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Feminismos é Igualdade

26
Jul21

A simbologia das identificações preconceituosas


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Há muita gente que não olha para os símbolos que identificam os sexos com um olhar crítico, ou criterioso, como se queira chamar. Até acha graça na forma como alguns deles estão construídos, e considera as nossas críticas ridículas ou “fofoquices politiqueiras”.

No entanto, eu aprendi ao longo da minha vida que nada acontece por acaso. Por detrás de uma imagem ou de um símbolo, está um significado e um objetivo.

Quando no chão dos parques de estacionamento ou nos fraldários das casas de banho as identificações para transportar ou cuidar das crianças estão todas com uma conotação feminina, isso quer dizer que ainda existe um preconceito em relação aos homens que deve ser desmistificado, até porque hoje muitos deles já mudam as fraldas e carregam os/as filhas para passear, ou mesmo ao médico e à escola. Não é correto ligar tudo o que se refere às crianças apenas às mães. Não devemos aceitar este estereótipo sem refutar a mentalidade preconceituosa e machista que está por detrás dele. Até a lei mudou de “Maternidade” para “Parentalidade”, exatamente para chamar a atenção que tudo o que se refere aos/às filhos/as tem a responsabilidade de ambos os progenitores.

Claro que sabemos que hoje existem casais do mesmo sexo também com crianças e que devem sentir na pele ainda mais preconceitos. Imagino o dilema de dois pais perante um fraldário que nem tem uma imagem masculina e que fica, muitas vezes, dentro da casa de banho das mulheres. Temos que estar atentas/os a estas questões que parecem pormenores mas que, na realidade, mexem muito com as nossas vidas e o nosso quotidiano.

Também não podemos aceitar como normal que num restaurante a casa de banho das mulheres esteja identificada com “Shopping”, e a da casa de banho dos homens esteja sinalizada com “Futebol”. Há muitas mulheres e homens que não se revêm nem se encaixam nestes rótulos. Sabemos que existem mulheres que gostam de futebol, assim como existem homens que gostam de Shopping. Este tipo de identificação trata as pessoas como “burras” e “fúteis”, quer sejam homens quer sejam mulheres.

Parece uma coisa de pormenor ou de brincadeira, o que não era pois eu própria vi, e mesmo se assim fosse não devemos admitir. Quem me chamou a atenção para este facto foi um homem. Apetecia entrar propositadamente na casa de banho onde nos identificássemos com o interesse proposto. Mas se o fizéssemos, estaríamos a diminuir a importância desta questão.

O mesmo se passa com o nosso cartão de identidade, que trata todas as pessoas no masculino. Dizem que somos radicais, mas eu quando me refiro à minha identidade faço-o sempre no feminino porque sou mulher e não admito que me tratem como homem. Já perguntei a muitos homens: e se fosse ao contrário? Se em vez de ser cartão de cidadão fosse, para toda a gente, cartão de cidadã? Claro que nenhum deles se identifica e fica a olhar, sem qualquer argumento.

E em relação ao cumprimentar no masculino? Será que os homens iriam se sentir representados quando, numa sala antes de um evento, alguém dissesse “bom dia a todas”? Parece que estou a ver o escândalo que seria, sobretudo se a cerimónia fosse pública. Nunca o fiz, mas já me apeteceu fazê-lo várias vezes. Ainda assim, acho que o mais correto é sempre cumprimentar no feminino e no masculino. Os ingleses foram pioneiros quando, desde há muito tempo, utilizam o seu famoso “Ladies and Gentleman”.

Os preconceitos estão tão enraizados nas nossas vidas que muitas vezes somos preconceituosos/as sem sequer termos consciência disso.

É necessária muita atenção e vigilância, porque é nos chamados “pequenos pormenores” que tudo começa.

