nem os consigo contar. São já uma panóplia considerável de coisa nenhuma com um propósito comum e transversal, preencher o sentimento de pertença!

Ah, muito mais aliviado agora que escrevi o que queria dizer. No entanto, com este acordo prévio introduzo o tema central deste meu artigo, e mísero contributo para a causa feminista, a Turquia retirou-se do tratado internacional de direitos humanos, em particular das mulheres e raparigas, mais conhecido por, pasmem-se, Convenção de Istambul. Dito de outra forma, a Turquia retirou-se de um tratado internacional que tinha o nome de uma das suas mais emblemáticas cidades. Erdogan, pessoa por quem não nutro nenhum tipo de simpatia fez questão de se retirar do tratado sem qualquer explicação o que causou ao novo Presidente americano, Joe Biden, alguma estranheza e tristeza. A retirada representa um tremendo golpe nos direitos universais das mulheres e as causas continuam, misteriosamente, inexplicáveis. Canso-me de dizer aos meus filhos, em especial à minha filha de apenas 14 anos, que nunca devemos dar por garantidas as nossas liberdades, sejam elas quais forem. Não se trata de um comportamento comunista mas de uma aceção de que vivemos uma realidade com algumas garantias muito frágeis onde a qualquer momento o mundo está ao contrário. De Erdogan não se pode esperar um contributo valoroso para a manutenção de direitos universais, mas pelo contrário, como esta retirada demonstrou. A qualquer momento um homem ou mulher de princípios pode ser corrompido, a qualquer hora um homem ou uma mulher com poder se reúne dos mais pérfidos assessores e pode encaminhar a sua governabilidade para o desastre, a qualquer minuto, uma ideia pode ser implantada maquiavélica é implantada na mente de quem governa. Resta-nos a obrigatoriedade da vigilância permanente.

Devemos todos, em plena consciência, ter o dever de não adormecer em liberdade!

bannerclaudionovo

 

16
Jun21

Mural da História


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

 

Hoje venho falar-vos de um livro maravilhoso que se chama “Mural da História”. Foi escrito pela Carolina Caldeira e ilustrado pela Raquel Marques. Faz parte de um projeto que vai envolver pelo menos um muro (daí o nome “mural”), que será intervencionado artisticamente com uma das histórias que fazem parte do livro. Podem pensar que o livro é para crianças. E é. Mas também pode ser lido por pessoas adultas, pois tudo o que ele contém nos ajuda a refletir sobre a importância que as mensagens das “inocentes” histórias infantis passam, bem como sobre o papel que esses contos tiveram e têm nos comportamentos das meninas, das raparigas e das mulheres ao longo de muitas gerações, levando-as a acreditar que para terem sucesso devem esperar passivamente por um príncipe encantado, vivendo para ele e por ele, esquecendo-se delas próprias.

No “Mural da História” podem então ler e pintar novas e divertidas versões de contos infantis bem conhecidos. Já ouviram falar da Rapunzel? Aquela rapariga com longos cabelos arranjados numa looooongaaaa trança, que vivia numa torre à espera de um príncipe que a salvasse? E a Gata Borralheira, conhecem? A Carochinha, aquela que ficava à janela à procura de alguém com quem casar? Lembra-vos alguma história? E que tal a Princesa da ervilha, aquela que era mesmo tão, mas tãããããooooo PRINCESA que sentia uma ervilha na cama, mesmo que por baixo de um monte de colchões?

Pois agora têm a oportunidade de conhecer todas estas personagens femininas, em versão século XXI!!! São meninas que sabem quem são e do que gostam, que lutam contra os seus medos e partem rumo à aventura, para concretizarem os seus sonhos. E de que maneira o fazem! E que atraente é esta leitura, com desenhos lindos prontos a serem coloridos, com textos divertidos, com morais da história empoderadores e com espaço no fim de cada conto para que cada leitora ou leitor escreva ou desenhe o que lhe vai na alma, quando lê estas aventuras e sonhos concretizados.

