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Feminismos é Igualdade

20
Jul19

Num mundo de predadores sexuais, seja Fernanda Colombo


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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Acordos prévios em primeiro lugar: o mundo em que vivemos está longe de ser perfeito, parece-me que podemos concordar com esta ideia e portanto considera-la consensual. Homem e mulher contribuem negativamente para a imperfeição mundana ou não fossemos todos parte da mesma esfera que poluí a natureza e a sociedade com a naturalidade inconsciente de quem actua sem olhar o dia de amanhã; com a imaturidade de um recém-nascido; com o desdém cúmplice de quem assiste ao genocídio dos seus descendentes mas falta-lhes a iniciativa motivadora de quem sente na pele a dor dos demais. Não pretendo vos falar de ambiente (apesar de ser um tema em que ambos, homens e mulheres, mereceriam uns tabefes bem aplicados pois todos, somos desprezíveis nesta matéria), mas sim de comportamentos positivos que diferenciam os “justos” dos “pecadores”.

Fernanda Colombo, a jornalista e árbitra de futebol que no último mês se notabilizou por proporcionar uma cena engraçada num jogo em que arbitrou, foi mais uma vítima do poder da testosterona que vem dominando o mundo desde o inicio do patriarcado e cuja aplicação é absolutamente generalizada a todas as áreas da sociedade. Após o vídeo em que brincou com um jogador de futebol se ter tornado viral na internet, Fernanda Colombo recebeu uma proposta sexual desprezível via e-mail e na qual lhe propunham encontrar-se com "clientes" por um "cachê mínimo de 7 mil”, reais, presumo. O autor do e-mail, um rapaz de boas famílias, presumo também, adianta que não se trata de prostituição (tratemos as coisas pelos nomes próprios) mas sim de uma “coisa” sem compromisso e cujos seus “clientes” são tipos novos, educados, respeitosos e inteligentes que apenas não têm tempo para socializar e que precisamente por esse facto a procuravam. Bem, se a questão é socializar, eu tenho uma série de amigos que não se importava de tomar umas cervejas e socializar com um tipo que nunca vimos na vida e se ainda receberemos 7 mil reais ou euros tanto melhor. Fica desde aqui a contraproposta do convite. Parece-me que, tal como o mundo à nossa volta aprendeu a designar as coisas e coisinhas com eufemismos, os predadores sexuais também o fizeram, consideremo-lo evolução. Não podemos considerar prostituição porque é apenas para socializar e também não podemos considera-los predadores porque são indivíduos simpáticos e inteligentes que apenas têm problemas no que respeita à socialização. O famigerado professor Taveira também não aliciou alunas e Bill Clinton continua a manter a palavra inicial sobre Monica Lewinsky: “I did not have sex with that woman”.

Fugindo ao tom irónico (parece-me cada vez mais frequente, já não consigo levar estas coisas a sério) deixo os parabéns a Fernanda Colombo pela coragem em denunciar a proposta que recebeu. O poder corrompe e corrompe sexualmente se for necessário. Fernanda Colombo bateu o pé e bem. Quantas outras mulheres já receberam propostas indecentes e calaram-se? Quantas mulheres foram assediadas e pressionadas sexualmente para poderem progredir nas carreiras? Enfim, perguntas que ficam na consciência de cada uma de vós e que pelo menos para vós próprias possam dizer “eu já!” ou “eu nunca, mas conheço quem já tenha passado por isso.”

Batam o pé. Não é não!

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06
Jul19

A mulher e a (hetero)sexualidade


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Vivemos numa sociedade patriarcal. A forma como esse patriarcado influencia a sexualidade da mulher está patente nos mais diversos preconceitos a que esta é submetida ao longo da vida. Desde logo porque o homem tem elevadas as suas prioridades, interesses e necessidades. Ao homem é dado o benefício de maior vontade sexual e, consequentemente, de poder usufruir em pleno as suas vontades. À mulher são, implicitamente, anexados os rótulos de, por ser mulher, ter pouco apetite sexual, de, por ser mulher, saber controlar os seus impulsos sexuais. A isto alia-se a ideologia da educação, em que as meninas são ensinadas, desde cedo, a acreditar que são diferentes e, por isso, a expressão, o comportamento e as vivências corporais delas devem ser controladas, educadas e polidas segundo os padrões da sociedade. A forma de manifestar o erotismo, pela mulher, é, assim, moldada pelo código erótico do homem, a quem, dentro da normalidade – retire-se aqui, portanto, as chamadas parafilias – tudo é permitido, enquanto à mulher é ensinado o que é desejável, fazendo-a enclausurar o seu desejo e o seu prazer.

