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Feminismos é Igualdade

28
Jul20

Yvonne Farrell e Shelley McNamara. Grafton architects


umarmadeira

ARTIGO DE BRUNO MARTINS

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No caos da cidade, um suspiro silencioso feito de integração e significado.

Na arquitetura de hoje, o silencio quase deixou de estar presente. Talvez com a exceção dos espaços religiosos, a arquitetura moderna caracteriza-se pela extravagancia das formas moldadas ao individualismo, edifícios expressivos e pouca contenção. E não digo isto em tom de critica.

Yvonne Farrel, que em conjunto com Shelley McNamara fundou os “Grafton Architects”, dizia numa conferencia que “a arquitetura é a linguagem silenciosa que nos fala”. Em Portugal, a ideia de que os edifícios devem ter um sentimento de pertença ao lugar onde vivem é-nos incutido desde a universidade até à obra. Será o silencio de que nos falam estas arquitetas, um esforço integrador de um edifício na sua envolvente? Ou no ruidoso caos da cidade o silencio pode gritar mais alto?

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Fundado em 1978, os “Grafton Architects” estavam longe dos holofotes mediáticos até terem vencido o prémio Pritzker de 2020. Grande parte da sua obra está localizada no seu país natal, a Irlanda, mas, sobretudo através de concursos foram se afirmando um pouco por todo o mundo.

Sempre curiosas e com profundo respeito à cultura e ao contexto, afirmam-se sobretudo em projetos culturais e académicos, tais como a UTEC, a Universidade de Engenharia e Tecnologia de Lima, no Peru, que lhes trouxe o recente protagonismo.

Em 2012 vencem o Prêmio Leão de Prata da Bienal de Veneza de 2012 no âmbito da exposição “Arquitetura como nova geografia”, e em 2019 recebem a “medal of lifetime achievement in architecture” e a medalha de ouro do RIBA em 2020.

Em 2018 ficam responsáveis pela curadoria da bienal de Veneza, que surge na ressaca da eleição de Donald Trump, do brexit e da deriva conservadora que grassa pelo mundo fora, e no qual pretenderam contrapor o papel da arquitetura de elevar os nossos espíritos, de abrigar os nossos corpos e da ideia da arquitetura para todos enquanto espaço democrático livre, não programado. Porque a arquitetura não é apenas programa, espaço e cidade, é também pensamento, ideologia e vida.

O mais importante reconhecimento aparece finalmente em 2020, onde lhes é atribuído o maior galardão da arquitetura, com a entrega do prestigiado prémio pritzker, que exalta a qualidade do seu trabalho, e particulariza o lado humano dos seus projetos e o sentido de escala e proporção na criação de espaços íntimos em ambientes severos.

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A sua arquitetura é desenhada por mulheres, mas não irão encontrar traços ostensivos de delicadeza. No seu lugar veremos edificações fortes e monolíticas, talvez mesmo construções “musculadas” que não se enquadram em quaisquer estereótipos associados ao feminismo.

A sua abordagem poderosa revela, no entanto, grande compreensão pelos processos de projeto e construção, o que se verifica desde a pequena à grande escala, desde os mais pequenos detalhes até as maiores e mais significativas intervenções.

Com uma forte componente de pesquisa, os seus projetos revelam sempre uma grande compreensão pelo lugar e respeito pelo contexto e cultura onde se inserem. Ao contrario dos anteriores prémios pritzkers (Frank Gehry e Zaha Hadid) que pensam a sua arquitetura como uma afirmação do objeto sobre o território, as Grafton Architects abraçam a singularidade de cada local no desenvolvimento dos seus projetos.

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Numa industria dominada por homens, torna-se ainda mais relevante que as arquitetas Yvonne Farrel e Shelley McNamara sejam a quarta e quinta mulheres a ganhar o premio pritzker, nos seus 41 anos de historia. No entanto é importante referir que desde a Zaha Hadid, em 2004, nestes últimos 17 anos, 5 mulheres venceram este importante reconhecimento. Julgo que, pela criatividade e talento que podemos ver em muitas arquitetas, essa tendência crescente manter-se-á. Ainda bem. Não apenas porque enriquece a arquitetura e as cidades, mas porque estas e outras mulheres mudaram não apenas a forma como pensamos o espaço e a arquitetura, mas também a própria profissão. E bem-haja por essa lufada de ar fresco, porque mudaram para melhor.

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13
Jul20

Mudam-se os tempos... E as vontades?


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

dualidade

O mundo está em ebulição. De um tempo de confinamento, em que a palavra de ordem era “vai ficar tudo bem” e a solidariedade estava na moda, a urgência de voltar ao dito “normal” e a necessidade de manter o sistema tal como estava antes da pandemia, a todo o custo, está a fazer com que assistamos a, cada vez mais, dualidade e extremismos no mundo.

Custa perceber como é que grande parte da Humanidade não aprendeu nada com estes últimos meses. Como ignorou os sinais do planeta e tentou pintar a pandemia ou de cor-de-rosa, ou de negro. Mais uma vez, dois extremos…

As notícias são quase que um diário da pandemia, salientando claramente os países onde a situação está “pior”. Lançar permanentemente o medo para formatar as mentes é o que está na ordem do dia. Ao mesmo tempo, novamente no lado oposto, surge o discurso da retoma económica e do “vai ficar tudo bem” quando não está tudo bem. E passa-se dum extremo para o outro, saltitando e confundindo quem se deixa absorver.

