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Feminismos é Igualdade

09
Fev21

B de Bissexual


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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Vou acompanhando as polémicas dos reality shows através das páginas ativistas que sigo. Grande parte passa-me ao lado, mas esta semana o tema foi a bissexualidade de um concorrente do Big Brother Brasil e tomei a iniciativa de perceber melhor o que aconteceu. Para contextualizar, durante uma festa, os concorrentes Lucas e Gilberto beijaram-se, e aquilo que poderia ter sido um espaço de celebração – ao que parece foi o primeiro beijo entre dois homens num programa com tantas audiências, no Brasil – gerou mais um momento de questionamento sobre a sexualidade de um dos participantes. Depois do beijo, Lucas explicou às/aos colegas que é bissexual. Gilberto não teve o mesmo embate porque já havia entrado na casa com a bandeira LGBTI+ bem levantada (ênfase para o G). Lucas foi chamado de oportunista e de não ser realmente bissexual porque nunca o tinha dito antes e, pior, estas reações partiram de concorrentes mulheres, também elas lésbicas e bissexuais. Lucas ainda tentou justificar que não quis contar antes e que também tinha receio da reação da família e dos amigos. A frase dita por ele foi muito sentida: “Eu não vou ser aceite aqui, não vou ser aceite na comunidade, não vou ser aceite pela minha família, nem pelos meus amigos!”. Lucas é rapper, negro e bissexual, uma equação que é diminuída, desvalorizada e desacreditada pelas pessoas, inclusive aquelas que, aparentemente, deveriam acolhê-lo. Esta história terminou com a pedida de Lucas para sair do programa. A discriminação ganhou, mais uma vez.

Lucas é apenas um exemplo de bifobia. Este conceito refere-se à discriminação de pessoas que se identificam como bissexuais, ou seja, que têm atração sexual e/ou afetiva por indivíduos de mais de um género. Se quisermos simplificar muito as coisas, a bissexualidade pode ser entendida como a atração por mulheres e homens e dentro da própria bissexualidade esses níveis de atração podem variar imenso. As pessoas bissexuais estão cunhadas de muitos estereótipos, como serem imorais e instáveis, desleais e traidoras. São tidas como pessoas que não sabem o que querem, que não conseguem manter uma relação fixa ou que não querem assumir a sua verdadeira sexualidade. Spoiler: vocês vão conhecer pessoas bissexuais assim, tal como pessoas hétero, lésbicas, gays e por aí fora – as imperfeições humanas não escolhem géneros nem sexualidades!

No centro da tempestade destas informações, está uma pessoa em conflito consigo mesma. Estive eu, que estranhei quando o meu corpo e o meu coração identificavam as mesmas reações diante de um rapaz ou de uma rapariga. Que me escondi de toda a gente quando me relacionei com uma mulher. Que me encolhi quando, fechada no meu segredo, ouvia palavras de nojo dirigidas a pessoas bissexuais. Estive eu, também numa festa académica, ainda sem entender grande coisa sobre mim, na mesma situação que o Lucas: encurralada por perguntas, por insinuações e pela galhofa trocista, num momento que deveria ter sido, apenas, bonito e meu. Estou eu que, no meu ativismo LGBTI+ (ênfase para o B), ainda tenho que – acham os outros - justificar/esconder/alterar a minha sexualidade já que namoro com um homem.

No centro do preconceito está uma pessoa que só quer viver a sua vida, sem necessidade de expor o que é, de justificar como é e com quem está, que quer ser entendida como uma pessoa completa, de sexualidade completa e que não quer ser erotizada, fetichizada e associada à não monogamia, ao ménage à trois e à infidelidade.

Nós, pessoas bissexuais, queremos que a nossa sexualidade seja compreendida como verdadeira e existente, ao mesmo tempo que as nossas práticas e discursos não sejam marginalizados, silenciados e excluídos.

O B existe e não é de badalhoco/a, bizarro/a ou baralhado/a. É B de Bissexual, de beleza da vida, de bem-querer e de bem-estar connosco e com o mundo.

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26
Jan21

Segurar quem nos ampara


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Todos nós já tivemos um daqueles dias no qual pensamos que não deveríamos ter saído da cama, onde tudo corre surrealmente mal. Acredito que tenha sido isso que os/as trabalhadores/as do sector cultural tenham sentido em 2020. Só que, em vez de um dia aqui e ali, tirando algumas excepções – obviamente -, foram 366 dias. Ainda por cima, foi um ano bissexto, para que houvesse um dia extra de desencantamento com este ofício de existir.

É sabido que uma esmagadora parte dos espectáculos teve que ser cancelada, o que levou a, por exemplo, milhões de despedimentos, ao encerramento de teatros, cinemas ou livrarias. Infelizmente, esta situação acabou por resultar a que muitos desses profissionais ficassem sem condições para se alimentar, ou seja, uma afronta colossal à dignidade humana.

Nos momentos mais complicados da minha vida, além das pessoas que me amparam, a arte teve sempre um papel essencial na manutenção da minha (parca) sanidade mental. É nos filmes, nos discos ou nos livros que encontro um pouco de luz quando o breu teima em me rodear.

No primeiro confinamento, fui mais uma vez salvo pela arte. Agora, que voltamos a ser encarcerados, voltarei, certamente, a socorrer-me nela. Aproveitando a habitual reflecção e as inevitáveis listas com o melhor do ano que nos invadem por esta altura, deixo aqui algumas recomendações daquilo, que para mim, foi o melhor de 2020, com o intuito de tornar estes longos dias mais airosos – alerta pretensiosismo.

