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Feminismos é Igualdade

15
Jul21

Untitled (SAULT Is)


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Uma afirmação que ouço com alguma regularidade em entrevistas a artistas é que, apesar de não terem grande apreço a redes sociais, se vêem “obrigados” a moverem-se nelas para promoverem o seu trabalho. Aqui há tempos, numa conversa com um amigo de infância que já não vi há uns anos, ele dizia-me que me tinha perdido o rasto por não ter redes sociais, que “quem não tem Facebook não existe”. O conhecimento popular diz que “longe da vista, longe do coração”, mas os SAULT discordam.

Para quem não conhece, os SAULT são uma banda musical britânica, que faz música excelente, e basicamente é isso pois pouco mais se sabe sobre eles. Numa era em que há uma necessidade de aparecer, eles escolheram não revelar a identidade do grupo, não dar concertos ou entrevistas. A única maneira de comunicar com quem os acompanha é através da sua música.

No início do ano, fiz aqui um apanhado daquilo que eu considerava ser a nata da música e cinema lançado no inesquecível 2020 (ou “vinte vinte” se quiserem ser jovens). Um dos meus destaques caiu, naturalmente, para o seu Untitled (Black Is). O álbum, lançado após a atroz morte de George Floyd, chegou no auge do movimento #BlackLivesMatter para ser o seu hino. O álbum é uma mescla de sonoridades, vai do R&B ao jazz, do funk ao soul, do afrobeat ao rap, mas, acima de tudo, é um manifesto antirracista.

Três meses após este lançamento, surge Untitled (Rise), o segundo disco deles do ano (e quarto da sua discografia, juntando-se a 5 e 7 – valem bem a pena -, para além do já citado). Este disco, depois do grito de revolta, é uma celebração e declaração de orgulho pela história dos seus antepassados.

No fim do mês passado, chegou-nos mais um disco, o quinto do grupo em três anos, de seu nome Nine. Novamente com um conceito original, a banda disponibilizou o álbum para download gratuito no seu site. Pormenor: o disco só estará online 99 dias, segundo informaram, sendo posteriormente apagado de todas as plataformas cessado esse prazo, portanto, apressem-se que este artigo, além de estar a anos luz da obra dos SAULT, não será apagado da internet.

Para os mais nerds – um bem hajam - o jornal Chicago Reader analisou a meta-data da música que os SAULT lançaram nas plataformas de streaming e concluiu que Dean Josiah Cover, produtor mais conhecido como Inflo e a cantora britânica de voz cândida, Cleo Sol, são apontados como dois dos elementos do grupo. Há rumores que a banda que acompanha o talentoso Michael Kiwanuka são também membros dos misteriosos SAULT. Kiwanuka e Little Simz, uma das rappers mais entusiasmantes da actualidade, também colaboram publicamente com eles.

Os SAULT são progresso, orgulho, revolta e inquietação. São Marvin Gaye, Nina Simone, D´Angelo, Curtis Mayfield ou Erykah Badu. São conscientes, sem ser moralistas. São o romantismo de deixar a sua obra falar por si na época das selfies. São preciosos e prometem não ficar por aqui.

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04
Mai21

A Pandemia dos Afetos: Luz e Sombra


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINSiStock-1161961593-1

"Seis em cada dez portugueses passaram a valorizar mais os afetos com a pandemia." (Estudo Free Now)

 

A pandemia ainda não chegou ao seu fim, e continuamos num ciclo de vagas que sobem e descem ao sabor de números maiores e menores de casos de COVID-19. A cada nova vaga, mais estragos se fazem nas estruturas da sociedade que vão além das pessoas que são infetadas pelo vírus, e as que partem. Poderia falar dos estragos económicos, do encerramento de empresas, do desemprego, da pobreza, da incerteza no amanhã. Poderia falar no desgaste no sistema de saúde e de ensino, e das consequências da sua fraca valorização nas últimas décadas. Mas hoje, decidi abordar algo diferente.