As desigualdades quase que passam ao lado por entre os pingos da chuva de discursos em tempos de COVID-19, mas estão a tornar-se cada vez mais evidentes. Não apenas desigualdades, mas também os tratamentos desiguais em todo este processo.

Há quem tenha que se deslocar diariamente para o trabalho em transportes públicos lotados, sem qualquer segurança. Há quem trabalhe em empresas sem quaisquer condições, mas que não possa abrir a boca porque precisa dum trabalho temporário e altamente precário para sobreviver. Há quem esteja a sofrer com o desemprego ou com a suspensão da sua atividade, e tenha muito pouca proteção social. Há quem seja estigmatizado/a pelo local onde vive. Há quem tenha que se desdobrar em mil e uma funções entre quatro paredes, num espaço minúsculo, onde ter um tempinho para si passou a ser um luxo. Há quem conviva diariamente com a violência e se sinta sem saída. Há quem esteja só. Há quem não tenha o que comer, há quem esteja no fundo do poço, há quem não saiba o que mais fazer para continuar… Enquanto outros/as se queixam de não poder viajar nas férias, ou de não poder assistir a um festival…

Pouco se fala destas situações. Porque o fundamental é falar da pandemia e da retoma económica, sem fazer as mudanças estruturais necessárias para dar o salto evolutivo e se preparar para a próxima fase. Investe-se em “cuidados paliativos” económicos, em vez de apostar na dignidade humana. Exige-se muito a muitas pessoas, e faz-se o oposto. Manipula-se as mentes para se vigiarem umas às outras. Culpabiliza-se o lazer e o fazer o que se gosta. Agarra-se ao exterior, ao viver para fora, fugindo a sete pés do interior. Assiste-se a quem brinca com o vírus, e a quem se isola com medo de tudo. Promove-se a desunião em todo o lado, até dentro de grupos que deveriam ser mais unidos e tolerantes. Cada vez menos se aceitam verdades diferentes, perspetivas diversas e olhares distintos. “Tenham medo, sintam raiva, sejam intolerantes… Mas… vai ficar tudo bem.”

Nesta curva pandémica de dualidade, estamos a caminhar a largos passos para o seu pico. Agarrando-se aos alicerces que sustentam a mesma curva, que são feitos de madeira altamente corroída por térmites. Foge-se da mudança, repete-se os erros e aposta-se na mesma fórmula, vezes e vezes sem conta…

Deseja-se um mundo melhor, mas faz-se exatamente a mesma coisa, dia após dia. Resiste-se à mudança, de dentro para fora... Deseja-se paz, mas promove-se constantemente a guerra, seja ela física, verbal ou escrita. Prega-se tolerância e convivência pacífica, mas pratica-se a intolerância para com quem não pensa ou sente exatamente da mesma forma. Defende-se os direitos humanos, mas na prática pratica-se a desigualdade em muitos campos da sociedade.

Sem coerência entre a palavra e a prática, o mundo não irá mudar para melhor. Sem integração da aprendizagem, tudo irá continuar igual. Os seres humanos são cocriadores da sua realidade, mas quando é que terão a coragem para se libertar da dualidade e do materialismo para criar, realmente, um mundo mais pacífico e igualitário?...

Esperemos por cenas dos próximos capítulos.

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29
Jun20

Como está o Mundo?


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Nas últimas semanas, tenho observado e pensado bastante. O mundo continua a lutar contra a pandemia COVID-19 e se adaptando aos novos dias que virão.

Não consigo deixar de observar as muitas pessoas que tentam ajudar outras. Muito rapidamente vem-me à cabeça os profissionais de saúde que, mesmo exercendo a sua profissão, não deixaram de doar o seu tempo livre para estar na linha da frente e estender a mão a quem mais precisava. Vi pessoas a ajudarem-se umas às outras e tive pessoas que me ajudaram quando temi pela privação da minha liberdade. Vi outras tantas contribuírem com dinheiro para ajudar as mais afetadas pela pandemia e outras mudaram as suas vidas para limitar que o vírus se alastrasse, mesmo que essas mudanças tenham sido inconvenientes para elas mesmas. Por alguns momentos, os Direitos Humanos vieram ao de cima e a pandemia, para muitas pessoas, trouxe o melhor.

Por outro lado, observo e sinto o egoísmo crescer, a pouca empatia que existe desvanecer…. Vejo vários exemplos de pessoas que não parecem estar a contribuir para o bem comum, recusando-se a usar máscaras e até tornando-se violentas quando lhes é pedido para a colocarem. Pessoas que agem como se estivesse tudo bem e nem fazem um esforço para manter o distanciamento, e outras que insistem em não perceber que o mundo, quer queiramos ou não, mudou! E nós temos que mudar também.

É confuso, não conseguir entender o porquê das pessoas se recusarem a fazer, cada uma, a sua parte. Acho que o ser humano, quando nasce, vem com chip e é programado para satisfazer primeiro as suas necessidades e desejos. Mas não podemos continuar a viver numa sociedade egoísta. As pessoas não podem fazer o que quiserem sem ter consideração pelas outras. Uma vida civilizada exige que todas as pessoas considerem os seus interesses e o bem estar uns dos outros.

Não é fácil chamar à razão alguém, dizendo que o correto é o ser humano se preocupar mais com os outros. Obviamente que, para isso acontecer, esse alguém teria que estar ciente e sensível para se colocar no lugar do outro. O problema é que, se já havia falta de empatia, agora noto, ainda mais, pessoas com falta de capacidade de reconhecer, entender, compartilhar os pensamentos e os sentimentos. Existem, cada vez mais, pessoas indiferentes aos problemas dos outros, com pouca compaixão, não dando uma palavra amiga, sendo cada vez mais egoístas com o seu o ego lá em cima e para quem só importa o seu próprio umbigo.