Os contos de fadas com princesas e príncipes reproduzem a ideia de que as mulheres devem ser submissas, passivas, doces, obedientes, resignadas e humildes. Se forem bonitas têm mais hipóteses de casar com um príncipe encantado que as cuidará e alimentará, garantindo a sua subsistência. Daí terem de viver para a aparência física, usando a máxima “sofrer para ser bela”.

Neste “Mural da História”, Carolina Caldeira e Raquel Marques ajudam-nos a desconstruir estes estereótipos, redefinindo os papéis das mulheres e permitindo uma visão crítica da sociedade e das suas regras, adaptando histórias mágicas e tradicionais à realidade atual, sem eliminar a magia e o sonho. Estamos perante personagens femininas que lidam com o seu contexto, com os seus medos e que lutam pelos seus sonhos, avançando com o que têm à sua volta e tirando o melhor partido da análise que fazem ao seu contexto. Elas têm voz e usam-na para se afirmarem.

Parece-me que se têm crianças podem ler com elas estas histórias, divertirem-se e ajudarem a quebrar o feitiço que, ao longo de séculos, transformou as mulheres em seres pouco inteligentes e pouco poderosos que só conseguiriam encontrar a felicidade através do casamento.

O livro foi editado pela CADMUS, com o apoio da Câmara Municipal do Funchal. Custa 10€. O projeto pode ser consultado aqui: https://www.projetomuraldahistoria.com. No fim do mês, podem ir ver o mural que a Carolina Caldeira e as crianças estão a desenhar na escola do Livramento, no Funchal.

bannerMadalenanovo

 

25
Mai21

Errar é humano…?


umarmadeira

ARTIGO DE FÁBIO DINIZ

1488302242-1

É uma frase vulgarmente empregada, para nos livrar dos males e das atrocidades aparentemente minúsculas que cometemos.

A nossa superioridade egocêntrica nos levou a um estado atual de calamidade intensa e constante… Por alguns continua sendo negada.

As consequências das intervenções humanas têm-se mostrado difíceis de lidar e gerir. Assim então, alguns de nós insistem que, falhar faz parte da nossa aprendizagem… E sim, reaprender, reeducar e reestruturar é necessário, apenas ressalto que, nos dias atuais alguns deles já poderiam ter sido evitados.

Nos últimos anos tanto destruímos e detonámos a nossa casa planetária, abusando estupidamente dos recursos que nos são disponibilizados. Como consequência da arrogância maquiavélica manifestada retiramos espécies dos seus habitats, maltratamos os solos e, ainda assim continuamos à espera de um resultado diferente. O desmatamento é repetidamente levado em consideração, sejam nos meios urbanos, bem como nos espaços naturais e dos quais deveriam ser preservados. É de nossa inteira responsabilidade cuidar, manter, preservar, olhar, contemplar e, sim respeitar a fauna e flora.

Ainda que estejamos atravessando a atual crise pandémica, na qual vítimas mortais somam números diariamente, continuamos com a nossa compaixão e o respeito congelados.

Além dos incontáveis óbitos, observemos o grande recado que o microrganismo atual nos traz. Será que ele nos está a dizer que é hora de mudar e rever os nossos valores e princípios? Seria um momento de refletir sobre paradigmas, ética e moral? Talvez seja isso e tantas outras mensagens que todo o hemisfério cósmico nos envia a cada minuto vivido.

Olhar para os seres vivos de outra forma… Como por exemplo, os animais? As florestas, as várias espécies vegetais? Seria mesmo racional e lógico destruir árvores, poluir e exterminar os oceanos?

Provavelmente é chegada hora de revermos os nossos conhecimentos que já não se adequam.

Como diz o Dalai Lama: “A destruição da natureza resulta da ignorância, cobiça e ausência de respeito para com os seres vivos do planeta.”

Há quem prefira negar toda esta conjuntura e, no final de tudo, mesmo sem respeitar as várias formas de vida, nos desculpamos com a frase… Errar é humano.

Sim, é muito mais fácil dizer que sou humano e posso errar… Espera lá! Quem nos disse e ensinou isso?

Ah, pois, fomos nós, humanos, pois somos tão soberanos que podemos falhar sem problema, sem responsabilidade, sendo inconsequentes.