O machismo afeta a sexualidade. O machismo afeta a sexualidade feminina quando coloca, na mulher, a culpa pelos abusos que ela sofre. Esta culpabilização percorre uma linha no tempo. Repare-se que, durante o período da inquisição, o desejo sexual era encarado como algo satânico e as mulheres, por serem bonitas e sedutoras, eram rotuladas como tentações do diabo. Muitas dessas mulheres, inclusive, foram queimadas sob o pretexto da bruxaria. No século XIX, então, a atividade sexual ficou marcada, predominantemente, para a reprodução sexual, deslocando o prazer e a autodescoberta para o canto obscuro do pecado. A atividade sexual da mulher casada restringia-se à maternidade e à satisfação do marido. A atividade sexual das mulheres socialmente rejeitadas servia, única e exclusivamente, para usufruto do homem que, não podendo esgotar a sua satisfação com as esposas, procuravam outros corpos para isso. Tanto a umas, quanto às outras era interdita a realização sexual plena. Este binómio sexualidade-reprodução, anexado à sexualidade feminina, é fortemente exponenciado até finais do século XIX, altura em que os estudos de Freud começaram a introduzir a ideia da sexualidade como algo fundamental na vida humana, potenciando discussões sobre sexo e respetivas técnicas, anatomia genital femininas e masculina e formas de prazer feminino. A revolução industrial colocou a mulher no mercado de trabalho, afastando-a da exclusividade – mas sem o deixar de fazer - do trabalho doméstico e dos papéis enquanto esposa e mãe. Ainda assim, até meandros dos anos 50, a sexualidade feminina continuou relacionada à procriação e ao casamento. A introdução da pílula anticoncecional foi um verdadeiro movimento feminista, dando à mulher a livre escolha da maternidade e uma nova e tão ansiada liberdade sexual.

O movimento feminista de emancipação aliou a todos os direitos de igualdade pretendidos, a igualdade de conduta sexual, um fenómeno que se determinou na última década do século passado, com a tentativa de destronamento de vários preconceitos, nomeadamente o da necessidade da mulher chegar ao casamento virgem – ao contrário do homem que deveria ser dotado de uma experiência sexual prévia.

No entanto, apesar da evidente evolução, a sexualidade feminina continua a ser apontada, pela sociedade, como algo menor e desmerecedor de atenção e compreensão e, consequentemente, a satisfação sem culpa ainda é condicionada por aspetos sociais e psicológicos. Os meios de comunicação retratam a mulher como objeto sexual. As campanhas publicitárias aliam, aos seus produtos, imagens de mulheres de corpos esculturais e despidos. A mulher passou de um extremo ao outro: da repressão total à exploração desenfreada da sua imagem sexual. E, pelo meio, não houve tempo para o autoconhecimento corporal, para a exploração das vontades e para a consciência de que a mulher é, tal como o homem, um corpo e uma cabeça feitos de desejo e fantasias.

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22
Jun19

Empatia: Um mundo melhor depende de si


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ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Empatia é a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa, caso estivéssemos na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outra pessoa. Por vezes, sentimos empatia sem sequer sabermos o que isso significa. Mas, nos dias de hoje, com a proliferação da comunicação virtual e distante nas redes sociais, em vez da comunicação presencial “olhos nos olhos”, numa sociedade cada vez mais individualista e competitiva, a empatia começa a rarear. E o que acontece sem empatia? Proliferam a intolerância, o bullying, todos os tipos de violência.

Quando não gastamos nem um segundo para imaginar como a outra pessoa se sente, de onde vem, o contexto onde está inserida e o que passou, sem se lembrar que cada pessoa tem a sua história de vida, e sem tentar perceber como é estar na pele da outra pessoa, surgem as discussões acaloradas (e que normalmente não levam a lado nenhum) nas redes sociais, surge o fim de relacionamentos (familiares, amizades, etc), os crimes de ódio, a violência de género. Sem empatia, é impossível perceber que, em muitas situações, não existe uma verdade absoluta. Existem verdades, que dependem do ponto de vista de cada pessoa. No entanto, existem valores transversais a qualquer verdade. E esses são os direitos humanos (https://dre.pt/declaracao-universal-dos-direitos-humanos).