O mundo mais parece uma luta de Wrestling - solidariedade vs egoísmo. Por um lado, a disposição para ajudar os mais próximos, por outro, o Eu em primeiro lugar. Dá que pensar… são duas caraterísticas bem opostas do ser humano.

Assusta-me pensar num mundo povoado por pessoas assim… Se a maioria não aprendeu nada com o que se passou nos últimos meses, como será o futuro? Será que não conseguem realmente entender que estamos todas e todos juntas/aos nisto?

Afinal como está o Mundo?

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23
Jun20

Uma onda opressora…


umarmadeira

ARTIGO DE FÁBIO DINIZ

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Estaremos a regredir, a retroceder? Por vezes, tenho me questionado...

A situação epidemiológica atual nos confinou e, fatalmente, nos colocou diante daquilo que estava esquecido.

Naturalmente, algumas máscaras caíram, ou simplesmente ficamos perante um olhar mais próximo e real daquilo que, antes, já lá estava.

Isso gerou desagrados, trouxe desconfortos vários e uma lista interminável de dúvidas, cifras e tantas outras perguntas sem resposta, a cada dia levantadas.

Observamos alguns governantes, representantes políticos com um discurso torto, autoritário e com o objetivo de castrar as suas populações.

Assistimos de camarote alguns dirigentes de estado a brincar, de forma desastrosa, com um microrganismo que já havia anunciado a sua fatalidade.

Começámos a lidar e a aprender a gerir tanta dor e sofrimento ao redor do mundo.

Enquanto isso, tantos profissionais de saúde e inúmeros colaboradores trabalhavam arduamente para que os nossos produtos, bens e serviços essenciais fossem mantidos.

No entanto, alguns seres que deveriam governar e coordenar as suas comunidades, demonstravam seriamente o seu poder absurdo e fascista.

Sim, aquilo que há alguns meses já haviam deixado claro, estava agora perante o olhar atento do mundo.

Contornar esse fluxo tão insuportável, assustador e opressor passou a ser algo a que, inevitavelmente, tivemos que aprender a sobreviver.

Os recursos, as ferramentas e tudo aquilo que nos é útil passou a ser sagrado, de forma a manter a sanidade equilibrada.

Estamos perante um momento em que lutamos por direitos, por respeito, pela vida…

Assim o é para todas as minorias, as quais ferozmente os ditadores e toda a suprema ignorância surgem com a força primária e primitiva, derrubando e matando o que à frente estiver.

Até quando iremos violar e matar pela identidade de género, pela etnia, pela orientação, por toda e qualquer diferença manifestada? Pela normativa que não é respeitada… Qual é mesmo essa norma, esse dito “normal”? Algum ser humano é igual a outro? Não me parece, basta olharmos ao redor e uns para os outros.

Então, é hora de refletir, e saber o lugar e o papel que cada um de nós tem. Um posicionamento é, e vai continuar a ser, um manifesto, uma atitude que espelha a ideologia individual.

Lembremos também que o coletivo é o grupo, a comunidade, ainda assim, o indivíduo é um e único. Uma minoria não é apenas um… O respeito deve ser igual para ti, para mim, para todos.

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15
Jun20

Lutar contra a invisibilidade do Bem, vencer o mal


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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«Sonhei um dia perseguir a utopia

Trilhar caminhos nunca dantes percorridos

Atingir e semear a alegria»

Conceição Pereira, in A Vida em Movimento

 

Este é o primeiro texto publicado no Blog da UMAR Feminismos é Igualdade que não será lido pela nossa companheira Conceição Pereira, mas é pensando nela que o escrevo, no que ela disse e no que diria destes tempos conturbados em que todas as desigualdades se agudizam. Tempos que ela presenciou e em cuja resolução estava, de certeza, pronta para participar, como sempre esteve ao longo da sua vida, com coragem e determinação.

No dia 24 de abril, num poema publicado no Diário de Notícias, falava da alegria e emoção trazidas pela conquista da liberdade, que só não tocou “os duros de coração”. Também na página do SPM, como homenagem ao 25 de Abril, ficará para sempre o seu maravilhoso contributo para o PROF#fica em casa, no qual, com a magia da sua escrita, homenageia as palavras de Zeca Afonso, Martins Júnior, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília.  Deste texto, escolho o registo da tomada de consciência, pelo povo, dos seus direitos, que foi uma das conquistas da liberdade. Com a emoção que lhe era habitual, recorda que nem as bombas da FLAMA e os ataques dos saudosistas da ditadura fizeram desaparecer essa consciência.

Fala-se na Conceição e pensamos logo na voz dos Invisíveis, na Liberdade, na Justiça, na luta pela Dignidade Humana, em todas as suas vertentes. Uma voz que se erguia pelo povo e para o povo.

O que nos diria a Conceição das últimas manifestações racistas, prova evidente de que, nem mesmo com a ameaça da sua destruição os tais “duros de coração” conseguem encontrar uma forma de viver em igualdade, no respeito pelo outro. Triste prova de que os direitos humanos continuam a ser uma utopia! Até quando?

Mal começou o período de desconfinamento e, ainda com a ameaça de novo{s) confinamento(s), os sentimentos xenófobos e racistas voltam a lançar as suas sementes e abrem caminho a outras violências.