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29
Jun21

Enquanto esfregas um olho, a liberdade vai-se!


umarmadeira

ARTIGO DE CLÁUDIO TELO PESTANA

liberdade

Não é segredo nenhum que a política faz já parte do meu percurso e dos meus interesses diários. A política, essa nobre causa, deveria ser praticada por via de uma dose generosa de bom senso e, igualmente, levada a cabo por homens e mulheres de bem, honrosos e capazes ao nível técnico e humano. Que reconheçam as limitações daquilo que governam e com o foco no único objetivo de fazer mais e melhor do que aquilo que outrora era o estado das coisas. Conheço algumas pessoas que congregam em si estas capacidades únicas e elas estão espalhadas, e divididas, da esquerda à direita. Lamento profundamente que assim os ideais nos dividam a todos quando juntos poderíamos fazer do mundo um lugar melhor e não, não falo de utopias, falo de possibilidades imensas de mudar o que nunca se conseguiu mudar, sem cores, sem divisões, sem partidos. Talvez seja por isso que reconheço cada vez menos legitimidade partidária num país cada vez mais dividido pelos partidos. Nem os consigo contar. São já uma panóplia considerável de coisa nenhuma com um propósito comum e transversal, preencher o sentimento de pertença!

Ah, muito mais aliviado agora que escrevi o que queria dizer. No entanto, com este acordo prévio introduzo o tema central deste meu artigo, e mísero contributo para a causa feminista, a Turquia retirou-se do tratado internacional de direitos humanos, em particular das mulheres e raparigas, mais conhecido por, pasmem-se, Convenção de Istambul. Dito de outra forma, a Turquia retirou-se de um tratado internacional que tinha o nome de uma das suas mais emblemáticas cidades. Erdogan, pessoa por quem não nutro nenhum tipo de simpatia fez questão de se retirar do tratado sem qualquer explicação o que causou ao novo Presidente americano, Joe Biden, alguma estranheza e tristeza. A retirada representa um tremendo golpe nos direitos universais das mulheres e as causas continuam, misteriosamente, inexplicáveis. Canso-me de dizer aos meus filhos, em especial à minha filha de apenas 14 anos, que nunca devemos dar por garantidas as nossas liberdades, sejam elas quais forem. Não se trata de um comportamento comunista mas de uma aceção de que vivemos uma realidade com algumas garantias muito frágeis onde a qualquer momento o mundo está ao contrário. De Erdogan não se pode esperar um contributo valoroso para a manutenção de direitos universais, mas pelo contrário, como esta retirada demonstrou. A qualquer momento um homem ou mulher de princípios pode ser corrompido, a qualquer hora um homem ou uma mulher com poder se reúne dos mais pérfidos assessores e pode encaminhar a sua governabilidade para o desastre, a qualquer minuto, uma ideia pode ser implantada maquiavélica é implantada na mente de quem governa. Resta-nos a obrigatoriedade da vigilância permanente.

Devemos todos, em plena consciência, ter o dever de não adormecer em liberdade!

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16
Jun21

Mural da História


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

 

Hoje venho falar-vos de um livro maravilhoso que se chama “Mural da História”. Foi escrito pela Carolina Caldeira e ilustrado pela Raquel Marques. Faz parte de um projeto que vai envolver pelo menos um muro (daí o nome “mural”), que será intervencionado artisticamente com uma das histórias que fazem parte do livro. Podem pensar que o livro é para crianças. E é. Mas também pode ser lido por pessoas adultas, pois tudo o que ele contém nos ajuda a refletir sobre a importância que as mensagens das “inocentes” histórias infantis passam, bem como sobre o papel que esses contos tiveram e têm nos comportamentos das meninas, das raparigas e das mulheres ao longo de muitas gerações, levando-as a acreditar que para terem sucesso devem esperar passivamente por um príncipe encantado, vivendo para ele e por ele, esquecendo-se delas próprias.

No “Mural da História” podem então ler e pintar novas e divertidas versões de contos infantis bem conhecidos. Já ouviram falar da Rapunzel? Aquela rapariga com longos cabelos arranjados numa looooongaaaa trança, que vivia numa torre à espera de um príncipe que a salvasse? E a Gata Borralheira, conhecem? A Carochinha, aquela que ficava à janela à procura de alguém com quem casar? Lembra-vos alguma história? E que tal a Princesa da ervilha, aquela que era mesmo tão, mas tãããããooooo PRINCESA que sentia uma ervilha na cama, mesmo que por baixo de um monte de colchões?

