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Feminismos é Igualdade

02
Fev21

A Liberdade é uma luta constante


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

liberdade-dicas

Estamos a iniciar o mês de fevereiro de 2021 e mais parece que é uma espécie de prolongamento de 2020. Por mais que deseje diversificar estes textos de opinião, não consigo fugir à pandemia e às consequências sociais e económicas de toda esta situação.

Parece que já vimos este filme, ou que estamos na segunda (ou terceira) temporada da mesma série dramática, na qual todos e todas participamos. Mudam os protagonistas, mas a situação mantém-se semelhante, num enredo onde parece que, com muita tristeza, vira o disco e toca o mesmo.

Na verdade, as sociedades continuam focadas em regressar ao antigo normal, pré-pandemia, sem fazer as mudanças estruturais necessárias a uma transformação global que urge. Observo como se tenta tapar com remendos o que se poderia ter prevenido, houvesse a vontade e ousadia necessárias. Vejo como se tenta, a todo o custo, manter o sistema a funcionar da mesma forma, privilegiando “os grandes” em detrimento dos “pequenos”, onde as grandes fortunas ganham com a pandemia, a classe média empobrece ainda mais, o desemprego e a pobreza disparam, o acesso à informação está cada vez mais condicionado e os flagelos sociais crescem exponencialmente.

Apesar da pandemia afetar todas as pessoas, a história repete-se. São nestas alturas que o melhor e o pior da Humanidade vêm à tona, com mil cores e formas diferentes que ilustram somente a dualidade existente em cada ser humano. Os populismos e neofascismos grassam terreno, com discursos que apelam ao “confinamento mental” das pessoas, fechando portas à diversidade, às liberdades, às escolhas, à interculturalidade e ao que está “lá fora” e é “diferente” do dito “normal”, como que alimentando uma espécie de territorialidade primitiva da nossa espécie.

No entanto, a História já nos tem mostrado, por diversas vezes, que onde há fumo, há fogo. Ou seja, que estes movimentos surgem para chamar a atenção de que o sistema está a fraquejar e as mudanças são urgentes, antes que haja mais retrocessos em direitos fundamentais e ameaças à liberdade e igualdade entre todos os seres humanos – o que já aconteceu em vários países do mundo. Só que, quando se combate o fogo com o fogo, a chama tende a crescer e caminha-se para uma guerra, seja que forma tiver. Isso já aconteceu várias vezes na História da Humanidade… Será que aprendemos a lição?

Mudanças de fundo precisam-se. Propostas concretas, que cheguem a todas as pessoas e que mudem diversos paradigmas que só têm aprofundado, cada vez mais, desigualdades e violências. O sistema global precisa de mudar, para que caminhemos para uma verdadeira sustentabilidade social, económica e ambiental – na prática, não somente em discursos e documentos. Essa mudança começa em cada um/a de nós. Aproveitemos estes tempos para olhar para dentro, para observar a nossa vida, a nossa casa, a nossa família, e tentar perceber de que forma podemos concretizar mudanças para viver num maior equilíbrio com a Terra.

Sei que há quem lute diariamente para sobreviver, e que não tenha qualquer espaço mental ou emocional para pensar em mudanças. Exatamente para permitir que todas as pessoas sejam agentes da transformação na Terra, deveria ser aplicado um Rendimento Básico Universal para permitir que todas e todos, sem exceção, tenham o suficiente para as suas necessidades básicas, sem necessidade de fazer provas burocráticas disto e daquilo. Acabar com o paradigma de aceitar qualquer trabalho com quaisquer condições (muitas vezes, miseráveis) somente para sobreviver. Acabar com as vidas de sacrifício permanente, de décadas de trabalho para depois usufruir reformas miseráveis. Acabar com as desigualdades, e a falta de empoderamento das/os mais desfavorecidas/os. Acabar com os apoios míseros, que muitas vezes nem permitem pagar as contas básicas de água e luz, e substituí-los por este rendimento. Por mais dignidade.

