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Feminismos é Igualdade

05
Out20

BASTA!


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

Veio a público que um professor de Direito Penal, Francisco Aguilar, que leciona conteúdos de mestrado na Faculdade de Direito de Lisboa, defende que as mulheres são “pessoas desonestas, espertas e canalhas”. Num artigo seu, publicado na revista de Direito Civil da mesma faculdade, pasme-se!!!, escreveu que "Mesmo a resistência a leste começará a cair, se o mais criminoso regime da história - o feminismo político - não for derrubado e os seus responsáveis, as feministas, não forem julgados pelos seus crimes contra a ideia de Deus e do direito como justiça da espécie” (JN de 30 de setembro). Para além de muitas outras pérolas, compara o feminismo ao nazismo, fala na “miopia moral da fêmea” e no “assalto feminista ao Estado”. De acordo com a sua linha de pensamento, o sexo masculino é “biologicamente privilegiado por Deus” e as mulheres têm-lhe um ódio genético.

De realçar que uma das disciplinas onde leciona conceitos deste género é de caráter obrigatório.

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Sabemos que a Constituição da República Portuguesa (CRP), no seu artigo 13º, afirma “Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei”. Sabemos igualmente que a CRP tem de ser cumprida por todas as entidades e em todas as esferas. Contudo, nesta escola pública, de Direito, parece que este documento fundamental da nossa democracia não é para ser levado a sério dentro das suas paredes. Talvez assim se comecem a perceber muitas decisões “estranhas” que saem das sentenças de tribunais portugueses…

Dias depois de se conhecer este caso, veio a público que o Ministério da Defesa pretendia promover a implementação de uma linguagem inclusiva nos diferentes ramos das Forças Armadas Portuguesas, contribuindo para a eliminação de perceções estereotipadas. Nessa diretiva sugeriam-se coisas tão básicas e simples como usar a expressão “a pessoa interessada” em vez de “o interessado”; “a classe política” em vez de “os políticos”; “a coordenação”, em vez de “o coordenador”; “direitos humanos”, em vez de “direitos do Homem”, etc. Fiquei muito orgulhosa desta medida política. Contudo, dias depois, li no Expresso que “o presidente do Conselho Nacional da Associação de Oficiais das Forças Armadas arrasou a diretiva, que descreveu como “baboseira”, e garantiu tratar-se de uma “provocação” aos militares, admitindo ainda uma “manifestação ruidosa”. Veio logo o Ministro da Defesa a terreiro, anulando a referida diretiva, alegando que era só um documento de trabalho e que não tinha sido validado superiormente…

Sabemos que quem sempre foi privilegiado, quando se sente limitado naquilo que considera como seus direitos intocáveis, vai sentir a igualdade como uma forma de opressão. É isso que Francisco Aguilar e muitos oficiais das Forças Armadas estão a sentir. E estrebucham.

Por isso é tão importante que cada um e cada uma de nós denuncie e não silencie a injustiça, a desigualdade, o reacionarismo. É preciso levantar a voz, defender sem medo os valores da igualdade, para construirmos um mundo mais justo e mais livre, onde as pessoas possam viver sem violência e com respeito.

Agradeço a todas as pessoas que sempre usaram os meios ao seu alcance para fazerem essa sensibilização e defenderem as suas ideias. Agradeço à juíza do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, Ruth Bader Ginsburg, que morreu aos 87 anos no passado dia 18 de setembro de 2020. Foi uma lutadora e defensora dos Direitos das Mulheres. Foi uma feminista. Nunca desistiu, nem se calou perante a desigualdade. Uma mulher notável a quem todos e todas nós temos de agradecer o empenho e a resiliência.

Agradeço também ao Quino, autor da contestária Mafalda, que faleceu também em setembro deste ano, no dia 30, com 88 anos. Com muito humor, inteligência e educação este homem usou o seu talento para alertar para todas estas questões tão atuais.

Tal como a Mafalda, hoje apetece-me gritar “BASTA!”

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28
Set20

A paridade versus o mérito


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

paridade

O caminho faz-se caminhando, dizia o maior de todos os poetas, Fernando Pessoa, e em boa verdade a inclusão e igualdade faz-se também caminhando em trilhos de pequenas conquistas, como é o caso da paridade entre homens e mulheres para listas para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para as autarquias locais, bem como para Governos Regionais.

A lei orgânica nº 3/2006 obriga a que todas as listas assegurem uma representatividade de 33% de cada um dos sexos em todas as listas para o poder político o que representa, a meu ver, uma forma de se corrigirem erros do passado. Alguns erros persistiam desde a fundação da democracia ateniense a qual permitia a participação activa de todos os cidadãos. À primeira vista não há nada de errado com esta última afirmação não fosse o facto do conceito de cidadão ser uma espécie de primeiro estágio em relação ao conceito de cidadão dos tempos modernos. Acontece que o ateniense para ter direito ao estatuto de cidadão tinha de ser filho homem de pai e mãe atenienses, maior de 19 anos e possuidor de terras. Isto implicaria que alguns membros da sociedade Ática não tivessem acesso ao estatuto de cidadão como é o caso dos escravos, dos estrangeiros e das mulheres.