Pois agora têm a oportunidade de conhecer todas estas personagens femininas, em versão século XXI!!! São meninas que sabem quem são e do que gostam, que lutam contra os seus medos e partem rumo à aventura, para concretizarem os seus sonhos. E de que maneira o fazem! E que atraente é esta leitura, com desenhos lindos prontos a serem coloridos, com textos divertidos, com morais da história empoderadores e com espaço no fim de cada conto para que cada leitora ou leitor escreva ou desenhe o que lhe vai na alma, quando lê estas aventuras e sonhos concretizados.

Os contos de fadas com princesas e príncipes reproduzem a ideia de que as mulheres devem ser submissas, passivas, doces, obedientes, resignadas e humildes. Se forem bonitas têm mais hipóteses de casar com um príncipe encantado que as cuidará e alimentará, garantindo a sua subsistência. Daí terem de viver para a aparência física, usando a máxima “sofrer para ser bela”.

Neste “Mural da História”, Carolina Caldeira e Raquel Marques ajudam-nos a desconstruir estes estereótipos, redefinindo os papéis das mulheres e permitindo uma visão crítica da sociedade e das suas regras, adaptando histórias mágicas e tradicionais à realidade atual, sem eliminar a magia e o sonho. Estamos perante personagens femininas que lidam com o seu contexto, com os seus medos e que lutam pelos seus sonhos, avançando com o que têm à sua volta e tirando o melhor partido da análise que fazem ao seu contexto. Elas têm voz e usam-na para se afirmarem.

Parece-me que se têm crianças podem ler com elas estas histórias, divertirem-se e ajudarem a quebrar o feitiço que, ao longo de séculos, transformou as mulheres em seres pouco inteligentes e pouco poderosos que só conseguiriam encontrar a felicidade através do casamento.

O livro foi editado pela CADMUS, com o apoio da Câmara Municipal do Funchal. Custa 10€. O projeto pode ser consultado aqui: https://www.projetomuraldahistoria.com. No fim do mês, podem ir ver o mural que a Carolina Caldeira e as crianças estão a desenhar na escola do Livramento, no Funchal.

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02
Jun21

Pandemia e desigualdade de género


umarmadeira

ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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Nos últimos meses, algumas Instituições têm abordado em órgãos de comunicação social, vários problemas muito sensíveis que afetam dum modo particular as Mulheres, tais como serem as mais afetadas com o desemprego, na qualidade do emprego, no teletrabalho, na desigualdade salarial, nos baixos salários, com reflexos na baixa natalidade, na conciliação dos direitos da maternidade, na exclusão social.

O drama da escravidão das/os trabalhadoras/es imigrantes, no aumento da pobreza, pessoas que mesmo trabalhando vivem abaixo do limiar da pobreza, no aumento da violência doméstica e, ainda, de várias Mulheres de profissões diversas a assumirem publicamente terem sido assediadas; artistas, advogadas, jornalistas, psicólogas, estudantes, enfermeiras, economistas etc., a contarem o que sofreram e sofrem com o assédio sexual no trabalho, na rua, na noite, na praia, nos transportes, etc.

A Presidente da Comissão Europeia também se sentiu discriminada, aquando da sua deslocação à Turquia, por ser a primeira Presidenta a não ter cadeira para que se pudesse sentar, pois as cadeiras eram só para os homens, tendo ficado chocada.

Não menos verdade, e também visível, é que, com a pandemia, a maioria das famílias perdeu grande parte dos seus rendimentos e mais de metade dos madeirenses admitem dificuldades financeiras, tornando-se claro que os salários em Portugal e na Região são reconhecidamente muito baixos. Estávamos todas e todos com alguma expectativa que da cimeira social a realizar-se em Portugal, face a todo este quadro, saíssem respostas para alguns destes problemas, mas a conclusão que tirei é que foi uma cimeira de meias tintas, num momento Histórico, todos bem-intencionados mas com resultados nulos. Porque a resposta é nada, não há nenhuma medida concreta. O que saiu foi um conjunto de princípios gerais sem poder vinculativo, ficando ao critério de cada país a sua aplicação ou não. Por outro lado, a União Europeia tem vindo a abordar estes problemas, mas sobre a igualdade salarial de género, para que torne obrigatório a adoção de medidas de transparência sobre esta matéria, até aqui as diretivas europeias resultam apenas em recomendações. Nos últimos dados estatísticos tornados públicos, as mulheres ganham menos 14,4% em relação aos homens, mas é nas grandes empresas que mais se sente, ficando a diferença em 26%.

