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Feminismos é Igualdade

25
Mai20

Obrigada, Maria Velho da Costa


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA NUNES

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Maria Velho da Costa faleceu no dia 23 de maio de 2020. Sendo uma perda enorme para a nossa cultura, para a defesa dos direitos das mulheres, para a leitura lúcida da realidade, dei por mim a pensar que foi uma mulher que soube usar a sua vida na defesa das causas em que acreditava. As armas que escolheu utilizar foram a sua voz ou as palavras que escreveu em textos que vão continuar a ser lidos durante séculos. Lutou sem ceder, mesmo quando isso implicava ser perseguida, presa, ameaçada, torturada. Acho que honrou a vida que recebeu e agradeço-lhe tudo o que fez na defesa da causa das mulheres. Se hoje temos um país com uma Constituição que defende o direito de todas e todos nós à igualdade, também a ela lhe devemos agradecer.

Está ao alcance de cada pessoa usar a vida como entender. Podemos passar por ela, como quem passa pelas gotas da chuva, tentando sempre não se molhar. Podemos lutar por ter uma vida boa, sem olhar aos meios que usamos. Podemos também escolher acionar os nossos talentos para lutarmos pelas ideias em que acreditamos.

Às vezes achamos que só quem está em posições de poder é que poderá fazer a diferença e, de forma comodista, delegamos nessas pessoas o que elas quiserem fazer. Não é verdade! As mudanças só se efetuam se cada uma de nós, se cada um de nós, se levantar e atuar no metro quadrado à sua volta.

Por vezes esquecemo-nos de que toda a gente possui talentos para áreas diversas. E esquecemo-nos também de que cada um desses talentos é fulcral para que consigamos construir um mundo mais justo e feliz. Não há talentos mais importantes do que outros. Todos eles são necessários e uns não existem sem os outros. Estão interligados.

Hoje em dia parece que só o que se vê nas diferentes redes sociais, nos écrans da televisão ou dos cinemas é que tem valor. Contudo, o que será de um líder sem uma equipa por detrás que o suporte, mesmo que na sombra? Como poderá um espetáculo acontecer sem toda uma equipa invisível, mas fundamental? Reconheço que existe quem pretenda ocultar os talentos e o trabalho de muita gente, desvalorizando-o e diminuindo-o. Durante o período de quarentena li a seguinte frase numa rede social: “A economia não está fechada. Toda a gente está a limpar, a cozinhar, a tomar conta dos que nos são queridos. Isso só não é valorizado pelos economistas porque normalmente é trabalho não pago feito por mulheres.” Esta ideia de que a ação de todas as mulheres, apesar de escondida e diminuída, é fundamental para a vida dos países, está muitíssimo bem retratada num dos textos de Maria Velho da Costa, “Mulheres e Revolução”, in Cravo, 1976: “(…) Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para onde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.”

Felizmente há cada vez mais mulheres e homens a dar visibilidade à causa da igualdade. Na Câmara Municipal do Funchal temos levado a cabo esta ação de forma intencional e não queria acabar este meu artigo sem mencionar que a vencedora da edição de 2019 do concurso municipal de vídeo “Caminhando para a Igualdade” foi Georgina Abreu, com o trabalho “Libertação”. Essa jovem portuguesa da Madeira ganhou pouco tempo depois um concurso internacional de fotografia, na Alemanha, para o Dia da Mulher 2020. O seu trabalho foi escolhido entre 35 mil candidaturas de todo o mundo. E ela ganhou o primeiro prémio! É um bom sinal termos jovens que usam os seus talentos para a construção de um mundo melhor. Podem ler a entrevista de Georgina Abreu à EyeEm seguindo esta hiperligação: https://www.eyeem.com/blog/in-conversation-with-our-international-women-s-day-2020-winner-georgina-abreu

Obrigada a todas as pessoas que se importam e não viram a cara para não verem.

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11
Mai20

Marketing e género


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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O marketing é, na sua essência, o processo que visa a compreensão do consumidor no sentido de possibilitar a criação de estratégias que possam promover o produto por via de processos de atração e retenção de possíveis clientes com vista na obtenção de lucros. Assim sendo, as estratégias de marketing, no sentido de potenciar as vendas de determinado produto, criam segmentos populacionais com vista à identificação do público-alvo e consequente exploração do seu nicho de mercado por via de determinadas estratégias que se estudem, e possam na verdade, ser consequentes levando esse mesmo nicho a consumir o seu produto.

Confesso que esta área da utilização da psicologia no sentido de potenciar possíveis vendas e/ou clientes é deveras interessante quando bem aplicada e naturalmente esta questão poderá e deverá significar o acompanhar da evolução humana bem como as tendências da sociedade. Ora, chamo a atenção do leitor para esta última questão: “evolução humana bem como as tendências da sociedade” as quais, em pleno século XXI não deveriam implicar a prossecução e veiculação do estigma de que algumas tarefas apenas dizem respeito à mulher ou ao homem. Naturalmente, do ponto de vista do marketing, a segmentação de produtos para um género ou outro faz sentido quando esses mesmíssimos produtos são elaborados a pensar em determinado género. Por exemplo, os produtos de higiene íntima feminina devem ser publicitados de forma segmentada no sentido de promove-los junto ao publico alvo feminino; por sua vez, determinados produtos de barbear poderiam ser segmentados, ao nível da publicidade, para o público masculino.