Existem inúmeros exemplos de falta de empatia, e os estereótipos e preconceitos resumem isso mesmo. Quando alguém diz que uma mulher “pôs-se a jeito” para ser violada porque usou uma “saia curta”. Quando alguém não se coloca no lugar de um(a) jovem, para tentar perceber de onde veio e porque exibe determinados comportamentos, e toca a rotulá-lo(a) de incompetente. Quando se culpabiliza quem sai fora dos padrões, dizendo que só é gordo(a) quem quer e quem é desleixado(a). Quando se diz à boca cheia que não existem padrões para as mulheres, que a beleza é diversificada e, mal viram as costas, toca a criticar quem não se encaixa nesses padrões – ou porque é muito magra, ou muito gorda, ou a roupa não lhe fica bem, ou devia ter o cabelo assim ou assado, etc. Quando se encaixam rótulos ridículos em mulheres por serem louras, por terem tatuagens, por se vestirem de forma diferente, por terem uma personalidade diferente, por amarem mulheres, por não gostarem das coisas que a maioria das mulheres “deveria” gostar. Quando se diz que uma mulher tirou o homem do sério, por isso quase que “mereceu” ser vítima de violência. Quando se diz que os(as) refugiados(as) vêm “roubar” os nossos postos de trabalho e dinheiro, e ainda que são “terroristas”. Quando se alcunha os(as) desempregados(as) de “vadios(as)”, sem tentar perceber a história individual de cada pessoa. Quando não se percebe que a outra pessoa não pode, nem vai sempre fazer todas as nossas vontades e agir sempre daquela maneira que desejamos – a minha liberdade termina quando começa a do(a) outro(a). Quando se dá mais valor ao seguidismo do que à liberdade de pensamento.

Sem empatia, tornamo-nos egoístas e caímos no julgamento superficial e errado sobre as pessoas. Sem empatia, não é possível sentir compaixão. Sem empatia, proliferam os estereótipos e a hipocrisia. A falta de empatia é também responsável pelos danos que temos causado no nosso planeta. Não é, nem deve ser, apenas direcionada para a espécie humana.

Muitas décadas de abuso e ignorância, em relação à Natureza, trouxeram-nos a este século, onde o futuro da Humanidade está em cheque. Perante tudo isto, vamos continuar a tirar selfies com “sorrisos colgate”, a publicar “postas de pescada” nas redes sociais, e a ignorar o que se passa no mundo? A seguir modas e heróis/heroínas, em vez de fazer mudanças reais e permanentes no nosso estilo de vida? Vamos continuar a competir por bens materiais supérfluos, a tomar decisões sem ter em conta um todo, a mentir descaradamente quanto à falta de direitos humanos essenciais – como a saúde – sem assumir os erros e agir para corrigi-los? Vamos continuar a tapar o sol com uma peneira, a ver se passa por si só? É demasiado tarde para isso. A empatia é tramada. Trabalhar a empatia custa muito, dói cá dentro. Rebenta com o ego. Mas sem empatia, estamos a nos tornar uma espécie mais insensível, superficial e imediatista. Vamos acordar enquanto é tempo? Vamos praticar a empatia “à séria” e transformar o nosso bocadinho de Terra num lugar melhor? Bora lá.

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06
Abr19

ZIPPY - Coleção sem género


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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Eu também já fui jovem e já fui estúpido. Confesso que, por vezes ainda o sou. No entanto devo dizer que algumas atitudes me fazem espécie.

Este recente rebuliço em torno da nova coleção “sem género” da conhecida marca de roupa infantil Zippy é somente mais um exemplo de que a estupidez humana pode ir longe, muito longe mesmo. Pode ir a sítios e espaços onde o humano não chegou ainda. Pode contornar desejos e vergar vontades. A história pode ser esquecida ou simplesmente ignorada como é o caso concreto da indumentária e costumes.