O caminho fez-se caminhando durante este espaço temporal de cerca de 2500 anos desde a criação da democracia até aos nossos tempos e hoje talvez se possa respirar de alívio porque o conceito de cidadão vive num estágio mais avançado e evoluído, porém as vitórias apenas serão conquistas enquanto persistir a capacidade de vigilância activa e permanente dos nossos direitos. Para que hoje as mulheres pudessem ter direitos, outras sofreram e pereceram. Muitas são mulheres sem rosto, sem nome, sem família, enfim sem história, que apenas ousaram desafiar o patriarcado e as leis dos homens, e hoje importa recordá-las como as figuras que deram origem e alimentaram a máquina que nos fez caminhar até aos direitos de hoje mantendo a vigilância activa e permanente, uma vez que haverá sempre quem pretenda, consciente ou inconscientemente, um regresso ao passado.

As questões paritárias são aqueles não assuntos que tendem a ser discutidos com muita pomposidade e galanteio por parte daqueles que as desejam ver eliminadas enquanto legislação. Tudo isto com o argumento, também válido, de que o mérito deveria ser ponto de partida para a realização de listas para os órgãos de poder. Na verdade, qualquer sociedade deveria validar aqueles que pelo seu mérito são eleitos para nos governar mas este argumento não invalida que a paridade seja objecto de legislação pois pede-se ao estado que seja agente de vigilância activa e permanente para que não se perpetuem no tempo os erros ou lacunas do passado. Se se levar em consideração que as listas para órgãos de poder político exigem apenas que em cada sequência de três candidatos, pelo menos um deve ser do sexo oposto, não se está a definir que se invalide o mérito de todos os potenciais candidatos mas sim a regulamentar que todas as listas devem ter candidatos de ambos os sexos e a isto poder-se-á considerar vigilância activa e permanente nos direitos universais entre homens e mulheres. Se levarmos em consideração uma lista de onze candidatos para uma determinada autarquia, e se cumprir somente o mínimo exigido pela legislação, estamos perante um cenário onde oito candidatos poderão ser homens e apenas três deverão ser mulheres. Digam-me, nestas oito vagas não há espaço para o mérito? Caso entendam que não, estamos perante um outro assunto que não o da paridade.

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21
Set20

Retrocessos…


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Em breve, assim espero, ouviremos falar da Era Pós-Pandemia. Estamos em plena transição, inaugurando uma Nova Era mas, enquanto não completamos essa transição, façamos uma reflexão. Desde o início do ano, temos vindo a verificar alguns pontos de rutura, imensas alterações climáticas, a pandemia Covid-19, movimentos antirracistas um pouco por todo o mundo e a falta de uma liderança mundial com capacidade para avaliar situações de risco, que comprometem vidas e os direitos humanos.

Esta pandemia provocou um reset mundial em que, pela primeira vez na história, família, educação e trabalho passaram a acontecer de forma simultânea e no mesmo lugar, dentro de casa... Mas nem todo o cenário é bonito.

Sabemos que a igualdade é fruto de lutas por direitos, mas o que muitos desconhecem é que existem muitas formas de desigualdade, umas às claras e outras disfarçadas com hipocrisia. Ultimamente, o que mais tenho assistido é a pandemia servir de justificação para tudo. Já chega de taparem o sol com a peneira, muitos dos problemas já existiam aos olhos da sociedade hipócrita em que vivemos. Ora vejamos, esta pandemia só veio agravar as desigualdades existentes e revelar, uma vez mais, mas agora com mais intensidade, as deficiências nos sistemas sociais, políticos, económicos e ambientais. Não há respostas para tudo e a ajuda não chega a todos e todas. É preocupante a perda de milhões de postos de trabalho pelas mulheres, sobre as quais também recai a falta de partilha das tarefas de cuidar das crianças e dos idosos. É angustiante saber que a pandemia e as medidas de confinamento provocaram um aumento de casos de violência doméstica. Fico aterrorizada só de pensar que muitas mulheres e crianças ficaram à mercê dos agressores que ficaram em casa por causa da quarentena, com todos os riscos e perigos que essa presença em clima de tensão acrescida podia gerar. “Mais do que nunca, é preciso haver tolerância zero à violência doméstica”, escreveram os embaixadores dos 124 Estados-membros da ONU – portanto, mãos à obra e coloquem em prática. Lembro também os mais esquecidos, as pessoas sem abrigo, pois quem não tem habitação, quem não tem acesso a água e energia é mais vulnerável à contaminação e não tem como defender-se. Brevemente, mais propriamente daqui a um ano, lembrar-se-ão delas e imaginem lá porquê?