Até este ponto, estas questões da segmentação publicitária parecem-me ser pacíficas. O que, quanto a mim, deixa de ser pacífico é quando se potencia um determinado produto que pode e deve ser da responsabilidade e utilização de todas as pessoas, mormente, produtos de higiene para o lar, utensílios de cozinha, produtos de higiene para a roupa, entre muitos outros. Como já tive a oportunidade de descrever anteriormente, vivemos no século XXI, o que deveria significar uma maior abertura de mentalidades no sentido de conceber a ideia de que estes produtos e utensílios não são da responsabilidade exclusiva de homens ou mulheres, porém, e apesar da significativa evolução de mentalidades, persistem ainda alguns mitos que urge desmistificar.

Ainda há relativamente pouco tempo, talvez há 10 ou 15 anos, as publicidades televisivas de produtos de limpeza de roupa contavam com blocos de segundos onde habitualmente, recordo-me, surgiam mulheres a comparar produto X com produto Y, esporadicamente poderiam surgir crianças no sentido de demonstrar que até a sujidade das roupas das crianças seria mais fácil de limpar. Não obstante o anúncio, a responsabilidade da limpeza e principal figura presente no bloco publicitário era sempre a da mulher pelo que se assume que os marketers tinham em mente que esta era uma tarefa quase que exclusiva do público feminino.

Hoje, os tempos mudaram, ou deveriam ter mudado. Recentemente os anúncios de produtos de limpeza de roupa contam com a exploração de uma técnica já demasiado explorada mas que continua a dar os seus frutos. Abandonou-se a ideia de que a mulher seria o centro do bloco publicitário, fazendo-a surgir e discutir a qualidade do produto, o que poderia transmitir a ideia de que se desenraizou o estigma de que a limpeza da roupa, e da casa no geral, seria tarefa da mulher. Infelizmente não é bem esse o seu propósito. A ideia agora é vender, como sempre, o sexo ou sensualismo, promovendo blocos publicitários com homens de aptidões físicas atraentes que promovem a marca de produto de limpeza de roupa mostrando o seu tronco nu. Não pretendo com isto discutir a ideia de vender sexo ou a imagem deste como veículo mas sim questionar o público-alvo que se pretende atingir com este tipo de bloco publicitário? Será que o marketing evoluiu o suficiente no sentido de perceber que tanto homens como mulheres utilizam o produto? Ou será que a descriminação de género também se cristalizou no marketing promovendo outros meios, porém com os mesmos fins em vista? Deixo estas questões à vossa consideração.

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27
Abr20

Feminismo na era do confinamento viral


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Estamos a viver um momento extraordinário das nossas vidas. De repente, sem termos aviso prévio, ficamos confinadas/os em isolamento social sem podermos contatar, pessoalmente, familiares e amigos/as e, sobretudo, sem poder sair à rua quando nos apetece, só porque sim.

Este corte de liberdade, aquela liberdade tão primária que é caminhar na rua, ver pessoas, conversar, olhar o mar, as árvores, as flores da primavera, foi-nos cortada tão bruscamente que até parece que estamos a viver um filme de ficção. Não podemos cumprimentar as pessoas de quem gostamos e amamos, com um simples aperto de mão, com um abraço e, muito menos, com beijos. Agora até nos dizem que, quando voltarmos à rua, será com máscara e mantendo distanciamento social de dois metros em relação a cada pessoa, mesmo as mais próximas da nossa família com quem nos queiramos encontrar. Não há cafés nem restaurantes abertos e não sabemos quando vão reabrir, nem em que condições o farão. Não haverá praias abertas até quase o fim do verão. Não há eventos culturais com ajuntamentos de pessoas, não haverá vida para além das nossas casas e das ruas confinadas ao distanciamento social. Que situação tão estranha numa era que devia ser cada vez mais dos afetos. Que poder tem um “microrganismo desconhecido” nesta era da globalização? Que implicações irá ter no futuro das nossas vidas?

Numa situação mais dolorosa encontram-se os/as doentes e internados/as em lares, ou noutras casas de saúde, que nem visitas podem receber. Algumas pessoas morrem, numa imensa solidão, sem perceber porque, de repente, ficaram sem ver os entes mais queridos.

Vivemos uma época que mais parece um filme de terror. E nesta situação, como fica o trabalho feminista da UMAR? Estávamos a iniciar um ano promissor em termos de iniciativas. Fizemos uma importante Assembleia de Associadas em Janeiro que aprovou um plano e orçamento que, neste momento já está desatualizado em alguns aspetos. Estávamos muito entusiasmadas com iniciativas originais que iríamos promover e, de repente, está tudo em stand by.

