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Feminismos é Igualdade

19
Out19

A Comunidade LGBTI


umarmadeira

ARTIGO DE EMANUEL CAIRES

homofobia-luta

Não tem muitos anos quando comecei a acreditar que a expressão “comunidade LGBTI” não fosse a mais indicada para nos referirmos às pessoas queer num todo. Acreditei que referirmo-nos como comunidade, é reconhecermo-nos como segregantes à restante população. E, de facto, quando se luta contra a homobitransfobia, não é realmente isso que se pretende. Pretende-se numa real inclusão das pessoas LGBTI na sociedade.

 

Com os tempos difíceis que atravessamos, socialmente, politicamente e a nível económico, apercebi-me que o importante é agirmos em comunidade. Esta ação em comunidade significaria a nossa sobrevivência e resiliência perante as adversidades. E, realmente, creio que esta ação em comunidade é algo em falta nos dias de hoje.

 

Agir em comunidade é como agir em família. Cuidarmo-nos, respeitarmo-nos, preocuparmo-nos… uns com os outros. E comecei a entender que isto acontecia comigo. Mas ao mesmo tempo percebi que a ação em comunidade está em vias de extinção, e não devia. O sentido de comunidade é a chave para que as conquistas não sejam reversíveis.

 

Por isso, vamos olhar mais uns pelos outros, ao mesmo tempo que fazemos mais e melhor para uma sociedade igualitária.

 

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29
Jun19

O Ego do Orgulho


umarmadeira

ARTIGO DE EMANUEL CAIRES

lgbt

Ontem assinalaram-se 50 anos após o início das Revoltas de Stonewall - sim, foi uma sucessão delas! - em Greenwich Village, Nova Iorque, o grande marco que se considera ser o grande impulsionador do movimento pelos direitos LGBTI+. Hoje, em Lisboa, marcha-se pela 20.ª vez, onde pela primeira vez se faz história ao se formar um bloco insular que vai tirar as ilhas do armário. Um caminho percorrido por entre muitos obstáculos, tal como se pode verificar no documentário "A Vida e Morte de Marsha P. Johnson", que nos fala da vida de duas das grandes ativistas, também de Sylvia Rivera, que impulsionaram a Revolta.

Há duas semanas, ao ver o documentário, deparei-me com uma realidade que não é assim tão distante. É precisamente nos países desenvolvidos que as cores do arco-íris começaram a ser comercializadas pelas empresas, que viram nos eventos de Orgulho LGBTI+ uma oportunidade para lucrar. Nos anos 60, já esta era uma questão, com os estabelecimentos noturnos e os primeiros eventos de Orgulho a serem geridos pelas máfias, e com os lucros a não serem investidos de volta na comunidade e no combate à homobitransfobia. É uma promiscua realidade, que sendo difícil de combater deixa nas mãos da organização dos eventos de Orgulho LGBTI+, a responsabilidade de defender os interesses da comunidade sem que os interesses das empresas se sobreponham.

É importante salientar que mesmo nos anos 60 e 70, no início do movimento, já os egos, os atropelos e o oportunismo eram parte do ativismo LGBTI+. Neste caso, a luta era essencialmente feita por pessoas trans e de géneros não-binários, pretas, bissexuais, trabalhadoras do sexo, sem-abrigo e seropositivas, que eram invalidadas por homens cis gay brancos. Rivalidades que fizeram com que muitas destas pessoas, com altos níveis de intersecionalidade, acabassem por se retirar do ativismo e a não se identificarem com o que era feito, formando movimentos alternativos.

Marcha P. Johnson e Sylvia Rivera, viram mesmo as suas vozes abafadas e, durante algum tempo, foram personae non gratae. Esta é também uma realidade atual, até mesmo na nossa região. Depois de três anos de ativismo puro, com uma sinergia de pessoas e associações realmente empenhadas nos interesses da comunidade, na luta contra a homobitransfobia e na progressão da igualdade, tenho verificado nos últimos meses um afastar de pessoas e associações que eram pontes e pilares importantes no ativismo LGBTI+ na região.

