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Feminismos é Igualdade

01
Nov21

Invisibilidade das mulheres – mito ou realidade?


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

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Vivemos num mundo tão concebido e filtrado pela visão masculina que nem nos damos conta de como ele pode discriminar as mulheres, colocando-as em risco, sem ninguém se aperceber disso. Nem mesmo elas. Trago-vos alguns dados que resultam de investigações variadas e que ajudam a perceber o que acabei de afirmar.

Começo pelo mundo automóvel. Os automóveis são desenhados maioritariamente para os homens. São 71% menos seguros para elas do que para eles. Porquê? Porque o corpo masculino é a referência para todos os equipamentos de proteção do automóvel e os algoritmos ou testes que ajudam a calcular os riscos e o desenho dos equipamentos de proteção têm por base a noção de “ser humano” que se baseia no padrão do corpo masculino, que é anatomicamente muito diferente do feminino. Por isso, as mulheres estão mais expostas a acidentes rodoviários fatais. Não se compreende como, sendo as mulheres a maioria da população mundial, continuem a ser excluídas de testes e estudos que servem de base à melhoria das condições de segurança rodoviária, continuando esses estudos a usar quase exclusivamente os homens ou bonecos com a sua estrutura padrão. Por isso as mulheres têm mais 47% de probabilidade de ficarem feridas num acidente automóvel do que os homens, mais 71% de probabilidades de ficarem com lesões graves e mais 17% de probabilidades de morrerem.

Caroline Criado Perez fez investigação em diversas áreas e, no seu livro “Mulheres Invisíveis: Como os dados configuram um mundo feito para os homens”, relata uma série de casos em que se perceciona claramente que, no século XXI, o padrão em que se constrói o mundo continua a ser o masculino. De vários exemplos que ela dá refiro os seguintes:

  • Padrão de temperatura dos escritórios nos Estados Unidos – a fórmula usada para a calcular foi estabelecida em 1960 e tomou como padrão o metabolismo basal de um homem de 40 anos e 70kg de peso. Contudo, estudos recentes provam que as mulheres quando trabalham num escritório têm um metabolismo muito mais baixo, o que as leva a bater o dente e a embrulharem-se em casacos e cachecóis dentro do escritório, em pleno Verão, enquanto os homens andam de manga curta e se sentem confortáveis.
  • Coletes oficiais de proteção balística – concebidos para o corpo masculino, não se ajustam ao peito das mulheres, nem ao tamanho dos seus corpos, acabando por desprotegê-las e dificultar o seu trabalho. Relata aliás um caso de uma agente policial espanhola que adquiriu um colete no mercado particular que se ajustava ao seu corpo e que lhe custou 500€, para poder trabalhar de forma eficaz e segura. Teve de enfrentar um processo disciplinar.
  • Reconhecimento de voz – Em 2016, Rachel Tatman concluiu que o software da Google tinha mais probabilidade de reconhecer vozes masculinas (70%) do que femininas. Ou seja, quando muitas mulheres davam ordens o equipamento não obedecia, nem reconhecia a ação que lhe estava a ser ordenada. Se pensarmos na medicina, em que esta tecnologia é cada vez mais usada, o tempo para tentar que o software reconheça a instrução dada, pode ter consequências graves nos pacientes e reverte negativamente para as mulheres que o usam, pois acabam por demorar mais tempo a corrigir os enviesamentos tecnológicos pensados para os homens, podendo ser acusadas de serem mais lentas e menos eficazes na resolução das tarefas do que os seus colegas homens.

A tecnologia reforça esta discriminação de género, levando a que se cometam erros graves, pois os cálculos baseiam-se em dados do tal “ser humano” que mais não é do que a referência padrão do corpo masculino, fazendo com que os equipamentos de diagnóstico médico induzam em erro quem lê esses dados. Do diagnóstico ao tratamento, as mulheres correm riscos muito mais díspares do que os homens, precisamente pelos enviesamentos introduzidos nos cálculos e nos dados submetidos a exame.

