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Feminismos é Igualdade

05
Mai19

Divagações sobre a Arte...


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

arte

A resiliência de todos os povos e grupos que foram ocupados, oprimidos, maltratados, ignorados e explorados das mais variadas formas, ao longo dos tempos, é conhecida e, para além de estar registada, diretamente ou sub-repticiamente, nos documentos históricos, é tema recorrente na Ficção Literária, nas Artes Plásticas, na Música e em todas as outras Expressões Artísticas, não esquecendo o Folclore a o Artesanato.

Ainda que dedicasse este texto apenas enumerar os Artistas e Peças Artísticas que perpetuaram essa resistência e homenagearam a luta desses seres humanos a quem tanto devemos, faltaria sempre alguém ou algo. No entanto, não podemos esquecer que, tal como a História, também as Expressões Artísticas, ao longo dos tempos, sofreram as influências do poder dominante, das regras ditadas pela sociedade da época e da manipulação levada a cabo pelos contextos sociais e políticos.

Nenhuma destas contingências deve, na minha opinião, servir para desvalorizar uma obra de arte, mas sim fazer-nos refletir, pois, felizmente, a nossa visão sobre o mundo está a mudar e é com o novo olhar que essa mudança nos traz que devemos analisar a Arte e honrá-la, em todas as suas formas. Não há dúvida que temos uma dívida para com a Arte e os Artistas, que só poderá ser paga se exigirmos condições para que exerçam em liberdade e igualdade o seu trabalho, de forma que todas as franjas da sociedade sejam representadas. Estes são direitos que têm de ser respeitados, pois coartar esses direitos será comprometer o futuro legado da Humanidade.

Ao longo dos tempos, a fome e o ostracismo acompanharam aqueles Artistas que ousaram ser diferentes e ir contra os poderes instituídos, sendo atirados para a margem da sociedade e, muitas vezes, para a mendicidade como única forma de sobrevivência.

Se é verdade que a Arte permaneceu enquanto o poder e os poderosos ficaram perdidos na nebulosidade dos tempos, não podemos continuar à espera que esse reconhecimento seja trazido pelo futuro. Não podemos continuar a aceitar que a mão protetora dos diferentes regimes nos guie pelas Galerias, pelos monumentos, pelas Livrarias e pelas salas de Espetáculo. Vamos valorizar os nossos Artistas Aqui e Agora.

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27
Abr19

Da liberdade de escrever...


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

escrever

Abril, mês da liberdade. Ontem lancei um livro erótico. O ano passado, por altura do Dia das Mulheres, a Joana apresentou o seu primeiro livro de poesia. A Guida escreve mensalmente para o Diário, fora tudo o que já publicou. A Conceição também escreve desde há muito. Elas, assim como a Assunção, a Cássia e a Carina exprimem-se neste blog. Isto só é possível porque Abril, naquele 25 de cravos e esperanças, permitiu que as mulheres se expressassem livremente em Portugal.

A literatura escrita por mulheres não é moda; tampouco as opiniões escritas por elas. O que se destaca agora, e cada vez mais, é uma adaptação do mercado editorial, cultural e político à voz das mulheres, sendo que até há poucas décadas eram elas quem se encaixavam, secretamente, muitas vezes escondidas sob pseudónimos masculinos, a um mercado feito por e dirigido a homens.

O relato masculino sempre foi o favorito. Repare-se que as grandes figuras femininas da literatura, aquelas personagens marcantes, foram descritas por homens. Uma mulher que escreve sobre outra mulher terá, certamente, outra complexidade.

Sylvia Plath, Judith Shakspeare e Virgínia Stephen tentaram reivindicar igualdade através dos seus textos. As três suicidaram-se porque a pressão era muita. Por cá, em altura de repressão, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa decidiram escrever um livro juntas (“As Novas Cartas Portuguesas”), desafiando os papéis sociais e sexuais esperados das mulheres. Foram censuradas, perseguidas, interrogadas.