Há umas semanas via, incrédula, no telejornal que, em África, havia um aumento da fome e perda de vidas humanas, com mulheres a morrer em trabalho de parto por não conseguirem ter acesso ao hospital. Nos campos de refugiados, são muitos os dramas que por lá se vive – já existiam antes da crise sanitária é verdade, mas agora, aumentaram. O que temos sabido sobre estes seres humanos tão frágeis e vulneráveis, em particular sobre as mulheres e crianças refugiadas? Há respostas? Há soluções?

O novo coronavírus impôs-nos muitos desafios. Um vírus que apesar de não olhar a geografias, na verdade não atinge todos os países e povos da mesma maneira. 

Precisamos de inverter todas as desigualdades que esta pandemia nos trouxe. Na verdade, não foi a pandemia e sim o ser humano que estava à espera de um pé em falso para que estas desigualdades viessem ao de cima. Precisamos de acabar com a desigualdade entre homens e mulheres que, em momentos de crise, provoca sempre inaceitáveis recuos nos direitos das mulheres, sem esquecer que estas crises são uma ameaça à proteção dos direitos das crianças.

Se a recuperação mundial for apenas focada na eficiência e no lucro a curto prazo, sem um olhar cuidadoso para a inclusão, corremos o risco de perder décadas de avanço na igualdade, o que seria péssimo para todos e todas.

Estão, assim, a surgir novos perigos, face a este novo padrão para o qual todos e todas devemos estar atentos e atentas. Que as pessoas tenham consciência: está à porta uma 2ª vaga, não ignoremos os gritos silenciosos. Os direitos humanos não podem ficar de quarentena, há que os defender diariamente.

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14
Set20

Desemprego no Feminino


umarmadeira

ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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Durante esta pandemia, há palavras que de tanto se ouvir ficaram na mente, tais como: pobreza, desemprego, violência, assédio e desigualdade salarial. A situação que vivemos é problemática e a perspectiva para continuar a dar passos em frente não é fácil, com o crescer do desemprego e a perda de autonomia financeira. O não se poder dar resposta a questões básicas leva ao crescimento da pobreza que acaba por ter um forte impacto na saúde mental, em particular das mulheres, ficando com maiores vulnerabilidades psicológicas que podem ser fatais.

Por força da tradição, em cada 10 trabalhadores que estiveram na linha da frente neste período da pandemia, nove eram mulheres, fosse no sector social, hospitais, lares ou limpezas etc., por isso é mais do que justo ser reconhecido que as mulheres estiveram na frente do combate. Embora a sua maioria aufira o salário mínimo, aflige-me saber que lhes seja exigido que não abandonem o barco, sendo que o seu trabalho é pesado e de risco, exige proximidade e contacto físico com utentes e clientes, sem que estejam muitas vezes em segurança. Aliado a tudo isso, o tempo de descanso é, não raras as vezes, comprometido e sem a devida e justa compensação e sem que sejam asseguradas as suas condições.

 Era de esperar que as entidades fiscalizadoras estivessem capacitadas para actuarem em casos de violência e assédio, mas a maioria deles não é levada a sério, colocando em risco a saúde psicológica e física de quem trabalha. Repare-se que, além de se tratarem de práticas proibidas e inaceitáveis para a dignidade humana, não se reconhece os efeitos da violência no mundo do trabalho, nem o alcançar da igualdade salarial entre homens e mulheres, sendo público que a diferença salarial entre mulheres e homens era de 14,4%, mas nas grandes empresas ronda os 26%. Não é por acaso que o Comité de Direitos Humanos do Conselho da Europa já concluiu que Portugal tem violado a Carta de Direitos Sociais da organização por falta de progresso em alcançar igualdade salarial entre mulheres e homens. As leis asseguram a transparência e permitem comparações sociais, só que na prática, isso não se reflecte na vida dos/as trabalhadores/as.

Por isso, é mais do que justo, pelo que atrás é dito, que seja reforçada a protecção social dos/as trabalhadores/as, porque dois terços dos desempregados ficam de fora do subsídio de desemprego, há muitas pessoas a trabalhar e que não têm nenhum apoio, nem social nem de desemprego, e as mulheres estão sempre na linha da frente.

 A pandemia fez com que se atrasassem direitos específicos e se agravasse a desigualdade de género, uma vez que as práticas tradicionais se baseiam, quase sempre, na ideia de que o bem-estar dos homens é mais importante do que o bem-estar das mulheres e, por isso, o financiamento para as suas especificidades é normalmente sempre escasso e as necessidades com a pandemia ainda veio atrasar mais. É sabido que as crises afectam sempre mais as mulheres, pois estão mais expostas ao risco, são discriminadas no acesso à saúde, etc. O custo mais elevado é a dignidade destas mulheres e a violação dos direitos humanos.