Afinal… Errar é humano…?

bannerfabio1

 

04
Mai21

A Pandemia dos Afetos: Luz e Sombra


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINSiStock-1161961593-1

"Seis em cada dez portugueses passaram a valorizar mais os afetos com a pandemia." (Estudo Free Now)

 

A pandemia ainda não chegou ao seu fim, e continuamos num ciclo de vagas que sobem e descem ao sabor de números maiores e menores de casos de COVID-19. A cada nova vaga, mais estragos se fazem nas estruturas da sociedade que vão além das pessoas que são infetadas pelo vírus, e as que partem. Poderia falar dos estragos económicos, do encerramento de empresas, do desemprego, da pobreza, da incerteza no amanhã. Poderia falar no desgaste no sistema de saúde e de ensino, e das consequências da sua fraca valorização nas últimas décadas. Mas hoje, decidi abordar algo diferente.

Diz um estudo, realizado em oito países europeus, que os portugueses são os que mais passaram a valorizar agora as manifestações de afeto – abraços, beijos, etc. – do que antes da pandemia. O que dávamos por garantido, foi abalado num piscar de olhos, há pouco mais de um ano. Em nome da saúde e da segurança dos/as familiares e amigos/as, deixámos de conviver sem restrições, deixámos de visitar os/as nossos/as idosos/as, deixámos de trabalhar lado a lado com os/as nossos/as colegas, e todos os contactos presenciais tornaram-se cada vez mais raros e restritos.

Tentámos compensar a solidão e a carência afetiva com o contacto virtual. Salvou-nos (ou assim pensávamos) as videoconferências, as chamadas e as mensagens. Continuámos a trabalhar, através dum ecrã, muitas vezes sem fronteiras entre o pessoal e o profissional, entre o dia e a noite. Tudo se passou a fazer à distância dum clique. Mas o vazio, esse, continuou a crescer dentro de nós.

Fomos forçando a barra, muitas vezes lutando contra nós mesmos/as e contrariando aquilo em que sempre acreditámos, tentando surfar as ondas que surgiam, uma atrás da outra. Tal como surfistas frescos/as na competição, não sentimos o forte embate das primeiras ondas. Mas, à medida que o cansaço se foi instalando nos músculos e na mente, fomos perdendo o controle sobre a prancha, o equilíbrio, e acabamos desmoronando pouco a pouco, enrolados pelas ondas.

A princípio, não aceitámos que tal fosse possível. Afinal de contas, éramos “fortes e resilientes”. Só que, agora, fomos obrigados/as a estar mais connosco mesmos/as, a passar mais tempo dentro de casa, dentro de quatro paredes. E começou a emergir a Sombra, aquilo que passámos a vida toda a varrer para debaixo do tapete, aquilo que nunca quisemos conhecer e integrar.

A Sombra manifestou-se de forma diferente em cada pessoa. Revelou o que precisa ser curado, seja individualmente, seja enquanto Humanidade. Vieram à tona as intolerâncias para com as diferenças, a xenofobia e o racismo. A todo o custo, quisemos arranjar culpados/as para o que estava a acontecer, e descarregámos as nossas frustrações em quem estava mais próximo de nós, muitas vezes na forma de raiva – que nada mais é do que um reflexo do medo – e de comportamentos violentos. Procurámos subterfúgios para não querer trazer a Luz à Sombra.

E os meses foram passando. E a Sombra e a Luz foram dançando o seu tango, ora à luz do dia, ora ao luar. A dualidade tornou-se cada vez mais evidente e muitas pessoas também começaram a se tornar mais conscientes da necessidade duma mudança de paradigmas.

Só que a Sombra quer manter o status quo, o sistema tal como era antes da pandemia. A Sombra alimenta-se dos nossos medos, e alimenta o nosso Ego. E a Luz treme com o vento que agita as ondas, maiores ou mais pequenas, a cada mês que vai passando neste planeta, neste país, nesta ilha.