Pessoalmente, acho que é altura de pausar e repensar se são realmente os interesses da comunidade que estão em cima da mesa, se são os egoísmos ou se é o oportunismo de se conseguir um tacho. Em 50 anos conseguiu-se tanto porque houve união e um conjunto de estratégias e sinergias internacionais. Em 20 anos de Orgulho em Portugal, conseguiram-se relevantes alterações legais porque houve, também, um trabalho conjunto. Na Madeira, em apenas 3 anos, conseguiu-se criar um núcleo local de uma associação de jovens lgbti, realizaram-se inúmeras atividades para jovens, implementou-se um projeto de debate e informação sobre questões LGBTI+ nas escolas, realizaram-se ciclos de cinema e ações para assinalar o Dia Nacional e Internacional de Luta Contra a Homobitransfobia, a Câmara Municipal do Funchal hasteou a bandeira arco-íris por duas vezes, juntámos associações à mesma mesa para trabalhar as questões LGBTI+, deu-se novo fôlego ao ativismo e associativismo regional, estamos a caminho do terceiro Madeira Pride, o Governo Regional quis apoiar a abertura de um Centro Comunitário LGBTI+ e começam a abrir-se portas para o turismo e comércio LGBTI+ através da abertura de um hotel hetero-friendly da Axel.

Conseguiu-se tanto progresso porque se criaram sinergias cruciais entre pessoas e associações que jamais devem ser destruídas, mas sim fortalecidas. É o meu apelo: pessoas lgbti+ e apoiantes, unam-se, pois quanto mais orgulho se encherem os nossos peitos, maiores feitos serão os que vamos conseguir.

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08
Jun19

Boy George e a Causa LGBTI+


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ARTIGO DE CARINA TEIXEIRA

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Hoje vou falar-vos de uma pessoa que, para mim, para além de ser um excelente cantor, é sobretudo um ativista. Um ativista da Causa LGBTI+. Falo-vos de Boy George, vocalista dos Culture Club. Boy George é considerado um dos grandes ícones da música pop dos anos 80. No entanto, ao longo da sua vida sofreu muita discriminação pelo facto de ser gay, de usar roupas extravagantes, cabelo longo com tranças e maquilhagem muito marcante. "Nunca pude esconder que sou gay desde os seis anos. Fui chamado de garota, de queer, de 'coisa'. Então sempre estive consciente que o mundo é um lugar horrível. Acreditei e reproduzi isso por muitos anos, que o mundo não mudou nem um pouco.", disse em entrevista à NME no final do ano passado.

Foi impedido, em 2009, de se tornar membro do movimento Hare Krishna (movimento ligado à espiritualidade), pelo facto de ser gay. Boy George sempre se declarou simpatizante deste movimento, mas para entrar não poderia ser LGBTI+, uma vez que segundo as crenças do movimento, o sexo e o desejo não conduzem à existência espiritual e o sexo só poderá ser feito para fins de reprodução.

Contudo, apesar de toda a discriminação vivida, o vocalista dos Culture Club sempre lutou de alma e coração pelos direitos LGBTI+, transpondo para algumas das suas letras e videoclips reinvidicações de direitos e a demonstração de amor homoafetivo. Alguns exemplos: "a música "No Clause 28" (álbum Sold - lançado em 1989), é uma afronta a Margaret Thatcher, que proponha a censura ao LGBTI+, a proibição de se falar na homosexualidade e fazer publicações sobre o assunto; a música "Turn 2 Dust" (lançada em 2011), que fala acerca do movimento LGBTI+, da importância de se lutar por aquilo que se acredita, independentemente do caminho ser difícil ou não; e, mais recentemente, a música "Love and Danger", em que é abordado no videoclip o relacionamento homoafetivo entre dois homens.

Hoje em dia, depois de uma carreira a solo, voltou a lançar um álbum com os Culture Club chamado "Life", que fala acerca das suas experiências de vida, nunca deixando de mencionar nas entrevistas a importância do ativismo, dos direitos LGBTI+ e a sua evolução ao longo dos anos. As pessoas consideram-no "pop ícone do género fluido", mas para Boy “O género fluido sugere que há a possibilidade de mudança e ela neste caso não existe. Eu sou um homem gay antiquado.”

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07
Jan19

O Mundo preocupa-me...


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ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

mundo

Assusta-me o rumo que o nosso Mundo tem vindo a tomar… Nos últimos anos, assisti a uma série de lutas pelo reconhecimento de direitos e igualdade. Entre elas, estão as lutas de mulheres, jovens, comunidade LGBT, etc. Porém, é com muita tristeza que observo um aumento das ameaças, das discriminações, das desigualdades, das violências...