Não menos verdade é que é do conhecimento público que o Comité de Direitos Humanos do Conselho da Europa já concluiu que Portugal tem violado a carta dos direitos sociais da organização por falta de progresso em alcançar a igualdade salarial entre Mulheres e Homens.

Face a tudo isto, é claro que as Mulheres estão mais frágeis perante a pobreza, ocupam ainda uma pequena percentagem de cargos de maior poder, apesar de representarem mais de metade da população, ocupam ainda um número pequeno de assentos nos parlamentos, sofrem mais violência doméstica e ocupam a maior parcela de empregos precários.

É caso para dizer que esta pandemia é como uma guerra oculta contra as mulheres. Se não forem tomadas medidas, a COVID 19 pode apagar uma geração de frágeis avanços em direção à Igualdade de Género, isto porque torna-se visível a desigualdade neste contexto de pandemia.

Como se tudo isto já não bastasse, o aumento da violência doméstica reflete uma realidade alarmante, que com a pandemia se agravou no período do confinamento. É urgente por um fim a este horrível flagelo contra Mulheres e crianças. É fundamental uma mudança, mas só será possível se todas e todos unirmos esforços e atuarmos com determinação para atingirmos a Igualdade e justiça. As ações que forem tomadas determinarão as expectativas, não apenas da atual geração de Mulheres, mas também das gerações futuras.

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17
Mai21

Produtividade: salve-se quem puder.


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ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Naquela manhã, uma mulher deixou a filha dentro do carro. Quando se lembrou, já era demasiado tarde. O espaço público encheu-se de moralismos e, em bicos de pés, apontaram-se dedos à mãe, à malvada, quem é que esquece uma filha dentro do carro um dia inteiro?

Somos seres humanos, corpos que carregam outras pessoas dentro, ansiedades e medos, milhares de informações, necessidades e desafios. Somos pessoas do século XXI, com o que isso tem de bom e de mau, absorvidas pela tecnologia cada vez mais superior àquilo que achamos conseguir acompanhar, absorvidas pelo trabalho e pelo capital. Somos os seres que parecem competir sobre quem dorme menos, quem trabalha mais horas, quem está permanentemente ligado, quem produz mais, quem tem a melhor ideia, quem dá mais às causas, quem tem mais problemas de saúde. Somos os bichos mais estranhos do planeta porque, enquanto os outros animais parecem levitar sobre o tempo – mesmo os que têm uma curta esperança de vida – nós queremos ser mais rápidos que o tempo, queremos que as 24 horas se traduzam em 48 e, no fundo, não vivemos na pressa de viver tudo.

Naquela manhã, uma mulher era uma destas pessoas, uma destas tantas pessoas. Não a conhecendo, imagino que estivesse absorvida pelas suas tarefas, que alguma coisa na rotina se tenha alterado, que problemas a afligissem. Imagino que tivesse contas para pagar, dilemas para resolver, planos para cumprir. Imagino que tenha dormido pouco, que tenha trabalhado horas a mais, que estivesse permanentemente ligada, que quisesse produzir mais, que quisesse ter a melhor ideia, que quisesse dar mais às suas causas. Imagino, também, que ame profundamente a filha que perdeu e, no meio do fazer-se valer enquanto pessoa do século XXI – trabalha!, pensa!, dorme pouco!, faz mais! – esqueceu-se do mais importante: o cuidar-se e, com isso, alargar o cuidado aos seus. Imagino, quase na certeza, que o calvário que enfrenta agora é pior que qualquer outra coisa. Haverá espaço para uma mulher feliz na mãe que morreu ali?

Eu não tenho crianças sob a minha responsabilidade. No cenário da minha vida, não consigo conceber espaço, tempo e segurança emocional para cuidar de uma. Admiro as mulheres que enfrentam a maternidade enquanto se digladiam com outras responsabilidades – e também os homens que enfrentam a paternidade, embora saibamos que é ainda sobre a mulher que recaem as maiores dificuldades. Não tenho filhos ou filhas, mas sei que, se os/as tivesse, eu poderia muito bem ser, naquela manhã, a mulher que deixou a filha dentro do carro. E quando me lembrasse, já seria demasiado tarde, e o espaço público encher-se-ia de moralismos para, em bicos de pés, apontar-me os dedos, a mim, a malvada, quem é que esquece uma filha dentro de um carro um dia inteiro?