Pelo caminho, outras injustiças se cometem, sem dúvida, e são todas condenáveis. Mas não podemos usar esses efeitos colaterais para o apagamento do sofrimento que dura há séculos. Fingir que partimos todos do mesmo patamar, independentemente da cor da pele, da origem, da religião, da orientação sexual ou da sua aparência física, entre outras diferenças, será perpetuar e validar esses comportamentos discriminatórios a que, eventualmente, nenhum de nós escapará, desde que a sua vida deixe de se enquadrar dentro das «normas» aceites numa determinada organização social, imposta pelos grupos que detêm o poder.

Os mais otimistas viram no isolamento social uma oportunidade para a humanidade repensar a sua atuação no planeta. Os realistas consideraram que a Pandemia não era democrática.

Neste momento, o que se conclui é que o confinamento foi, sem dívida uma necessidade, mas o reverso da medalha é demasiado doloroso para ser ignorado. Não tenhamos dúvidas de que foi e é um terreno fértil para o exacerbamento das desigualdades, das injustiças, da violência e da solidão. São estas feridas, agora mais profundas, que começam a sangrar e que, com urgência, é necessário curar.

A história mostra-nos que as crises são momentos propícios para regimes totalitários, para ondas de pânico que levam a que a domine a lei do mais forte, daqueles que se apresentam como “salvadores”, escolhendo culpar um grupo «incómodo» que será o alvo da perseguição. É isto que começa a acontecer pelo mundo, mesmo na tão aclamada cultura ocidental, e as vítimas estão aí à vista de todos. Se não houver um verdadeiro movimento de todas as forças humanistas, podemos ficar nas mãos destes movimentos populistas, que farão retroceder todas as vitórias pela dignidade humana que foram alcançadas, a conta gotas, nas últimas décadas.

Não podemos esquecer que, ao longo dos tempos, o mal, sempre, contou com a timidez do Bem para vencer.

Não deixaremos que, desta vez, isso aconteça, com a certeza de que a nossa companheira Conceição Pereira continuará presente em todas as nossas lutas.

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27
Abr20

Feminismo na era do confinamento viral


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Estamos a viver um momento extraordinário das nossas vidas. De repente, sem termos aviso prévio, ficamos confinadas/os em isolamento social sem podermos contatar, pessoalmente, familiares e amigos/as e, sobretudo, sem poder sair à rua quando nos apetece, só porque sim.

Este corte de liberdade, aquela liberdade tão primária que é caminhar na rua, ver pessoas, conversar, olhar o mar, as árvores, as flores da primavera, foi-nos cortada tão bruscamente que até parece que estamos a viver um filme de ficção. Não podemos cumprimentar as pessoas de quem gostamos e amamos, com um simples aperto de mão, com um abraço e, muito menos, com beijos. Agora até nos dizem que, quando voltarmos à rua, será com máscara e mantendo distanciamento social de dois metros em relação a cada pessoa, mesmo as mais próximas da nossa família com quem nos queiramos encontrar. Não há cafés nem restaurantes abertos e não sabemos quando vão reabrir, nem em que condições o farão. Não haverá praias abertas até quase o fim do verão. Não há eventos culturais com ajuntamentos de pessoas, não haverá vida para além das nossas casas e das ruas confinadas ao distanciamento social. Que situação tão estranha numa era que devia ser cada vez mais dos afetos. Que poder tem um “microrganismo desconhecido” nesta era da globalização? Que implicações irá ter no futuro das nossas vidas?

Numa situação mais dolorosa encontram-se os/as doentes e internados/as em lares, ou noutras casas de saúde, que nem visitas podem receber. Algumas pessoas morrem, numa imensa solidão, sem perceber porque, de repente, ficaram sem ver os entes mais queridos.

Vivemos uma época que mais parece um filme de terror. E nesta situação, como fica o trabalho feminista da UMAR? Estávamos a iniciar um ano promissor em termos de iniciativas. Fizemos uma importante Assembleia de Associadas em Janeiro que aprovou um plano e orçamento que, neste momento já está desatualizado em alguns aspetos. Estávamos muito entusiasmadas com iniciativas originais que iríamos promover e, de repente, está tudo em stand by.

Lançámos o concurso de Artesanato e Artes Plásticas “Feminismos é Liberdade”, que se mantém com a entrega de prémios em Julho. Esperemos que seja presencialmente. Divulgámos, com muito êxito, os resultados distritais do Estudo Nacional da Violência no Namoro. Fizemos ações nas escolas. Lançamos um livro com a primeira coletânea dos artigos deste blogue que, entretanto, recomeçou a sua atividade no início de abril, já em pleno estado de emergência.

Estávamos a desenvolver o Projeto ART’THEMIS+ nas escolas com muito êxito, onde já estavam a ser preparados os produtos finais que seriam apresentados num seminário em Maio. Mesmo com as dificuldades atuais, esse trabalho vai continuar em outros moldes e os trabalhos serão apresentados noutra altura, assim esperamos.

A feira semanal que organizávamos está suspensa por orientação da edilidade do Funchal, colocando várias das nossas associadas numa situação de grande precariedade pessoal. Já deliberámos alguma ajuda, mas temos plena consciência que a situação é muito difícil para as famílias que dependem da realização das feiras para poderem sobreviver.

Vivemos tempos difíceis que nos colocam desafios incríveis, e ainda estamos a aprender como continuar a trabalhar em prol da igualdade nesta era do vírus invisível, que é a maior das ameaças à humanidade desde a minha existência. Mas as feministas, ao longo da História, nunca desistiram nos momentos mais difíceis, e nós também não o vamos fazer. Até porque velhos problemas se vão agudizar e direitos que estavam assegurados já começam a ficar em causa, como o direito ao trabalho e ao emprego com direitos. Já dizia Simone de Beauvoir ”É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta”.