Lançámos o concurso de Artesanato e Artes Plásticas “Feminismos é Liberdade”, que se mantém com a entrega de prémios em Julho. Esperemos que seja presencialmente. Divulgámos, com muito êxito, os resultados distritais do Estudo Nacional da Violência no Namoro. Fizemos ações nas escolas. Lançamos um livro com a primeira coletânea dos artigos deste blogue que, entretanto, recomeçou a sua atividade no início de abril, já em pleno estado de emergência.

Estávamos a desenvolver o Projeto ART’THEMIS+ nas escolas com muito êxito, onde já estavam a ser preparados os produtos finais que seriam apresentados num seminário em Maio. Mesmo com as dificuldades atuais, esse trabalho vai continuar em outros moldes e os trabalhos serão apresentados noutra altura, assim esperamos.

A feira semanal que organizávamos está suspensa por orientação da edilidade do Funchal, colocando várias das nossas associadas numa situação de grande precariedade pessoal. Já deliberámos alguma ajuda, mas temos plena consciência que a situação é muito difícil para as famílias que dependem da realização das feiras para poderem sobreviver.

Vivemos tempos difíceis que nos colocam desafios incríveis, e ainda estamos a aprender como continuar a trabalhar em prol da igualdade nesta era do vírus invisível, que é a maior das ameaças à humanidade desde a minha existência. Mas as feministas, ao longo da História, nunca desistiram nos momentos mais difíceis, e nós também não o vamos fazer. Até porque velhos problemas se vão agudizar e direitos que estavam assegurados já começam a ficar em causa, como o direito ao trabalho e ao emprego com direitos. Já dizia Simone de Beauvoir ”É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta”.

Ora, é exatamente isso que nos começa a preocupar. Quando o trabalho falta às mulheres, a sua independência fica em causa e, com essa falta de independência, volta tudo atrás na História. Muita coisa vai acontecer, e temos, de certeza, muito trabalho pela frente, até porque na semana passada comemorámos o 25 de Abril, que também significou a liberdade da mulher portuguesa sair de casa e conquistar direitos de cidadania, que nenhum vírus pode colocar em causa.

Podemos ainda continuar confinadas por mais algum tempo, mas não deixaremos de estar atentas a tudo o que se passa à nossa volta. Mesmo com muitas dificuldades, a vida vai continuar e cá estaremos para intervir na defesa dos nossos direitos, a todos os níveis. Tenhamos saúde para isso.

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20
Abr20

Zaha Hadid (1950-2016): O poder transformador da arquiteta na profissão e na arquitetura


umarmadeira

ARTIGO DE BRUNO MARTINS

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Para se compreender Zaha Hadid, é preciso antes entender o estado da arquitetura em 1980, numa altura em que os modelos modernistas que se instalaram definitivamente na segunda metade do século XX eram contestados por uma significativa parte da crítica. Muitos diziam, nessa altura, que o desenho era uma matéria quase decorativa e semiótica, e tudo o que interessava era como o edifício se relacionava com a envolvente, de preferência educadamente e timidamente.

Em contraste, a arquitetura de Zaha Hadid começa a ganhar o interesse da vasta comunidade de arquitetos, com propostas destemidas e ousadas, projetos de puro talento, e em rutura com uma profissão que parecia assustada de si mesmo e da modernidade.

Controversa, as opiniões sobre a importância do seu trabalho dividem-se. Mas foi certamente uma das mais importantes influencias na arquitetura dos últimos 30 anos, e não apenas como mulher. E mudou a dinâmica de poder de uma profissão que precisava desesperadamente de evoluir. Não apenas a profissão, mas a arquitetura também.

*

A convite da UMAR, que muito me honrou, escolho falar desta arquiteta. Em primeiro lugar porque adoro o seu trabalho, mas também porque permaneceu honesta para com as suas próprias convicções, apesar de contar com uma critica muito pouco construtiva, que descrevia os seus projetos como não passiveis de serem construídos. Num mundo onde quem investia em criações experimentais arriscava criticas destrutivas, Zaha Hadid aparece a contestar a “função acima da arte”. Para ela, o edifício deve ser um objeto significante, uma junção entre o programa arquitetónico e uma pintura ou escultura. Defende que os critérios estéticos são uma conquista funcional, e que como Óscar Niemeyer “a arquitetura deve ser primeiramente bela”. Uma luta que travou toda a sua vida e que opôs progresso e evolução ao tradicionalismo.

Gosto muito da arquiteta, mas ainda mais da sua ousadia, de ter acreditado que o significado e poder na arquitetura encontra-se na forma, mais do que o seu papel social ou humanitário. Não se trata de arquitetura, mas de salvar o mundo através da arquitetura. Ou morrer a tentar.