Ainda não ouvi nenhum “macho” chamar a si o uso de saltos altos como sendo um acessório masculino pois a sua origem remonta ao pé masculino da antiguidade clássica. Desde o Egipto até à Grécia clássicas, passando pelos cavaleiros persas a e pela idade média até cerca de 1500 o salto alto era de uso exclusivo masculino. Tanto quanto se sabe, apenas se avançarmos até pouco depois do ano 1500, em França, reconhece-se Catherine de Médici como uma das primeiras mulheres a utilizar saltos altos e após esta data através do monarca Luis XIV o uso de saltos altos voltou a entrar na indumentária masculina. Diga-se ainda que Luís XIV usou e abusou de outros luxos da época como era as perucas. É caso para dizer que homem de barba rija usava salto alto e peruca no início do século XVI.

Diria o nosso maior vulto da poesia que se mudam os tempos, mudam-se as vontades. Devo concordar, mudaram-se os tempos e mudaram-se as vontades também, em particular aquela vontade de ser estúpido e de se discordar de ciências que não se conhecem, principalmente aquela que se chama história. Se eu recuar até à minha infância, dou por mim, menino franzino, a usar os fatos de treino, da moda à época, das minhas primas.

Querer marcar a diferença, por via de uma opinião estapafúrdia, deverá ser acompanhada de algum fundamento. E, para meu desespero, os fundamentos para a não aceitação da famigerada coleção da Zippy é de que Deus não quis assim. Aquela ampla deambulação do pensamento crítico que se faz quando não se tem outra explicação. Também Zeus fora responsável pelas tempestades quando não se ocupava da mulher do próximo. Assim vai a aceitação de sociedade à igualdade de género. Parece-me bem mas discordo!

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15
Mar19

Lutar por um mundo melhor? Com todo o gosto!


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ARTIGO DE CARINA TEIXEIRA

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O passado 8 de março foi um dia importante mas com sabor agridoce para mim. E porquê, perguntam vocês, já que é uma data comemorativa da Mulher? Este dia leva-me a um misto de emoções, uma vez que é uma efeméride em que se reinvidica direitos, em que relembramos todas as lutas de mulheres operárias por melhores condições de trabalho, dignidade, respeito, entre muitos outros.

Mas... Não esqueço o facto de já 12 mulheres terem sido assassinadas este ano (e ele mal começou...) por companheiros e ex companheiros. Para onde caminhamos? Até quando haverá uma próxima vítima? Até quando teremos uma justiça machista? Até quando acontecerá a próxima intimidação (seja no trabalho ou em espaços públicos), o próximo assobio na rua, a próxima abordagem desagradável, a próxima piadinha machista? Até quando nos iremos calar, enquanto outra mulher é assediada, violentada, maltratada? Quantas mortes ainda iremos chorar? Sim, chorar. Choro por elas, choro por mim e por todas nós, porque mexe com todas nós. Não nos podemos calar!

No 8 de março foi assinalado o Dia Internacional da Mulher por ter sido um dia de luta! A UMAR saiu à rua para distribuir o seu manifesto “Se as Mulheres param, o Mundo para” de reinvidicação por mais direitos para a mulher e entristeceu-me ver a indiferença de algumas mulheres em relação à causa. Entre muitas coisas, ouvi a pergunta "Em vez de um papel, porquê não dão uma flor?". Esta pergunta marcou-me pelo simples facto de tentarmos embelezar e a romantizar este dia. Não estou a dizer que não se possa oferecer flores ou outras lembranças às mulheres. Não, apenas quero que reflitam sobre a essência deste dia, em que muitas de nós morreram, sofreram e lutaram arduamente para conquistar direitos que temos hoje garantidos. Por isso, um simples papel e a luta constante por mais direitos vale ouro comparado com uma flor.

É preciso parar para falar, para lutar, para gritar até que a voz doa por mais sororidade. É preciso dizer basta! Entendam uma coisa: não seremos livres enquanto outras mulheres forem prisioneiras, não seremos fortes enquanto não empoderarmos todas as outras, não poderemos viver normalmente enquanto outras morrem e são tratadas de forma cruel. Por isso, lutem, todos os dias da vossa vida, porque já como dizia Simone de Bouvoir "Basta uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes, terás de te manter vigilante durante toda a tua vida".

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26
Fev19

Há que viver e escangalhar o telemóvel...