A desigualdade de género está presente em todas as áreas da vida quotidiana, mesmo que não tenhamos consciência disso. Quanto mais percebermos que ela existe, mais nos envolveremos para a combater. Quanto mais lutarmos para que as mulheres estejam representadas em todas as áreas profissionais e políticas, mais garantias teremos de que o défice informacional de género diminua. Há casos de que os homens nem se lembram, pois não sentem essa necessidade, ou que acham nojentos. Pensemos, por exemplo, nos extratores de leite materno, nas soluções variadas para os dias em que a mulher está menstruada e que geraram a tantos homens nas direções das empresas esgares de nojo e repulsa, perante os projetos que várias mulheres lhes apresentaram.

Combatamos a invisibilidade das mulheres com a sua maior representatividade nas diferentes estruturas de poder e do conhecimento. Fazê-lo é garantir que a investigação não as esquece, de que elas estarão presentes na tomada de decisões e ajudarão a quebrar o enviesamento masculino que ainda existe em todos os setores das nossas sociedades.

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27
Set21

Votar: o verdadeiro superpoder do ser humano.


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Imagem retirada do Gabinete Alunos Engenharia Biomédica, UMinho

 

Ontem, aconteceram as Eleições Autárquicas no nosso país. Segundo os dados disponibilizados no site da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, quando 99,58% dos votos estavam já contados, a taxa de abstenção era de 46,3%, a segunda taxa de abstenção mais alta desde as primeiras eleições autárquicas, em 1976. E recuemos a esse ano. Foi a 25 de abril de 1976, que os portugueses e as portuguesas puderam votar para eleger, pela primeira vez, os seus representantes na Assembleia da República, o órgão legislativo nascido no recente regime democrático. O desconhecimento pela função do novo órgão legislativo e a iliteracia política poderão ter justificado esse valor. Precisamente um ano antes, essa participação terá sido esmagadora: 91,7% dos 6,2 milhões de eleitores/as recenseados/as elegeram os deputados que prepararam e aprovaram a nova Constituição. Foi o valor mais elevado de participação em eleições democráticas em Portugal. Como era preciosa a liberdade e a participação política! Recorde-se que, durante o Estado Novo, o voto estava limitado ao comum dos cidadãos, sendo que as restrições impediam o voto geral e universal, sem a ocorrência de eleições livres, justas e democráticas. Relativamente ao voto das mulheres, os obstáculos eram maiores e tornavam praticamente impossível a participação da mulher no ato eleitoral.

Ontem, no rescaldo dos resultados, falava-se na importância do voto obrigatório. Sem ter feito muita reflexão sobre o assunto, confesso, no imediato questiono se não será perigoso levar às urnas cidadãs/cidadãos pouco interessadas/os com a política e haver riscos de aumentos de participação eleitoral concentradas em propostas, partidos ou políticos/as populistas e extremistas. Parece-me mais sensato alargar, por exemplo, a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento ao Ensino Secundário, cujos/as jovens estão mais perto da idade de votar, e apostar na consciencialização para essa participação consciente e democrática. De momento, é, apenas, uma componente do currículo desenvolvida transversalmente com o contributo de todas as disciplinas e componentes de formação no ensino secundário, o que significa que, sem querer retirar nenhum mérito às professoras e professores das diferentes disciplinas, não haverá uma maior preocupação – e, sejamos justas/os, o tempo letivo é curto para tanto objetivo - no cumprimento do currículo das próprias disciplinas do que nos temas que a Cidadania e Desenvolvimento propõem? Enquanto disciplina autónoma nos 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico, não faria sentido alargar e incluir projetos de educação de diferentes Associações relacionadas com os Direitos Humanos, como aliás, já acontece com o Projeto ART’THEMIS+, da UMAR? Estamos em algumas turmas de algumas escolas da RAM, mas somos poucas, e mesmo voluntariosas em muitos dos pedidos (que vai além das horas e ordenado previstos em contrato), não conseguimos chegar a todo o lado, infelizmente. O investimento nessa área não deveria ser maior? Associações que trabalham, através de Técnicas/as especializadas/os, profundamente e na prática, estas questões não deveriam ser mais valorizadas? Não deveriam ser incluídas no âmbito da Secretaria Regional de Educação? Eu iria, até, mais longe relativamente à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento: esta não deveria ser incluída, enquanto cadeira, nas diferentes Licenciaturas?