Precisamos de mudar isto. Precisamos de deixar de competir e passar a cooperar. Sermos uma equipa. Um conjunto de seres que caminham para um mesmo objetivo, o da felicidade e da justiça. Precisamos de parar de exigir de nós e dos outros o que prejudica o coletivo enquanto humanidade. Humanidade: haverá produtividade exacerbada que a salve? Pelo que vou compreendendo, a continuar assim, acabaremos todas/os doentes, desgastadas/os, divididas/os e confusas/os. Que não seja o salve-se quem puder.

E, hoje, já viveram?

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10
Mai21

Somos feministas por um mundo novo


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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O pior que pode acontecer à causa do feminismo é considerar que, em nome da pandemia, lutar por esta causa de direitos iguais para todos/as é uma utopia e que o melhor é congelar a nossa luta à espera que a pandemia fique controlada, porque existem outras prioridades.

No meu entender, nada é mais prioritário do que continuar a estar atentas/os aos problemas que surgem na sociedade e que aprofundam, negativamente, os direitos que foram conquistados com tanta luta e com tanto empenho de um conjunto de mulheres, nas quais me incluo. Sempre nos disseram que o que reivindicávamos ou defendíamos era acessório e não era o fundamental.

No entanto, à medida que a nossa luta ia produzindo efeitos positivos e que fomos conquistando direitos que abrangiam todas as mulheres, mesmo aquelas que nada fizeram para que os mesmos existissem, toda a gente começou a ser beneficiada e, então, tudo se tornou importante e a sociedade que nos quis calar passou a aceitar esses direitos como "coisas importantes que devem ser perservadas".

É sempre assim no que toca às mulheres. Começam por atacar mas, depois, existe um render coletivo ao que é conseguido. Foi assim com a maternidade e paternidade. Foi assim com o planeamento familiar. Foi assim com a IVG. Foi assim com o crime público da VD. Foi assim com o direito à adoção. Foi assim com tanta coisa que hoje faz parte do nosso ordenamento jurídico sem qualquer perturbação.

Atacam-nos por nos definirmos como feministas, quando consideramos que devíamos ser tratadas, no cartão de identidade, como cidadãs. Que queremos ser olhadas na rua com respeito e admiração, e não à luz de preconceitos machistas e com assédio. Que queremos ser tratadas no feminino nos discursos oficiais ou nos cumprimentos formais. Não gostamos de ser tratadas no masculino porque nenhum homem nos representa nem nós representamos os homens. Ambos existimos e queremos continuar a ser todos/as olhados/as e tratados/as com respeito e admiração pelo que somos, e não pelo sexo com o qual nascemos.

Lutamos por uma sociedade inclusiva para todos os seres humanos. Queremos um mundo novo para que toda a gente seja feliz e respeitada, independentemente dos credos, religiões, orientações sexuais ou outras coisas que defendam. Cada pessoa é que sabe da sua vida. Cada pessoa é que sabe do que gosta. Cada pessoa é livre para decidir o que quer fazer da sua vida.

Defendo que o que deve predominar nas nossas vidas são todas as cores do arco íris. Só com esse colorido da vida é que podemos continuar a sonhar em ser felizes durante e depois da pandemia. Não podemos deixar de sonhar e de querer que a vida nos proporcione vivências mais felizes, onde cada ser humano tenha o mesmo direito a ser feliz e realizado.

Utopia, dizem. Então, sou defensora de utopias. Precisamos de acreditar que vamos ultrapassar esta pandemia e que, entretanto, não deixamos de lutar por aquilo que consideramos justo. É isso que tem feito a UMAR/Madeira, tentando aproveitar estes novos tempos para organizar documentação que retrate a memória coletiva do que tem sido a luta das mulheres. Queremos deixar o nosso contributo, até para que a memória não se perca. Estamos a trabalhar em mais documentos que servirão para debates futuros, porque a pandemia vai passar e vamos continuar a lutar por um mundo novo sem desigualdades e com mais empatia entre todas as pessoas.

A nossa luta por um Feminismo de intervenção não para e nenhuma pandemia o vai destruir.