*

Nascida em Bagdade em 1950, Zaha Hadid estuda em Londres, na Architectural Association, onde tem como professor o então muito reputado Rem Koolhass, do qual os portugueses conhecem pela “casa da musica” do Porto. A arquiteta começa assim o seu percurso profissional, mas em 1979 inicia a sua própria prática profissional, investindo nas ideias que a tornaram mais tarde uma referencia incontornável da arquitetura.

Os primeiros anos de profissão trazem muitos projetos conceptuais que nunca foram construídos. Não foi fácil a uma mulher fazer vingar as suas convicções num mundo da construção dominado por homens, onde todo o reconhecimento até então estava reservado a um pedestal exclusivamente masculino.  Vencedora de inúmeros concursos internacionais, ficam assim por concretizar projetos como o “the peak club de Hong Kong” com que inicia a sua carreira, mas também o “Arte e Media Center de Dusseldorf” ou o “Ópera da Baía de Cardiff”.

O reconhecimento viria mais tarde, tendo sido a primeira mulher em 167 anos de historia a vencer a “royal gold medal for architecture”, e dois “Stirling awards”, entre outros. Em 2004 torna-se também a primeira mulher a receber aquele que é conhecido como o “óscar” da arquitetura - o “premio Pritzker”- como reconhecimento da sua obra.

Como mulher e árabe, foi sempre descrita por alguma critica de forma exótica, enfatizando as suas roupas, as suas maneiras, algo inconcebível quando comparada por um Eisenman, ou outros arquitetos. Resistiu sempre à ideia de ser considerada uma mulher na arquitetura, mas antes apenas uma arquiteta. E pareceu sempre indiferente às criticas até à data da sua morte, em 2016.

Para mim, ela é um dos maiores talentos da arquitetura, uma visão original e livre que trouxe outros caminhos para a minha profissão, que mudou a maneira como pensamos e vemos o espaço. Os seus projetos mostram-nos que não há limites para a imaginação, mesmo quando ela tem de obedecer a aspetos funcionais. Através deles encontro uma perspetiva diferente para a arquitetura em relação ao que me foi ensinado, onde o objeto arquitetónico ganha maior significado e expressão, maior beleza e fluidez. Não é assim afinal, este mundo dinâmico em que hoje vivemos?

 

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13
Abr20

Os lutos não reconhecidos de que somos feitas/os


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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A dor de quem fica quando alguém parte é algo extremamente pessoal. O luto é, de facto, vivido de forma bastante solitária. No entanto, é no (a)braço dos/as outros/as que a pessoa enlutada pode encontrar algum conforto. Porém, quantas vezes a sociedade não reconhece alguns lutos como reais? Quantas vezes o luto é um processo ainda mais doloroso quando mascarado de invisibilidade? A isto chamou Doka (1898) de “luto não reconhecido” e acontece, precisamente, quando uma pessoa experimenta uma perda que não pode ser expressa abertamente e não é socialmente suportada. Ilse (1982) referia que “a sociedade mede a dor pelo tamanho do caixão”.

Há lutos censurados internamente. São os lutos de pessoas que sabem da partida de uma ex relação ou de uma ex amizade, de um pai que o/a abandonou ou de uma mãe negligente. São lutos que ninguém entende porque, até se separaram, até brigavam imenso, até nem se podiam ver à frente, até sofreu por causa dele/a, até… até… até… Mas fica a tristeza pelo que foram, um dia, pelo que tiveram, pelo que significavam, pelo que poderiam ter sido. E essa tristeza pela partida do que foi, um dia, mesmo que já não o seja, é legítima, tanto quanto as outras.

Há lutos de maternidades interrompidas na gravidez. O luto gestacional é uma dor sem memórias, porque a mãe e o bebé nem sequer tiveram oportunidade de construir uma história. É um luto vazio, muitas vezes acompanhado pela culpa, num momento que deveria ser de vida e de alegria. A sociedade não entende e carrega a mãe de frases nada empáticas, pois “Deus assim quis” e “Vais logo engravidar outra vez”. O luto é negado e os sonhos são suspensos. E se for a mulher a decidir interromper a gravidez, por qualquer motivo que só a ela diga respeito, é melhor que se cale, que engula as lágrimas, que nem sequer abra a boca. Aqui o luto é ainda mais reprimido.

Há lutos masculinizados. Isto significa que, aos homens, é dado um peso diferente no tamanho do sofrimento e, sobretudo, na demonstração dessa dor. Parece que, por um lado, a sociedade formou os homens para não expressarem os sentimentos. Por outro, é a própria sociedade que não deixa espaço para a existência da vulnerabilidade no homem. O machismo desencoraja o homem a desabafar, a chorar, a desesperar, a falar sobre o que o magoa. A experiência de luto no homem é vista como uma falha na sua masculinidade.