A literatura escrita por mulheres é fundamental: mais não seja por sermos mais de metade da população, por termos, como qualquer ser humano, ideias e ideais, sentimentos e opiniões, momentos e movimentos. Conquistamos, aos poucos, o nosso espaço merecido após séculos de opressão, de barreiras, de nãos. Queremos que a interação do feminismo com as artes faça com que a história deixe de ser escrita apenas por homens. Queremos participar. Queremos dar a cara e a voz. Queremos assinar com o nosso nome: Valentina, Joana, Guida, Assunção, Cássia, Carina e Conceição.

Abril trouxe-nos isto: esta gigante pertença a um mundo que é cada vez mais nosso, mais feito das nossas palavras – palavras diferentes porque somos todas mulheres diferentes, porque nos expressamos de forma diferente. A riqueza desta diversidade é o que se impõe agora. Escrevamos mais. Com gritos, se preciso for. Com fúria. Com sede. Mas escrevamos. Ninguém mais nos cala. Obrigada, Abril.

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06
Abr19

ZIPPY - Coleção sem género


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ARTIGO DE CLÁUDIO PESTANA

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Eu também já fui jovem e já fui estúpido. Confesso que, por vezes ainda o sou. No entanto devo dizer que algumas atitudes me fazem espécie.

Este recente rebuliço em torno da nova coleção “sem género” da conhecida marca de roupa infantil Zippy é somente mais um exemplo de que a estupidez humana pode ir longe, muito longe mesmo. Pode ir a sítios e espaços onde o humano não chegou ainda. Pode contornar desejos e vergar vontades. A história pode ser esquecida ou simplesmente ignorada como é o caso concreto da indumentária e costumes.

Ainda não ouvi nenhum “macho” chamar a si o uso de saltos altos como sendo um acessório masculino pois a sua origem remonta ao pé masculino da antiguidade clássica. Desde o Egipto até à Grécia clássicas, passando pelos cavaleiros persas a e pela idade média até cerca de 1500 o salto alto era de uso exclusivo masculino. Tanto quanto se sabe, apenas se avançarmos até pouco depois do ano 1500, em França, reconhece-se Catherine de Médici como uma das primeiras mulheres a utilizar saltos altos e após esta data através do monarca Luis XIV o uso de saltos altos voltou a entrar na indumentária masculina. Diga-se ainda que Luís XIV usou e abusou de outros luxos da época como era as perucas. É caso para dizer que homem de barba rija usava salto alto e peruca no início do século XVI.

Diria o nosso maior vulto da poesia que se mudam os tempos, mudam-se as vontades. Devo concordar, mudaram-se os tempos e mudaram-se as vontades também, em particular aquela vontade de ser estúpido e de se discordar de ciências que não se conhecem, principalmente aquela que se chama história. Se eu recuar até à minha infância, dou por mim, menino franzino, a usar os fatos de treino, da moda à época, das minhas primas.

Querer marcar a diferença, por via de uma opinião estapafúrdia, deverá ser acompanhada de algum fundamento. E, para meu desespero, os fundamentos para a não aceitação da famigerada coleção da Zippy é de que Deus não quis assim. Aquela ampla deambulação do pensamento crítico que se faz quando não se tem outra explicação. Também Zeus fora responsável pelas tempestades quando não se ocupava da mulher do próximo. Assim vai a aceitação de sociedade à igualdade de género. Parece-me bem mas discordo!

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26
Fev19

Há que viver e escangalhar o telemóvel...


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ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Corria o ano de 1993 e Anabela, com apenas 16 anos, vencia o Festival da Canção com o icónico tema “A cidade (até ser dia)”. Em segundo lugar ficaria o autodenominado “mãe do rock português” José Cid em parceria com Paulo Bragança. O jovem fadista era uma figura controversa na época: as suas roupas, as junções musicais que fazia ou o (hoje tão comum) facto de cantar descalço chocaram com o meio mais conservador do panorama musical do país. Cid chegou mesmo a criticar publicamente a sua indumentária, afirmando que os risos e comentários que provocou fizeram com que o público se distraísse da canção.