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ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Corria o ano de 1993 e Anabela, com apenas 16 anos, vencia o Festival da Canção com o icónico tema “A cidade (até ser dia)”. Em segundo lugar ficaria o autodenominado “mãe do rock português” José Cid em parceria com Paulo Bragança. O jovem fadista era uma figura controversa na época: as suas roupas, as junções musicais que fazia ou o (hoje tão comum) facto de cantar descalço chocaram com o meio mais conservador do panorama musical do país. Cid chegou mesmo a criticar publicamente a sua indumentária, afirmando que os risos e comentários que provocou fizeram com que o público se distraísse da canção.

Anos depois, o “anjo caído do fado” – alcunha dada por Fernando Ribeiro – abandona o país e a sua carreira musical. O descontentamento com a indústria e os lobbies que ajudavam a construir/destruir um artista, conjugado com tormentas pessoais, foram as razões que o levaram em busca de um mundo novo. Andou pelo Leste da Europa, por Inglaterra e, finalmente, estabeleceu-se em Dublin a trabalhar como funcionário público. Conheceu o luxo. Chegou, efectivamente, a ser sem-abrigo em Londres, onde foi espancado por ter um cartão melhor para dormir. Na Irlanda, acabou por estudar filosofia e dar aulas. Em 2017, a convite dos Moonspell regressou a Portugal e ao mundo da música, depois de mais de uma década de exílio.

Passados 26 anos, temos no palco do festival outra figura diferenciada. Vestido com um robe preto e com uma máscara dourada na face. A seu lado tem um dançarino em tronco nu, coberto de brilhantes a condizer com a joia facial do cantor que faz uma dança que é um mesclado de vários estilos. Ele canta sobre telemóveis – ou não - no concurso, mas também já dedicou músicas a borregos, à celulite ou à pastelaria. Mistura fado com música dos Balcãs, ritmos africanos, árabes, eletrónicos ou qualquer outro som, às vezes inesperado como um microondas, que se esbarre com ele no dia-a-dia. Tal como António Variações, Paulo Bragança ou qualquer outro que trouxe algo de novo, foi ostracizado. Mas são precisos mais como ele. Não só artistas, mas como pessoas: talentosas, genuínas, singulares e luminosas.

O seu nome artístico provém da série japonesa "Conan, o Rapaz do Futuro", do lendário Hayao Miyazaki, e do deus egípcio. E, talvez, seja mesmo o protótipo de ser humano do futuro que todos procuramos: sermos nós próprios e viver a fazer o que realmente gostamos.

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22
Fev19

Fazer Acontecer


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ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

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Já alguma vez experimentaram dar a vossa opinião numa reunião ou conversa e ninguém parecer ligar? Já se deram conta de que, passado pouco tempo, ouvem alguém a repetir o que vocês disseram, como se a ideia tivesse partido de si e não de vocês, sendo então essa ideia altamente aplaudida? Grrrrrr!!!!!

Já alguma vez se deram conta de que quando estão a expor um conceito ou ideia, outra pessoa vos interrompe, afirmando que explicam melhor, voltando a dissertar sobre o que vocês tinham estado a comunicar e retirando-vos o uso da palavra? Buuuffffff!!! Grrrrrrrr!!!

Já alguma vez experimentaram estar a falar e serem constantemente interrompidas ou interrompidos, sentindo que são sistematicamente ignoradas ou ignorados? Arre!!!! Buuufffff!!! Grrrrrr!!!!!

Já alguma vez saíram de uma reunião, com um sentimento de frustração monumental, sentindo que se estivessem num filme de desenhos animados as vossas orelhas deveriam estar a emitir um fumo explosivo e uns sons estridentes, tipo apito de um comboio? Humpffff!!! @#$#@$%$#!!!

Já alguma vez tiveram vontade de esbofetear alguém no fim de uma reunião ou de um grupo de conversa, mesmo que vocês se considerem pessoas do bem? 💣 💣 💣 ☠ ☠ ☠ 💣 💣 💣!!!!