Começando pela música, foi praticamente consensual que Fetch the Bolt Cutters, da singular Fiona Apple, foi o disco do ano. Lançado no pico da pandemia, a crueza aliada à beleza da composição, tornou a quarentena de milhões de pessoas por esse mundo fora mais fácil.

Moses Sumney, um dos novos diamantes da música mundial, depois de um maravilhoso Aromanticism, em 2017, conseguiu elevar ainda mais a fasquia com um poético e hipnotizante græ.

Num ano também marcado pelo movimento #BlackLivesMatter, o misterioso grupo britânico SAULT, lançou um poderoso e reivindicativo Untitled (Black Is). O poder do funk, da soul ou do R&B junta-se ao protesto e resulta num álbum denominado mundialmente como a “banda sonora da revolução de 2020”.

Em Março, sem aviso, o lendário Bob Dylan, disponibilizou no seu canal de Youtube, o tema Murder Most Foul, o seu primeiro original desde 2012, onde deambula sobre o assassinato de John F. Kennedy. O tema de 17 minutos seria o single de avanço de Rough and Rowdy Ways, mais uma obra de arte do Nobel.

Run The Jewels, a dupla americana composta por El-P e Killer Mike, voltou com um criativo e assertivo RTJ4, onde mantêm a sua sonoridade característica, conjugada com uma mensagem forte da actualidade, directa e sem soar condescendente.

De uma forma mais sintética, também há que mencionar discos como Set My Heart on Fire Immediately, de Perfume Genius; A Hero's Death dos Fontaines D.C.; It Is What It Is, do Thundercat; What Kinda Music, do Tom Misch & Yussef Dayes; Source, da Nubya Garcia ou Alfredo, de Freddie Gibbs & The Alchemist.

Em Portugal, também tivemos excelentes projectos como o delicioso Kriola, de Dino D'Santiago, que é um hino à diversidade e orgulho negro; o encantador Madrepérola, da Capicua, onde a rapper portuense dá um necessário nocaute ao patriarcado, com o seu jeito aguerrido e poético; Rapazes e Raposas, do singular B Fachada, após o seu hiato; Canções do Pós-Guerra, do Samuel Úria; Eva, pela voz quente e bela de Cristina Branco; o homónimo Lina_Raül Refree, que junta a fadista com o produtor espanhol; Revezo, de Filipe Sambado; Liwoningo da talentosa Selma Uamusse; Uma Palavra Começada por N, do Noiserv; o fresco Meia Riba Kalxa, do Tristany; a doce simbiose de Fado Jazz Ensemble, do pianista Júlio Resende; ou o intemporal Caixa de Ritmos, álbum de instrumentais do poeta urbano Sam The Kid.

No cinema, apesar de uma grande parte dos filmes mais aguardados do ano ter visto as suas estreias adiadas, também tivemos um 2020 com qualidade e variedade, para todos os gostos.

Destaco Nomadland, da cineasta chinesa Chloé Zhao, que nos mostra a vida de uma mulher nómada, interpretado de uma forma brilhante por Frances McDormand – o que é uma redundância -, as dificuldades e prós que este estilo de vida acarreta, sempre presenteados com uma fotografia sublime.

Minari, de Lee Isaac Chung, onde acompanhamos uma família coreana que vai viver para o Arkansas, numa pequena fazenda em busca do sonho americano.

Listen, da portuguesa Ana Rocha De Sousa, é também um dos filmes do ano. Vemos por dentro o drama de uma família de emigrantes portugueses nos subúrbios de Londres, que vê a segurança social querer separar os filhos dos pais. Um valente murro no estômago, que nos deixa com a coração em estilhaços.

Da Dinamarca chega-nos Druk, mais um filme soberbo de Thomas Vinterberg, acompanhado de Mads Mikkelsen, com quem já tinha feito o memorável Jagten. Quatro professores testam a teoria que diz que manter constantemente um certo nível de álcool no sangue traz imensos benefícios à vida das pessoas.

Never Rarely Sometimes Always, da realizadora Eliza Hittman, vivemos de perto o drama de uma adolescente natural de um meio pequeno, que descobre estar grávida e tem que ir para Nova Iorque com a sua prima – também menor – para conseguir abortar. É um retrato dos perigos que uma jovem mulher pode passar.

Destaque, ainda, para I'm Thinking of Ending Thing, do genial Charlie Kaufman; The Trial of the Chicago 7 do reputado Aaron Sorkin, criador de The West Wing; Promising Young Woman da talentosa Emerald Fennell; o tocante Dick Johnson Is Dead, de Kirsten Johnson; o importante Soul, de Pete Docter; ou os documentários Beastie Boys Story, de inovador Spike Jonze e Crip Camp: A Disability Revolution, escrito e co-produzido por Nicole Newnham e James LeBrecht.

Queria deixar mais recomendações de outras áreas culturais, mas creio que já me tenha alongado, portanto ficar-me-ei por aqui. Espero que encontrem algo que possa tornar o vosso confinamento mais agradável.

Enquanto fazia estas listas, ia constatando no quão democrática é a arte, com homens e mulheres, dos quatro cantos do mundo, das mais variadas raças e etnias, expressões de género e orientações sexuais, estão aqui representados/as.

Se a arte tem todo este poder de nos ajudar nestas fases, acho que o mínimo é valorizar os/as seus/suas profissionais com a compra do seu trabalho. Nunca vos pedi nada, portanto, quem puder, não deixe de apoiar quem tem um papel tão importante na nossa sociedade.

P.S. – Juro que não tenho direito a qualquer tipo de comissão.

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