Anos depois, o “anjo caído do fado” – alcunha dada por Fernando Ribeiro – abandona o país e a sua carreira musical. O descontentamento com a indústria e os lobbies que ajudavam a construir/destruir um artista, conjugado com tormentas pessoais, foram as razões que o levaram em busca de um mundo novo. Andou pelo Leste da Europa, por Inglaterra e, finalmente, estabeleceu-se em Dublin a trabalhar como funcionário público. Conheceu o luxo. Chegou, efectivamente, a ser sem-abrigo em Londres, onde foi espancado por ter um cartão melhor para dormir. Na Irlanda, acabou por estudar filosofia e dar aulas. Em 2017, a convite dos Moonspell regressou a Portugal e ao mundo da música, depois de mais de uma década de exílio.

Passados 26 anos, temos no palco do festival outra figura diferenciada. Vestido com um robe preto e com uma máscara dourada na face. A seu lado tem um dançarino em tronco nu, coberto de brilhantes a condizer com a joia facial do cantor que faz uma dança que é um mesclado de vários estilos. Ele canta sobre telemóveis – ou não - no concurso, mas também já dedicou músicas a borregos, à celulite ou à pastelaria. Mistura fado com música dos Balcãs, ritmos africanos, árabes, eletrónicos ou qualquer outro som, às vezes inesperado como um microondas, que se esbarre com ele no dia-a-dia. Tal como António Variações, Paulo Bragança ou qualquer outro que trouxe algo de novo, foi ostracizado. Mas são precisos mais como ele. Não só artistas, mas como pessoas: talentosas, genuínas, singulares e luminosas.

O seu nome artístico provém da série japonesa "Conan, o Rapaz do Futuro", do lendário Hayao Miyazaki, e do deus egípcio. E, talvez, seja mesmo o protótipo de ser humano do futuro que todos procuramos: sermos nós próprios e viver a fazer o que realmente gostamos.

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15
Jan19

Ser apenas mulher não basta!


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ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

arcoiris

Muitas vezes perguntam-me porque gosto tanto da cor amarelo/dourado. Não sei. Talvez por me lembrar do sol, das estrelas, dos quadros do Vincent Van Gogh e do Gustav Klimt que matizei em tela nos 70. Ou então dos girassóis que adoro. Ou das bananas que gosto de comer, etc…

Mas também gosto do azul, a minha cor preferida para me vestir, em todas as suas matizes. E do rosa, sobretudo em roupa para dormir. E do preto e branco. E do cinzento. E do castanho. E do bege. E do verde do meu Sporting…E do vermelho, a cor da minha bandeira preferida. Enfim. Gosto do arco Iris.

Gosto de gostar e não gosto que me imponham regras no meu gosto. E, por isto mesmo, já não consigo suportar as declarações da ministra Brasileira que quer impor regras nas cores a serem usadas pelas pessoas dos diferentes sexos. Para além de demonstrar ter uma mentalidade em desuso, é completamente idiota dar ordens sobre a forma como a sociedade se deve comportar em relação à forma de se vestir.

Nem no tempo do fascismo em Portugal tivemos tal imposição. Vivíamos numa sociedade cinzenta e a preto e branco mas ainda conseguíamos mandar no nosso gosto. Muitas vezes faltava o dinheiro para concretizarmos o que gostávamos de vestir.

E, ainda por cima, a senhora “rosa” vem comparar o amor entre seres humanos a animais. Com todo o respeito pelo direito ao amor entre os animais, acho que esta ministra já não sabe o que diz. É tão estúpido, uma pessoa que tem como responsabilidade defender a família e os direitos humanos, vir fazer este tipo de comparações. Garanto-vos que me arrepia os cabelos.

Em pleno século XXI, quando achamos que muita coisa já está assumida e que temos é que partir para outras exigências, vem este tipo de gente nos alertar que nada está seguro e, por isso, há que estar vigilante, reagindo e desmontando os falsos argumentos educativos que querem fazer com que as sociedades voltem para trás. As mulheres e os homens, que se prezam de o ser, querem vestir todas as cores, querem amar quem quiserem, e querem que os seus direitos sejam plenamente concretizados. Não querem que ministras como estas mandem nas suas vidas.