Afinal de contas, o Estado somos nós. O dinheiro que circula diz respeito à contribuição de todas e todos nós. E se somos todos/as um/a só, também somos capazes de trabalhar em conjunto, em prol dum novo mundo, quebrando paradigmas ultrapassados e deixando vislumbrar novos horizontes, onde a liberdade seja uma constante, onde haja respeito por todas as diferenças e origens, onde os talentos e aptidões possam ser desenvolvidos e contribuir para a felicidade e bem-estar de todas e todos, onde possamos deixar brilhar, simplesmente, a nossa luz, de mil e uma cores.

Sei que as mudanças estruturais levam tempo, e não são fáceis. Até lá, comecemos por olhar à nossa volta e valorizar aquelas coisas tão belas e tão simples, que estão mesmo à nossa frente e que raramente “vemos com olhos de ver”. Observemos o céu, a paisagem, escutemos os sons da Natureza e procuremos focar a atenção, sempre que possível, no momento presente e no que nos faz sentir em paz. É aqui que começa a verdadeira transformação da Humanidade. Dentro de cada um/a de nós.

Que a liberdade seja uma constante nas nossas vidas.

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26
Jan21

Segurar quem nos ampara


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

monalisamascara

Todos nós já tivemos um daqueles dias no qual pensamos que não deveríamos ter saído da cama, onde tudo corre surrealmente mal. Acredito que tenha sido isso que os/as trabalhadores/as do sector cultural tenham sentido em 2020. Só que, em vez de um dia aqui e ali, tirando algumas excepções – obviamente -, foram 366 dias. Ainda por cima, foi um ano bissexto, para que houvesse um dia extra de desencantamento com este ofício de existir.

É sabido que uma esmagadora parte dos espectáculos teve que ser cancelada, o que levou a, por exemplo, milhões de despedimentos, ao encerramento de teatros, cinemas ou livrarias. Infelizmente, esta situação acabou por resultar a que muitos desses profissionais ficassem sem condições para se alimentar, ou seja, uma afronta colossal à dignidade humana.

Nos momentos mais complicados da minha vida, além das pessoas que me amparam, a arte teve sempre um papel essencial na manutenção da minha (parca) sanidade mental. É nos filmes, nos discos ou nos livros que encontro um pouco de luz quando o breu teima em me rodear.

No primeiro confinamento, fui mais uma vez salvo pela arte. Agora, que voltamos a ser encarcerados, voltarei, certamente, a socorrer-me nela. Aproveitando a habitual reflecção e as inevitáveis listas com o melhor do ano que nos invadem por esta altura, deixo aqui algumas recomendações daquilo, que para mim, foi o melhor de 2020, com o intuito de tornar estes longos dias mais airosos – alerta pretensiosismo.

Começando pela música, foi praticamente consensual que Fetch the Bolt Cutters, da singular Fiona Apple, foi o disco do ano. Lançado no pico da pandemia, a crueza aliada à beleza da composição, tornou a quarentena de milhões de pessoas por esse mundo fora mais fácil.

Moses Sumney, um dos novos diamantes da música mundial, depois de um maravilhoso Aromanticism, em 2017, conseguiu elevar ainda mais a fasquia com um poético e hipnotizante græ.

Num ano também marcado pelo movimento #BlackLivesMatter, o misterioso grupo britânico SAULT, lançou um poderoso e reivindicativo Untitled (Black Is). O poder do funk, da soul ou do R&B junta-se ao protesto e resulta num álbum denominado mundialmente como a “banda sonora da revolução de 2020”.

Em Março, sem aviso, o lendário Bob Dylan, disponibilizou no seu canal de Youtube, o tema Murder Most Foul, o seu primeiro original desde 2012, onde deambula sobre o assassinato de John F. Kennedy. O tema de 17 minutos seria o single de avanço de Rough and Rowdy Ways, mais uma obra de arte do Nobel.

Run The Jewels, a dupla americana composta por El-P e Killer Mike, voltou com um criativo e assertivo RTJ4, onde mantêm a sua sonoridade característica, conjugada com uma mensagem forte da actualidade, directa e sem soar condescendente.