Estamos a chegar a um ponto onde já não aguentamos mais e precisamos de expressar os nossos afetos, de visitar os nossos entes queridos, de conviver. Mas, logo em seguida, vem aquele sentimento de culpa exacerbado por quem aponta o dedo e pelos mídia… “E se apanhei?… E se contagiei?” E surge o medo. E segue-se o confinamento, o teste, a espera silenciosa… A doença é mais contagiosa nos convívios e nos momentos de lazer, dizem… E as vacinas não impedem o contágio, dizem… A cada dia, uma nova notícia, uma contradição, um novo medo… e instala-se a confusão mental.

No entretanto, muitas pessoas vão morrendo, pouco a pouco, de solidão, de tristeza, de desalento. Outras, vão desesperando e acumulando dores profundas. E ainda, outras vão seguindo cada dia em modo automático, com olhares vazios perdidos num pequeno ecrã que seguram nas mãos e levam para todo o lado. Sorriem para as imagens que lá surgem, mas a tristeza nos seus olhares mostra que a alegria está algures perdida, dentro do peito, à espera de ser resgatada.

Esta pandemia é também uma pandemia de afetos. E por mais que pretendam transformar-nos em robôs, virados/as para a produtividade a todo o custo e com medo do lazer, somos Seres Humanos. Como Humanidade, precisamos encontrar uma nova forma de viver, equilibrando o presencial com a tecnologia, uma vida mais sustentável em todos os aspetos.

Que não precisemos de perder para valorizar. Que possamos novamente abraçar e beijar livremente. Que consigamos nos recuperar, também, desta pandemia dos afetos, e nos tornemos mais Humanos/as do que antes.

bannerjoana

 

19
Abr21

Petição pública para termos calma com as petições públicas


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

fotopaulo

Fleabag, para mim, uma das melhores séries feitas nos últimos anos, tem uma frase que podia ter sido escrita por mim, caso tivesse o talento da Phoebe Waller-Bridge. Enquanto caminha na rua com o seu “Padre Amaro”, Phoebe responde às suas palavras motivacionais com um “não me tornes uma optimista, vais arruinar a minha vida”. Como pessimista militante, padeço do mesmo receio. A minha sorte é o ser humano ser bastante consistente em práticas que me levam a achar que estou do lado certo da barricada – alerta “não sou niilista, mas…”.

No meu penúltimo rabisco aqui no blog irritei-me com o comportamento questionável – fazendo uso de um eufemismo – com que a população estava a lidar com a pandemia e teorias da conspiração.

Hoje, este avô rezingão que vos escreve, qual Larry David, está com urticária por causa das petições públicas. São um instrumento democrático muito valioso, sem dúvida, que têm como objectivo dar voz a causas ou injustiças que não têm o merecido mediatismo. E, caso atinjam as 10 mil assinaturas, serão debatidas em plenário da Assembleia da Républica. Problema: nos últimos tempos, sempre que há algum ruído acerca de petições é pela sua boçalidade gritante – segundo e último eufemismo, prometo.

Uma das mais faladas foi a que visava Mamadou Ba. A petição, que conta com mais de 32 mil assinaturas, pedia a expulsão do activista de Portugal. Quando vi o título até pensei, por momentos, que o Dirigente da SOS Racismo tivesse entrado num desses reality shows bizarros que nos tem invadido os televisores nos últimos tempos. Depois, fui ler o texto em questão e concluí que dizia algo como “nós não somos racistas, mas se queres ter uma voz activa vai para a tua terra”. Lamento ser o portador das más notícias, porém o pós-virgula anula brutalmente o pré-virgula da frase.

Lembrei-me que Joacine também tinha sido protagonista de uma dessas petições; no seu caso, exigiam o seu impedimento de tomada de posse como deputada. Com mais de 22 mil pessoas a subscrever essa intenção, os motivos eram semelhantes aos das 32 mil que desejavam ter o poder de Teresa Guilherme ao exigir que o concorrente Mamadou abandonasse, não o Big Brother, mas neste caso, Portugal.