Contornar um trabalho de educação e de prevenção para preferir uma “solução imediata” – e para chorar abstenções, por exemplo - dá, realmente, mais encargos (humanos, logísticos, financeiros…), mas não deveria essa mesma educação para a cidadania ser privilegiada? Ficam as reflexões. Votar é o verdadeiro superpoder do ser humanos, mas as pessoas também precisam ser educadas para isso.

Ontem, no Funchal, local onde a UMAR tem desenvolvido grande parte do seu trabalho, embora, mais uma vez, os nossos braços tentem chegar a outros concelhos, ganhou a coligação Funchal Sempre à Frente (PSD/CDS). Eu não poderia terminar este artigo sem deixar de agradecer ao Miguel Silva Gouveia e a todo o seu executivo pelo enorme trabalho realizado em prol das cidadãs e dos cidadãos funchalenses no último ano, sobretudo, e ao que à UMAR diz respeito, a possibilidade de existir uma sede de trabalho; a possibilidade de podermos concorrer ao Apoio ao Associativismo e, com isso, alargarmos o nosso âmbito de atuação; a possibilidade de termos uma Feira semanal que permite que algumas dezenas de mulheres, artesãs e sem outros rendimentos, vendam os seus produtos e tenham alguma independência económica; a possibilidade de criarmos parcerias entre o Município e as suas entidades, como é o caso dos Centros Comunitários, no desenvolvimento de ações concretas; a possibilidade de coorganizarmos o Madeira Pride, em conjunto com outras associações; entre outras.

Ao novo Executivo Camarário, deixo os parabéns e votos de bom trabalho e que possamos continuar, juntos/as, esta caminhada por uma sociedade mais justa, igualitária e responsável.

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20
Set21

Sometimes I Might Be Introvert


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Ainda há muitos álbuns que irão ver a luz até ao final do ano que, certamente, serão marcantes, mas acredito piamente que o Sometimes I Might Be Introvert, da britânica de origem nigeriana, Little Simz, figurará em grande parte das listas de melhores discos do ano.

Muito precoce e prolífica, nascida em 1994, estreou-se com a mixtape Stratosphere, em 2010. Desde então, já conta no seu curriculum com 4 mixtapes, 8 EP´s e 4 LP´s. A Curious Tale of Trials + Persons, de 2015, o seu primeiro longa-duração, mostrou que estávamos perante um diamante em bruto. Um ano depois, lança Stillness In Wonderland, um disco conceptual inspirado no clássico Alice In Wonderland, de Lewis Carroll. Simz usa a história infantil de Alice como metáfora para fazer uma viagem de auto-descoberta, utilizando as suas ambições e inseguranças como tinta para pintar este quadro. GREY Area chega em 2019 e seria o seu álbum mais aclamado pela crítica. A diversidade, capacidade de escrita e densidade da obra reuniu consenso de todos os entusiastas da música e colocaram Simz como um dos maiores talentos da sua geração.

Com os holofotes todos apontados a si, Simbi – alcunha pela qual é conhecida e que dá o acrónimo do seu último LP -, regressa com um pontapé na porta. O primeiro single, Introvert, é uma obra-de-arte onde a rapper usa a sua poesia de um jeito interventivo sobre o estado actual do mundo. Segue-se Woman, um tema que escreveu como tributo à sua mãe e a todas as mulheres que a inspiram. É um hino de empoderamento e de celebração do que é ser mulher. Rolling Stone foi o terceiro single, onde vemos a britânica explorar sonoridades. O penúltimo single foi o tema I Love You, I Hate You, que a autora confessou no programa Tiny Desk ter sido o mais complicado de escrever por tê-la obrigado a ir a sítios e a mexer com sentimentos do seu âmago. Quinto e último tema antes do lançamento, Point And Kill, acompanhada pelo nigeriano Obongjayar, onde o afrobeat revolucionário de Fela Kuti e as suas raízes nigerianas, concretamente do grupo étnico ioruba, são celebradas. O tema ganha ainda mais alma no disco, pois tem uma continuação na faixa seguinte, Fear No Man.

 

Little Simz, com este disco, confirma que é uma das artistas contemporâneas mais entusiasmantes. Consegue conciliar uma paleta interminável de sonoridades (desde o rap ao R&B; do afrobeat à neo-soul ou do grime ao funk) a uma sensibilidade poética na sua escrita, que tanto consegue ser vulnerável e auto-reflexiva, como assertiva e corrosiva na forma como aborda problemas da actualidade como o machismo, o racismo ou a política. Sobra-lhe, ainda, tempo para celebrar isto de estar vivo, com todos os seus prós e contras. Como tal, celebremos Simz e todas as “Simz” que se empoderam e têm orgulho nas suas raízes.