Há o luto pelos animais de estimação. As famílias são, cada vez mais, multiespécie e o animal faz parte da dinâmica e da rotina familiar. A perda de um animal ainda não é reconhecida pela sociedade como algo que nós, seres humanos, cada qual com a sua intensidade, passamos. Perder um animal é sofrer pela perda de uma companhia muito próxima, que não tem ambivalências. Aqueles que não vivem com animais têm uma enorme dificuldade em perceber o sentimento de perda e o sofrimento a ele inerente. A dor é censurada e, com isso, aumenta a sensação de vergonha nas pessoas que perderam o animal e que acabam por sofrer em silêncio.

Há o luto pelas pessoas que nem conhecemos, mas admiramos. Como explicar a tristeza que sentimos quando as notícias dizem que aquela pessoa morreu? Como explicar que doa, que fiquemos abatidas/os e que o dia se torne cinzento? Como fazer a sociedade entender que aquela pessoa, que nunca ouviu falar da nossa existência, tem, no entanto, uma importância em nós? Talvez, o que fica a sobrar dessas mortes é a consciência exata de que todos/as vão, até os “imortais”, e de que um dia serão os nossos e seremos nós.

E há, neste momento, o luto pelo que o nosso mundo foi. Um mundo imperfeito, cheio de pessoas imperfeitas, cheio de erros, mas o NOSSO mundo. Estamos, em sintonia, todas e todos, em casa, a viver o luto pelo que podíamos fazer há um mês, pelo que desperdiçamos, pelo que deixamos passar, pelo que não nos aventuramos a sentir, pelo que dissemos e pelo que não dissemos. Estamos de luto e é bom que estejamos. É bom que repensemos e que soframos a(s) partida(s). Chega de ser a sociedade a impor normas, implícitas ou explícitas, de quando, quem, por quem, onde e de que forma o luto pode acontecer. Até porque, eu acho, haverá forma mais empática que se aproximar do/a outro/a que a morte?

Que este luto seja de renascimento para um mundo melhor. Que este luto seja de reconhecimento de todos os lutos. Que sejamos mais humanos amanhã.

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06
Abr20

Vai ficar tudo bem?...


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Foi-me dada a responsabilidade de ser a primeira pessoa a escrever para o blogue da UMAR Madeira, após um interregno. Não poderia fugir ao tema da pandemia do COVID-19, que atinge toda a humanidade neste momento.

Não me considero uma otimista militante, nem uma pessimista dramática. Ando ali pelo meio… Considero que esta pandemia é uma oportunidade de ouro para a humanidade repensar a sua forma de vida, a sua relação com a Terra e para haver um recomeço geral, que implique a queda de muitos sistemas que já andam a falir há muito, muito tempo. Mas, será que é isso que vai acontecer? Infelizmente, e por mais que deseje que assim seja, duvido.

Neste preciso momento, existem pessoas a sofrer e a morrer, vítimas do vírus. Mas, também, existem muitas mais a sofrer com o isolamento social. Sejam aquelas pessoas idosas que vivem sós, pessoas portadoras de diversas patologias crónicas, pessoas com doenças graves, aquelas famílias que estão a sentir na pele uma bruta redução nos seus rendimentos – ou mesmo, o peso amargo do desemprego –, ou pessoas inseridas em famílias desestruturadas, onde a violência doméstica é uma presença assídua que também ceifa vidas, especialmente de mulheres. Não poderia deixar de falar daquelas pessoas que estão na linha da frente, expondo-se ao perigo: profissionais de saúde, bombeiros/as, funcionários/as de lojas de bens essenciais, os/as que transportam os bens e entregam ao domicílio, etc., etc.. Profissionais estes/as que só são valorizados/as em crises graves como esta. E ainda assim…

As pessoas querem culpados/as. Desejam apontar o dedo a quem foi o/a responsável por tudo isto. Nas redes sociais, assisto a verbalizações de quem exerce, orgulhosamente, xenofobia para apontar o dedo a todo um país, a quem exalta o seu ego e diz que o seu estilo de vida é o melhor e quem tem culpa disto tudo são “os outros”. Etc., etc.. Na verdade, ninguém quer perceber que tudo o que está a acontecer é da responsabilidade de todos os seres humanos. Que invadem todo o planeta. Que esgotam os seus recursos a um ritmo alucinante, como se os mesmos fossem infinitos. Que poluem ar, terra e água, incessantemente. Que estão a ser os responsáveis pela sexta extinção em massa. Que criam um sistema alicerçado num crescimento económico ilusório, no enriquecimento de alguns através do consumismo feroz e imparável de muitos/as, que amplia as desigualdades, que impede que todos/as os/as humanos/as tenham os mesmos direitos, em todo o planeta. Que fazem tudo isto para manter um estilo de vida que não é sustentável, nunca foi.