O juiz Ivo Rosa também já leva com quase 200 mil pessoas a quererem que seja “afastado de toda a magistratura”. Estou a anos-luz de ser um socratista pois confesso-vos não ser um especial apreciador de pessoas egocêntricas e mitómanas, mas parece-me que estamos perante uma cultura do cancelamento mais formal, para quem não tem conta no Twitter.

Todavia, não se deixem enganar, isto não é só para quem não perde um episódio da Quadratura do Círculo desde 2005. Há também algumas mais diversificadas como uma que pede o regresso das bombocas – o doce, não o duo de música popular, autor de temas como "Roda roda a cabecinha” – outra que exige uma auditoria à votação do último Big Brother Duplo Impacto, num processo que, caso aconteça, sugiro que se chame “Operação Abre-Olhos™”, ou mesmo uma que pede que proíba o ananás na piza – se bem que esta já me parece mais sensata.

Mas se a ânsia do leitor por assinar coisas for assim tão incontrolável sugiro, antes, que assinem a Amazon Prime e vejam a deliciosa série Fleabag.

bannerPaulo1

29
Mar21

Num Planeta distante


umarmadeira

ARTIGO DE CARINA JASMINS

965planeta_Azul[1]

Era uma vez um Planeta muito distante, onde as pessoas tinham uma aparência semelhante à nossa, viviam de uma maneira tranquila, formavam uma única sociedade interdependente, com muita diversidade na aparência e na maneira de ser, mas havia uma admiração e um respeito pela individualidade de cada um, consideravam essa diversidade a sua maior riqueza.

Tinham evoluído num respeito profundo pela Natureza e pelo Planeta onde viviam. Era um povo evoluído em consciência e também tecnologicamente e estando em paz com todos, assim como com a luxuriante natureza que os rodeava, decidiram que gostariam de explorar o Universo e conhecer outros planetas, outras culturas, outras maneiras de pensar e de viver. Tinham construído naves com sistemas de navegação que permitiam detetar as “autoestradas” do Universo, que eram túneis espaço-tempo que permitiam atravessar grandes distâncias em pouco tempo, conseguindo, assim, visitar zonas distantes do Universo.

Numa dessas explorações chegaram a um belíssimo Planeta Azul, num distante sistema solar. Este planeta destacava-se no negro do espaço, como uma linda esfera azul brilhante. Admirados com a beleza daquele planeta que lhes fazia lembrar o seu próprio planeta, idealizaram que deveria ser um planeta tranquilo onde imperava a paz.

Sempre que chegavam a um planeta, conseguiam ter acesso à memória desse Planeta, porque para eles os Planetas eram seres vivos que, além da sua própria memória, guardavam também a memória de todos os acontecimentos desde o início. Ao aceder, começaram a ver e a sentir os enormes tumultos, lutas, violência, separação que tinham ocorrido ao longo dos milhares de anos da existência da espécie humana, já que estes eram os habitantes principais e em maioria deste planeta. Era deveras impressionante como a sua parte animal estava tão presente ao longo de tantos milhares de anos, mas pensaram que isso era normal, toda a evolução começa de um nível mais baixo de consciência para o mais elevado.

A surpresa foi quando chegaram aos tempos recentes em que se deparando com uma imensa evolução desde os primórdios da existência, a humanidade ainda mantinha guerras em algumas partes do planeta e a maior parte dos territórios onde não haviam guerras externas mantinham grandes guerras internas, dentro de si próprios, o que levava a pequenas grandes guerras com aqueles que os rodeavam. Admiraram-se por ainda fazerem distinções baseadas na cor da pele, na aparência, e em tantas outras coisas, pensavam como era possível, porque eram todos humanos, iguais na sua matriz, apenas o exterior mudava, mas isso era bom e não conseguiam ver. Os estereótipos e preconceitos ainda imperavam na maioria dos seres humanos deste planeta e com a sua visão evoluída conseguiam ver a ignorância e imaturidade que ainda reinava. A força física era usada para dominar, maltratar, matar aqueles que eram mais frágeis. O poder e a ganância geravam desigualdades, que poderiam ser facilmente combatidas se houvesse mais partilha.