O colorido lindo do povo Brasileiro não merecia ter uma mulher, ministra, tão reacionária como esta. Sei que o problema político foi a maioria dos eleitores terem votado num governo de direita. Mas lá porque foram eleitos não vamos deixar de fazer oposição ao que não achamos correto. Nunca votei nos governos regionais que nos governam há 43 anos mas nunca me calo quando acho que devo contradizer o que está mal.

Uma lição a tirar disto é que não basta ser mulher e estar no poder. O que move e transforma as sociedades são as ideias e as propostas concretas. Ser apenas, mulher, não basta. Este exemplo lembra-nos que temos que ter muito cuidado antes de escolhermos quem nos representa.

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17
Dez18

A Mulher e o Humor


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ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Estes dias, assisti à segunda temporada da maravilhosa série The Marvelous Mrs. Maisel. Passada no final dos anos 50, em Nova Iorque, o enredo acompanha o percurso de Midge, dona de uma vida bastante confortável: tinha dinheiro, dois filhos catitas e um homem que provocava inveja. Para a época, isso era o socialmente exigido às mulheres.

Tudo muda, no entanto, quando a protagonista experimenta fazer stand-up. A família não aceita ver uma mulher ter aquela postura, citando ser “inadequada e vergonhosa”. Os seus companheiros lidam muito mal com o facto de um ser-humano-não-portador-de-pénis ser melhor que eles. Mas Midge vai atrás do seu sonho, com a sua tresloucada agente, ignorando os julgamentos a que é sujeita. Para os maiores fãs de comédia, temos também um easter egg, que é Lenny Bruce. Sim, o lendário e corrosivo humorista é representado na trama e é um dos grandes aliados da personagem principal.

Na história do humor há uma prevalência enorme no número de homens comparativamente ao de mulheres. As razões já foram muito discutidas: há quem diga que se deve ao facto de a mulher ter que ser mais séria para a terem em consideração devido à máxima do “muito riso, pouco sizo”; para outros deve-se a que quando uma menina, na escola, brinca muito é excluída por ser a “palhacinha” - mesmo por outras mulheres.

Também há quem afirme que as que conseguem alguma visibilidade, perdem o interesse do público porque falam muito de “assuntos de mulheres”, que os homens têm menos medo de se submeter ao ridículo e, outros, como Hitchens, afirmam que o humor é desenvolvido como arma de sedução e, segundo ele, as mulheres têm outras armas para isso, ficando os homens com essa tarefa para cativar o sexo oposto.

Em Portugal, sempre tivemos excelentes actrizes de comédia, como Ivone Silva, Maria Matos, Mirita Casimiro, Maria Rueff, Ana Bola, entre outras tantas. Actualmente, há um grande leque de humoristas, com diversos estilos e capacidades, seja stand-up comedians, argumentistas ou locutoras, como Cátia Domingues, Joana Marques, Mariana Cabral, Joana Gama, Catarina Matos, Susana Romana ou Marta Bateira, que se juntam às últimas duas citadas. Felizmente, temos cada vez mais mulheres a fazer humor. Mais e melhor.

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06
Dez18

Com o cabelo curto, os gajos deixam-te em paz, não?


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ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

monalisa

O título deste artigo foi-me colocado em forma de questão por um conhecido. No desenrolar de uma conversa banal, perguntou-me isso. Intrigou-me a assertividade com que o fez, como se soubesse, de antemão, qual seria a minha resposta. Preferi retorquir e colocar-lhe, antes, uma dúvida:

- Os homens são assim tão frágeis nas questões de feminilidade e masculinidade?

Não me respondeu.

Cortar o cabelo, uma decisão puramente estética e, convenhamos, de tentar perder menos tempo e dinheiro com cuidados capilares, trouxe-me duas coisas: a liberdade que eu procurava e um rol de opiniões. Não devias ter cortado. Estás doente?! Mulheres devem ter o cabelo mais comprido. Os homens não gostam de cabelos curtos em mulheres. O teu namorado gosta desse cabelo? Podem pensar que és lésbica. És machona?