É visível que esta pandemia veio por a nu as várias discriminações que já existiam, se pensarmos nas mulheres idosas, nas portadoras de deficiência e nas taxas de doenças cancerígenas que afectam as mulheres mais velhas, estas deixaram de ser prioridade para os governos com todas as suas consequências.

 Os/as trabalhadores/as vão perdendo, assim, cada vez mais emprego, direitos e rendimentos, pois a crise económica e social aprofunda as vulnerabilidades, a desorganização e a quebra de actividade. O coronavírus parece que serve para ocultar tudo isso.

O insuficiente e frágil crescimento da economia, assim como o seu distorcido desenvolvimento, baseado em baixos salários e na exploração de quem trabalha com qualificações mais elevadas, obrigou muitos/as a saírem do país à procura de melhores rendimentos. O teletrabalho foi utilizado para instalar o medo entre os trabalhadores/as, para os/as isolar e fragilizar e levá-los/las a aceitar a destruição de direitos. E as/os trabalhadores/as que hoje mais perdem e continuam a perder são os/as de menor escolaridade.

A luta por emprego com direitos e melhores salários tem de continuar, pois só assim será possível sairmos desta situação, por muito que custe.

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07
Set20

Avanço ou retrocesso?


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Este ano de 2020 está a colocar desafios novos em todos os sentidos. Ou em nome da pandemia que percorre o mundo, devido a um vírus para o qual não foi encontrada a cura, se aceita retroceder nas liberdades, direitos e garantias, das e dos cidadãos ou, então, levantamos a cabeça, arregaçamos as mangas e não deixamos que isso aconteça.

Eu opto sempre pelo caminho de agir e não deixar de trabalhar naquilo em que acreditamos. Se achamos que o mundo continua desigual no que toca aos direitos das mulheres e de todas as pessoas que se sentem discriminadas ou marginalizadas por serem diferentes, quer seja na cor, orientação sexual, deficiência, etc., temos que continuar o nosso trabalho.

Não pode ser como era antes da pandemia; então, encontremos as novas formas de comunicar com a sociedade, mas vamos à luta que já se faz tarde. Não deixemos que este problema sanitário nos retire os recursos para fazermos o nosso trabalho na prevenção de todas as formas de violência e discriminação contra as mulheres e todos os seres humanos. Continuemos a exigir que o tema da importância da igualdade de género não saia das agendas de quem tem o poder nas mãos, porque são eles que também têm os recursos para apoiar quem trabalha nesta área.

Neste momento, a Região não tem nenhum plano aprovado contra a violência doméstica. O anterior já caducou com o governo que antecedeu. No entanto, os casos aumentam e, agora, de forma mais sorrateira, vão surgindo notícias de espancamentos de mulheres, de entradas nas urgências sem nunca mencionar o termo violência doméstica. Noticiam: “Uma mulher foi brutalmente agredida”; “Uma mulher foi às urgências com vários ferimentos na cara e no corpo”, etc., nunca mencionando o que causou essa situação. Fica nos segredos das quatro portas, para dentro, para onde estão e voltam a estar as mulheres.

Não há pandemia que possa parar o que tem que ser feito. Tenho ouvido muitas reivindicações, mas ainda não ouvi quem fale na necessidade de não baixar a guarda sobre este grave flagelo. Os Governos, Central e Regional, têm que colocar na agenda a prevenção e a ação contra a violência, como uma prioridade muito importante da sociedade. As Associações que trabalham nesta área não podem ficar despidas de recursos, porque o seu trabalho é uma ajuda fundamental para a efetivação dos direitos humanos que, se saiba, não foram suspensos devido à pandemia.

O trabalho voluntário das Associações tem limites, em vários sentidos. Os recursos humanos estão mais limitados, sobretudo das pessoas consideradas de risco, e há trabalho que tem que ser mesmo remunerado porque toda a gente precisa de ter recursos financeiros para viver.

Todo o trabalho na defesa dos direitos humanos devia ser considerado um investimento primordial dos orçamentos governamentais e devia ser distribuído por quem faz um verdadeiro trabalho para que a sociedade se torne mais tolerante, respeitadora, em que todos os seres humanos possam ser felizes e iguais. Alguns/umas continuam a dizer que isto é uma utopia, mas eu acredito piamente nela e agarro-me a ela para continuar a lutar por um mundo melhor e mais justo.

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28
Jul20

Yvonne Farrell e Shelley McNamara. Grafton architects


umarmadeira

ARTIGO DE BRUNO MARTINS

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No caos da cidade, um suspiro silencioso feito de integração e significado.

Na arquitetura de hoje, o silencio quase deixou de estar presente. Talvez com a exceção dos espaços religiosos, a arquitetura moderna caracteriza-se pela extravagancia das formas moldadas ao individualismo, edifícios expressivos e pouca contenção. E não digo isto em tom de critica.