Ficaram chocados com o profundo desrespeito com que tratavam a natureza porque dependiam dela para a sua própria vida.  Olhavam para tudo com espanto e tristeza, falando entre si, refletindo sobre tudo aquilo que tinham visto e sentido.

Neste Planeta, a Humanidade ainda não percebeu que é Uma Unidade, que o tempo de vida é relativamente curto e que deveria ser aproveitado para se elevar, transcendendo os instintos de onde partiu para algo mais elevado que lhes traga alegria genuína, que expanda o amor que está dentro de todos e que encarceram no peito, essa é a sua maior miséria, aquela que gera tanto sofrimento em si e nos outros seres.

Que devem procurar a natureza e serem Um com ela, porque ela faz parte de quem são, viver o pouco tempo que estão neste magnifico planeta contemplando as belezas que os rodeiam: um pássaro a cantar, o voo de uma gaivota sobre o mar, o nascer e o pôr do sol, viver mais esses momentos mágicos que estão à disposição de todos, porquê não aproveitam? Não entendemos. Porque não aproveitam mais para se tratarem bem e se amarem para que possam viver em paz e amar verdadeiramente quem está à sua volta e puderem, assim, trazer uma Paz verdadeira a todo o planeta? O bem de um é o bem de todos, ainda não perceberam que dependem todos uns dos outros, que estão todos juntos nesta grande nave que é o Planeta Terra que os leva a viajar todos os dias pelo universo.

Voltaremos a este Planeta daqui a muitos anos para saberem como estão, temos esperança em vocês humanidade, para que percebam, finalmente, que apesar de serem todos diferentes, essa é a vossa grande riqueza, tal como acontece no nosso lindo Planeta. Somos todos únicos e é quando respeitamos e exercemos a nossa verdadeira essência que trazemos a riqueza e a evolução à nossa volta, porque trazemos o único à realidade.

Formam todos juntos HUMA UNIDADE e que vivam cada dia mais essa realidade, para que juntos, possam um dia viver em harmonia consigo, com os outros e com a Natureza que os rodeia, neste Planeta tão lindo que têm a honra de viver.

bannerCarinaJ

 

09
Fev21

B de Bissexual


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

2dd45160d992dab28903a7a4c7d5a21d

Vou acompanhando as polémicas dos reality shows através das páginas ativistas que sigo. Grande parte passa-me ao lado, mas esta semana o tema foi a bissexualidade de um concorrente do Big Brother Brasil e tomei a iniciativa de perceber melhor o que aconteceu. Para contextualizar, durante uma festa, os concorrentes Lucas e Gilberto beijaram-se, e aquilo que poderia ter sido um espaço de celebração – ao que parece foi o primeiro beijo entre dois homens num programa com tantas audiências, no Brasil – gerou mais um momento de questionamento sobre a sexualidade de um dos participantes. Depois do beijo, Lucas explicou às/aos colegas que é bissexual. Gilberto não teve o mesmo embate porque já havia entrado na casa com a bandeira LGBTI+ bem levantada (ênfase para o G). Lucas foi chamado de oportunista e de não ser realmente bissexual porque nunca o tinha dito antes e, pior, estas reações partiram de concorrentes mulheres, também elas lésbicas e bissexuais. Lucas ainda tentou justificar que não quis contar antes e que também tinha receio da reação da família e dos amigos. A frase dita por ele foi muito sentida: “Eu não vou ser aceite aqui, não vou ser aceite na comunidade, não vou ser aceite pela minha família, nem pelos meus amigos!”. Lucas é rapper, negro e bissexual, uma equação que é diminuída, desvalorizada e desacreditada pelas pessoas, inclusive aquelas que, aparentemente, deveriam acolhê-lo. Esta história terminou com a pedida de Lucas para sair do programa. A discriminação ganhou, mais uma vez.