Estamos a assistir a um fenómeno mundial. Tenho visto um forte crescimento dos fundamentalismos, da intolerância e do conservadorismo, bem como a defesa pública de posições contrárias aos direitos humanos, totalmente xenófobas, anti-igualitaristas, racistas, patriarcalistas, homofóbicas e que não aceitam os avanços da igualdade, seja no acesso aos direitos, seja nas liberdades de escolhas e expressões. Por detrás destas manifestações e discursos, constroem-se figuras públicas e políticas, como é o caso do Trump nos EUA, o Erdogan na Turquia – e passo a citar uma frase desta figura: "Uma mulher que nega ser mãe, que se recusa a cuidar da casa, é incompleta e deficiente”. Ora, isto é um absurdo total, e a mais recente figura, o Bolsonaro, acabou de chegar à presidência do Brasil.

Mas existem muitas mais figuras como estas pelo mundo fora. Com este tipo de mentalidades a comandar o Mundo, as consequências são assustadoras! O nosso Mundo caminha para o retrocesso. Passamos a ter sociedades mais limitadas nas liberdades, menos tolerantes e mais violentas com as diferenças, mais liberais no que diz respeito à defesa da violência como mecanismo de proteção e do avanço de fazer a justiça pelas próprias mãos.

É a triste realidade que enfrentamos, sociedades menos democráticas e igualitárias. A Europa, que para mim sempre foi um exemplo de defesa e de respeito na questão dos Direitos Humanos, nos últimos anos só tem demonstrado uma crise humanitária ao deportar milhares de migrantes, para já não falar nos que deixaram morrer no mar Mediterrâneo. Mas o que se passa com este Mundo?

Falamos em Direitos Humanos, direitos que nos pertencem desde que nascemos, e a igualdade deve ser prioritária no Mundo. Todo o ser humano deve ter os seus direitos! Mas será que estes malucos eleitos governantes não sabem o que são Direitos Humanos? Eu exemplifico: é ter direito à vida, habitação, alimentação, saúde, educação, ao desporto, à cultura, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito, ao acesso à justiça e à segurança pública. Estão a ver? É tão simples, todos estes direitos devem ser garantidos pelos governos.

Não podemos nem devemos aceitar que todas as conquistas alcançadas, com muita luta e com algum sangue derramado, sejam destruídas. Que mais podemos fazer para mudar as mentalidades que não ponderam sobre este assunto e que precipitam o Mundo para um caminho que poderá ser desastroso?! Como disse Martin Luther King “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” Por favor, que o Mundo não se cale!

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13
Nov18

O ativismo, da minha vida...


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ARTIGO DE EMANUEL CAIRES

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A minha lagartazinha do ativismo começou quando fiz o meu coming out como homem gay à minha família, e transformou-se num bicho quando o VIH entrou literalmente na minha vida. Não sei como agarrei em duas coisas que me deixaram marcas tão fortes e as transformei num incentivo para mudar o mundo, mas realmente fi-lo. E geralmente são estas, as pessoas que mais marginalizadas pela sociedade são, que se emancipam e empoderam de tal forma que se tornam as maiores e melhores ativistas.

Este bichinho do ativismo cultivou-se quando, pela rede ex aequo, viajei até Lisboa para uma formação de voluntariado. Apercebi-me do quão a Madeira estava atrasada em relação à capital. Faltava o empoderamento, o apoio e a união de uma comunidade que, até hoje, estava altamente fragmentada pela falta de um espaço comunitário, de reunião e convívio. Isto para dizer que estes intercâmbios são cruciais para as comunidades das regiões insulares e interiores, porque permitem motivar pessoas que, consequentemente, empoderam a sua comunidade local.

Quando comecei a dar os primeiros passos para criar o núcleo lgbti funchal da rede ex aequo, não me apercebi do quão emocionalmente envolvido estava a ficar na causa nem da responsabilidade disso. Comecei a remar contra mim próprio: introvertido, reservado e distante, mas a vontade para mudar o mundo era tão maior! Criou-se de certa forma um conflito entre o que eu queria fazer, e aquilo que a minha personalidade me permitia. O ativismo requer, por vezes, um alto nível de socialização e exposição, a vários níveis, principalmente quando são as nossas experiências e as nossas identidades que são usadas como forma de consciencialização e empoderamento das comunidades.