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26
Jul21

A simbologia das identificações preconceituosas


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Há muita gente que não olha para os símbolos que identificam os sexos com um olhar crítico, ou criterioso, como se queira chamar. Até acha graça na forma como alguns deles estão construídos, e considera as nossas críticas ridículas ou “fofoquices politiqueiras”.

No entanto, eu aprendi ao longo da minha vida que nada acontece por acaso. Por detrás de uma imagem ou de um símbolo, está um significado e um objetivo.

Quando no chão dos parques de estacionamento ou nos fraldários das casas de banho as identificações para transportar ou cuidar das crianças estão todas com uma conotação feminina, isso quer dizer que ainda existe um preconceito em relação aos homens que deve ser desmistificado, até porque hoje muitos deles já mudam as fraldas e carregam os/as filhas para passear, ou mesmo ao médico e à escola. Não é correto ligar tudo o que se refere às crianças apenas às mães. Não devemos aceitar este estereótipo sem refutar a mentalidade preconceituosa e machista que está por detrás dele. Até a lei mudou de “Maternidade” para “Parentalidade”, exatamente para chamar a atenção que tudo o que se refere aos/às filhos/as tem a responsabilidade de ambos os progenitores.

Claro que sabemos que hoje existem casais do mesmo sexo também com crianças e que devem sentir na pele ainda mais preconceitos. Imagino o dilema de dois pais perante um fraldário que nem tem uma imagem masculina e que fica, muitas vezes, dentro da casa de banho das mulheres. Temos que estar atentas/os a estas questões que parecem pormenores mas que, na realidade, mexem muito com as nossas vidas e o nosso quotidiano.

Também não podemos aceitar como normal que num restaurante a casa de banho das mulheres esteja identificada com “Shopping”, e a da casa de banho dos homens esteja sinalizada com “Futebol”. Há muitas mulheres e homens que não se revêm nem se encaixam nestes rótulos. Sabemos que existem mulheres que gostam de futebol, assim como existem homens que gostam de Shopping. Este tipo de identificação trata as pessoas como “burras” e “fúteis”, quer sejam homens quer sejam mulheres.

Parece uma coisa de pormenor ou de brincadeira, o que não era pois eu própria vi, e mesmo se assim fosse não devemos admitir. Quem me chamou a atenção para este facto foi um homem. Apetecia entrar propositadamente na casa de banho onde nos identificássemos com o interesse proposto. Mas se o fizéssemos, estaríamos a diminuir a importância desta questão.

O mesmo se passa com o nosso cartão de identidade, que trata todas as pessoas no masculino. Dizem que somos radicais, mas eu quando me refiro à minha identidade faço-o sempre no feminino porque sou mulher e não admito que me tratem como homem. Já perguntei a muitos homens: e se fosse ao contrário? Se em vez de ser cartão de cidadão fosse, para toda a gente, cartão de cidadã? Claro que nenhum deles se identifica e fica a olhar, sem qualquer argumento.

E em relação ao cumprimentar no masculino? Será que os homens iriam se sentir representados quando, numa sala antes de um evento, alguém dissesse “bom dia a todas”? Parece que estou a ver o escândalo que seria, sobretudo se a cerimónia fosse pública. Nunca o fiz, mas já me apeteceu fazê-lo várias vezes. Ainda assim, acho que o mais correto é sempre cumprimentar no feminino e no masculino. Os ingleses foram pioneiros quando, desde há muito tempo, utilizam o seu famoso “Ladies and Gentleman”.

Os preconceitos estão tão enraizados nas nossas vidas que muitas vezes somos preconceituosos/as sem sequer termos consciência disso.

É necessária muita atenção e vigilância, porque é nos chamados “pequenos pormenores” que tudo começa.

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29
Jun21

Enquanto esfregas um olho, a liberdade vai-se!