Lucas é apenas um exemplo de bifobia. Este conceito refere-se à discriminação de pessoas que se identificam como bissexuais, ou seja, que têm atração sexual e/ou afetiva por indivíduos de mais de um género. Se quisermos simplificar muito as coisas, a bissexualidade pode ser entendida como a atração por mulheres e homens e dentro da própria bissexualidade esses níveis de atração podem variar imenso. As pessoas bissexuais estão cunhadas de muitos estereótipos, como serem imorais e instáveis, desleais e traidoras. São tidas como pessoas que não sabem o que querem, que não conseguem manter uma relação fixa ou que não querem assumir a sua verdadeira sexualidade. Spoiler: vocês vão conhecer pessoas bissexuais assim, tal como pessoas hétero, lésbicas, gays e por aí fora – as imperfeições humanas não escolhem géneros nem sexualidades!

No centro da tempestade destas informações, está uma pessoa em conflito consigo mesma. Estive eu, que estranhei quando o meu corpo e o meu coração identificavam as mesmas reações diante de um rapaz ou de uma rapariga. Que me escondi de toda a gente quando me relacionei com uma mulher. Que me encolhi quando, fechada no meu segredo, ouvia palavras de nojo dirigidas a pessoas bissexuais. Estive eu, também numa festa académica, ainda sem entender grande coisa sobre mim, na mesma situação que o Lucas: encurralada por perguntas, por insinuações e pela galhofa trocista, num momento que deveria ter sido, apenas, bonito e meu. Estou eu que, no meu ativismo LGBTI+ (ênfase para o B), ainda tenho que – acham os outros - justificar/esconder/alterar a minha sexualidade já que namoro com um homem.

No centro do preconceito está uma pessoa que só quer viver a sua vida, sem necessidade de expor o que é, de justificar como é e com quem está, que quer ser entendida como uma pessoa completa, de sexualidade completa e que não quer ser erotizada, fetichizada e associada à não monogamia, ao ménage à trois e à infidelidade.

Nós, pessoas bissexuais, queremos que a nossa sexualidade seja compreendida como verdadeira e existente, ao mesmo tempo que as nossas práticas e discursos não sejam marginalizados, silenciados e excluídos.

O B existe e não é de badalhoco/a, bizarro/a ou baralhado/a. É B de Bissexual, de beleza da vida, de bem-querer e de bem-estar connosco e com o mundo.

bannervalentina1

 

 

02
Fev21

A Liberdade é uma luta constante


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

liberdade-dicas

Estamos a iniciar o mês de fevereiro de 2021 e mais parece que é uma espécie de prolongamento de 2020. Por mais que deseje diversificar estes textos de opinião, não consigo fugir à pandemia e às consequências sociais e económicas de toda esta situação.

Parece que já vimos este filme, ou que estamos na segunda (ou terceira) temporada da mesma série dramática, na qual todos e todas participamos. Mudam os protagonistas, mas a situação mantém-se semelhante, num enredo onde parece que, com muita tristeza, vira o disco e toca o mesmo.

Na verdade, as sociedades continuam focadas em regressar ao antigo normal, pré-pandemia, sem fazer as mudanças estruturais necessárias a uma transformação global que urge. Observo como se tenta tapar com remendos o que se poderia ter prevenido, houvesse a vontade e ousadia necessárias. Vejo como se tenta, a todo o custo, manter o sistema a funcionar da mesma forma, privilegiando “os grandes” em detrimento dos “pequenos”, onde as grandes fortunas ganham com a pandemia, a classe média empobrece ainda mais, o desemprego e a pobreza disparam, o acesso à informação está cada vez mais condicionado e os flagelos sociais crescem exponencialmente.

Apesar da pandemia afetar todas as pessoas, a história repete-se. São nestas alturas que o melhor e o pior da Humanidade vêm à tona, com mil cores e formas diferentes que ilustram somente a dualidade existente em cada ser humano. Os populismos e neofascismos grassam terreno, com discursos que apelam ao “confinamento mental” das pessoas, fechando portas à diversidade, às liberdades, às escolhas, à interculturalidade e ao que está “lá fora” e é “diferente” do dito “normal”, como que alimentando uma espécie de territorialidade primitiva da nossa espécie.