A verdade é que, apesar deste conflito interior, fiz para trazer mais juventude para este ato político que é o ativismo. Parece-me importante que a juventude esteja envolvida na renovação social das comunidades e da sociedade em geral, pois é este trabalho que definirá o futuro da nossa juventude, já que o ato político não se pode ficar apenas na vontade (ou falta dela) de voto, tem que expressar-se no nosso dia a dia, na reunião e na associação. Porque com a união se faz mais e se faz melhor!

Nestes 3 anos envolvido no ativismo de reconhecimento dos direitos humanos e, em particular, de luta pelos direitos lgbti+, apercebi-me que apesar de tudo vale sempre a pena transmitir mensagens positivas, mesmo que num meio pequeno e limitado isso seja ainda mais difícil. É importante o recurso às boas emoções e aos bons sentimentos, incentivando, inspirando e, talvez, dando a liberdade a nós próprios de nos tornarmos numa referência para as pessoas que muito dificilmente conseguem fazer-se ouvir fora do armário.

Percebi, também, a responsabilidade de ser a voz de uma comunidade e a importância de que essa voz continue a verbalizar as necessidades da população lgbti+ na Madeira e Porto Santo.

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08
Out18

Funchal Pride e os Preconceitos


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ARTIGO DE JOANA MARTINS

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Pelo segundo ano consecutivo, participei na marcha e arraial do Funchal Pride, como pessoa, ativista, humanista e UMARista. Ainda me faz muita confusão a hipocrisia e quantidade de preconceitos patentes na sociedade quando, na realidade, cada pessoa tem o direito a ser como é, a se expressar como deseja e a amar quem ama, sem ter que estar constantemente sujeita a juízos de valor, a discriminações e a insultos. A diversidade deve ser apoiada, respeitada e abraçada.  Só o Amor é real. Isto deveria ser claro como água e o respeito deveria estar acima de tudo.

Mas, infelizmente, ainda há um longo caminho a percorrer. Apesar de ser heterossexual, julgo ser importante fazer parte da causa LGBTIQ, como feminista que sou, que defende a igualdade de género. A luta pela igualdade não tem sexo, nem género, nem orientação sexual. É de todas e de todos. Enquanto houver discriminação e incompreensão, não existirá uma verdadeira igualdade.

Deixo-vos um poema sobre os preconceitos, que poderão encontrar no meu livro “O Sonho, a Vida e o Universo: pelos olhos de uma mulher”. Sejam quem são, aceitem as outras pessoas tal como são, e sejam felizes. O mundo irá se tornar, de certeza, um lugar bem melhor.

 

PRECONCEITOS

 

Se emagreço estou doente,

Se engordo sou descuidada…

Que sociedade exigente!

 

Se sou feia não tenho saída,

Se sou bonita não tenho conteúdo…

Que sociedade deprimida!

 

Se estudo não tenho mais que fazer,

Se trabalho sujeito-me a tudo…

Que sociedade de maldizer!

 

Se vou à missa sou uma beata,

Se não vou à missa sou má pessoa…

Que sociedade insensata!

 

Se gosto de homens estou desgraçada,

Se gosto de mulheres fujam de mim…

Que sociedade limitada!

 

Se não me caso sou pecadora,

Se me caso sou obediente…

Que sociedade conservadora!

 

Se não tenho filhos fico pra tia,

Se tenho filhos fico no lar…

Que sociedade negativa!

 

Se limpo a casa, sou uma rainha

Se não limpo, sou uma incapaz…

Que sociedade atrasadinha!

 

Deixem de lado a maldade

E ajam com mais delicadeza.

Entendam que na diversidade

É que está a nossa riqueza.

 

Somos iguais e diferentes

Mas temos os mesmos direitos,

Sejamos então mais coerentes

E abandonemos os preconceitos.

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01
Out18

LGBTI+ na Madeira: a luta das pessoas trans


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ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Ela exibe uma longa cabeleira negra, bem tratada. Usa maquilhagem e saltos altos. O vestido combina com os brincos: com a sua alma. No entanto, ainda convive com o nome que mais odeia, em todas as circunstâncias da sua vida: António. Queria ser Maria. É Maria, simplesmente. Porque Maria é mãe e isso é algo que ela deseja, há muito. Há quem comente, entre dentes. Há quem sorria para ela. Há quem, até, pare para a ver passar. “Traveco”, diz um homem. Maria permanece envolvida numa aura de felicidade, como se nada, para além daquele desfilar de quem é, existisse. Mas existe e o que existe não é bonito.