Enquanto nos queixamos de “estar presos/as em casa”, “aborrecidos/as sem nada para fazer”, e não nos falta nada, pensemos naquelas pessoas que nem sequer têm acesso a água potável. Ou as que não têm capacidade financeira para aceder a um sistema de saúde. Ou a quem lhes falta comida, mesmo sem pandemias. Ou mesmo, um teto para habitar. E grande parte destas pessoas são mulheres e crianças. Acham que as consequências são iguais para todos/as? Por favor, deixemo-nos de queixinhas e reclamações por tudo e por nada. Deixemo-nos de vaidades. Aproveitemos o tempo para, por exemplo, partilhar as tarefas domésticas e estar mais presentes na parentalidade – agora não há desculpas. As escolhas são individuais, é verdade. Mas as consequências, essas, são coletivas. Mais do que nunca, durante esta pandemia.

Na verdade, muitas pessoas têm escolhido olhar e viver para fora, preenchendo a sua vida com coisas, e ocupando com eventos, isto e aquilo, fugindo a sete pés de olhar para dentro de si. Só que, pelo meio, esqueceram-se de… ser. E agora, que o vírus está a obrigar-nos a todos/as a parar e a olhar para dentro… é como se a Natureza estivesse a por o dedo na ferida. Talvez, uma piada de mau gosto, para algumas pessoas. Eu vejo mais como uma oportunidade para a introspeção, para nos conhecermos melhor, a nós próprios/as. Sem mais fugas e artifícios.

Pensando no futuro, vejo muita gente ansiosa para voltar ao “normal” depois de tudo isto passar. Então, vamos fazer tudo igual? Intensificar a atividade industrial (e poluição) para compensar as perdas dos meses de quarentena? Retomar a exploração laboral, com salários baixos? Não aprender nada com crises anteriores e abrir os cordões à bolsa da banca e fundos internacionais, com oferta de créditos e mais créditos – que depois os/as trabalhadores/as e reformados/as vão pagar, uma vez mais, a peso de ouro – e, novamente, alicerçar a vida num sistema falido no ambiente, na sustentabilidade, na economia, nas finanças e nos direitos humanos? Vamos continuar a agarrar-nos a um sistema que, simplesmente, não funciona? Que prioriza o lucro ao sistema de saúde? Que valoriza o ego à essência?...

Ainda tenho esperança que tiremos, enquanto humanidade, lições de tudo o que se está a passar. Que as novas tecnologias estejam acessíveis a todos/as, e evoluam para desenvolvermos novas formas de trabalho, de rendimento – o que já começa a acontecer. Que se encontre uma forma de todas as pessoas terem acesso a um rendimento base, igual para todas, que lhes garanta acesso ao essencial para viver. Que se regresse um pouco às origens, no que diz respeito à agricultura e à produção local, priorizando o que é de cada região e impedindo a massificação. Que o comércio passe a ser verdadeiramente justo, e sustentável. Que se desenvolva rapidamente novos meios de transporte, independentes de combustíveis fósseis ou baterias cuja produção é altamente poluente. Que haja menos competição e mais cooperação. Um mundo com mais respeito por todas as pessoas, sejam elas como forem. Um planeta mais igualitário, onde deixe de haver discriminação das mulheres, e onde nem mais uma sofra e/ou morra vítima de violência doméstica. E poderia continuar com mais e mais ideias… No fundo, que haja, finalmente, um respeito pela Natureza, por Gaia, por todas as pessoas.

É uma utopia, dirão. Reparem como um vírus, que nem é um ser vivo, está a parar o mundo. De repente, as guerras entre povos deixaram de ser importantes. Nunca estivemos tão distantes e tão unidos/as, ao mesmo tempo. Vamos acabar por ultrapassar a pandemia. Mas estejamos cientes que crises como esta irão emergir, uma atrás da outra, se não aprendermos, se não mudarmos profundamente… Enquanto isso não acontecer, não vai ficar tudo bem, e não vamos ficar todos/as bem.

Que cada ser humano faça a sua parte, pensando num todo. Só juntos é que podemos transformar profundamente o mundo em que vivemos num lugar melhor. O único planeta habitável que conhecemos.

 

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23
Dez19

Vamos abrir as portas e janelas para a Igualdade entrar


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Vivemos um ano muito rico em termos da igualdade de género. Muitas instituições, associações, escolas, partidos, e pessoas individualmente, têm demonstrado um interesse maior sobre esta questão tão vital para conseguirmos um mundo mais justo e equilibrado a todos os níveis.

Quando falamos em igualdade, estamos a falar de direitos humanos. Estamos a dizer que, todas as pessoas, independentemente do seu sexo, orientação sexual, credo religioso, partido político, filiação sindical, gosto musical ou teatral, têm direitos iguais.

Há, no entanto, quem ainda pense que isto de direitos iguais, tem muito que se lhe diga, pois o homem é mais forte fisicamente e, logo, há profissões que são "só" deles. Que a mulher é mais frágil e sensível, e há profissões que são "só" delas. Aqui justifica-se muita da discriminação salarial que continua a existir, colocando a maioria das mulheres a ocupar os lugares mais baixos da hierarquia do trabalho. Já não é apenas “a trabalho igual, salário igual”, mas outra coisa discriminatória fundamentada na força física.