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19
Abr21

Petição pública para termos calma com as petições públicas


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ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Fleabag, para mim, uma das melhores séries feitas nos últimos anos, tem uma frase que podia ter sido escrita por mim, caso tivesse o talento da Phoebe Waller-Bridge. Enquanto caminha na rua com o seu “Padre Amaro”, Phoebe responde às suas palavras motivacionais com um “não me tornes uma optimista, vais arruinar a minha vida”. Como pessimista militante, padeço do mesmo receio. A minha sorte é o ser humano ser bastante consistente em práticas que me levam a achar que estou do lado certo da barricada – alerta “não sou niilista, mas…”.

No meu penúltimo rabisco aqui no blog irritei-me com o comportamento questionável – fazendo uso de um eufemismo – com que a população estava a lidar com a pandemia e teorias da conspiração.

Hoje, este avô rezingão que vos escreve, qual Larry David, está com urticária por causa das petições públicas. São um instrumento democrático muito valioso, sem dúvida, que têm como objectivo dar voz a causas ou injustiças que não têm o merecido mediatismo. E, caso atinjam as 10 mil assinaturas, serão debatidas em plenário da Assembleia da Républica. Problema: nos últimos tempos, sempre que há algum ruído acerca de petições é pela sua boçalidade gritante – segundo e último eufemismo, prometo.

Uma das mais faladas foi a que visava Mamadou Ba. A petição, que conta com mais de 32 mil assinaturas, pedia a expulsão do activista de Portugal. Quando vi o título até pensei, por momentos, que o Dirigente da SOS Racismo tivesse entrado num desses reality shows bizarros que nos tem invadido os televisores nos últimos tempos. Depois, fui ler o texto em questão e concluí que dizia algo como “nós não somos racistas, mas se queres ter uma voz activa vai para a tua terra”. Lamento ser o portador das más notícias, porém o pós-virgula anula brutalmente o pré-virgula da frase.

Lembrei-me que Joacine também tinha sido protagonista de uma dessas petições; no seu caso, exigiam o seu impedimento de tomada de posse como deputada. Com mais de 22 mil pessoas a subscrever essa intenção, os motivos eram semelhantes aos das 32 mil que desejavam ter o poder de Teresa Guilherme ao exigir que o concorrente Mamadou abandonasse, não o Big Brother, mas neste caso, Portugal.

O juiz Ivo Rosa também já leva com quase 200 mil pessoas a quererem que seja “afastado de toda a magistratura”. Estou a anos-luz de ser um socratista pois confesso-vos não ser um especial apreciador de pessoas egocêntricas e mitómanas, mas parece-me que estamos perante uma cultura do cancelamento mais formal, para quem não tem conta no Twitter.

Todavia, não se deixem enganar, isto não é só para quem não perde um episódio da Quadratura do Círculo desde 2005. Há também algumas mais diversificadas como uma que pede o regresso das bombocas – o doce, não o duo de música popular, autor de temas como "Roda roda a cabecinha” – outra que exige uma auditoria à votação do último Big Brother Duplo Impacto, num processo que, caso aconteça, sugiro que se chame “Operação Abre-Olhos™”, ou mesmo uma que pede que proíba o ananás na piza – se bem que esta já me parece mais sensata.

Mas se a ânsia do leitor por assinar coisas for assim tão incontrolável sugiro, antes, que assinem a Amazon Prime e vejam a deliciosa série Fleabag.

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13
Abr21

Violência nas Redes Sociais, uma realidade atual!


umarmadeira

ARTIGO DE MARGARIDA PACHECO

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Hoje em dia vivemos todos/as conectados/as pela internet. O mundo virtual e as redes sociais trouxeram uma nova forma de nos relacionarmos com as outras pessoas e com a realidade que nos rodeia. Estaremos todos/as mais conectado/as com a internet ou estaremos todos/as menos conectados/as com a realidade? Com a pandemia, houve um aumento do uso das redes sociais, que se tornaram uma fonte importante de conexão, de comunicação e de partilha. Ajudou-nos a sentirmo-nos conectados com o mundo, com as pessoas e também com nós mesmos/as. Com o isolamento físico e o aumento da conexão virtual das nossas relações interpessoais, será que podemos separar o mundo virtual do mundo real? 