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO TELO PESTANA

liberdade

Não é segredo nenhum que a política faz já parte do meu percurso e dos meus interesses diários. A política, essa nobre causa, deveria ser praticada por via de uma dose generosa de bom senso e, igualmente, levada a cabo por homens e mulheres de bem, honrosos e capazes ao nível técnico e humano. Que reconheçam as limitações daquilo que governam e com o foco no único objetivo de fazer mais e melhor do que aquilo que outrora era o estado das coisas. Conheço algumas pessoas que congregam em si estas capacidades únicas e elas estão espalhadas, e divididas, da esquerda à direita. Lamento profundamente que assim os ideais nos dividam a todos quando juntos poderíamos fazer do mundo um lugar melhor e não, não falo de utopias, falo de possibilidades imensas de mudar o que nunca se conseguiu mudar, sem cores, sem divisões, sem partidos. Talvez seja por isso que reconheço cada vez menos legitimidade partidária num país cada vez mais dividido pelos partidos. Nem os consigo contar. São já uma panóplia considerável de coisa nenhuma com um propósito comum e transversal, preencher o sentimento de pertença!

Ah, muito mais aliviado agora que escrevi o que queria dizer. No entanto, com este acordo prévio introduzo o tema central deste meu artigo, e mísero contributo para a causa feminista, a Turquia retirou-se do tratado internacional de direitos humanos, em particular das mulheres e raparigas, mais conhecido por, pasmem-se, Convenção de Istambul. Dito de outra forma, a Turquia retirou-se de um tratado internacional que tinha o nome de uma das suas mais emblemáticas cidades. Erdogan, pessoa por quem não nutro nenhum tipo de simpatia fez questão de se retirar do tratado sem qualquer explicação o que causou ao novo Presidente americano, Joe Biden, alguma estranheza e tristeza. A retirada representa um tremendo golpe nos direitos universais das mulheres e as causas continuam, misteriosamente, inexplicáveis. Canso-me de dizer aos meus filhos, em especial à minha filha de apenas 14 anos, que nunca devemos dar por garantidas as nossas liberdades, sejam elas quais forem. Não se trata de um comportamento comunista mas de uma aceção de que vivemos uma realidade com algumas garantias muito frágeis onde a qualquer momento o mundo está ao contrário. De Erdogan não se pode esperar um contributo valoroso para a manutenção de direitos universais, mas pelo contrário, como esta retirada demonstrou. A qualquer momento um homem ou mulher de princípios pode ser corrompido, a qualquer hora um homem ou uma mulher com poder se reúne dos mais pérfidos assessores e pode encaminhar a sua governabilidade para o desastre, a qualquer minuto, uma ideia pode ser implantada maquiavélica é implantada na mente de quem governa. Resta-nos a obrigatoriedade da vigilância permanente.

Devemos todos, em plena consciência, ter o dever de não adormecer em liberdade!

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16
Jun21

Mural da História


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ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

 

Hoje venho falar-vos de um livro maravilhoso que se chama “Mural da História”. Foi escrito pela Carolina Caldeira e ilustrado pela Raquel Marques. Faz parte de um projeto que vai envolver pelo menos um muro (daí o nome “mural”), que será intervencionado artisticamente com uma das histórias que fazem parte do livro. Podem pensar que o livro é para crianças. E é. Mas também pode ser lido por pessoas adultas, pois tudo o que ele contém nos ajuda a refletir sobre a importância que as mensagens das “inocentes” histórias infantis passam, bem como sobre o papel que esses contos tiveram e têm nos comportamentos das meninas, das raparigas e das mulheres ao longo de muitas gerações, levando-as a acreditar que para terem sucesso devem esperar passivamente por um príncipe encantado, vivendo para ele e por ele, esquecendo-se delas próprias.

No “Mural da História” podem então ler e pintar novas e divertidas versões de contos infantis bem conhecidos. Já ouviram falar da Rapunzel? Aquela rapariga com longos cabelos arranjados numa looooongaaaa trança, que vivia numa torre à espera de um príncipe que a salvasse? E a Gata Borralheira, conhecem? A Carochinha, aquela que ficava à janela à procura de alguém com quem casar? Lembra-vos alguma história? E que tal a Princesa da ervilha, aquela que era mesmo tão, mas tãããããooooo PRINCESA que sentia uma ervilha na cama, mesmo que por baixo de um monte de colchões?