Cada vez mais mulheres desmentem esta teoria quando já são motoristas de pesados, pilotam aviões, gerem grandes empesas, são trabalhadoras da estiva, são prémios Nobel nas ciências e nas artes, na literatura, etc, etc,…e ainda continuam a gerar os filhos nos seus ventres, que são os continuadores da humanidade enquanto a terra resistir e existir.

A luta para que o Feminismo seja encarado como o direito a ser igual ainda não é entendida assim. Continuam a existir pessoas que dizem que as mulheres querem ser as dominadoras do mundo, ocupando o lugar que os homens ocupam há séculos. A história ensina-nos que nem sempre foi assim, mas, independentemente dos dados históricos, o que interessa é entender que a nossa luta é para que não sejamos tratadas como seres inferiores e frágeis, que só queremos “miminhos” nos dias assinalados. Sim, também gostamos de mimos, assim como os homens também gostam. Somos seres humanos e, como tal, gostamos de amar e ser amadas/os. Mas gostamos de ter direitos e ser respeitadas com dignidade, em direitos plenos de cidadania.

Infelizmente, não é assim que acontece ainda em muitas situações. Há homens que ainda pensam que a mulher é sua propriedade e que as podem maltratar e até matar como aconteceu este ano, onde foram assassinadas 32 mulheres, sendo uma da Madeira. Nos últimos 15 anos foram 503 as mulheres que foram mortas, sendo 14 da Madeira. São aos milhares as queixas de mulheres que sofrem violência doméstica, com todas as implicações com os filhos que acabam por sofrer, muitas vezes, sem poderem expressar esse sofrimento que vai marcar para sempre as suas vidas.

Há quem ainda falte aos eventos que assinalam estes problemas, dizendo que são secundários e que há outras coisas mais importantes para se preocuparem. Há muita falta de noção que, quando a igualdade está em causa, tudo está errado. Nada pode bater certo. É como tapar o sol com a peneira. Há grupos que se fecham apenas nos seus problemas específicos, pensando que resolvem os mesmos sem participarem na luta mais geral para que o mundo seja realmente equilibrado e justo. Há pessoas que acham que, ao fazer dois ou três eventos por ano, já cumpriram o seu papel e ficam com a consciência tranquila. “Eu já fiz a minha parte, o resto façam elas”…

ELAS, que devem também ser ELES, como podemos ver com a participação de alguns artigos deste blogue, são fundamentais para continuar a lutar por um mundo mais justo, mais igualitário e mais humano. Os homens também podem ser feministas: basta defenderem direitos iguais e serem coerentes na sua prática com essa maneira de pensar.

Mesmo com a existência de muitos problemas, hoje, o respeito por esta causa da igualdade é muito maior. Sem dúvida. Mesmo os meios de comunicação denotam algum interesse que gostaria de realçar e oxalá que prossigam neste caminho. Em todo o mundo vêm-se notícias de mulheres que saltam para as ruas, lutando e cantando, por este mundo sem violações aos direitos humanos e sem violadores de mulheres.

As escolas estão mais abertas ao tema. Muitas crianças e jovens estão a aprender a ser seres humanos de corpo inteiro, justos e alegres. Precisamos de alegria. Precisamos que as artes tratem deste tema. Obrigada a todas e a todos que, este ano, partilharam os seus talentos evocando a causa da igualdade. Foi muito bonito e gratificante ver a exposição de artistas plásticos e as peças no Balcão de Cristal e da OLHO_TE. Precisamos de continuar neste caminho e que venham muita gente a festejar todos os avanços para enfrentar os problemas que ainda faltam resolver.

A luta vai continuar. É um chavão mas é a verdade. Que venham muitas e muitos mais pois precisamos que este mundo onde vivemos seja mais justo e igualitário. Eu acredito que já começa a ser um pouco melhor e será muito mais se continuarmos a abrir as portas e as janelas para que a igualdade entre em todas as casas. Sem violência, com muito mais amor e respeito. Temos muito trabalho pela frente mas isso nunca nos assustou, porque quando as causas são justas, ninguém nos para.

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07
Dez19

Ele ajuda a mulher em casa. Que coisa tão linda e progressiva!


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO TELO PESTANA

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Nesta época natalícia que se avizinha, quero vos presentear com a descrição sucinta de um artigo muito suis generis que tive a oportunidade de ler a semana passada no website da revista “Visão”, e que dá conta da opinião do psicólogo espanhol Alberto Soler acerca da “ajuda” que o homem deve dar em casa à sua esposa ou companheira no decorrer das responsabilidades parentais.