De uma forma mais sintética, também há que mencionar discos como Set My Heart on Fire Immediately, de Perfume Genius; A Hero's Death dos Fontaines D.C.; It Is What It Is, do Thundercat; What Kinda Music, do Tom Misch & Yussef Dayes; Source, da Nubya Garcia ou Alfredo, de Freddie Gibbs & The Alchemist.

Em Portugal, também tivemos excelentes projectos como o delicioso Kriola, de Dino D'Santiago, que é um hino à diversidade e orgulho negro; o encantador Madrepérola, da Capicua, onde a rapper portuense dá um necessário nocaute ao patriarcado, com o seu jeito aguerrido e poético; Rapazes e Raposas, do singular B Fachada, após o seu hiato; Canções do Pós-Guerra, do Samuel Úria; Eva, pela voz quente e bela de Cristina Branco; o homónimo Lina_Raül Refree, que junta a fadista com o produtor espanhol; Revezo, de Filipe Sambado; Liwoningo da talentosa Selma Uamusse; Uma Palavra Começada por N, do Noiserv; o fresco Meia Riba Kalxa, do Tristany; a doce simbiose de Fado Jazz Ensemble, do pianista Júlio Resende; ou o intemporal Caixa de Ritmos, álbum de instrumentais do poeta urbano Sam The Kid.

No cinema, apesar de uma grande parte dos filmes mais aguardados do ano ter visto as suas estreias adiadas, também tivemos um 2020 com qualidade e variedade, para todos os gostos.

Destaco Nomadland, da cineasta chinesa Chloé Zhao, que nos mostra a vida de uma mulher nómada, interpretado de uma forma brilhante por Frances McDormand – o que é uma redundância -, as dificuldades e prós que este estilo de vida acarreta, sempre presenteados com uma fotografia sublime.

Minari, de Lee Isaac Chung, onde acompanhamos uma família coreana que vai viver para o Arkansas, numa pequena fazenda em busca do sonho americano.

Listen, da portuguesa Ana Rocha De Sousa, é também um dos filmes do ano. Vemos por dentro o drama de uma família de emigrantes portugueses nos subúrbios de Londres, que vê a segurança social querer separar os filhos dos pais. Um valente murro no estômago, que nos deixa com a coração em estilhaços.

Da Dinamarca chega-nos Druk, mais um filme soberbo de Thomas Vinterberg, acompanhado de Mads Mikkelsen, com quem já tinha feito o memorável Jagten. Quatro professores testam a teoria que diz que manter constantemente um certo nível de álcool no sangue traz imensos benefícios à vida das pessoas.

Never Rarely Sometimes Always, da realizadora Eliza Hittman, vivemos de perto o drama de uma adolescente natural de um meio pequeno, que descobre estar grávida e tem que ir para Nova Iorque com a sua prima – também menor – para conseguir abortar. É um retrato dos perigos que uma jovem mulher pode passar.

Destaque, ainda, para I'm Thinking of Ending Thing, do genial Charlie Kaufman; The Trial of the Chicago 7 do reputado Aaron Sorkin, criador de The West Wing; Promising Young Woman da talentosa Emerald Fennell; o tocante Dick Johnson Is Dead, de Kirsten Johnson; o importante Soul, de Pete Docter; ou os documentários Beastie Boys Story, de inovador Spike Jonze e Crip Camp: A Disability Revolution, escrito e co-produzido por Nicole Newnham e James LeBrecht.

Queria deixar mais recomendações de outras áreas culturais, mas creio que já me tenha alongado, portanto ficar-me-ei por aqui. Espero que encontrem algo que possa tornar o vosso confinamento mais agradável.

Enquanto fazia estas listas, ia constatando no quão democrática é a arte, com homens e mulheres, dos quatro cantos do mundo, das mais variadas raças e etnias, expressões de género e orientações sexuais, estão aqui representados/as.

Se a arte tem todo este poder de nos ajudar nestas fases, acho que o mínimo é valorizar os/as seus/suas profissionais com a compra do seu trabalho. Nunca vos pedi nada, portanto, quem puder, não deixe de apoiar quem tem um papel tão importante na nossa sociedade.

P.S. – Juro que não tenho direito a qualquer tipo de comissão.

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