Ora, é exatamente isso que nos começa a preocupar. Quando o trabalho falta às mulheres, a sua independência fica em causa e, com essa falta de independência, volta tudo atrás na História. Muita coisa vai acontecer, e temos, de certeza, muito trabalho pela frente, até porque na semana passada comemorámos o 25 de Abril, que também significou a liberdade da mulher portuguesa sair de casa e conquistar direitos de cidadania, que nenhum vírus pode colocar em causa.

Podemos ainda continuar confinadas por mais algum tempo, mas não deixaremos de estar atentas a tudo o que se passa à nossa volta. Mesmo com muitas dificuldades, a vida vai continuar e cá estaremos para intervir na defesa dos nossos direitos, a todos os níveis. Tenhamos saúde para isso.

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20
Abr20

Zaha Hadid (1950-2016): O poder transformador da arquiteta na profissão e na arquitetura


umarmadeira

ARTIGO DE BRUNO MARTINS

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Para se compreender Zaha Hadid, é preciso antes entender o estado da arquitetura em 1980, numa altura em que os modelos modernistas que se instalaram definitivamente na segunda metade do século XX eram contestados por uma significativa parte da crítica. Muitos diziam, nessa altura, que o desenho era uma matéria quase decorativa e semiótica, e tudo o que interessava era como o edifício se relacionava com a envolvente, de preferência educadamente e timidamente.

Em contraste, a arquitetura de Zaha Hadid começa a ganhar o interesse da vasta comunidade de arquitetos, com propostas destemidas e ousadas, projetos de puro talento, e em rutura com uma profissão que parecia assustada de si mesmo e da modernidade.

Controversa, as opiniões sobre a importância do seu trabalho dividem-se. Mas foi certamente uma das mais importantes influencias na arquitetura dos últimos 30 anos, e não apenas como mulher. E mudou a dinâmica de poder de uma profissão que precisava desesperadamente de evoluir. Não apenas a profissão, mas a arquitetura também.

*

A convite da UMAR, que muito me honrou, escolho falar desta arquiteta. Em primeiro lugar porque adoro o seu trabalho, mas também porque permaneceu honesta para com as suas próprias convicções, apesar de contar com uma critica muito pouco construtiva, que descrevia os seus projetos como não passiveis de serem construídos. Num mundo onde quem investia em criações experimentais arriscava criticas destrutivas, Zaha Hadid aparece a contestar a “função acima da arte”. Para ela, o edifício deve ser um objeto significante, uma junção entre o programa arquitetónico e uma pintura ou escultura. Defende que os critérios estéticos são uma conquista funcional, e que como Óscar Niemeyer “a arquitetura deve ser primeiramente bela”. Uma luta que travou toda a sua vida e que opôs progresso e evolução ao tradicionalismo.

Gosto muito da arquiteta, mas ainda mais da sua ousadia, de ter acreditado que o significado e poder na arquitetura encontra-se na forma, mais do que o seu papel social ou humanitário. Não se trata de arquitetura, mas de salvar o mundo através da arquitetura. Ou morrer a tentar.

*

Nascida em Bagdade em 1950, Zaha Hadid estuda em Londres, na Architectural Association, onde tem como professor o então muito reputado Rem Koolhass, do qual os portugueses conhecem pela “casa da musica” do Porto. A arquiteta começa assim o seu percurso profissional, mas em 1979 inicia a sua própria prática profissional, investindo nas ideias que a tornaram mais tarde uma referencia incontornável da arquitetura.

Os primeiros anos de profissão trazem muitos projetos conceptuais que nunca foram construídos. Não foi fácil a uma mulher fazer vingar as suas convicções num mundo da construção dominado por homens, onde todo o reconhecimento até então estava reservado a um pedestal exclusivamente masculino.  Vencedora de inúmeros concursos internacionais, ficam assim por concretizar projetos como o “the peak club de Hong Kong” com que inicia a sua carreira, mas também o “Arte e Media Center de Dusseldorf” ou o “Ópera da Baía de Cardiff”.

O reconhecimento viria mais tarde, tendo sido a primeira mulher em 167 anos de historia a vencer a “royal gold medal for architecture”, e dois “Stirling awards”, entre outros. Em 2004 torna-se também a primeira mulher a receber aquele que é conhecido como o “óscar” da arquitetura - o “premio Pritzker”- como reconhecimento da sua obra.

Como mulher e árabe, foi sempre descrita por alguma critica de forma exótica, enfatizando as suas roupas, as suas maneiras, algo inconcebível quando comparada por um Eisenman, ou outros arquitetos. Resistiu sempre à ideia de ser considerada uma mulher na arquitetura, mas antes apenas uma arquiteta. E pareceu sempre indiferente às criticas até à data da sua morte, em 2016.

Para mim, ela é um dos maiores talentos da arquitetura, uma visão original e livre que trouxe outros caminhos para a minha profissão, que mudou a maneira como pensamos e vemos o espaço. Os seus projetos mostram-nos que não há limites para a imaginação, mesmo quando ela tem de obedecer a aspetos funcionais. Através deles encontro uma perspetiva diferente para a arquitetura em relação ao que me foi ensinado, onde o objeto arquitetónico ganha maior significado e expressão, maior beleza e fluidez. Não é assim afinal, este mundo dinâmico em que hoje vivemos?