Bem-vindos e bem-vindas ao mundo diário das pessoas mais tímidas, mas maioritariamente, ao mundo das mulheres. Sei como se sentem. Espero que também vocês percebam como eu me encontro muitas vezes… Se acham que isto vos acontece com alguma regularidade, não desistam de intervir e vejam algumas formas que podem ajudar a ultrapassar estas situações:

- Se forem vocês a conduzir uma reunião, não aceitem que as pessoas sejam interrompidas quando estão a usar da palavra;

- Se estão a usar da palavra e alguém decidir meter a colher, não o permitam. Continuem a falar, falem mais alto, ou interrompam e digam que poderão intervir quando vocês tiverem acabado;

- Preparem as vossas intervenções, evitando usar pausas longas. Alguém vai logo interromper, de certeza. Não lhes dêem essa oportunidade;

- Usem um tom de voz confiante, seguro e audível. Se for preciso treinem em casa, ou gravem com o telemóvel a vossa intervenção de preparação e… critiquem-se sem piedade, tentando perceber como podem melhorar a vossa exposição;

- Se tiverem pessoas na reunião que se sentem também ignoradas, ultrapassadas e forçadas a ouvir os outros, sendo-lhes retirada visibilidade, montem uma estratégia de solidariedade, como as mulheres na Casa Branca de Obama usaram – amplifiquem o que foi dito por um ou uma de vocês. Isto é: combinem antes que, quando alguma das pessoas do vosso grupo apresentar uma ideia, a outra pessoa a usar da palavra reforça o que foi dito, mencionando o nome do autor ou da autora da ideia;

- Não aceitem, de modo nenhum, ser interrompidas ou interrompidos. Façam-no com educação e algum humor, se conseguirem. Caso não consigam, deixem-se de pruridos, usem a assertividade e deem um “Chega p’ra lá!”

- Se queremos que a mudança aconteça, temos de fazer por isso. Tomem consciência da descriminação de que se sentem vítimas e pensem que deve haver outras pessoas a sentir o mesmo. Conversem, troquem ideias, mas não se fiquem pelos lamentos.

Arranjem aliadas e aliados. Façam diminuir a desigualdade e a descriminação todos os dias, em todos os pequenos e grandes momentos.

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07
Fev19

Responsabilidades Parentais e Género: o problema de um sistema judiciário machista


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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A parentalidade e as responsabilidades parentais parecem-me influenciadas por uma cultura machista e patriarcal. A forma como a sociedade encara o papel da mulher, enquanto mãe, e do homem, enquanto pai, é bastante díspar. Os processos de regulação das responsabilidades parentais materializam um rol de estereótipos que têm contribuído para essa realidade, qual bola de neve. A ver: à mãe são dados os sinónimos de colo e ternura, garantia de cuidados e proteção, a que trata da casa e da família; ao pai são apontados os momentos de brincadeira, um maior desapego afetivo e o sustento financeiro.

Foi assim durante imensas décadas; ainda o é hoje, apesar das magníficas mudanças que têm acontecido, nomeadamente no que respeita à distribuição de tarefas domésticas e cuidados com os/as filhos/as, nos casais mais jovens. Acontece que, no âmbito da atribuição das responsabilidades parentais, em processos de divórcio, a criança é praticamente reduzida a um objeto de processo judicial e deixa, nesse momento, de ter direito a uma mãe e a um pai, na sua total amplitude. O “superior interesse da criança”, mormente citado no decorrer destes processos, surge, quanto a mim, como um conceito extremamente vago. A mulher dificilmente atingirá plena igualdade de direitos e oportunidades no trabalho enquanto a ela estiver garantida, de forma quase exclusiva, o cuidar dos filhos. Mais acrescento: tendo em conta a maior debilidade socioeconómica das mulheres numa situação de separação e ficando estas com maior sobrecarga com o sustento das crianças e dependentes do cumprimento das prestações alimentares a cargo dos progenitores, mantem-se o ciclo de subalternização do seu papel na família e na sociedade.

O feminismo em que eu acredito, e pelo qual ativamente batalho, combate pela entrada em condições de igualdade do homem nas tarefas parentais, isto é, a criança tem o mesmo direito a ter mãe e pai, incluindo situações de atribuição de responsabilidades parentais. Em Portugal, num estudo feito por Maria Francisca Cunha (2015), para analisar as razões que levam os/as magistrados/as a definir a guarda das crianças, as hipóteses apresentadas pelo leque de participantes foram as seguintes: “A criança deverá ficar a residir com a mãe e ter fins-de-semana alternados com o pai” (46,9%) e “parecem estar reunidas as condições para se fixar um regime de residência alternada”(53,1%). Repare-se que residir com o pai, com fins-de-semana alternados com a mãe, não foi colocado como hipótese. Em relação à relevância dos critérios para a tomada destas decisões, foi concluído que o critério que teve maior importância foi “cuidados básicos prestados pelos progenitores” (53,1%). No que concerne às questões do género – ser pai e mãe – os/as participantes centraram um maior número de respostas (40,6 %) na opinião “nada relevante”.

São dados interessantes mas que não apontam para uma explicação, então, de ser, quase sempre, a mãe a indicada como a que melhor provém os cuidados básicos à criança. Este estudo também analisou que o sexo dos/as magistrados/as não conduz a diferenças significativas na acuidade atribuída a nenhum dos critérios de tomada de decisão. O estudo aponta, ainda, a algumas crenças que juízes apresentam na justificação da sentença, tais como, “é normal e natural que uma criança com apenas 2 anos de idade tenha uma ligação mais próxima com a mãe do que com o pai, pois é a mãe que ao longo desse tempo, em princípio, lhe tem dispensado mais atenção” e “As mães têm muita dificuldade em cortar o cordão umbilical o que dificulta muito a saída da criança do seu ninho”. Será mesmo assim? Será que mães e pais não terão, se assim for construído desde o nascimento, a mesma ligação com a criança? Será que mães e pais não terão a mesma apetência para garantir os cuidados básicos? E, mais importante que tudo, não deveria ter a criança, em situação de divórcio, já por si avassaladora, a garantia da presença de ambos? Claro que cada caso é um caso – e cada casa é uma casa. Repare-se em duas situações em que as coisas devem ser ponderadas de forma especialmente complexa: quando existe forte e persistente conflito entre os progenitores; e quando foram feitas queixas de violência doméstica e/ou abuso sexual de menores.

Porém, tirando estas duas exceções, dentro das paredes da sala de tribunal as decisões são tomadas de forma realmente apartada das questões de género? O que consigo concluir é que o género resulta da estruturação do funcionamento da sociedade, consequentemente da ideologia dos/as magistrados/as e da forma como interpretam as leis.

Está mais que na hora de se começar a alterar a existência dos estereótipos do pai provedor e da mãe cuidadora. Está mais que na hora de se olhar para a criança enquanto ser individual e não como mero objeto judicial.

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04
Fev19

Dignidade para quem trabalha!


umarmadeira

ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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A emancipação económica das Mulheres nem sempre foi muito bem vista. Muitas, mesmo contra ventos e marés, lutaram e conseguiram. Foi uma grande alegria o seu sonho ter-se tornado realidade. Com o seu trabalho, passam a ser independentes dos seus familiares, mas os trabalhos conseguidos eram mal pagos e com poucos direitos porque, para o capital, o seu objectivo é obter o máximo de lucro. Exploram quem tem apenas a sua força de trabalho para vender.

Foram travadas várias lutas e, aos poucos, foram conseguidos importantes direitos para quem trabalhava. Hoje é visível que, ao longo dos tempos, alguns se têm vindo a perder porque não foram cuidados e regados por quem devia fazê-lo, pois pensavam que os mesmos estavam de pedra e cal. Constata-se que há muitas Mulheres confrontadas nos seus locais de trabalho com dificuldades várias. Os seus direitos não são respeitados, fazendo com que a Igualdade de Género esteja cada vez mais longe de ser uma realidade nas suas vidas.

Quem detém o poder de forma maquiavélica vai colocando pedras na engrenagem. É justo que, para trabalho de valor igual, o salário entre Mulheres e Homens seja igual, porém há uma diferença de 15% menos para Mulheres. Fomos confrontadas com uma estatística que refere que para haver igualdade salarial ainda serão necessários duzentos e poucos anos. Tentam mentalizar as Mulheres, que são a maioria da população, que o objectivo nunca será alcançado, mas como se isso já não fosse um pesadelo, nos últimos meses, temos sido alertadas com várias notícias que estão a ter grandes repercussões na vida de muitas Mulheres trabalhadoras, com o objectivo de ainda as fragilizar mais com o assédio moral em vários locais de trabalho.

Ouvi a trabalhadora de uma empresa de comércio de bebidas e produtos alimentares dizer que tinha contrato de repositora e teve a infelicidade de cometer um erro. Na sequência do mesmo, foram-lhe dirigidas expressões pelo Chefe, tais como: vais fazer as malas e pores-te a andar; podeis fazer as malas; estás despedida, não te quero aqui; não prestas. A trabalhadora ficou muito nervosa e os colegas foram prestar-lhe assistência mas foram impedidos de o fazer. Queriam, apenas, dar-lhe um copo de água. O comportamento do superior hierárquico foi de uma violência enorme. As expressões são fortes e lesivas da sua dignidade. De repositora, mediante contrato, foi obrigada a prestar funções em armazém, passando a estar sujeita a comportamentos agressivos que lhe eram dirigidos, quer pelo chefe do armazém, quer pelo gerente, designadamente gritos, ameaças e perseguições, num ambiente hostil e intimidativo. Tudo isto causou ansiedade, perda de confiança e a maior consequência: um estado depressivo grave.

Ora, o assédio é um comportamento indesejado, baseado em factor de discriminação, praticado aquando o acesso ao emprego ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objectivo ou efeito perturbar ou constranger a pessoa, afectar a sua dignidade, ou lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador. Este gerente que impediu os colegas de darem um copo de água à colega, quando esta se encontrava nervosa, não satisfeito, ainda deu um soco na mesa, criando um ambiente intimidativo e hostil.

A lei hoje é clara, quanto ao dever do empregador, de instaurar procedimento disciplinar sempre que tiver conhecimento de alegadas situações de assédio no trabalho, mas a verdade é que continuam a acontecer casos destes em várias empresas, porque as leis não são cumpridas. Estas empresas devem ser denunciadas. Os chefes e Gerentes que têm estes comportamentos devem ser punidos e as trabalhadoras têm de exigir que os seus direitos sejam respeitados. Só assim a dignidade de quem trabalha pode ser reposta.

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28
Jan19

Cromo-determinismo


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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Segundo a nova ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do Brasil, Damares Alves, iniciou-se uma nova era naquele país de língua oficial portuguesa, uma era em que o menino vestirá azul e a menina vestirá cor-de-rosa. Este cromo-determinismo (escusam de procurar no dicionário) à brasileira é sinónimo do iluminismo democrático em que tendencialmente os vencedores eleitorais se julgam donos da verdade e representantes de Deus na terra e vai daí toca a desbobinar ideias mirificas e incutir os seus respectivos ideais nos seus países condenando os homens, mulheres e crianças às loucuras doentias com que diariamente vivem. Da minha parte, no caso de lá viver, já estaria a fazer contas à vida. Isto porque tenho três camisas cor-de-rosa das quais não gostaria de me desfazer nem ter de as tingir de azul.

Ironias à parte, ainda me lembro de ouvir o Maduro dizer que falou com um passarinho e este lhe disse que era a reencarnação de Hugo Chávez e eu, sendo inocente como sou, acredito cegamente que um povo deve ser liderado por gente desta índole, gente que fala com pássaros, gente que retrocede os avanços na igualdade de género e gente que rejeita as evidências.

Afinal de contas, sejamos pragmáticos, Deus enviou os dez mandamentos pela mão de Moisés e não pela mão de Darwin e isto só me diz que eu devo confiar cegamente nos enviados de Deus e não nos errantes deste mundo cruel e mortal.

Ora, eu sei que Bolsonaro foi enviado dos céus para melhorar o estilo de vida do Brasil e impor a ordem “em nome da moral e dos bons costumes” mas determinar uma criança a uma cor por causa do seu género é retroceder cem anos de avanços e conquistas feministas.

Passámos décadas a tentar erradicar o preconceito em relação ao género para agora nos cair dos céus esta gente que não se sabe bem se já nasceram assim ou se foram modificados geneticamente para se tornarem numa espécie de antimatéria humanística contrariando o sentido da maré. O menino não tem que vestir azul nem tem que ser ensinado a ser bruto como um homo sapiens; a menina não tem que vestir rosa nem tem que ser submetida à vontade do menino.

Como em todo o lado há sempre um saudosista que se recorda dos “bons” velhos tempos em que o género era um determinismo o que só nos deve relembrar que a liberdade nunca é uma garantia mas sim um motivo para continuar a lutar.

Com um eminente triunfo dos porcos à escala mundial protagonizado por Bolsonaros, Damares, Trumps, Maduros, Machados, Le Pens entre outros resta-me esperar que tudo tenha um fim e concluir o meu artigo da mesma forma que Dostoiévski concluiu o seu “Jogador”: “Amanhã, amanhã acabará tudo!”

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