Há cada vez mais redes sociais diversificadas que têm fatores positivos como, a rápida partilha de notícias, a criatividade e a possibilidade de falarmos sobre temas e problemáticas a nível mundial. No entanto, há também o lado negativo. A interação nas redes sociais emerge como um espaço de violência através de manifestações de ódio. Muitas vezes as pessoas fazem comentários depreciativos, humilham, ameaçam e exercem violência psicológica. Muitos desses comentários são feitos anonimamente, com recurso a perfis falsos, mas que têm um grande impacto na vida de todos nós, principalmente dos/as jovens. Essas manifestações de ódio têm sempre como base a discriminação, a opressão, a exclusão, e os estereótipos e preconceitos que continuam a ser perpetuados e legitimados na nossa sociedade. Os comentários de ódio presentes nas redes sociais que são manifestados através do racismo, da xenofobia, do sexismo, da homofobia, da transfobia e do classicismo, são uma nova forma de violência de exercermos a violência estrutural, cultural e simbólica na qual a nossa sociedade é desenvolvida.  

Tem se refletido cada vez mais sobre o impacto do mundo digital. A desvalorização de nós mesmos/as, a falta de sentimento de presença, a comparação negativa com as outras pessoas, a falta autoestima, são algumas das consequências negativas que todos/as nós sofremos devido à violência exercida nas redes sociais. 

 É importante alertar e consciencializar a sociedade sobre as várias formas de violência e o impacto que estas têm na nossa vida, seja nas relações interpessoais, na escola, no trabalho ou até mesmo, na relação com nós mesmos/as. É ainda necessário refletirmos em sociedade sobre estas consequências de modo a promovermos uma sociedade mais igualitária e inclusiva, que previna a violência dentro e fora do mundo virtual. Precisamos urgentemente de desenvolver políticas públicas e educativas para a prevenção e combate aos discursos de ódio e violência online.

A violência nas redes sociais é uma realidade atual. Por isso, precisamos de compreender que esta violência o é um espelho daquilo que se passa na nossa sociedade e que todos/as fazemos parte deste problema.

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22
Mar21

Mulheres na política e na vida pública


umarmadeira

ARTIGO DE MADALENA SACRAMENTO NUNES

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Em política, quando se fala de igualdade entre homens e mulheres, tendemos a olhar para a presença delas nos parlamentos, nas assembleias, nos executivos, etc. Contam-se quantas lá estão (não interessa o lugar ou a função) e apregoa-se que se implementou a paridade. Na minha opinião, nada mais falso e enganador. É importante que as mulheres entrem na política, claro. Mas para que a sua ação seja influente e decisória é necessário que os papéis que lhes são atribuídos sejam importantes e não meros adornos. É fácil de verificar que muitas delas entram nesses lugares simplesmente para preencher espaço sem relevância e calar vozes que defendem essa mesma participação igualitária na vida dos territórios regionais, nacionais, europeus. Façam um exercício e olhem com lentes mais críticas para algumas realidades que nos cercam:

  • Quantas vezes são elas escolhidas para serem porta-vozes (parlamentares ou outros)?
  • As pastas que lhes são atribuídas mantêm os estereótipos femininos, apresentando-as como as melhores pessoas para as funções sociais de cuidadoras ou educadoras?
  • Que orçamentos são adstritos às suas áreas?
  • Quantas estão em comissões consideradas verdadeiramente importantes e com visibilidade mediática?
  • Quando se constituem comissões consideradas decisivas para o país ou região, que equilíbrio de género lá existe?
  • Quando se dá visibilidade ao trabalho desenvolvido por elas, quem aparece na comunicação social a apresentá-lo?

Falar em igualdade de género fica sempre bem e dá imenso jeito. Ser consequente já custa mais, pois implica ser verdadeiramente defensor ou defensora desses princípios, abdicando da ânsia de protagonismo e poder. E isso não é fácil. Os partidos políticos são importantes como fatores de participação das mulheres na vida pública. Contudo, também devem constituir-se como instrumentos que promovem as mulheres a cargos de decisão. Penso que nos lembramos de Rui Rio afirmar que em mais de cem câmaras o PSD só escolheu 3 mulheres para presidentes de câmara (!!!) porque elas não aparecem!!! Se olharmos para a composição atual da Câmara Municipal do Funchal, chegamos à conclusão de que em reunião de câmara existem mais mulheres (6) do que homens (5). Contudo, também aqui convém olhar com atenção e perceber por que razão isso aconteceu. Elas estavam em lugares dificilmente elegíveis e só subiram porque os homens que estavam à sua frente desistiram.