 

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13
Abr20

Os lutos não reconhecidos de que somos feitas/os


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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A dor de quem fica quando alguém parte é algo extremamente pessoal. O luto é, de facto, vivido de forma bastante solitária. No entanto, é no (a)braço dos/as outros/as que a pessoa enlutada pode encontrar algum conforto. Porém, quantas vezes a sociedade não reconhece alguns lutos como reais? Quantas vezes o luto é um processo ainda mais doloroso quando mascarado de invisibilidade? A isto chamou Doka (1898) de “luto não reconhecido” e acontece, precisamente, quando uma pessoa experimenta uma perda que não pode ser expressa abertamente e não é socialmente suportada. Ilse (1982) referia que “a sociedade mede a dor pelo tamanho do caixão”.

Há lutos censurados internamente. São os lutos de pessoas que sabem da partida de uma ex relação ou de uma ex amizade, de um pai que o/a abandonou ou de uma mãe negligente. São lutos que ninguém entende porque, até se separaram, até brigavam imenso, até nem se podiam ver à frente, até sofreu por causa dele/a, até… até… até… Mas fica a tristeza pelo que foram, um dia, pelo que tiveram, pelo que significavam, pelo que poderiam ter sido. E essa tristeza pela partida do que foi, um dia, mesmo que já não o seja, é legítima, tanto quanto as outras.

Há lutos de maternidades interrompidas na gravidez. O luto gestacional é uma dor sem memórias, porque a mãe e o bebé nem sequer tiveram oportunidade de construir uma história. É um luto vazio, muitas vezes acompanhado pela culpa, num momento que deveria ser de vida e de alegria. A sociedade não entende e carrega a mãe de frases nada empáticas, pois “Deus assim quis” e “Vais logo engravidar outra vez”. O luto é negado e os sonhos são suspensos. E se for a mulher a decidir interromper a gravidez, por qualquer motivo que só a ela diga respeito, é melhor que se cale, que engula as lágrimas, que nem sequer abra a boca. Aqui o luto é ainda mais reprimido.

Há lutos masculinizados. Isto significa que, aos homens, é dado um peso diferente no tamanho do sofrimento e, sobretudo, na demonstração dessa dor. Parece que, por um lado, a sociedade formou os homens para não expressarem os sentimentos. Por outro, é a própria sociedade que não deixa espaço para a existência da vulnerabilidade no homem. O machismo desencoraja o homem a desabafar, a chorar, a desesperar, a falar sobre o que o magoa. A experiência de luto no homem é vista como uma falha na sua masculinidade.

Há o luto pelos animais de estimação. As famílias são, cada vez mais, multiespécie e o animal faz parte da dinâmica e da rotina familiar. A perda de um animal ainda não é reconhecida pela sociedade como algo que nós, seres humanos, cada qual com a sua intensidade, passamos. Perder um animal é sofrer pela perda de uma companhia muito próxima, que não tem ambivalências. Aqueles que não vivem com animais têm uma enorme dificuldade em perceber o sentimento de perda e o sofrimento a ele inerente. A dor é censurada e, com isso, aumenta a sensação de vergonha nas pessoas que perderam o animal e que acabam por sofrer em silêncio.

Há o luto pelas pessoas que nem conhecemos, mas admiramos. Como explicar a tristeza que sentimos quando as notícias dizem que aquela pessoa morreu? Como explicar que doa, que fiquemos abatidas/os e que o dia se torne cinzento? Como fazer a sociedade entender que aquela pessoa, que nunca ouviu falar da nossa existência, tem, no entanto, uma importância em nós? Talvez, o que fica a sobrar dessas mortes é a consciência exata de que todos/as vão, até os “imortais”, e de que um dia serão os nossos e seremos nós.

E há, neste momento, o luto pelo que o nosso mundo foi. Um mundo imperfeito, cheio de pessoas imperfeitas, cheio de erros, mas o NOSSO mundo. Estamos, em sintonia, todas e todos, em casa, a viver o luto pelo que podíamos fazer há um mês, pelo que desperdiçamos, pelo que deixamos passar, pelo que não nos aventuramos a sentir, pelo que dissemos e pelo que não dissemos. Estamos de luto e é bom que estejamos. É bom que repensemos e que soframos a(s) partida(s). Chega de ser a sociedade a impor normas, implícitas ou explícitas, de quando, quem, por quem, onde e de que forma o luto pode acontecer. Até porque, eu acho, haverá forma mais empática que se aproximar do/a outro/a que a morte?

Que este luto seja de renascimento para um mundo melhor. Que este luto seja de reconhecimento de todos os lutos. Que sejamos mais humanos amanhã.

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06
Abr20

Vai ficar tudo bem?...


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Foi-me dada a responsabilidade de ser a primeira pessoa a escrever para o blogue da UMAR Madeira, após um interregno. Não poderia fugir ao tema da pandemia do COVID-19, que atinge toda a humanidade neste momento.

Não me considero uma otimista militante, nem uma pessimista dramática. Ando ali pelo meio… Considero que esta pandemia é uma oportunidade de ouro para a humanidade repensar a sua forma de vida, a sua relação com a Terra e para haver um recomeço geral, que implique a queda de muitos sistemas que já andam a falir há muito, muito tempo. Mas, será que é isso que vai acontecer? Infelizmente, e por mais que deseje que assim seja, duvido.