Yvonne Farrel, que em conjunto com Shelley McNamara fundou os “Grafton Architects”, dizia numa conferencia que “a arquitetura é a linguagem silenciosa que nos fala”. Em Portugal, a ideia de que os edifícios devem ter um sentimento de pertença ao lugar onde vivem é-nos incutido desde a universidade até à obra. Será o silencio de que nos falam estas arquitetas, um esforço integrador de um edifício na sua envolvente? Ou no ruidoso caos da cidade o silencio pode gritar mais alto?

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Fundado em 1978, os “Grafton Architects” estavam longe dos holofotes mediáticos até terem vencido o prémio Pritzker de 2020. Grande parte da sua obra está localizada no seu país natal, a Irlanda, mas, sobretudo através de concursos foram se afirmando um pouco por todo o mundo.

Sempre curiosas e com profundo respeito à cultura e ao contexto, afirmam-se sobretudo em projetos culturais e académicos, tais como a UTEC, a Universidade de Engenharia e Tecnologia de Lima, no Peru, que lhes trouxe o recente protagonismo.

Em 2012 vencem o Prêmio Leão de Prata da Bienal de Veneza de 2012 no âmbito da exposição “Arquitetura como nova geografia”, e em 2019 recebem a “medal of lifetime achievement in architecture” e a medalha de ouro do RIBA em 2020.

Em 2018 ficam responsáveis pela curadoria da bienal de Veneza, que surge na ressaca da eleição de Donald Trump, do brexit e da deriva conservadora que grassa pelo mundo fora, e no qual pretenderam contrapor o papel da arquitetura de elevar os nossos espíritos, de abrigar os nossos corpos e da ideia da arquitetura para todos enquanto espaço democrático livre, não programado. Porque a arquitetura não é apenas programa, espaço e cidade, é também pensamento, ideologia e vida.

O mais importante reconhecimento aparece finalmente em 2020, onde lhes é atribuído o maior galardão da arquitetura, com a entrega do prestigiado prémio pritzker, que exalta a qualidade do seu trabalho, e particulariza o lado humano dos seus projetos e o sentido de escala e proporção na criação de espaços íntimos em ambientes severos.

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A sua arquitetura é desenhada por mulheres, mas não irão encontrar traços ostensivos de delicadeza. No seu lugar veremos edificações fortes e monolíticas, talvez mesmo construções “musculadas” que não se enquadram em quaisquer estereótipos associados ao feminismo.

A sua abordagem poderosa revela, no entanto, grande compreensão pelos processos de projeto e construção, o que se verifica desde a pequena à grande escala, desde os mais pequenos detalhes até as maiores e mais significativas intervenções.

Com uma forte componente de pesquisa, os seus projetos revelam sempre uma grande compreensão pelo lugar e respeito pelo contexto e cultura onde se inserem. Ao contrario dos anteriores prémios pritzkers (Frank Gehry e Zaha Hadid) que pensam a sua arquitetura como uma afirmação do objeto sobre o território, as Grafton Architects abraçam a singularidade de cada local no desenvolvimento dos seus projetos.

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Numa industria dominada por homens, torna-se ainda mais relevante que as arquitetas Yvonne Farrel e Shelley McNamara sejam a quarta e quinta mulheres a ganhar o premio pritzker, nos seus 41 anos de historia. No entanto é importante referir que desde a Zaha Hadid, em 2004, nestes últimos 17 anos, 5 mulheres venceram este importante reconhecimento. Julgo que, pela criatividade e talento que podemos ver em muitas arquitetas, essa tendência crescente manter-se-á. Ainda bem. Não apenas porque enriquece a arquitetura e as cidades, mas porque estas e outras mulheres mudaram não apenas a forma como pensamos o espaço e a arquitetura, mas também a própria profissão. E bem-haja por essa lufada de ar fresco, porque mudaram para melhor.

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13
Jul20

Mudam-se os tempos... E as vontades?


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

dualidade

O mundo está em ebulição. De um tempo de confinamento, em que a palavra de ordem era “vai ficar tudo bem” e a solidariedade estava na moda, a urgência de voltar ao dito “normal” e a necessidade de manter o sistema tal como estava antes da pandemia, a todo o custo, está a fazer com que assistamos a, cada vez mais, dualidade e extremismos no mundo.

Custa perceber como é que grande parte da Humanidade não aprendeu nada com estes últimos meses. Como ignorou os sinais do planeta e tentou pintar a pandemia ou de cor-de-rosa, ou de negro. Mais uma vez, dois extremos…

As notícias são quase que um diário da pandemia, salientando claramente os países onde a situação está “pior”. Lançar permanentemente o medo para formatar as mentes é o que está na ordem do dia. Ao mesmo tempo, novamente no lado oposto, surge o discurso da retoma económica e do “vai ficar tudo bem” quando não está tudo bem. E passa-se dum extremo para o outro, saltitando e confundindo quem se deixa absorver.