O preconceito (ainda) embaça as vidas de quem se assume como é: gostar de pessoas do mesmo sexo; gostar de pessoas independentemente do sexo; confrontar um corpo que não se coaduna com aquilo que se sente; e toda uma série de questões ligadas à orientação sexual, expressão e identidade de género. A sigla foi crescendo, acompanhando as causas que defende e as pessoas que, ao mundo, querem gritar aquilo que são, que gostam e a forma como se expressam e, sobretudo, garantir para si, e para quem ainda vive em esconderijos, (alguns) direitos e liberdades que, há muito, já são miudezas do dia-a-dia para os/as que se encaixam no padrão heteronormativo socialmente aceite.

Ser LGBTI+, na Madeira e Porto Santo, é uma luta constante. Ser uma pessoa trans, na Madeira e Porto Santo, é uma luta ainda mais sofredora. O acesso a cuidados de saúde específicos para as pessoas trans são inexistentes e o serviço público deveria assegurar as especialidades de sexologia e endocrinologia, sendo que, para cirurgias, deveria garantir as despesas de deslocação até aos hospitais de Lisboa, Porto ou Coimbra – ainda que estes não se encontrem a funcionar de forma adequada. As pessoas trans madeirenses e portossantenses são obrigadas a deslocar-se para território nacional para aceder a estes cuidados de saúde. Esqueci de acrescentar: as pessoas trans madeirenses e portossantes que têm meios financeiros ou um suporte familiar que lhes permita esse direito. E quem não tem? Maria não arranja trabalho. Ninguém a contrata. Em casa, os pais ignoram a realidade. Maria continua a ser o António.

Dia 6 de outubro de 2018, pelas 15h00, com partida no Largo do Município, acontece a 2ª Marcha do Orgulho LGBTI+, na Região, sob o mote “Transpor Preconceitos”, seguindo-se o Arraial LGBTI+, no Jardim Municipal. Marcharemos pela reivindicação de direitos humanos para as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexo. Marcharemos para que a Maria deixe, de vez, o António nas suas recordações de uma vida passada.

 

*O Funchal Pride é organizado por: rede ex aequo; Organização Abraço - Delegação do Funchal; Fundação Portuguesa "A Comunidade Contra a SIDA"; UMAR/Madeira; Mad le's Femme; Núcleo Amnistia Internacional Funchal e Opus Gay Madeira.

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20
Ago18

Nanette: Porque todas as histórias merecem que o seu final seja ouvido


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ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Certamente que já se depararam com a palavra "Nanette" nas vossas odisseias pela internet. Uns foram ver do que se tratava, outros continuaram com o scroll. É para estes últimos que me dirijo: Não! Não fechem os olhos a este nome, pois esse cerrar é o responsável por estas histórias serem um habitué.
 
Hannah Gadsby, a cara, corpo e alma deste especial de stand-up, é uma mulher lésbica e gorda - sim, esta informação é crucial para a história e não preconceito gratuito da minha parte - proveniente da Tasmânia, essa bela ilha australiana onde a homossexualidade foi crime até ao "remoto" ano de 1997.
 
Hannah chega à maior plataforma de streaming da actualidade com um intuito, no mínimo surpreendente: este especial é o seu adeus à comédia. E porquê? Por estar farta de apenas ter conseguido ser ouvida pelo seu humor auto-depreciativo, subgénero, esse, que é tão válido como qualquer outro, sendo, para muitos, uma catarse onde conseguem aceitar as suas características mais risíveis (para os outros, obviamente). Neste caso foi auto-destrutivo. 
Entre gargalhadas e lágrimas, Hannah fala sobre as dificuldades de ser dona daquele corpo e da sua orientação sexual e de como é viver a odiar tudo o que se é.
 
Para muitos, não se trata de um stand-up porque a piada não é a principal meta. Para outros, significa a representação de todo o sofrimento que foi silenciado pelo seu meio.
Para mim, pode ser o que quiserem, desde que dêem uma oportunidade ao espectáculo e, no fim, se sentem um bocado, reflictam sobre o que aconteceu e vejam se são parte do problema ou da solução.
 
Tal como Nanette, este texto não vai terminar com uma punchline. Lidem com a tensão.
 
 

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