Neste preciso momento, existem pessoas a sofrer e a morrer, vítimas do vírus. Mas, também, existem muitas mais a sofrer com o isolamento social. Sejam aquelas pessoas idosas que vivem sós, pessoas portadoras de diversas patologias crónicas, pessoas com doenças graves, aquelas famílias que estão a sentir na pele uma bruta redução nos seus rendimentos – ou mesmo, o peso amargo do desemprego –, ou pessoas inseridas em famílias desestruturadas, onde a violência doméstica é uma presença assídua que também ceifa vidas, especialmente de mulheres. Não poderia deixar de falar daquelas pessoas que estão na linha da frente, expondo-se ao perigo: profissionais de saúde, bombeiros/as, funcionários/as de lojas de bens essenciais, os/as que transportam os bens e entregam ao domicílio, etc., etc.. Profissionais estes/as que só são valorizados/as em crises graves como esta. E ainda assim…

As pessoas querem culpados/as. Desejam apontar o dedo a quem foi o/a responsável por tudo isto. Nas redes sociais, assisto a verbalizações de quem exerce, orgulhosamente, xenofobia para apontar o dedo a todo um país, a quem exalta o seu ego e diz que o seu estilo de vida é o melhor e quem tem culpa disto tudo são “os outros”. Etc., etc.. Na verdade, ninguém quer perceber que tudo o que está a acontecer é da responsabilidade de todos os seres humanos. Que invadem todo o planeta. Que esgotam os seus recursos a um ritmo alucinante, como se os mesmos fossem infinitos. Que poluem ar, terra e água, incessantemente. Que estão a ser os responsáveis pela sexta extinção em massa. Que criam um sistema alicerçado num crescimento económico ilusório, no enriquecimento de alguns através do consumismo feroz e imparável de muitos/as, que amplia as desigualdades, que impede que todos/as os/as humanos/as tenham os mesmos direitos, em todo o planeta. Que fazem tudo isto para manter um estilo de vida que não é sustentável, nunca foi.

Enquanto nos queixamos de “estar presos/as em casa”, “aborrecidos/as sem nada para fazer”, e não nos falta nada, pensemos naquelas pessoas que nem sequer têm acesso a água potável. Ou as que não têm capacidade financeira para aceder a um sistema de saúde. Ou a quem lhes falta comida, mesmo sem pandemias. Ou mesmo, um teto para habitar. E grande parte destas pessoas são mulheres e crianças. Acham que as consequências são iguais para todos/as? Por favor, deixemo-nos de queixinhas e reclamações por tudo e por nada. Deixemo-nos de vaidades. Aproveitemos o tempo para, por exemplo, partilhar as tarefas domésticas e estar mais presentes na parentalidade – agora não há desculpas. As escolhas são individuais, é verdade. Mas as consequências, essas, são coletivas. Mais do que nunca, durante esta pandemia.

Na verdade, muitas pessoas têm escolhido olhar e viver para fora, preenchendo a sua vida com coisas, e ocupando com eventos, isto e aquilo, fugindo a sete pés de olhar para dentro de si. Só que, pelo meio, esqueceram-se de… ser. E agora, que o vírus está a obrigar-nos a todos/as a parar e a olhar para dentro… é como se a Natureza estivesse a por o dedo na ferida. Talvez, uma piada de mau gosto, para algumas pessoas. Eu vejo mais como uma oportunidade para a introspeção, para nos conhecermos melhor, a nós próprios/as. Sem mais fugas e artifícios.

Pensando no futuro, vejo muita gente ansiosa para voltar ao “normal” depois de tudo isto passar. Então, vamos fazer tudo igual? Intensificar a atividade industrial (e poluição) para compensar as perdas dos meses de quarentena? Retomar a exploração laboral, com salários baixos? Não aprender nada com crises anteriores e abrir os cordões à bolsa da banca e fundos internacionais, com oferta de créditos e mais créditos – que depois os/as trabalhadores/as e reformados/as vão pagar, uma vez mais, a peso de ouro – e, novamente, alicerçar a vida num sistema falido no ambiente, na sustentabilidade, na economia, nas finanças e nos direitos humanos? Vamos continuar a agarrar-nos a um sistema que, simplesmente, não funciona? Que prioriza o lucro ao sistema de saúde? Que valoriza o ego à essência?...

Ainda tenho esperança que tiremos, enquanto humanidade, lições de tudo o que se está a passar. Que as novas tecnologias estejam acessíveis a todos/as, e evoluam para desenvolvermos novas formas de trabalho, de rendimento – o que já começa a acontecer. Que se encontre uma forma de todas as pessoas terem acesso a um rendimento base, igual para todas, que lhes garanta acesso ao essencial para viver. Que se regresse um pouco às origens, no que diz respeito à agricultura e à produção local, priorizando o que é de cada região e impedindo a massificação. Que o comércio passe a ser verdadeiramente justo, e sustentável. Que se desenvolva rapidamente novos meios de transporte, independentes de combustíveis fósseis ou baterias cuja produção é altamente poluente. Que haja menos competição e mais cooperação. Um mundo com mais respeito por todas as pessoas, sejam elas como forem. Um planeta mais igualitário, onde deixe de haver discriminação das mulheres, e onde nem mais uma sofra e/ou morra vítima de violência doméstica. E poderia continuar com mais e mais ideias… No fundo, que haja, finalmente, um respeito pela Natureza, por Gaia, por todas as pessoas.

É uma utopia, dirão. Reparem como um vírus, que nem é um ser vivo, está a parar o mundo. De repente, as guerras entre povos deixaram de ser importantes. Nunca estivemos tão distantes e tão unidos/as, ao mesmo tempo. Vamos acabar por ultrapassar a pandemia. Mas estejamos cientes que crises como esta irão emergir, uma atrás da outra, se não aprendermos, se não mudarmos profundamente… Enquanto isso não acontecer, não vai ficar tudo bem, e não vamos ficar todos/as bem.