Cortar o cabelo: uma coisa tão simples e feliz para mim, um modo de estar, uma banalidade. Para a sociedade: mais um problema, mais uma imposição, mais um senão. A sociedade acha que mulheres de cabelo curto não são femininas. Não são atraentes. Não são heterossexuais. A sociedade acha que as mulheres devem manter cabelos compridos e tratados para seduzir os homens, para estarem atraentes para os homens. A sociedade acha, como tem a mania de achar, em tudo o que diz respeito às mulheres, ao seu lugar no mundo, às suas vontades, aos seus desejos, às suas formas de expressão. E eu estou farta disso. Fartinha até às pontas dos meus cabelos curtos que achem por nós, que pensem por nós, que decidam por nós.

Cabelo não define caráter. Cabelo não define género. Cabelo não define orientação sexual. Cabelo não define expressão de género. Cabelo não define beleza ou sensualidade. Cabelo não define profissionalismo ou responsabilidade. Cabelo não define empenho ou inteligência. Cabelo só define uma coisa: a minha vontade. E uma coisa que deveria ser tão simples, tornou-se uma afirmação diária do meu empoderamento.

Todas nós temos algo que é apontado pela sociedade. Seja o tipo de corpo, a forma de vestir, as escolhas, os sonhos, de quem gostamos, como gostamos, como reagimos, como interagimos. Todos os dias essas coisas são alvo de opinião. Todos os dias sofremos algum tipo de opressão, de repressão, de silenciamento.

Eu quero que os homens respeitem o meu não sem ser preciso uma justificação. Não quero que o façam por causa do meu cabelo. Ou da minha roupa. Ou da minha maneira de ser. Ou da minha profissão. Quero que me respeitem por mim: eu, mulher, ser humano, dona de um corpo, de uma cabeça, de um coração. Quero que nos respeitem por sermos simplesmente nós – mulheres: magras, gordas, donas de casa, empresárias, vistosas, recatadas, hétero, lésbicas, bissexuais, assexuais, trans, tímidas, extrovertidas, de cabelos rapados ou compridos, na rua, em casa, na família, no emprego, com deficiência, com limitações, com depressão, negras, brancas, latinas, asiáticas, solteiras, casadas, viúvas, meninas, raparigas, idosas. Todas temos uma voz e não queremos nada que se sobreponha a ela.

E já que falamos de cabelos: os meninos, rapazes e homens podem tê-lo comprido. Chega de estereótipos, sim?

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13
Nov18

O ativismo, da minha vida...


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ARTIGO DE EMANUEL CAIRES

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A minha lagartazinha do ativismo começou quando fiz o meu coming out como homem gay à minha família, e transformou-se num bicho quando o VIH entrou literalmente na minha vida. Não sei como agarrei em duas coisas que me deixaram marcas tão fortes e as transformei num incentivo para mudar o mundo, mas realmente fi-lo. E geralmente são estas, as pessoas que mais marginalizadas pela sociedade são, que se emancipam e empoderam de tal forma que se tornam as maiores e melhores ativistas.

Este bichinho do ativismo cultivou-se quando, pela rede ex aequo, viajei até Lisboa para uma formação de voluntariado. Apercebi-me do quão a Madeira estava atrasada em relação à capital. Faltava o empoderamento, o apoio e a união de uma comunidade que, até hoje, estava altamente fragmentada pela falta de um espaço comunitário, de reunião e convívio. Isto para dizer que estes intercâmbios são cruciais para as comunidades das regiões insulares e interiores, porque permitem motivar pessoas que, consequentemente, empoderam a sua comunidade local.

Quando comecei a dar os primeiros passos para criar o núcleo lgbti funchal da rede ex aequo, não me apercebi do quão emocionalmente envolvido estava a ficar na causa nem da responsabilidade disso. Comecei a remar contra mim próprio: introvertido, reservado e distante, mas a vontade para mudar o mundo era tão maior! Criou-se de certa forma um conflito entre o que eu queria fazer, e aquilo que a minha personalidade me permitia. O ativismo requer, por vezes, um alto nível de socialização e exposição, a vários níveis, principalmente quando são as nossas experiências e as nossas identidades que são usadas como forma de consciencialização e empoderamento das comunidades.