Pois agora têm a oportunidade de conhecer todas estas personagens femininas, em versão século XXI!!! São meninas que sabem quem são e do que gostam, que lutam contra os seus medos e partem rumo à aventura, para concretizarem os seus sonhos. E de que maneira o fazem! E que atraente é esta leitura, com desenhos lindos prontos a serem coloridos, com textos divertidos, com morais da história empoderadores e com espaço no fim de cada conto para que cada leitora ou leitor escreva ou desenhe o que lhe vai na alma, quando lê estas aventuras e sonhos concretizados.

Os contos de fadas com princesas e príncipes reproduzem a ideia de que as mulheres devem ser submissas, passivas, doces, obedientes, resignadas e humildes. Se forem bonitas têm mais hipóteses de casar com um príncipe encantado que as cuidará e alimentará, garantindo a sua subsistência. Daí terem de viver para a aparência física, usando a máxima “sofrer para ser bela”.

Neste “Mural da História”, Carolina Caldeira e Raquel Marques ajudam-nos a desconstruir estes estereótipos, redefinindo os papéis das mulheres e permitindo uma visão crítica da sociedade e das suas regras, adaptando histórias mágicas e tradicionais à realidade atual, sem eliminar a magia e o sonho. Estamos perante personagens femininas que lidam com o seu contexto, com os seus medos e que lutam pelos seus sonhos, avançando com o que têm à sua volta e tirando o melhor partido da análise que fazem ao seu contexto. Elas têm voz e usam-na para se afirmarem.

Parece-me que se têm crianças podem ler com elas estas histórias, divertirem-se e ajudarem a quebrar o feitiço que, ao longo de séculos, transformou as mulheres em seres pouco inteligentes e pouco poderosos que só conseguiriam encontrar a felicidade através do casamento.

O livro foi editado pela CADMUS, com o apoio da Câmara Municipal do Funchal. Custa 10€. O projeto pode ser consultado aqui: https://www.projetomuraldahistoria.com. No fim do mês, podem ir ver o mural que a Carolina Caldeira e as crianças estão a desenhar na escola do Livramento, no Funchal.

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02
Jun21

Pandemia e desigualdade de género


umarmadeira

ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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Nos últimos meses, algumas Instituições têm abordado em órgãos de comunicação social, vários problemas muito sensíveis que afetam dum modo particular as Mulheres, tais como serem as mais afetadas com o desemprego, na qualidade do emprego, no teletrabalho, na desigualdade salarial, nos baixos salários, com reflexos na baixa natalidade, na conciliação dos direitos da maternidade, na exclusão social.

O drama da escravidão das/os trabalhadoras/es imigrantes, no aumento da pobreza, pessoas que mesmo trabalhando vivem abaixo do limiar da pobreza, no aumento da violência doméstica e, ainda, de várias Mulheres de profissões diversas a assumirem publicamente terem sido assediadas; artistas, advogadas, jornalistas, psicólogas, estudantes, enfermeiras, economistas etc., a contarem o que sofreram e sofrem com o assédio sexual no trabalho, na rua, na noite, na praia, nos transportes, etc.

A Presidente da Comissão Europeia também se sentiu discriminada, aquando da sua deslocação à Turquia, por ser a primeira Presidenta a não ter cadeira para que se pudesse sentar, pois as cadeiras eram só para os homens, tendo ficado chocada.

Não menos verdade, e também visível, é que, com a pandemia, a maioria das famílias perdeu grande parte dos seus rendimentos e mais de metade dos madeirenses admitem dificuldades financeiras, tornando-se claro que os salários em Portugal e na Região são reconhecidamente muito baixos. Estávamos todas e todos com alguma expectativa que da cimeira social a realizar-se em Portugal, face a todo este quadro, saíssem respostas para alguns destes problemas, mas a conclusão que tirei é que foi uma cimeira de meias tintas, num momento Histórico, todos bem-intencionados mas com resultados nulos. Porque a resposta é nada, não há nenhuma medida concreta. O que saiu foi um conjunto de princípios gerais sem poder vinculativo, ficando ao critério de cada país a sua aplicação ou não. Por outro lado, a União Europeia tem vindo a abordar estes problemas, mas sobre a igualdade salarial de género, para que torne obrigatório a adoção de medidas de transparência sobre esta matéria, até aqui as diretivas europeias resultam apenas em recomendações. Nos últimos dados estatísticos tornados públicos, as mulheres ganham menos 14,4% em relação aos homens, mas é nas grandes empresas que mais se sente, ficando a diferença em 26%.