Que cada ser humano faça a sua parte, pensando num todo. Só juntos é que podemos transformar profundamente o mundo em que vivemos num lugar melhor. O único planeta habitável que conhecemos.

 

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23
Dez19

Vamos abrir as portas e janelas para a Igualdade entrar


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Vivemos um ano muito rico em termos da igualdade de género. Muitas instituições, associações, escolas, partidos, e pessoas individualmente, têm demonstrado um interesse maior sobre esta questão tão vital para conseguirmos um mundo mais justo e equilibrado a todos os níveis.

Quando falamos em igualdade, estamos a falar de direitos humanos. Estamos a dizer que, todas as pessoas, independentemente do seu sexo, orientação sexual, credo religioso, partido político, filiação sindical, gosto musical ou teatral, têm direitos iguais.

Há, no entanto, quem ainda pense que isto de direitos iguais, tem muito que se lhe diga, pois o homem é mais forte fisicamente e, logo, há profissões que são "só" deles. Que a mulher é mais frágil e sensível, e há profissões que são "só" delas. Aqui justifica-se muita da discriminação salarial que continua a existir, colocando a maioria das mulheres a ocupar os lugares mais baixos da hierarquia do trabalho. Já não é apenas “a trabalho igual, salário igual”, mas outra coisa discriminatória fundamentada na força física.

Cada vez mais mulheres desmentem esta teoria quando já são motoristas de pesados, pilotam aviões, gerem grandes empesas, são trabalhadoras da estiva, são prémios Nobel nas ciências e nas artes, na literatura, etc, etc,…e ainda continuam a gerar os filhos nos seus ventres, que são os continuadores da humanidade enquanto a terra resistir e existir.

A luta para que o Feminismo seja encarado como o direito a ser igual ainda não é entendida assim. Continuam a existir pessoas que dizem que as mulheres querem ser as dominadoras do mundo, ocupando o lugar que os homens ocupam há séculos. A história ensina-nos que nem sempre foi assim, mas, independentemente dos dados históricos, o que interessa é entender que a nossa luta é para que não sejamos tratadas como seres inferiores e frágeis, que só queremos “miminhos” nos dias assinalados. Sim, também gostamos de mimos, assim como os homens também gostam. Somos seres humanos e, como tal, gostamos de amar e ser amadas/os. Mas gostamos de ter direitos e ser respeitadas com dignidade, em direitos plenos de cidadania.

Infelizmente, não é assim que acontece ainda em muitas situações. Há homens que ainda pensam que a mulher é sua propriedade e que as podem maltratar e até matar como aconteceu este ano, onde foram assassinadas 32 mulheres, sendo uma da Madeira. Nos últimos 15 anos foram 503 as mulheres que foram mortas, sendo 14 da Madeira. São aos milhares as queixas de mulheres que sofrem violência doméstica, com todas as implicações com os filhos que acabam por sofrer, muitas vezes, sem poderem expressar esse sofrimento que vai marcar para sempre as suas vidas.

Há quem ainda falte aos eventos que assinalam estes problemas, dizendo que são secundários e que há outras coisas mais importantes para se preocuparem. Há muita falta de noção que, quando a igualdade está em causa, tudo está errado. Nada pode bater certo. É como tapar o sol com a peneira. Há grupos que se fecham apenas nos seus problemas específicos, pensando que resolvem os mesmos sem participarem na luta mais geral para que o mundo seja realmente equilibrado e justo. Há pessoas que acham que, ao fazer dois ou três eventos por ano, já cumpriram o seu papel e ficam com a consciência tranquila. “Eu já fiz a minha parte, o resto façam elas”…

ELAS, que devem também ser ELES, como podemos ver com a participação de alguns artigos deste blogue, são fundamentais para continuar a lutar por um mundo mais justo, mais igualitário e mais humano. Os homens também podem ser feministas: basta defenderem direitos iguais e serem coerentes na sua prática com essa maneira de pensar.

Mesmo com a existência de muitos problemas, hoje, o respeito por esta causa da igualdade é muito maior. Sem dúvida. Mesmo os meios de comunicação denotam algum interesse que gostaria de realçar e oxalá que prossigam neste caminho. Em todo o mundo vêm-se notícias de mulheres que saltam para as ruas, lutando e cantando, por este mundo sem violações aos direitos humanos e sem violadores de mulheres.

As escolas estão mais abertas ao tema. Muitas crianças e jovens estão a aprender a ser seres humanos de corpo inteiro, justos e alegres. Precisamos de alegria. Precisamos que as artes tratem deste tema. Obrigada a todas e a todos que, este ano, partilharam os seus talentos evocando a causa da igualdade. Foi muito bonito e gratificante ver a exposição de artistas plásticos e as peças no Balcão de Cristal e da OLHO_TE. Precisamos de continuar neste caminho e que venham muita gente a festejar todos os avanços para enfrentar os problemas que ainda faltam resolver.

A luta vai continuar. É um chavão mas é a verdade. Que venham muitas e muitos mais pois precisamos que este mundo onde vivemos seja mais justo e igualitário. Eu acredito que já começa a ser um pouco melhor e será muito mais se continuarmos a abrir as portas e as janelas para que a igualdade entre em todas as casas. Sem violência, com muito mais amor e respeito. Temos muito trabalho pela frente mas isso nunca nos assustou, porque quando as causas são justas, ninguém nos para.

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