Diz um estudo, realizado em oito países europeus, que os portugueses são os que mais passaram a valorizar agora as manifestações de afeto – abraços, beijos, etc. – do que antes da pandemia. O que dávamos por garantido, foi abalado num piscar de olhos, há pouco mais de um ano. Em nome da saúde e da segurança dos/as familiares e amigos/as, deixámos de conviver sem restrições, deixámos de visitar os/as nossos/as idosos/as, deixámos de trabalhar lado a lado com os/as nossos/as colegas, e todos os contactos presenciais tornaram-se cada vez mais raros e restritos.

Tentámos compensar a solidão e a carência afetiva com o contacto virtual. Salvou-nos (ou assim pensávamos) as videoconferências, as chamadas e as mensagens. Continuámos a trabalhar, através dum ecrã, muitas vezes sem fronteiras entre o pessoal e o profissional, entre o dia e a noite. Tudo se passou a fazer à distância dum clique. Mas o vazio, esse, continuou a crescer dentro de nós.

Fomos forçando a barra, muitas vezes lutando contra nós mesmos/as e contrariando aquilo em que sempre acreditámos, tentando surfar as ondas que surgiam, uma atrás da outra. Tal como surfistas frescos/as na competição, não sentimos o forte embate das primeiras ondas. Mas, à medida que o cansaço se foi instalando nos músculos e na mente, fomos perdendo o controle sobre a prancha, o equilíbrio, e acabamos desmoronando pouco a pouco, enrolados pelas ondas.

A princípio, não aceitámos que tal fosse possível. Afinal de contas, éramos “fortes e resilientes”. Só que, agora, fomos obrigados/as a estar mais connosco mesmos/as, a passar mais tempo dentro de casa, dentro de quatro paredes. E começou a emergir a Sombra, aquilo que passámos a vida toda a varrer para debaixo do tapete, aquilo que nunca quisemos conhecer e integrar.

A Sombra manifestou-se de forma diferente em cada pessoa. Revelou o que precisa ser curado, seja individualmente, seja enquanto Humanidade. Vieram à tona as intolerâncias para com as diferenças, a xenofobia e o racismo. A todo o custo, quisemos arranjar culpados/as para o que estava a acontecer, e descarregámos as nossas frustrações em quem estava mais próximo de nós, muitas vezes na forma de raiva – que nada mais é do que um reflexo do medo – e de comportamentos violentos. Procurámos subterfúgios para não querer trazer a Luz à Sombra.

E os meses foram passando. E a Sombra e a Luz foram dançando o seu tango, ora à luz do dia, ora ao luar. A dualidade tornou-se cada vez mais evidente e muitas pessoas também começaram a se tornar mais conscientes da necessidade duma mudança de paradigmas.

Só que a Sombra quer manter o status quo, o sistema tal como era antes da pandemia. A Sombra alimenta-se dos nossos medos, e alimenta o nosso Ego. E a Luz treme com o vento que agita as ondas, maiores ou mais pequenas, a cada mês que vai passando neste planeta, neste país, nesta ilha.

Estamos a chegar a um ponto onde já não aguentamos mais e precisamos de expressar os nossos afetos, de visitar os nossos entes queridos, de conviver. Mas, logo em seguida, vem aquele sentimento de culpa exacerbado por quem aponta o dedo e pelos mídia… “E se apanhei?… E se contagiei?” E surge o medo. E segue-se o confinamento, o teste, a espera silenciosa… A doença é mais contagiosa nos convívios e nos momentos de lazer, dizem… E as vacinas não impedem o contágio, dizem… A cada dia, uma nova notícia, uma contradição, um novo medo… e instala-se a confusão mental.

No entretanto, muitas pessoas vão morrendo, pouco a pouco, de solidão, de tristeza, de desalento. Outras, vão desesperando e acumulando dores profundas. E ainda, outras vão seguindo cada dia em modo automático, com olhares vazios perdidos num pequeno ecrã que seguram nas mãos e levam para todo o lado. Sorriem para as imagens que lá surgem, mas a tristeza nos seus olhares mostra que a alegria está algures perdida, dentro do peito, à espera de ser resgatada.