Não menos verdade é que é do conhecimento público que o Comité de Direitos Humanos do Conselho da Europa já concluiu que Portugal tem violado a carta dos direitos sociais da organização por falta de progresso em alcançar a igualdade salarial entre Mulheres e Homens.

Face a tudo isto, é claro que as Mulheres estão mais frágeis perante a pobreza, ocupam ainda uma pequena percentagem de cargos de maior poder, apesar de representarem mais de metade da população, ocupam ainda um número pequeno de assentos nos parlamentos, sofrem mais violência doméstica e ocupam a maior parcela de empregos precários.

É caso para dizer que esta pandemia é como uma guerra oculta contra as mulheres. Se não forem tomadas medidas, a COVID 19 pode apagar uma geração de frágeis avanços em direção à Igualdade de Género, isto porque torna-se visível a desigualdade neste contexto de pandemia.

Como se tudo isto já não bastasse, o aumento da violência doméstica reflete uma realidade alarmante, que com a pandemia se agravou no período do confinamento. É urgente por um fim a este horrível flagelo contra Mulheres e crianças. É fundamental uma mudança, mas só será possível se todas e todos unirmos esforços e atuarmos com determinação para atingirmos a Igualdade e justiça. As ações que forem tomadas determinarão as expectativas, não apenas da atual geração de Mulheres, mas também das gerações futuras.

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17
Mai21

Produtividade: salve-se quem puder.


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ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Naquela manhã, uma mulher deixou a filha dentro do carro. Quando se lembrou, já era demasiado tarde. O espaço público encheu-se de moralismos e, em bicos de pés, apontaram-se dedos à mãe, à malvada, quem é que esquece uma filha dentro do carro um dia inteiro?

Somos seres humanos, corpos que carregam outras pessoas dentro, ansiedades e medos, milhares de informações, necessidades e desafios. Somos pessoas do século XXI, com o que isso tem de bom e de mau, absorvidas pela tecnologia cada vez mais superior àquilo que achamos conseguir acompanhar, absorvidas pelo trabalho e pelo capital. Somos os seres que parecem competir sobre quem dorme menos, quem trabalha mais horas, quem está permanentemente ligado, quem produz mais, quem tem a melhor ideia, quem dá mais às causas, quem tem mais problemas de saúde. Somos os bichos mais estranhos do planeta porque, enquanto os outros animais parecem levitar sobre o tempo – mesmo os que têm uma curta esperança de vida – nós queremos ser mais rápidos que o tempo, queremos que as 24 horas se traduzam em 48 e, no fundo, não vivemos na pressa de viver tudo.

Naquela manhã, uma mulher era uma destas pessoas, uma destas tantas pessoas. Não a conhecendo, imagino que estivesse absorvida pelas suas tarefas, que alguma coisa na rotina se tenha alterado, que problemas a afligissem. Imagino que tivesse contas para pagar, dilemas para resolver, planos para cumprir. Imagino que tenha dormido pouco, que tenha trabalhado horas a mais, que estivesse permanentemente ligada, que quisesse produzir mais, que quisesse ter a melhor ideia, que quisesse dar mais às suas causas. Imagino, também, que ame profundamente a filha que perdeu e, no meio do fazer-se valer enquanto pessoa do século XXI – trabalha!, pensa!, dorme pouco!, faz mais! – esqueceu-se do mais importante: o cuidar-se e, com isso, alargar o cuidado aos seus. Imagino, quase na certeza, que o calvário que enfrenta agora é pior que qualquer outra coisa. Haverá espaço para uma mulher feliz na mãe que morreu ali?

Eu não tenho crianças sob a minha responsabilidade. No cenário da minha vida, não consigo conceber espaço, tempo e segurança emocional para cuidar de uma. Admiro as mulheres que enfrentam a maternidade enquanto se digladiam com outras responsabilidades – e também os homens que enfrentam a paternidade, embora saibamos que é ainda sobre a mulher que recaem as maiores dificuldades. Não tenho filhos ou filhas, mas sei que, se os/as tivesse, eu poderia muito bem ser, naquela manhã, a mulher que deixou a filha dentro do carro. E quando me lembrasse, já seria demasiado tarde, e o espaço público encher-se-ia de moralismos para, em bicos de pés, apontar-me os dedos, a mim, a malvada, quem é que esquece uma filha dentro de um carro um dia inteiro?