As desigualdades quase que passam ao lado por entre os pingos da chuva de discursos em tempos de COVID-19, mas estão a tornar-se cada vez mais evidentes. Não apenas desigualdades, mas também os tratamentos desiguais em todo este processo.

Há quem tenha que se deslocar diariamente para o trabalho em transportes públicos lotados, sem qualquer segurança. Há quem trabalhe em empresas sem quaisquer condições, mas que não possa abrir a boca porque precisa dum trabalho temporário e altamente precário para sobreviver. Há quem esteja a sofrer com o desemprego ou com a suspensão da sua atividade, e tenha muito pouca proteção social. Há quem seja estigmatizado/a pelo local onde vive. Há quem tenha que se desdobrar em mil e uma funções entre quatro paredes, num espaço minúsculo, onde ter um tempinho para si passou a ser um luxo. Há quem conviva diariamente com a violência e se sinta sem saída. Há quem esteja só. Há quem não tenha o que comer, há quem esteja no fundo do poço, há quem não saiba o que mais fazer para continuar… Enquanto outros/as se queixam de não poder viajar nas férias, ou de não poder assistir a um festival…

Pouco se fala destas situações. Porque o fundamental é falar da pandemia e da retoma económica, sem fazer as mudanças estruturais necessárias para dar o salto evolutivo e se preparar para a próxima fase. Investe-se em “cuidados paliativos” económicos, em vez de apostar na dignidade humana. Exige-se muito a muitas pessoas, e faz-se o oposto. Manipula-se as mentes para se vigiarem umas às outras. Culpabiliza-se o lazer e o fazer o que se gosta. Agarra-se ao exterior, ao viver para fora, fugindo a sete pés do interior. Assiste-se a quem brinca com o vírus, e a quem se isola com medo de tudo. Promove-se a desunião em todo o lado, até dentro de grupos que deveriam ser mais unidos e tolerantes. Cada vez menos se aceitam verdades diferentes, perspetivas diversas e olhares distintos. “Tenham medo, sintam raiva, sejam intolerantes… Mas… vai ficar tudo bem.”

Nesta curva pandémica de dualidade, estamos a caminhar a largos passos para o seu pico. Agarrando-se aos alicerces que sustentam a mesma curva, que são feitos de madeira altamente corroída por térmites. Foge-se da mudança, repete-se os erros e aposta-se na mesma fórmula, vezes e vezes sem conta…

Deseja-se um mundo melhor, mas faz-se exatamente a mesma coisa, dia após dia. Resiste-se à mudança, de dentro para fora... Deseja-se paz, mas promove-se constantemente a guerra, seja ela física, verbal ou escrita. Prega-se tolerância e convivência pacífica, mas pratica-se a intolerância para com quem não pensa ou sente exatamente da mesma forma. Defende-se os direitos humanos, mas na prática pratica-se a desigualdade em muitos campos da sociedade.

Sem coerência entre a palavra e a prática, o mundo não irá mudar para melhor. Sem integração da aprendizagem, tudo irá continuar igual. Os seres humanos são cocriadores da sua realidade, mas quando é que terão a coragem para se libertar da dualidade e do materialismo para criar, realmente, um mundo mais pacífico e igualitário?...

Esperemos por cenas dos próximos capítulos.

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06
Jul20

Zig Zag


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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A RTP decidiu retirar – entretanto, depois de fazerem nova dobragem, já o repôs – um programa da sua grelha. Quando vi a notícia especulei qual teria sido o excluído: o meu primeiro pensamento apontou para a transmissão de touradas. Fez-me todo o sentido deixar de passar, em sinal aberto, uma actividade que consiste em torturar um ser vivo a sangue frio para deleite dos seus “aficionados”. Também me ocorreu o Prós e Contras, por considerar estar em queda livre há imenso tempo. Qualquer dia, ainda dedicam um episódio para debater o racismo com um painel, quase todo ele, composto por caucasianos. Quer dizer, tarde demais, já aconteceu.

Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, desde que não me tirassem o galanteador piscar de olho do José Rodrigues dos Santos, o nosso Dan Brown, estava pronto para qualquer hecatombe.

Abri a notícia e li que se tratava de uma série chamada Destemidas. As queixas ao provedor do telespectador e a revolta nas redes sociais tinham sido imediatas à sua exibição. Queixavam-se de “doutrinação ao socialismo, apologia ao Marxismo ou à identidade de género”.  A indignação era tal que senti que se tratava de algo perigosíssimo. Vi que a série está incluída no Zig Zag, que é o espaço de programação infantil do canal público. Confesso que estranhei, mas podia ser um Cavalo de Troia. Ou, neste caso, de Moscovo. A sinopse descreve o programa como “Histórias de mulheres excecionais, ousadas e decididas que fizeram o que quiseram e lutaram pelos seus sonhos. Mulheres de ideais, épocas, idades e mundos muito distintos, que foram capazes de ir para além das convenções e preconceitos sociais e triunfaram perante as adversidades. Cientistas, atrizes ou ativistas que desejaram ser independentes, viajar, ser úteis, estudar, trabalhar, chegar ao poder de um país, ou simplesmente... salvar um farol!”.

Fiquei confuso, não consegui identificar vestígios soviéticos, pelo contrário, pareceu-me muito interessante e empoderador um programa infantil que destacava a luta e coragem de mulheres pela luta de direitos humanos. Isto, em épocas da nossa história em que ser mulher era sinónimo de ter menos direitos. Não quis acreditar que se tratava de enviesamento ideológico e, como tal, avancei para a visualização do episódio. Senti a adrenalina de estar prestes a ver algo extremamente transgressor. Por precaução, optei por fechar a janela e a porta pois tenho um vizinho saudosista do Estado Novo e, apesar de ser uma terra belíssima, não me convinha muito ir agora para Peniche.

O vídeo começa com uma música, temi que fosse a Internacional Socialista, mas não. Falso alarme. O alegado episódio prevaricador é o número 19, que se foca na vida da activista francesa pelos direitos das mulheres, Thérèse Clerc. No fim, percebi os três motivos que chatearam tanta gente: ela ser a favor do aborto, beijar outra mulher e a referência à importância de Karl Marx na sua vida. O programa é destinado a um público-alvo dos 10 aos 13 anos. Não tenho estudos suficientes para afirmar com toda a confiança do mundo que seja a idade ideal para se falar de aborto, contudo, acredito na importância da educação sexual nas escolas. E, quando digo escolas, não falo em infantários, mas talvez seja bem necessária no ensino anterior às Universidades Seniores. O beijo entre duas mulheres gerou polémica, não por homofobia – dizem – mas por quererem ser os pais a apresentar a homossexualidade às suas crianças, em vez de o descobrirem através de um televisor. Bem, a não ser que os filhos vivam, como a personagem de Sandra Bullock, no filme Bird Box, de olhos vendados o tempo todo, lamento ser o mensageiro do apocalipse, porém, acredito que seja apenas uma questão de tempo até verem um casal homossexual a beijar-se na rua. Quanto a Marx, para uma criança, é apenas o cão da série juvenil que acreditam ser um descabido live action da Patrulha Pata. No final do episódio, caso as crianças não se tenham distraído no TikTok durante o mesmo, na pior das hipóteses, vão apenas perceber alguns dos pontos da nossa constituição, tais como ser crime discriminar pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo, orientação sexual ou identidade de género. Bem, pelo menos ainda não associaram o facto de o Bob, o Construtor utilizar nas suas obras ferramentas como foices e martelos como uma mensagem secreta para os jovens Illuminati.

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23
Jun20

Uma onda opressora…


umarmadeira

ARTIGO DE FÁBIO DINIZ

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Estaremos a regredir, a retroceder? Por vezes, tenho me questionado...

A situação epidemiológica atual nos confinou e, fatalmente, nos colocou diante daquilo que estava esquecido.

Naturalmente, algumas máscaras caíram, ou simplesmente ficamos perante um olhar mais próximo e real daquilo que, antes, já lá estava.

Isso gerou desagrados, trouxe desconfortos vários e uma lista interminável de dúvidas, cifras e tantas outras perguntas sem resposta, a cada dia levantadas.

Observamos alguns governantes, representantes políticos com um discurso torto, autoritário e com o objetivo de castrar as suas populações.

Assistimos de camarote alguns dirigentes de estado a brincar, de forma desastrosa, com um microrganismo que já havia anunciado a sua fatalidade.

Começámos a lidar e a aprender a gerir tanta dor e sofrimento ao redor do mundo.

Enquanto isso, tantos profissionais de saúde e inúmeros colaboradores trabalhavam arduamente para que os nossos produtos, bens e serviços essenciais fossem mantidos.

No entanto, alguns seres que deveriam governar e coordenar as suas comunidades, demonstravam seriamente o seu poder absurdo e fascista.

Sim, aquilo que há alguns meses já haviam deixado claro, estava agora perante o olhar atento do mundo.

Contornar esse fluxo tão insuportável, assustador e opressor passou a ser algo a que, inevitavelmente, tivemos que aprender a sobreviver.

Os recursos, as ferramentas e tudo aquilo que nos é útil passou a ser sagrado, de forma a manter a sanidade equilibrada.

Estamos perante um momento em que lutamos por direitos, por respeito, pela vida…

Assim o é para todas as minorias, as quais ferozmente os ditadores e toda a suprema ignorância surgem com a força primária e primitiva, derrubando e matando o que à frente estiver.