Observem os programas das televisões e verifiquem quantas mulheres são convidadas para falarem como especialistas ou como pensadoras da política regional, nacional ou internacional. Muito poucas. São sempre eles os escolhidos. Quer sejam especialistas ou não. Ninguém questiona.

Para que estas coisas mudem é necessário que quem acredita na democracia representativa faça ouvir a sua voz, seja homem ou mulher, partido político ou órgão de comunicação social. Criticar. Escrever. Falar. “Fazer barulho”. Tudo isto é importante. Só assim as mulheres poderão vir a estar representadas na vida pública e política em termos paritários e correspondentes à sua proporcional presença na população portuguesa (52,8%).

Não esqueçam que hoje em dia há um movimento cada vez mais intencional que defende o regresso das mulheres ao “lar”. Tal como escrevi no meu primeiro artigo para a UMAR Madeira, “A única coisa que cai do céu é chuva. O resto é luta!”

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02
Mar21

Consequências da pandemia!


umarmadeira

ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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Neste já longo período da pandemia covid-19, as mulheres têm vivido momentos de grande stress e ansiedade, sendo confrontadas com muitas informações sobre a pandemia. Algumas verdadeiras, outras nem tanto, aparentemente com o intuito de confundir e baralhar as pessoas menos esclarecidas, e menosprezar a gravidade da pandemia que se abateu sobre a Humanidade. Ao longo deste período, muitas/os perderam as suas vidas, outras/os ficaram sem meios para viver com alguma dignidade: perderam o emprego, a sua habitação e os seus rendimentos, com graves consequências para as suas famílias.

Com o evoluir da pandemia e as suas medidas de confinamento, muitas famílias viram-se sem meios para sobreviver, sendo obrigadas a recorrer a Associações, IPSS e Juntas de Freguesias, etc.. Precisam de auxílio para poderem ter comida na mesa. Outras, nas suas casas, mesmo com grandes dificuldades, mas envergonhadas, porque nunca pensaram que algum dia seriam confrontadas com a pobreza e miséria, pois essa situação só acontecia a outras pessoas. Chegar ao fim do mês e não ter meios para pagar as suas despesas era impensável.

Por outro lado, algumas Mulheres sentem alguma revolta por haver pessoas sem escrúpulos a se aproveitar da pandemia. Enquanto aumenta o desemprego e a pobreza, cresce o número de milionários, que esvaziam os direitos de quem trabalha e aumentam o trabalho precário, baixam salários e ameaçam com despedimentos das e dos que mais sofrem com esta pandemia. Incentiva-se o drama do teletrabalho para milhares de mães e pais com crianças a cargo, com o novo confinamento, onde o governo insiste em manter um regime que deixa as pessoas entre a espada e a parede. Muitas mulheres são forçadas a acumular o teletrabalho com assistência às crianças, situação que provoca stress laboral, instabilidade emocional e intranquilidade familiar. Toda esta crise tem escancarado cada vez mais desigualdades na partilha de tarefas. As mulheres são as mais sacrificadas com esta pandemia. As consequências do teletrabalho têm uma dimensão na igualdade de género.

A crise social vai deixando as pessoas desesperadas, porque não são momentos propícios à socialização, à convivência que nos aproxime enquanto seres humanos. No que toca à violência doméstica, contra mulheres e crianças, o próprio confinamento e com as crianças fora da escola é propício a essas situações de agressão, dificultando a queixa.

Embora tenha havido ao longo dos últimos anos algum trabalho de consciencialização sobre a criminalidade dentro de casa, ainda morrem muitas mulheres, muitas crianças são vítimas de violência e, como se ainda não bastasse, somos um dos países que pior tratam as pessoas idosas.

Há ainda um longo caminho a percorrer na prevenção, sendo muito importante a disciplina de ensino para a cidadania. Há que continuar a luta por uma justa distribuição dos rendimentos que garantam a solidariedade, protejam os direitos das crianças e promovam a justiça social.

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I Passeio dos Livros nos Jardins do Lido 03/08/2018

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