A verdade é que, apesar deste conflito interior, fiz para trazer mais juventude para este ato político que é o ativismo. Parece-me importante que a juventude esteja envolvida na renovação social das comunidades e da sociedade em geral, pois é este trabalho que definirá o futuro da nossa juventude, já que o ato político não se pode ficar apenas na vontade (ou falta dela) de voto, tem que expressar-se no nosso dia a dia, na reunião e na associação. Porque com a união se faz mais e se faz melhor!

Nestes 3 anos envolvido no ativismo de reconhecimento dos direitos humanos e, em particular, de luta pelos direitos lgbti+, apercebi-me que apesar de tudo vale sempre a pena transmitir mensagens positivas, mesmo que num meio pequeno e limitado isso seja ainda mais difícil. É importante o recurso às boas emoções e aos bons sentimentos, incentivando, inspirando e, talvez, dando a liberdade a nós próprios de nos tornarmos numa referência para as pessoas que muito dificilmente conseguem fazer-se ouvir fora do armário.

Percebi, também, a responsabilidade de ser a voz de uma comunidade e a importância de que essa voz continue a verbalizar as necessidades da população lgbti+ na Madeira e Porto Santo.

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01
Out18

LGBTI+ na Madeira: a luta das pessoas trans


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ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Ela exibe uma longa cabeleira negra, bem tratada. Usa maquilhagem e saltos altos. O vestido combina com os brincos: com a sua alma. No entanto, ainda convive com o nome que mais odeia, em todas as circunstâncias da sua vida: António. Queria ser Maria. É Maria, simplesmente. Porque Maria é mãe e isso é algo que ela deseja, há muito. Há quem comente, entre dentes. Há quem sorria para ela. Há quem, até, pare para a ver passar. “Traveco”, diz um homem. Maria permanece envolvida numa aura de felicidade, como se nada, para além daquele desfilar de quem é, existisse. Mas existe e o que existe não é bonito.

O preconceito (ainda) embaça as vidas de quem se assume como é: gostar de pessoas do mesmo sexo; gostar de pessoas independentemente do sexo; confrontar um corpo que não se coaduna com aquilo que se sente; e toda uma série de questões ligadas à orientação sexual, expressão e identidade de género. A sigla foi crescendo, acompanhando as causas que defende e as pessoas que, ao mundo, querem gritar aquilo que são, que gostam e a forma como se expressam e, sobretudo, garantir para si, e para quem ainda vive em esconderijos, (alguns) direitos e liberdades que, há muito, já são miudezas do dia-a-dia para os/as que se encaixam no padrão heteronormativo socialmente aceite.

Ser LGBTI+, na Madeira e Porto Santo, é uma luta constante. Ser uma pessoa trans, na Madeira e Porto Santo, é uma luta ainda mais sofredora. O acesso a cuidados de saúde específicos para as pessoas trans são inexistentes e o serviço público deveria assegurar as especialidades de sexologia e endocrinologia, sendo que, para cirurgias, deveria garantir as despesas de deslocação até aos hospitais de Lisboa, Porto ou Coimbra – ainda que estes não se encontrem a funcionar de forma adequada. As pessoas trans madeirenses e portossantenses são obrigadas a deslocar-se para território nacional para aceder a estes cuidados de saúde. Esqueci de acrescentar: as pessoas trans madeirenses e portossantes que têm meios financeiros ou um suporte familiar que lhes permita esse direito. E quem não tem? Maria não arranja trabalho. Ninguém a contrata. Em casa, os pais ignoram a realidade. Maria continua a ser o António.

Dia 6 de outubro de 2018, pelas 15h00, com partida no Largo do Município, acontece a 2ª Marcha do Orgulho LGBTI+, na Região, sob o mote “Transpor Preconceitos”, seguindo-se o Arraial LGBTI+, no Jardim Municipal. Marcharemos pela reivindicação de direitos humanos para as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexo. Marcharemos para que a Maria deixe, de vez, o António nas suas recordações de uma vida passada.

 

*O Funchal Pride é organizado por: rede ex aequo; Organização Abraço - Delegação do Funchal; Fundação Portuguesa "A Comunidade Contra a SIDA"; UMAR/Madeira; Mad le's Femme; Núcleo Amnistia Internacional Funchal e Opus Gay Madeira.