Até quando iremos violar e matar pela identidade de género, pela etnia, pela orientação, por toda e qualquer diferença manifestada? Pela normativa que não é respeitada… Qual é mesmo essa norma, esse dito “normal”? Algum ser humano é igual a outro? Não me parece, basta olharmos ao redor e uns para os outros.

Então, é hora de refletir, e saber o lugar e o papel que cada um de nós tem. Um posicionamento é, e vai continuar a ser, um manifesto, uma atitude que espelha a ideologia individual.

Lembremos também que o coletivo é o grupo, a comunidade, ainda assim, o indivíduo é um e único. Uma minoria não é apenas um… O respeito deve ser igual para ti, para mim, para todos.

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15
Jun20

Lutar contra a invisibilidade do Bem, vencer o mal


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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«Sonhei um dia perseguir a utopia

Trilhar caminhos nunca dantes percorridos

Atingir e semear a alegria»

Conceição Pereira, in A Vida em Movimento

 

Este é o primeiro texto publicado no Blog da UMAR Feminismos é Igualdade que não será lido pela nossa companheira Conceição Pereira, mas é pensando nela que o escrevo, no que ela disse e no que diria destes tempos conturbados em que todas as desigualdades se agudizam. Tempos que ela presenciou e em cuja resolução estava, de certeza, pronta para participar, como sempre esteve ao longo da sua vida, com coragem e determinação.

No dia 24 de abril, num poema publicado no Diário de Notícias, falava da alegria e emoção trazidas pela conquista da liberdade, que só não tocou “os duros de coração”. Também na página do SPM, como homenagem ao 25 de Abril, ficará para sempre o seu maravilhoso contributo para o PROF#fica em casa, no qual, com a magia da sua escrita, homenageia as palavras de Zeca Afonso, Martins Júnior, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília.  Deste texto, escolho o registo da tomada de consciência, pelo povo, dos seus direitos, que foi uma das conquistas da liberdade. Com a emoção que lhe era habitual, recorda que nem as bombas da FLAMA e os ataques dos saudosistas da ditadura fizeram desaparecer essa consciência.

Fala-se na Conceição e pensamos logo na voz dos Invisíveis, na Liberdade, na Justiça, na luta pela Dignidade Humana, em todas as suas vertentes. Uma voz que se erguia pelo povo e para o povo.

O que nos diria a Conceição das últimas manifestações racistas, prova evidente de que, nem mesmo com a ameaça da sua destruição os tais “duros de coração” conseguem encontrar uma forma de viver em igualdade, no respeito pelo outro. Triste prova de que os direitos humanos continuam a ser uma utopia! Até quando?

Mal começou o período de desconfinamento e, ainda com a ameaça de novo{s) confinamento(s), os sentimentos xenófobos e racistas voltam a lançar as suas sementes e abrem caminho a outras violências.

Pelo caminho, outras injustiças se cometem, sem dúvida, e são todas condenáveis. Mas não podemos usar esses efeitos colaterais para o apagamento do sofrimento que dura há séculos. Fingir que partimos todos do mesmo patamar, independentemente da cor da pele, da origem, da religião, da orientação sexual ou da sua aparência física, entre outras diferenças, será perpetuar e validar esses comportamentos discriminatórios a que, eventualmente, nenhum de nós escapará, desde que a sua vida deixe de se enquadrar dentro das «normas» aceites numa determinada organização social, imposta pelos grupos que detêm o poder.

Os mais otimistas viram no isolamento social uma oportunidade para a humanidade repensar a sua atuação no planeta. Os realistas consideraram que a Pandemia não era democrática.

Neste momento, o que se conclui é que o confinamento foi, sem dívida uma necessidade, mas o reverso da medalha é demasiado doloroso para ser ignorado. Não tenhamos dúvidas de que foi e é um terreno fértil para o exacerbamento das desigualdades, das injustiças, da violência e da solidão. São estas feridas, agora mais profundas, que começam a sangrar e que, com urgência, é necessário curar.

A história mostra-nos que as crises são momentos propícios para regimes totalitários, para ondas de pânico que levam a que a domine a lei do mais forte, daqueles que se apresentam como “salvadores”, escolhendo culpar um grupo «incómodo» que será o alvo da perseguição. É isto que começa a acontecer pelo mundo, mesmo na tão aclamada cultura ocidental, e as vítimas estão aí à vista de todos. Se não houver um verdadeiro movimento de todas as forças humanistas, podemos ficar nas mãos destes movimentos populistas, que farão retroceder todas as vitórias pela dignidade humana que foram alcançadas, a conta gotas, nas últimas décadas.

Não podemos esquecer que, ao longo dos tempos, o mal, sempre, contou com a timidez do Bem para vencer.

Não deixaremos que, desta vez, isso aconteça, com a certeza de que a nossa companheira Conceição Pereira continuará presente em todas as nossas lutas.

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