Segundo a revista, Alberto Soler teria sido surpreendido num supermercado com o comentário de duas senhoras que o elogiavam por tomar conta dos seus dois filhos gémeos de 15 meses prestando assim uma preciosa “ajuda” à esposa, facto este que levou o psicólogo a reflectir e deambular sobre o assunto durante algum tempo e posteriormente escrever no seu blog o seguinte: “Eu não ajudo em casa, eu faço parte da casa. E não, eu não ajudo a minha mulher com as crianças porque não posso ajudar alguém com uma coisa que é da minha inteira responsabilidade.” O comentário foi partilhado milhares de vezes pelos internautas e hoje conta já com diversas variações traduzidas em vários idiomas atingindo repercussão internacional possível através da internet.

Não obstante esta viralidade cibernética julgo existir ainda um longo caminho na desconstrução desta ideia da “ajuda” preciosa que o esposo, namorado ou companheiro pode dar à sua esposa ou companheira uma vez que é também seu dever cumprir com obrigações caseiras, quer isso implique lavar a loiça, cozinhar, engomar, ou cuidar dos filhos. Os filhos não são pertença exclusiva de um ou de outro membro do casal, de maneira que, ambos devem partilhar as responsabilidades que acarreta a educação e o bem-estar dos seus descendentes.

Na verdade, hoje tornou-se moda afirmar que se “ajuda” em casa porque nos fica bem, mas o termo deve ser repensado por forma a desmistificar esta ideia da caridade conjugal como se à mulher pertencesse o mundo doméstico e ao homem tudo o resto, e que apenas pela vontade do próprio poderá oferecer-se uma “mãozinha” se for conveniente. Ajudar em casa não é um cliché, não é uma moda dos tempos modernos. Devemos desconstruir o “ajudar” para nos ajudarmos enquanto sociedade que se regenera e se supera, eliminando este conceito ultrapassado e ingénuo. Sugiro que se reflita futuramente sobre este termo pobremente empregue e que doravante se aplique a expressão: “Ele contribui nos seus deveres”!

Wouldn't that be a sight!?

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23
Nov19

Violência sobre as mulheres: A sociedade está errada!


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Na próxima segunda-feira, dia 25 de novembro, assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, e em um país onde mais da metade da população é constituída por mulheres, será que somos só nós, feministas, que reconhecem a nossa sociedade como errada?

Ora vejamos: se todos os anos continuamos a evocar este dia e a homenagear as dezenas de mulheres assassinadas, a sociedade está errada e estamos a falhar.

O ano de 2019 está manchado por uma onda de sangue: 28 mulheres foram assassinadas. É esta a triste realidade do nosso país. Entre 2004 e 2019, 531 mulheres perderam a vida às mãos de assassinos.

A verdade é que a violência doméstica é um problema grave que afeta mais mulheres do que as estatísticas revelam. As vítimas não são simples números, são mulheres que não têm a proteção devida das leis existentes. Temos urgentemente que acabar com esta violência que atinge as mulheres dentro da própria casa.

A sociedade está errada quando silencia os gritos que ouve, a sociedade está errada quando diz que entre marido e mulher ninguém mete a colher “porque os problemas são deles, eles que resolvam”. Não! O problema não é deles, é nosso, é de todos e todas, e metam sim a colher! A violência doméstica é um crime público e a sociedade está errada quando ignora e não denuncia.

A sociedade está errada quando desculpa a violência doméstica com o desemprego, com o alcoolismo, com a toxicodependência, com problemas mentais, com o ciúme, entre muitas outras justificações que se vão ouvindo aqui e acolá.

Que forma de ignorância é esta? A violência não é exclusiva de certas classes sociais, a violência é transversal a qualquer classe e a qualquer idade! Que sociedade é esta, que insiste em inferiorizar as mulheres? Que sociedade é esta, que permite que uma mulher seja agredida e insultada? O que acontece com as queixas que são feitas? Que modelo social pretendemos, quando o agressor é levado a julgamento e o juiz atenua a pena, ou na maioria das vezes nada acontece e é a vítima que tem de fugir apenas com a roupa do corpo? Ou, por exemplo, quando um juiz cita a Bíblia para desvalorizar as vítimas de alegada violência doméstica, e quando um juiz afirma que "uma simples ofensa à integridade física, está longe de poder considerar-se uma conduta maltratante suscetível de configurar violência doméstica", aqui percebemos o quanto ainda há por fazer, aqui percebemos o quanto a nossa sociedade está errada.

A sociedade está errada, quando não é capaz de entender que as mulheres têm os mesmos direitos, que podem decidir sobre o seu corpo, que podem lutar por uma vida sem medos. A sociedade está errada, quando não aceita o empoderamento das mulheres.

É urgente a mudança de mentalidades, é urgente lembrar a cada instante o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Enquanto este artigo não passar do papel à prática, continuaremos a viver numa sociedade machista, numa sociedade errada.

Enquanto a lei não for praticada pelos tribunais, continuaremos a ter vítimas silenciosas nesta sociedade errada que olha para o lado, insensível à dura realidade de mulheres magoadas e sem ajuda.

A sociedade precisa aceitar que temos um grave problema em mãos e que precisamos de agir. E não é depois, é já!

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