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12
Set18

Igualdade de género e Feminismo


umarmadeira

ARTIGO DE MARIA JOSÉ MAGALHÃES

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Igualdade, liberdade e solidariedade constituem os três lemas fundacionais da sociedade moderna, inaugurada pela Revolução Francesa e consubstanciada pelas legislações constititucionais liberais que se foram estendendo a grande parte das nações do mundo, a partir daí (em Portugal, a 1ª Constituição liberal é de 1820). Apesar das promessas liberais, cedo as populações compreenderam que estes princípios não seriam aplicados a todas as pessoas, ficariam apenas como retórica liberal, a não ser que as lutas sociais conseguissem a sua concretização. Feministas em vários pontos do mundo se aperceberam de que a noção liberal de igualdade não se aplicava a nós, seres humanos do sexo feminino, e que a luta pelos mesmos direitos que os homens teria de ser feita com firmeza e convicção. Não sabiam elas que duraria tanto tempo — séculos.

Os movimentos dos trabalhadores e os movimentos pelos direitos civis para negros (e negras?) foram fazendo o seu caminho lutando contra as noções liberais de igualdade e liberdade que incluíam, explicitamente, noções capitalistas (de quem detinha propriedade) e colonialistas (racistas) subjacentes à ideia de igualdade. As suas lutas marcaram a história, mas a igualdade ainda não foi completamente conseguida.

As mulheres, organizadas em movimentos, grupos e ativistas, têm pugnado longa e firmemente pelo estabelecimento de plenos direitos de cidadania para todas as mulheres. Mas ainda temos de combater a prevalência de noções liberais de igualdade.

A consciência da discriminação de género ainda não está estabelecida, criando, em mentes mais distraídas, a ideia de que as mulheres querem ser idênticas aos homens. Podíamos argumentar que o movimento pelos direitos civis, ao lutar pela igualdade entre brancos e negros, pelo fim do colonialismo e da colonialidade, nunca perspetivaram a mudança da cor da pele para almejar igualdade de direitos. Também para as mulhres, trata-se de conseguir os mesmos direitos, não apenas no papel (na lei), mas também na vida.

Mas há ainda mais uma batalha a vencer na luta pela igualdade de género, combatendo noções liberais de igualdade entre homens e mulheres. Hoje, a causa da igualdade de género é cada vez mais consensual, mas continua confinada aos limites da perspetiva liberal. É esta perspetiva que apregoa mundo dividido por privilegiados/as e desprivilegiados/as como consequência de uma divisão “natural”, fundada na falsa ideia de mérito, que um feminismo de agência deve ainda de combater. As feministas progressistas, de esquerda, revolucionárias, que lutam pela transformação social, por um mundo mais justo e democrático para todas e para todos, combatemos por uma igualdade de género em que, não só homens e mulheres tenhamos os mesmos direitos na lei e na vida, mas que entre as mulheres (como entre os homens) também se eliminem as divisões de classe, “raça”/etnia, orientação sexual, região ou religião, para que um mundo em que todas as pessoas tenham iguais direitos seja possível. Em que os lemas igualdade, liberdade e solidariedade (sororidade, como costumamos dizer no movimento feminista) deixem de ser apenas uma vaga retórica e constituam as linhas orientadoras dos nossos quotidianos e da governação local, nacional e mundial.

A UMAR tem vindo a fazer caminho, há mais de 40 anos, para que esta visão seja cada vez mais possível – uma igualdade de género que concretize igualdade de direitos para todas as mulheres. Nesta luta por uma igualdade de género substantiva, lembramos todas as mulheres, e especialmente, as mulheres trabalhadoras, desempregadas, negras, de etnias diferentes (como ciganas), lésbicas, das zonas do interior e das ilhas, de fora dos grandes centros urbanos, das meninas, das jovens à procura de emprego e de alguma estabilidade nas suas vidas, das imigrantes, das mães sós, das portadoras de alguma(s) deficiência(s), das idosas. Se conseguirmos a igualdade para todas as mulheres, um enorme passo será dado para se conseguir um mundo justo, democrático e solidário para todas as pessoas.

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