Precisamos de mudar isto. Precisamos de deixar de competir e passar a cooperar. Sermos uma equipa. Um conjunto de seres que caminham para um mesmo objetivo, o da felicidade e da justiça. Precisamos de parar de exigir de nós e dos outros o que prejudica o coletivo enquanto humanidade. Humanidade: haverá produtividade exacerbada que a salve? Pelo que vou compreendendo, a continuar assim, acabaremos todas/os doentes, desgastadas/os, divididas/os e confusas/os. Que não seja o salve-se quem puder.

E, hoje, já viveram?

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10
Mai21

Somos feministas por um mundo novo


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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O pior que pode acontecer à causa do feminismo é considerar que, em nome da pandemia, lutar por esta causa de direitos iguais para todos/as é uma utopia e que o melhor é congelar a nossa luta à espera que a pandemia fique controlada, porque existem outras prioridades.

No meu entender, nada é mais prioritário do que continuar a estar atentas/os aos problemas que surgem na sociedade e que aprofundam, negativamente, os direitos que foram conquistados com tanta luta e com tanto empenho de um conjunto de mulheres, nas quais me incluo. Sempre nos disseram que o que reivindicávamos ou defendíamos era acessório e não era o fundamental.

No entanto, à medida que a nossa luta ia produzindo efeitos positivos e que fomos conquistando direitos que abrangiam todas as mulheres, mesmo aquelas que nada fizeram para que os mesmos existissem, toda a gente começou a ser beneficiada e, então, tudo se tornou importante e a sociedade que nos quis calar passou a aceitar esses direitos como "coisas importantes que devem ser perservadas".

É sempre assim no que toca às mulheres. Começam por atacar mas, depois, existe um render coletivo ao que é conseguido. Foi assim com a maternidade e paternidade. Foi assim com o planeamento familiar. Foi assim com a IVG. Foi assim com o crime público da VD. Foi assim com o direito à adoção. Foi assim com tanta coisa que hoje faz parte do nosso ordenamento jurídico sem qualquer perturbação.

Atacam-nos por nos definirmos como feministas, quando consideramos que devíamos ser tratadas, no cartão de identidade, como cidadãs. Que queremos ser olhadas na rua com respeito e admiração, e não à luz de preconceitos machistas e com assédio. Que queremos ser tratadas no feminino nos discursos oficiais ou nos cumprimentos formais. Não gostamos de ser tratadas no masculino porque nenhum homem nos representa nem nós representamos os homens. Ambos existimos e queremos continuar a ser todos/as olhados/as e tratados/as com respeito e admiração pelo que somos, e não pelo sexo com o qual nascemos.

Lutamos por uma sociedade inclusiva para todos os seres humanos. Queremos um mundo novo para que toda a gente seja feliz e respeitada, independentemente dos credos, religiões, orientações sexuais ou outras coisas que defendam. Cada pessoa é que sabe da sua vida. Cada pessoa é que sabe do que gosta. Cada pessoa é livre para decidir o que quer fazer da sua vida.

Defendo que o que deve predominar nas nossas vidas são todas as cores do arco íris. Só com esse colorido da vida é que podemos continuar a sonhar em ser felizes durante e depois da pandemia. Não podemos deixar de sonhar e de querer que a vida nos proporcione vivências mais felizes, onde cada ser humano tenha o mesmo direito a ser feliz e realizado.

Utopia, dizem. Então, sou defensora de utopias. Precisamos de acreditar que vamos ultrapassar esta pandemia e que, entretanto, não deixamos de lutar por aquilo que consideramos justo. É isso que tem feito a UMAR/Madeira, tentando aproveitar estes novos tempos para organizar documentação que retrate a memória coletiva do que tem sido a luta das mulheres. Queremos deixar o nosso contributo, até para que a memória não se perca. Estamos a trabalhar em mais documentos que servirão para debates futuros, porque a pandemia vai passar e vamos continuar a lutar por um mundo novo sem desigualdades e com mais empatia entre todas as pessoas.

A nossa luta por um Feminismo de intervenção não para e nenhuma pandemia o vai destruir.

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