No entanto, a História já nos tem mostrado, por diversas vezes, que onde há fumo, há fogo. Ou seja, que estes movimentos surgem para chamar a atenção de que o sistema está a fraquejar e as mudanças são urgentes, antes que haja mais retrocessos em direitos fundamentais e ameaças à liberdade e igualdade entre todos os seres humanos – o que já aconteceu em vários países do mundo. Só que, quando se combate o fogo com o fogo, a chama tende a crescer e caminha-se para uma guerra, seja que forma tiver. Isso já aconteceu várias vezes na História da Humanidade… Será que aprendemos a lição?

Mudanças de fundo precisam-se. Propostas concretas, que cheguem a todas as pessoas e que mudem diversos paradigmas que só têm aprofundado, cada vez mais, desigualdades e violências. O sistema global precisa de mudar, para que caminhemos para uma verdadeira sustentabilidade social, económica e ambiental – na prática, não somente em discursos e documentos. Essa mudança começa em cada um/a de nós. Aproveitemos estes tempos para olhar para dentro, para observar a nossa vida, a nossa casa, a nossa família, e tentar perceber de que forma podemos concretizar mudanças para viver num maior equilíbrio com a Terra.

Sei que há quem lute diariamente para sobreviver, e que não tenha qualquer espaço mental ou emocional para pensar em mudanças. Exatamente para permitir que todas as pessoas sejam agentes da transformação na Terra, deveria ser aplicado um Rendimento Básico Universal para permitir que todas e todos, sem exceção, tenham o suficiente para as suas necessidades básicas, sem necessidade de fazer provas burocráticas disto e daquilo. Acabar com o paradigma de aceitar qualquer trabalho com quaisquer condições (muitas vezes, miseráveis) somente para sobreviver. Acabar com as vidas de sacrifício permanente, de décadas de trabalho para depois usufruir reformas miseráveis. Acabar com as desigualdades, e a falta de empoderamento das/os mais desfavorecidas/os. Acabar com os apoios míseros, que muitas vezes nem permitem pagar as contas básicas de água e luz, e substituí-los por este rendimento. Por mais dignidade.

Afinal de contas, o Estado somos nós. O dinheiro que circula diz respeito à contribuição de todas e todos nós. E se somos todos/as um/a só, também somos capazes de trabalhar em conjunto, em prol dum novo mundo, quebrando paradigmas ultrapassados e deixando vislumbrar novos horizontes, onde a liberdade seja uma constante, onde haja respeito por todas as diferenças e origens, onde os talentos e aptidões possam ser desenvolvidos e contribuir para a felicidade e bem-estar de todas e todos, onde possamos deixar brilhar, simplesmente, a nossa luz, de mil e uma cores.

Sei que as mudanças estruturais levam tempo, e não são fáceis. Até lá, comecemos por olhar à nossa volta e valorizar aquelas coisas tão belas e tão simples, que estão mesmo à nossa frente e que raramente “vemos com olhos de ver”. Observemos o céu, a paisagem, escutemos os sons da Natureza e procuremos focar a atenção, sempre que possível, no momento presente e no que nos faz sentir em paz. É aqui que começa a verdadeira transformação da Humanidade. Dentro de cada um/a de nós.

Que a liberdade seja uma constante nas nossas vidas.

bannerjoana

 

Sobre nós

foto do autor

Pesquisar

Siga-nos

Iniciativas diversas

Debate "A Nutrição e as Mulheres" 05/11/2018

Todas as fotografias aqui

Tertúlia "O impacto do 25 de Abril de 1974" 28/04/2019

Todas as fotografias aqui

Passeio de Verão UMAR Madeira 14/07/2019

Todas as fotografias aqui

Semana das Artes EcoFeministas, de 15 a 19/07/2019

Todas as fotografias aqui

43º Aniversário da UMAR 13/09/2019

Todas as fotografias aqui

Tertúlias Literárias

I Passeio dos Livros nos Jardins do Lido 03/08/2018

Todas as fotografias aqui

II Passeio dos Livros no Jardim de Santa Luzia 28/09/2018

Todas as fotografias aqui

III Passeio dos Livros na sede da UMAR Madeira 10/03/2019

Todas as fotografias aqui

Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub