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Feminismos é Igualdade

20
Set21

Sometimes I Might Be Introvert


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Ainda há muitos álbuns que irão ver a luz até ao final do ano que, certamente, serão marcantes, mas acredito piamente que o Sometimes I Might Be Introvert, da britânica de origem nigeriana, Little Simz, figurará em grande parte das listas de melhores discos do ano.

Muito precoce e prolífica, nascida em 1994, estreou-se com a mixtape Stratosphere, em 2010. Desde então, já conta no seu curriculum com 4 mixtapes, 8 EP´s e 4 LP´s. A Curious Tale of Trials + Persons, de 2015, o seu primeiro longa-duração, mostrou que estávamos perante um diamante em bruto. Um ano depois, lança Stillness In Wonderland, um disco conceptual inspirado no clássico Alice In Wonderland, de Lewis Carroll. Simz usa a história infantil de Alice como metáfora para fazer uma viagem de auto-descoberta, utilizando as suas ambições e inseguranças como tinta para pintar este quadro. GREY Area chega em 2019 e seria o seu álbum mais aclamado pela crítica. A diversidade, capacidade de escrita e densidade da obra reuniu consenso de todos os entusiastas da música e colocaram Simz como um dos maiores talentos da sua geração.

Com os holofotes todos apontados a si, Simbi – alcunha pela qual é conhecida e que dá o acrónimo do seu último LP -, regressa com um pontapé na porta. O primeiro single, Introvert, é uma obra-de-arte onde a rapper usa a sua poesia de um jeito interventivo sobre o estado actual do mundo. Segue-se Woman, um tema que escreveu como tributo à sua mãe e a todas as mulheres que a inspiram. É um hino de empoderamento e de celebração do que é ser mulher. Rolling Stone foi o terceiro single, onde vemos a britânica explorar sonoridades. O penúltimo single foi o tema I Love You, I Hate You, que a autora confessou no programa Tiny Desk ter sido o mais complicado de escrever por tê-la obrigado a ir a sítios e a mexer com sentimentos do seu âmago. Quinto e último tema antes do lançamento, Point And Kill, acompanhada pelo nigeriano Obongjayar, onde o afrobeat revolucionário de Fela Kuti e as suas raízes nigerianas, concretamente do grupo étnico ioruba, são celebradas. O tema ganha ainda mais alma no disco, pois tem uma continuação na faixa seguinte, Fear No Man.

 

Little Simz, com este disco, confirma que é uma das artistas contemporâneas mais entusiasmantes. Consegue conciliar uma paleta interminável de sonoridades (desde o rap ao R&B; do afrobeat à neo-soul ou do grime ao funk) a uma sensibilidade poética na sua escrita, que tanto consegue ser vulnerável e auto-reflexiva, como assertiva e corrosiva na forma como aborda problemas da actualidade como o machismo, o racismo ou a política. Sobra-lhe, ainda, tempo para celebrar isto de estar vivo, com todos os seus prós e contras. Como tal, celebremos Simz e todas as “Simz” que se empoderam e têm orgulho nas suas raízes.

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30
Jun21

Migrações involuntárias ou a história da humanidade


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ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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A história das migrações é indissociável da história da humanidade e o seu percurso constitui um manancial de referências que ecoa naquilo que somos e na riqueza pessoal que todos os processos de aculturação foram trazendo para a nossa construção.

Quando começou a luta pela posse de um território através da demarcação de fronteiras? Sabemos que algures durante o processo de sedentarização ela começou a intensificar-se e que o que até ali fora um confronto entre concorrentes pela sobrevivência foi ganhando outros contornos e a ideia da “posse” foi-se instalando, século atrás de século, trazendo consigo o medo da perda dos bens conquistados. Estava lançada assim, irremediavelmente, a semente da discórdia.

A confusão entre o ser e o ter que esta situação provocou, atingiu os povos de tal modo que a velha Europa se arrogou, com a sabedoria que julgava ter, ao direito de possuir outros continentes e subordiná-los à sua vontade e aos seus dogmas, que séculos de luta e outras tantas conquistas não conseguiram apagar completamente.

E assim chegamos ao dia de hoje, em pleno século XXI, com a palavra diferença a provocar ainda muito sofrimento, quando aplicada a outros seres humanos, num momento da nossa história colectiva  em que os direitos universais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade já fazem parte do nosso ADN e, por isso mesmo, nem esses nem outros direitos que desses advêm deviam ser colocados  em causa,

Não podemos mudar a história, é verdade, por isso, hoje temos de nos aceitar como produtos de uma construção milenar. No entanto, essa aceitação não se pode manifestar através de saudsaudosis de um tempo marcado pela conquista desenfreada e pelo imperialismo que destruiu outros seres humanos, retirando-lhes o direito à sua identidade. Aprendamos sim, com o passado, mas para não cometer as mesmas atrocidades, usando para isso todos os meios que hoje temos ao nosso dispor. Assim, talvez possamos, por fim, experimentar uma reconciliação com esse mesmo passado.

Aceitemos que toda a humanidade descende desses migrantes involuntários que um dia procuraram espaços onde se encaixar e talvez assim seja possível respeitar as pessoas que, agora, procuram um espaço onde possam exercer um dos direitos humanos, essa conquistas da modernidade de que nos devemos orgulhar e que temos o dever de defender - o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Todas as sociedades que encontraram no seu seio espaços para albergar as diferenças são sociedades mais felizes e equilibradas.

É urgente destruir as novas ideologias vestidas com as velhas roupagens, que procuram com falácias oportunistas destruir os ideais humanistas e traçar fronteiras não só no espaço mas também na sociedade, pois, quando se começam a implementar desigualdades, esse processo não termina num grupo, numa língua, numa ideologia, numa religião ou numa orientação social. Não pode haver a mínima cedência dos direitos conquistados, em vez disso é urgente inverter a marcha que nos ameaça e caminhar na defesa intransigente de uma sociedade onde o direito à felicidade seja universal e nunca mais nos envergonhemos da nossa condição humana.

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16
Jun21

Mural da História


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ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

 

Hoje venho falar-vos de um livro maravilhoso que se chama “Mural da História”. Foi escrito pela Carolina Caldeira e ilustrado pela Raquel Marques. Faz parte de um projeto que vai envolver pelo menos um muro (daí o nome “mural”), que será intervencionado artisticamente com uma das histórias que fazem parte do livro. Podem pensar que o livro é para crianças. E é. Mas também pode ser lido por pessoas adultas, pois tudo o que ele contém nos ajuda a refletir sobre a importância que as mensagens das “inocentes” histórias infantis passam, bem como sobre o papel que esses contos tiveram e têm nos comportamentos das meninas, das raparigas e das mulheres ao longo de muitas gerações, levando-as a acreditar que para terem sucesso devem esperar passivamente por um príncipe encantado, vivendo para ele e por ele, esquecendo-se delas próprias.

No “Mural da História” podem então ler e pintar novas e divertidas versões de contos infantis bem conhecidos. Já ouviram falar da Rapunzel? Aquela rapariga com longos cabelos arranjados numa looooongaaaa trança, que vivia numa torre à espera de um príncipe que a salvasse? E a Gata Borralheira, conhecem? A Carochinha, aquela que ficava à janela à procura de alguém com quem casar? Lembra-vos alguma história? E que tal a Princesa da ervilha, aquela que era mesmo tão, mas tãããããooooo PRINCESA que sentia uma ervilha na cama, mesmo que por baixo de um monte de colchões?

Pois agora têm a oportunidade de conhecer todas estas personagens femininas, em versão século XXI!!! São meninas que sabem quem são e do que gostam, que lutam contra os seus medos e partem rumo à aventura, para concretizarem os seus sonhos. E de que maneira o fazem! E que atraente é esta leitura, com desenhos lindos prontos a serem coloridos, com textos divertidos, com morais da história empoderadores e com espaço no fim de cada conto para que cada leitora ou leitor escreva ou desenhe o que lhe vai na alma, quando lê estas aventuras e sonhos concretizados.

Os contos de fadas com princesas e príncipes reproduzem a ideia de que as mulheres devem ser submissas, passivas, doces, obedientes, resignadas e humildes. Se forem bonitas têm mais hipóteses de casar com um príncipe encantado que as cuidará e alimentará, garantindo a sua subsistência. Daí terem de viver para a aparência física, usando a máxima “sofrer para ser bela”.

Neste “Mural da História”, Carolina Caldeira e Raquel Marques ajudam-nos a desconstruir estes estereótipos, redefinindo os papéis das mulheres e permitindo uma visão crítica da sociedade e das suas regras, adaptando histórias mágicas e tradicionais à realidade atual, sem eliminar a magia e o sonho. Estamos perante personagens femininas que lidam com o seu contexto, com os seus medos e que lutam pelos seus sonhos, avançando com o que têm à sua volta e tirando o melhor partido da análise que fazem ao seu contexto. Elas têm voz e usam-na para se afirmarem.

Parece-me que se têm crianças podem ler com elas estas histórias, divertirem-se e ajudarem a quebrar o feitiço que, ao longo de séculos, transformou as mulheres em seres pouco inteligentes e pouco poderosos que só conseguiriam encontrar a felicidade através do casamento.

O livro foi editado pela CADMUS, com o apoio da Câmara Municipal do Funchal. Custa 10€. O projeto pode ser consultado aqui: https://www.projetomuraldahistoria.com. No fim do mês, podem ir ver o mural que a Carolina Caldeira e as crianças estão a desenhar na escola do Livramento, no Funchal.

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02
Jun21

Pandemia e desigualdade de género


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ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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Nos últimos meses, algumas Instituições têm abordado em órgãos de comunicação social, vários problemas muito sensíveis que afetam dum modo particular as Mulheres, tais como serem as mais afetadas com o desemprego, na qualidade do emprego, no teletrabalho, na desigualdade salarial, nos baixos salários, com reflexos na baixa natalidade, na conciliação dos direitos da maternidade, na exclusão social.

O drama da escravidão das/os trabalhadoras/es imigrantes, no aumento da pobreza, pessoas que mesmo trabalhando vivem abaixo do limiar da pobreza, no aumento da violência doméstica e, ainda, de várias Mulheres de profissões diversas a assumirem publicamente terem sido assediadas; artistas, advogadas, jornalistas, psicólogas, estudantes, enfermeiras, economistas etc., a contarem o que sofreram e sofrem com o assédio sexual no trabalho, na rua, na noite, na praia, nos transportes, etc.

A Presidente da Comissão Europeia também se sentiu discriminada, aquando da sua deslocação à Turquia, por ser a primeira Presidenta a não ter cadeira para que se pudesse sentar, pois as cadeiras eram só para os homens, tendo ficado chocada.

Não menos verdade, e também visível, é que, com a pandemia, a maioria das famílias perdeu grande parte dos seus rendimentos e mais de metade dos madeirenses admitem dificuldades financeiras, tornando-se claro que os salários em Portugal e na Região são reconhecidamente muito baixos. Estávamos todas e todos com alguma expectativa que da cimeira social a realizar-se em Portugal, face a todo este quadro, saíssem respostas para alguns destes problemas, mas a conclusão que tirei é que foi uma cimeira de meias tintas, num momento Histórico, todos bem-intencionados mas com resultados nulos. Porque a resposta é nada, não há nenhuma medida concreta. O que saiu foi um conjunto de princípios gerais sem poder vinculativo, ficando ao critério de cada país a sua aplicação ou não. Por outro lado, a União Europeia tem vindo a abordar estes problemas, mas sobre a igualdade salarial de género, para que torne obrigatório a adoção de medidas de transparência sobre esta matéria, até aqui as diretivas europeias resultam apenas em recomendações. Nos últimos dados estatísticos tornados públicos, as mulheres ganham menos 14,4% em relação aos homens, mas é nas grandes empresas que mais se sente, ficando a diferença em 26%.

Não menos verdade é que é do conhecimento público que o Comité de Direitos Humanos do Conselho da Europa já concluiu que Portugal tem violado a carta dos direitos sociais da organização por falta de progresso em alcançar a igualdade salarial entre Mulheres e Homens.

Face a tudo isto, é claro que as Mulheres estão mais frágeis perante a pobreza, ocupam ainda uma pequena percentagem de cargos de maior poder, apesar de representarem mais de metade da população, ocupam ainda um número pequeno de assentos nos parlamentos, sofrem mais violência doméstica e ocupam a maior parcela de empregos precários.

É caso para dizer que esta pandemia é como uma guerra oculta contra as mulheres. Se não forem tomadas medidas, a COVID 19 pode apagar uma geração de frágeis avanços em direção à Igualdade de Género, isto porque torna-se visível a desigualdade neste contexto de pandemia.

Como se tudo isto já não bastasse, o aumento da violência doméstica reflete uma realidade alarmante, que com a pandemia se agravou no período do confinamento. É urgente por um fim a este horrível flagelo contra Mulheres e crianças. É fundamental uma mudança, mas só será possível se todas e todos unirmos esforços e atuarmos com determinação para atingirmos a Igualdade e justiça. As ações que forem tomadas determinarão as expectativas, não apenas da atual geração de Mulheres, mas também das gerações futuras.

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29
Mar21

Num Planeta distante


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ARTIGO DE CARINA JASMINS

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Era uma vez um Planeta muito distante, onde as pessoas tinham uma aparência semelhante à nossa, viviam de uma maneira tranquila, formavam uma única sociedade interdependente, com muita diversidade na aparência e na maneira de ser, mas havia uma admiração e um respeito pela individualidade de cada um, consideravam essa diversidade a sua maior riqueza.

Tinham evoluído num respeito profundo pela Natureza e pelo Planeta onde viviam. Era um povo evoluído em consciência e também tecnologicamente e estando em paz com todos, assim como com a luxuriante natureza que os rodeava, decidiram que gostariam de explorar o Universo e conhecer outros planetas, outras culturas, outras maneiras de pensar e de viver. Tinham construído naves com sistemas de navegação que permitiam detetar as “autoestradas” do Universo, que eram túneis espaço-tempo que permitiam atravessar grandes distâncias em pouco tempo, conseguindo, assim, visitar zonas distantes do Universo.

Numa dessas explorações chegaram a um belíssimo Planeta Azul, num distante sistema solar. Este planeta destacava-se no negro do espaço, como uma linda esfera azul brilhante. Admirados com a beleza daquele planeta que lhes fazia lembrar o seu próprio planeta, idealizaram que deveria ser um planeta tranquilo onde imperava a paz.

Sempre que chegavam a um planeta, conseguiam ter acesso à memória desse Planeta, porque para eles os Planetas eram seres vivos que, além da sua própria memória, guardavam também a memória de todos os acontecimentos desde o início. Ao aceder, começaram a ver e a sentir os enormes tumultos, lutas, violência, separação que tinham ocorrido ao longo dos milhares de anos da existência da espécie humana, já que estes eram os habitantes principais e em maioria deste planeta. Era deveras impressionante como a sua parte animal estava tão presente ao longo de tantos milhares de anos, mas pensaram que isso era normal, toda a evolução começa de um nível mais baixo de consciência para o mais elevado.

A surpresa foi quando chegaram aos tempos recentes em que se deparando com uma imensa evolução desde os primórdios da existência, a humanidade ainda mantinha guerras em algumas partes do planeta e a maior parte dos territórios onde não haviam guerras externas mantinham grandes guerras internas, dentro de si próprios, o que levava a pequenas grandes guerras com aqueles que os rodeavam. Admiraram-se por ainda fazerem distinções baseadas na cor da pele, na aparência, e em tantas outras coisas, pensavam como era possível, porque eram todos humanos, iguais na sua matriz, apenas o exterior mudava, mas isso era bom e não conseguiam ver. Os estereótipos e preconceitos ainda imperavam na maioria dos seres humanos deste planeta e com a sua visão evoluída conseguiam ver a ignorância e imaturidade que ainda reinava. A força física era usada para dominar, maltratar, matar aqueles que eram mais frágeis. O poder e a ganância geravam desigualdades, que poderiam ser facilmente combatidas se houvesse mais partilha.

Ficaram chocados com o profundo desrespeito com que tratavam a natureza porque dependiam dela para a sua própria vida.  Olhavam para tudo com espanto e tristeza, falando entre si, refletindo sobre tudo aquilo que tinham visto e sentido.

Neste Planeta, a Humanidade ainda não percebeu que é Uma Unidade, que o tempo de vida é relativamente curto e que deveria ser aproveitado para se elevar, transcendendo os instintos de onde partiu para algo mais elevado que lhes traga alegria genuína, que expanda o amor que está dentro de todos e que encarceram no peito, essa é a sua maior miséria, aquela que gera tanto sofrimento em si e nos outros seres.

Que devem procurar a natureza e serem Um com ela, porque ela faz parte de quem são, viver o pouco tempo que estão neste magnifico planeta contemplando as belezas que os rodeiam: um pássaro a cantar, o voo de uma gaivota sobre o mar, o nascer e o pôr do sol, viver mais esses momentos mágicos que estão à disposição de todos, porquê não aproveitam? Não entendemos. Porque não aproveitam mais para se tratarem bem e se amarem para que possam viver em paz e amar verdadeiramente quem está à sua volta e puderem, assim, trazer uma Paz verdadeira a todo o planeta? O bem de um é o bem de todos, ainda não perceberam que dependem todos uns dos outros, que estão todos juntos nesta grande nave que é o Planeta Terra que os leva a viajar todos os dias pelo universo.

Voltaremos a este Planeta daqui a muitos anos para saberem como estão, temos esperança em vocês humanidade, para que percebam, finalmente, que apesar de serem todos diferentes, essa é a vossa grande riqueza, tal como acontece no nosso lindo Planeta. Somos todos únicos e é quando respeitamos e exercemos a nossa verdadeira essência que trazemos a riqueza e a evolução à nossa volta, porque trazemos o único à realidade.

Formam todos juntos HUMA UNIDADE e que vivam cada dia mais essa realidade, para que juntos, possam um dia viver em harmonia consigo, com os outros e com a Natureza que os rodeia, neste Planeta tão lindo que têm a honra de viver.

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09
Fev21

B de Bissexual


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ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Vou acompanhando as polémicas dos reality shows através das páginas ativistas que sigo. Grande parte passa-me ao lado, mas esta semana o tema foi a bissexualidade de um concorrente do Big Brother Brasil e tomei a iniciativa de perceber melhor o que aconteceu. Para contextualizar, durante uma festa, os concorrentes Lucas e Gilberto beijaram-se, e aquilo que poderia ter sido um espaço de celebração – ao que parece foi o primeiro beijo entre dois homens num programa com tantas audiências, no Brasil – gerou mais um momento de questionamento sobre a sexualidade de um dos participantes. Depois do beijo, Lucas explicou às/aos colegas que é bissexual. Gilberto não teve o mesmo embate porque já havia entrado na casa com a bandeira LGBTI+ bem levantada (ênfase para o G). Lucas foi chamado de oportunista e de não ser realmente bissexual porque nunca o tinha dito antes e, pior, estas reações partiram de concorrentes mulheres, também elas lésbicas e bissexuais. Lucas ainda tentou justificar que não quis contar antes e que também tinha receio da reação da família e dos amigos. A frase dita por ele foi muito sentida: “Eu não vou ser aceite aqui, não vou ser aceite na comunidade, não vou ser aceite pela minha família, nem pelos meus amigos!”. Lucas é rapper, negro e bissexual, uma equação que é diminuída, desvalorizada e desacreditada pelas pessoas, inclusive aquelas que, aparentemente, deveriam acolhê-lo. Esta história terminou com a pedida de Lucas para sair do programa. A discriminação ganhou, mais uma vez.

Lucas é apenas um exemplo de bifobia. Este conceito refere-se à discriminação de pessoas que se identificam como bissexuais, ou seja, que têm atração sexual e/ou afetiva por indivíduos de mais de um género. Se quisermos simplificar muito as coisas, a bissexualidade pode ser entendida como a atração por mulheres e homens e dentro da própria bissexualidade esses níveis de atração podem variar imenso. As pessoas bissexuais estão cunhadas de muitos estereótipos, como serem imorais e instáveis, desleais e traidoras. São tidas como pessoas que não sabem o que querem, que não conseguem manter uma relação fixa ou que não querem assumir a sua verdadeira sexualidade. Spoiler: vocês vão conhecer pessoas bissexuais assim, tal como pessoas hétero, lésbicas, gays e por aí fora – as imperfeições humanas não escolhem géneros nem sexualidades!

No centro da tempestade destas informações, está uma pessoa em conflito consigo mesma. Estive eu, que estranhei quando o meu corpo e o meu coração identificavam as mesmas reações diante de um rapaz ou de uma rapariga. Que me escondi de toda a gente quando me relacionei com uma mulher. Que me encolhi quando, fechada no meu segredo, ouvia palavras de nojo dirigidas a pessoas bissexuais. Estive eu, também numa festa académica, ainda sem entender grande coisa sobre mim, na mesma situação que o Lucas: encurralada por perguntas, por insinuações e pela galhofa trocista, num momento que deveria ter sido, apenas, bonito e meu. Estou eu que, no meu ativismo LGBTI+ (ênfase para o B), ainda tenho que – acham os outros - justificar/esconder/alterar a minha sexualidade já que namoro com um homem.

No centro do preconceito está uma pessoa que só quer viver a sua vida, sem necessidade de expor o que é, de justificar como é e com quem está, que quer ser entendida como uma pessoa completa, de sexualidade completa e que não quer ser erotizada, fetichizada e associada à não monogamia, ao ménage à trois e à infidelidade.

Nós, pessoas bissexuais, queremos que a nossa sexualidade seja compreendida como verdadeira e existente, ao mesmo tempo que as nossas práticas e discursos não sejam marginalizados, silenciados e excluídos.

O B existe e não é de badalhoco/a, bizarro/a ou baralhado/a. É B de Bissexual, de beleza da vida, de bem-querer e de bem-estar connosco e com o mundo.

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02
Fev21

A Liberdade é uma luta constante


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ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Estamos a iniciar o mês de fevereiro de 2021 e mais parece que é uma espécie de prolongamento de 2020. Por mais que deseje diversificar estes textos de opinião, não consigo fugir à pandemia e às consequências sociais e económicas de toda esta situação.

Parece que já vimos este filme, ou que estamos na segunda (ou terceira) temporada da mesma série dramática, na qual todos e todas participamos. Mudam os protagonistas, mas a situação mantém-se semelhante, num enredo onde parece que, com muita tristeza, vira o disco e toca o mesmo.

Na verdade, as sociedades continuam focadas em regressar ao antigo normal, pré-pandemia, sem fazer as mudanças estruturais necessárias a uma transformação global que urge. Observo como se tenta tapar com remendos o que se poderia ter prevenido, houvesse a vontade e ousadia necessárias. Vejo como se tenta, a todo o custo, manter o sistema a funcionar da mesma forma, privilegiando “os grandes” em detrimento dos “pequenos”, onde as grandes fortunas ganham com a pandemia, a classe média empobrece ainda mais, o desemprego e a pobreza disparam, o acesso à informação está cada vez mais condicionado e os flagelos sociais crescem exponencialmente.

Apesar da pandemia afetar todas as pessoas, a história repete-se. São nestas alturas que o melhor e o pior da Humanidade vêm à tona, com mil cores e formas diferentes que ilustram somente a dualidade existente em cada ser humano. Os populismos e neofascismos grassam terreno, com discursos que apelam ao “confinamento mental” das pessoas, fechando portas à diversidade, às liberdades, às escolhas, à interculturalidade e ao que está “lá fora” e é “diferente” do dito “normal”, como que alimentando uma espécie de territorialidade primitiva da nossa espécie.

No entanto, a História já nos tem mostrado, por diversas vezes, que onde há fumo, há fogo. Ou seja, que estes movimentos surgem para chamar a atenção de que o sistema está a fraquejar e as mudanças são urgentes, antes que haja mais retrocessos em direitos fundamentais e ameaças à liberdade e igualdade entre todos os seres humanos – o que já aconteceu em vários países do mundo. Só que, quando se combate o fogo com o fogo, a chama tende a crescer e caminha-se para uma guerra, seja que forma tiver. Isso já aconteceu várias vezes na História da Humanidade… Será que aprendemos a lição?

Mudanças de fundo precisam-se. Propostas concretas, que cheguem a todas as pessoas e que mudem diversos paradigmas que só têm aprofundado, cada vez mais, desigualdades e violências. O sistema global precisa de mudar, para que caminhemos para uma verdadeira sustentabilidade social, económica e ambiental – na prática, não somente em discursos e documentos. Essa mudança começa em cada um/a de nós. Aproveitemos estes tempos para olhar para dentro, para observar a nossa vida, a nossa casa, a nossa família, e tentar perceber de que forma podemos concretizar mudanças para viver num maior equilíbrio com a Terra.

Sei que há quem lute diariamente para sobreviver, e que não tenha qualquer espaço mental ou emocional para pensar em mudanças. Exatamente para permitir que todas as pessoas sejam agentes da transformação na Terra, deveria ser aplicado um Rendimento Básico Universal para permitir que todas e todos, sem exceção, tenham o suficiente para as suas necessidades básicas, sem necessidade de fazer provas burocráticas disto e daquilo. Acabar com o paradigma de aceitar qualquer trabalho com quaisquer condições (muitas vezes, miseráveis) somente para sobreviver. Acabar com as vidas de sacrifício permanente, de décadas de trabalho para depois usufruir reformas miseráveis. Acabar com as desigualdades, e a falta de empoderamento das/os mais desfavorecidas/os. Acabar com os apoios míseros, que muitas vezes nem permitem pagar as contas básicas de água e luz, e substituí-los por este rendimento. Por mais dignidade.

Afinal de contas, o Estado somos nós. O dinheiro que circula diz respeito à contribuição de todas e todos nós. E se somos todos/as um/a só, também somos capazes de trabalhar em conjunto, em prol dum novo mundo, quebrando paradigmas ultrapassados e deixando vislumbrar novos horizontes, onde a liberdade seja uma constante, onde haja respeito por todas as diferenças e origens, onde os talentos e aptidões possam ser desenvolvidos e contribuir para a felicidade e bem-estar de todas e todos, onde possamos deixar brilhar, simplesmente, a nossa luz, de mil e uma cores.

Sei que as mudanças estruturais levam tempo, e não são fáceis. Até lá, comecemos por olhar à nossa volta e valorizar aquelas coisas tão belas e tão simples, que estão mesmo à nossa frente e que raramente “vemos com olhos de ver”. Observemos o céu, a paisagem, escutemos os sons da Natureza e procuremos focar a atenção, sempre que possível, no momento presente e no que nos faz sentir em paz. É aqui que começa a verdadeira transformação da Humanidade. Dentro de cada um/a de nós.

Que a liberdade seja uma constante nas nossas vidas.

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26
Jan21

Segurar quem nos ampara


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ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Todos nós já tivemos um daqueles dias no qual pensamos que não deveríamos ter saído da cama, onde tudo corre surrealmente mal. Acredito que tenha sido isso que os/as trabalhadores/as do sector cultural tenham sentido em 2020. Só que, em vez de um dia aqui e ali, tirando algumas excepções – obviamente -, foram 366 dias. Ainda por cima, foi um ano bissexto, para que houvesse um dia extra de desencantamento com este ofício de existir.

É sabido que uma esmagadora parte dos espectáculos teve que ser cancelada, o que levou a, por exemplo, milhões de despedimentos, ao encerramento de teatros, cinemas ou livrarias. Infelizmente, esta situação acabou por resultar a que muitos desses profissionais ficassem sem condições para se alimentar, ou seja, uma afronta colossal à dignidade humana.

Nos momentos mais complicados da minha vida, além das pessoas que me amparam, a arte teve sempre um papel essencial na manutenção da minha (parca) sanidade mental. É nos filmes, nos discos ou nos livros que encontro um pouco de luz quando o breu teima em me rodear.

No primeiro confinamento, fui mais uma vez salvo pela arte. Agora, que voltamos a ser encarcerados, voltarei, certamente, a socorrer-me nela. Aproveitando a habitual reflecção e as inevitáveis listas com o melhor do ano que nos invadem por esta altura, deixo aqui algumas recomendações daquilo, que para mim, foi o melhor de 2020, com o intuito de tornar estes longos dias mais airosos – alerta pretensiosismo.

Começando pela música, foi praticamente consensual que Fetch the Bolt Cutters, da singular Fiona Apple, foi o disco do ano. Lançado no pico da pandemia, a crueza aliada à beleza da composição, tornou a quarentena de milhões de pessoas por esse mundo fora mais fácil.

Moses Sumney, um dos novos diamantes da música mundial, depois de um maravilhoso Aromanticism, em 2017, conseguiu elevar ainda mais a fasquia com um poético e hipnotizante græ.

Num ano também marcado pelo movimento #BlackLivesMatter, o misterioso grupo britânico SAULT, lançou um poderoso e reivindicativo Untitled (Black Is). O poder do funk, da soul ou do R&B junta-se ao protesto e resulta num álbum denominado mundialmente como a “banda sonora da revolução de 2020”.

Em Março, sem aviso, o lendário Bob Dylan, disponibilizou no seu canal de Youtube, o tema Murder Most Foul, o seu primeiro original desde 2012, onde deambula sobre o assassinato de John F. Kennedy. O tema de 17 minutos seria o single de avanço de Rough and Rowdy Ways, mais uma obra de arte do Nobel.

Run The Jewels, a dupla americana composta por El-P e Killer Mike, voltou com um criativo e assertivo RTJ4, onde mantêm a sua sonoridade característica, conjugada com uma mensagem forte da actualidade, directa e sem soar condescendente.

De uma forma mais sintética, também há que mencionar discos como Set My Heart on Fire Immediately, de Perfume Genius; A Hero's Death dos Fontaines D.C.; It Is What It Is, do Thundercat; What Kinda Music, do Tom Misch & Yussef Dayes; Source, da Nubya Garcia ou Alfredo, de Freddie Gibbs & The Alchemist.

Em Portugal, também tivemos excelentes projectos como o delicioso Kriola, de Dino D'Santiago, que é um hino à diversidade e orgulho negro; o encantador Madrepérola, da Capicua, onde a rapper portuense dá um necessário nocaute ao patriarcado, com o seu jeito aguerrido e poético; Rapazes e Raposas, do singular B Fachada, após o seu hiato; Canções do Pós-Guerra, do Samuel Úria; Eva, pela voz quente e bela de Cristina Branco; o homónimo Lina_Raül Refree, que junta a fadista com o produtor espanhol; Revezo, de Filipe Sambado; Liwoningo da talentosa Selma Uamusse; Uma Palavra Começada por N, do Noiserv; o fresco Meia Riba Kalxa, do Tristany; a doce simbiose de Fado Jazz Ensemble, do pianista Júlio Resende; ou o intemporal Caixa de Ritmos, álbum de instrumentais do poeta urbano Sam The Kid.

No cinema, apesar de uma grande parte dos filmes mais aguardados do ano ter visto as suas estreias adiadas, também tivemos um 2020 com qualidade e variedade, para todos os gostos.

Destaco Nomadland, da cineasta chinesa Chloé Zhao, que nos mostra a vida de uma mulher nómada, interpretado de uma forma brilhante por Frances McDormand – o que é uma redundância -, as dificuldades e prós que este estilo de vida acarreta, sempre presenteados com uma fotografia sublime.

Minari, de Lee Isaac Chung, onde acompanhamos uma família coreana que vai viver para o Arkansas, numa pequena fazenda em busca do sonho americano.

Listen, da portuguesa Ana Rocha De Sousa, é também um dos filmes do ano. Vemos por dentro o drama de uma família de emigrantes portugueses nos subúrbios de Londres, que vê a segurança social querer separar os filhos dos pais. Um valente murro no estômago, que nos deixa com a coração em estilhaços.

Da Dinamarca chega-nos Druk, mais um filme soberbo de Thomas Vinterberg, acompanhado de Mads Mikkelsen, com quem já tinha feito o memorável Jagten. Quatro professores testam a teoria que diz que manter constantemente um certo nível de álcool no sangue traz imensos benefícios à vida das pessoas.

Never Rarely Sometimes Always, da realizadora Eliza Hittman, vivemos de perto o drama de uma adolescente natural de um meio pequeno, que descobre estar grávida e tem que ir para Nova Iorque com a sua prima – também menor – para conseguir abortar. É um retrato dos perigos que uma jovem mulher pode passar.

Destaque, ainda, para I'm Thinking of Ending Thing, do genial Charlie Kaufman; The Trial of the Chicago 7 do reputado Aaron Sorkin, criador de The West Wing; Promising Young Woman da talentosa Emerald Fennell; o tocante Dick Johnson Is Dead, de Kirsten Johnson; o importante Soul, de Pete Docter; ou os documentários Beastie Boys Story, de inovador Spike Jonze e Crip Camp: A Disability Revolution, escrito e co-produzido por Nicole Newnham e James LeBrecht.

Queria deixar mais recomendações de outras áreas culturais, mas creio que já me tenha alongado, portanto ficar-me-ei por aqui. Espero que encontrem algo que possa tornar o vosso confinamento mais agradável.

Enquanto fazia estas listas, ia constatando no quão democrática é a arte, com homens e mulheres, dos quatro cantos do mundo, das mais variadas raças e etnias, expressões de género e orientações sexuais, estão aqui representados/as.

Se a arte tem todo este poder de nos ajudar nestas fases, acho que o mínimo é valorizar os/as seus/suas profissionais com a compra do seu trabalho. Nunca vos pedi nada, portanto, quem puder, não deixe de apoiar quem tem um papel tão importante na nossa sociedade.

P.S. – Juro que não tenho direito a qualquer tipo de comissão.

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14
Dez20

Frappart, Dapena e COVID-19


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO TELO PESTANA

blogue

Nesta época em que vos escrevo tantos são os assuntos que merecem o destaque das minhas palavras pelo que optei por destacar três assuntos: 

No passado dia 2 de Dezembro, a francesa Stéphanie Frappart fez história ao tornar-se na primeira mulher a arbitrar um jogo da Liga dos Campeões de futebol sénior masculino. Alguns amantes do futebol provavelmente nem deram pelo marco histórico e isto deve-se ao simples facto de ter sido apenas mais um jogo da liga milionária dirigido por um árbitro que na instância era uma mulher. Nada mais do que isto. Nos cafés não se discutiu a já tradicional arbitragem, ninguém se indignou, os jogadores respeitaram a juíza, a vida seguiu o seu percurso normal e a caixa de Pandora manteve-se fechada. Com efeito o ferreiro dos Deuses e criador de Pandora, Hefesto, seria hoje um Deus de consciência tranquila. Hoje a mulher consegue se imiscuir e, não raras vezes, suplantar o homem nas tarefas e actividades que deveriam ser de todos. Meu Deus, Hefesto, estais ilibado de todo e qualquer estigma. Haveis criado apenas o igual ao homem, apenas algo mais atraente.

Ainda no desporto, Maradona, deixou o reino dos mortais para cruzar o rio Estige e o mundo chorou a sua partida homenageando-o das mais variadíssimas formas. Bom, “homenageando-o” é na verdade um eufemismo sendo que houve ainda quem quisesse demonstrar repúdio perante alguns dos valores defendidos por Maradona. Paula Dapena, jogadora de futebol da equipa espanhola Viajes Interrías FF recusou-se a prestar homenagem ao Deus do Futebol Diego Armando Maradona sentando-se no chão de costas voltadas enquanto se fazia um minuto de silêncio pelo desaparecimento do vulto desportivo. Quando questionada acerca da atitude, Dapena referiu que “quando se assinalou o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, esses gestos não foram feitos. E se não houve um minuto de silêncio pelas vítimas, não estou disposta a fazê-lo por um agressor". A atleta demonstrou ter mais coragem do que muitos homens ao ter uma voz diferente, mas simultaneamente assertiva perante alguns episódios. Os organismos que gerem o futebol, poderiam aprender algo desta posição e passar a utilizar a sua influencia para erradicar a violência contra as mulheres. Fica a ideia a quem de direito.

Por outro lado temos ainda o COVID-19 nesta época natalícia. Viver o natal em plena pandemia não será apenas um desafio mundano, pode mesmo ser um desafio pela sobrevivência. Com o vírus chegou também a crise e a nossa pérola do Atlântico não é excepção. O turismo abrandou para níveis nunca vistos e o grande motor da economia estancou. Milhares de pessoas precisam de apoio como nunca, e este natal poderá vir a ser pouco feliz para algumas famílias. Temo que os efeitos da pandemia agravem a violência doméstica uma vez que certamente fará aumentar os níveis de stress e a inabilidade em ultrapassar as depressões que se avizinham. Cabe-nos a todos ser vigilantes e ajudar homens, mulheres e crianças nesta época mais negra.

Lembrem-se de passar o natal em segurança, por vós e pelos outros.

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23
Nov20

Menos violência, mais igualdade e paz


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

prevenir

O Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres celebra-se todos os anos no dia 25 de novembro. Esta data existe para alertar todo o mundo para as violências que as mulheres sofrem e propor alternativas políticas, contribuindo, assim, para uma maior igualdade entre mulheres e homens.

É verdade que todos os seres humanos sofrem violência. No entanto, as mulheres são ainda as principais vítimas de violência em todo o mundo, sendo que esta não é somente física; é, também, psicológica, económica, sexual, entre outras. E afeta mulheres de todas as idades, desde bebés e crianças até à terceira idade. A violência é, também, transversal a todos os países. Embora hajam particularidades dos contextos dos países onde as mulheres estão inseridas, a violência não está confinada e atravessa países, regiões e culturas.

A violência de género contra as mulheres trata-se de um problema estrutural, relacionado ao patriarcado e originado pela falta de igualdade de género e oportunidades entre homens e mulheres, assim como pela discriminação persistente a que as mulheres estão sujeitas, desde que nascem.

O ano de 2020 está a ser marcado pela pandemia mundial causada pelo vírus SARS-CoV-2 que ditou regras de confinamento necessárias para travar o vírus, mas perigosas para algumas pessoas. O facto de as famílias permanecerem juntas dentro da mesma casa durante mais tempo, seja devido ao confinamento, ao teletrabalho ou ao desemprego, leva à agudização de situações de violência e à dificuldade acrescida de pedir ajuda. Para além das pessoas adultas, as crianças e as mulheres idosas são, também, muitas vezes, vítimas diretas e/ou indiretas, ainda pouco faladas. Considero que as verdadeiras consequências da pandemia e da crise social e económica, no que diz respeito à violência de género, virão à luz do dia mais para a frente, e carecem de estudos aprofundados – conhecer para intervir.

O combate à violência, no meu prisma, não deverá ser feito principalmente após terem ocorrido situações violentas. A violência tem, infelizmente, raízes profundas na sociedade, e precisa ser desconstruída desde as mais tenras idades. Uma maior aposta na prevenção alargada no tempo e no espaço é a chave para um futuro menos violento, acompanhada por políticas sociais que contribuam para uma sociedade mais igualitária e pacífica, em todos os sentidos.

É fundamental e deveria ser prioritária a educação para a mudança de mentalidades acerca da violência, consciencializando as pessoas, de forma abrangente, para a responsabilidade que têm nas mãos, acerca do mundo e da sociedade onde estão inseridas. Se queremos ver a mudança no mundo, temos também que ser essa mudança, que dar o exemplo.

Uma das prioridades será empoderar as mulheres, desde crianças, e criar redes, onde seja mais fácil para a mulher “descascar e sacudir” o papel de vítima e tomar nas suas mãos as rédeas da vida, sem ter que deixar para trás tudo o que construiu e conquistou, em nome da sua segurança. As políticas têm que ser mais firmes e a justiça tem que ter uma resposta mais adequada e célere.

Quando uma sociedade ainda julga mulheres de “provocarem situações” ou “se porem a jeito” para serem vítimas de abuso sexual, quando a justiça comete erros imperdoáveis, e quando ainda se aponta o dedo e se fazem graves insinuações a mulheres que conseguem chegar ao topo da carreira, então algo precisa mudar. Urgentemente. Em primeiro lugar, na mente e no espírito de cada pessoa. Sim, porque o combate à violência é, também, o de todas e todos nós, e somos os espelhos uns/umas dos/das outros/as.

A violência de género não deixa apenas marcas físicas e psicológicas. A violência de género também mata. De 1 de janeiro a 15 de novembro de 2020, em Portugal, segundo o Observatório das Mulheres Assassinadas da UMAR, foram mortas 16 mulheres em relações de intimidade (atuais, passadas ou pretendidas) e 14 mulheres assassinadas, maioritariamente, por familiares. Diga-se o que se disser, enquanto houver um femicídio, não há igualdade de género.

Aproveito para vos convidar a participar na tertúlia literária que a UMAR Madeira vai realizar amanhã, 24 de novembro, pelas 18h30, através da plataforma Zoom. O tema é “Mulheres que superaram violências”, e desafiamos os/as participantes a partilhar um livro, de qualquer género, que fale sobre uma ou mais mulheres que sofreram violência e deram a volta à sua vida. Inscreva-se através dos e-mails umar.madeira@yahoo.com e umarmadeira@gmail.com.

Tertulia24Novembro

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