Esta pandemia é também uma pandemia de afetos. E por mais que pretendam transformar-nos em robôs, virados/as para a produtividade a todo o custo e com medo do lazer, somos Seres Humanos. Como Humanidade, precisamos encontrar uma nova forma de viver, equilibrando o presencial com a tecnologia, uma vida mais sustentável em todos os aspetos.

Que não precisemos de perder para valorizar. Que possamos novamente abraçar e beijar livremente. Que consigamos nos recuperar, também, desta pandemia dos afetos, e nos tornemos mais Humanos/as do que antes.

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19
Abr21

Petição pública para termos calma com as petições públicas


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Fleabag, para mim, uma das melhores séries feitas nos últimos anos, tem uma frase que podia ter sido escrita por mim, caso tivesse o talento da Phoebe Waller-Bridge. Enquanto caminha na rua com o seu “Padre Amaro”, Phoebe responde às suas palavras motivacionais com um “não me tornes uma optimista, vais arruinar a minha vida”. Como pessimista militante, padeço do mesmo receio. A minha sorte é o ser humano ser bastante consistente em práticas que me levam a achar que estou do lado certo da barricada – alerta “não sou niilista, mas…”.

No meu penúltimo rabisco aqui no blog irritei-me com o comportamento questionável – fazendo uso de um eufemismo – com que a população estava a lidar com a pandemia e teorias da conspiração.

Hoje, este avô rezingão que vos escreve, qual Larry David, está com urticária por causa das petições públicas. São um instrumento democrático muito valioso, sem dúvida, que têm como objectivo dar voz a causas ou injustiças que não têm o merecido mediatismo. E, caso atinjam as 10 mil assinaturas, serão debatidas em plenário da Assembleia da Républica. Problema: nos últimos tempos, sempre que há algum ruído acerca de petições é pela sua boçalidade gritante – segundo e último eufemismo, prometo.

Uma das mais faladas foi a que visava Mamadou Ba. A petição, que conta com mais de 32 mil assinaturas, pedia a expulsão do activista de Portugal. Quando vi o título até pensei, por momentos, que o Dirigente da SOS Racismo tivesse entrado num desses reality shows bizarros que nos tem invadido os televisores nos últimos tempos. Depois, fui ler o texto em questão e concluí que dizia algo como “nós não somos racistas, mas se queres ter uma voz activa vai para a tua terra”. Lamento ser o portador das más notícias, porém o pós-virgula anula brutalmente o pré-virgula da frase.

Lembrei-me que Joacine também tinha sido protagonista de uma dessas petições; no seu caso, exigiam o seu impedimento de tomada de posse como deputada. Com mais de 22 mil pessoas a subscrever essa intenção, os motivos eram semelhantes aos das 32 mil que desejavam ter o poder de Teresa Guilherme ao exigir que o concorrente Mamadou abandonasse, não o Big Brother, mas neste caso, Portugal.

O juiz Ivo Rosa também já leva com quase 200 mil pessoas a quererem que seja “afastado de toda a magistratura”. Estou a anos-luz de ser um socratista pois confesso-vos não ser um especial apreciador de pessoas egocêntricas e mitómanas, mas parece-me que estamos perante uma cultura do cancelamento mais formal, para quem não tem conta no Twitter.

Todavia, não se deixem enganar, isto não é só para quem não perde um episódio da Quadratura do Círculo desde 2005. Há também algumas mais diversificadas como uma que pede o regresso das bombocas – o doce, não o duo de música popular, autor de temas como "Roda roda a cabecinha” – outra que exige uma auditoria à votação do último Big Brother Duplo Impacto, num processo que, caso aconteça, sugiro que se chame “Operação Abre-Olhos™”, ou mesmo uma que pede que proíba o ananás na piza – se bem que esta já me parece mais sensata.

Mas se a ânsia do leitor por assinar coisas for assim tão incontrolável sugiro, antes, que assinem a Amazon Prime e vejam a deliciosa série Fleabag.

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05
Abr21

Na direção da Utopia


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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Se tens um coração de ferro, bom proveito.

O meu fizeram no de carne, e sangra todo dia.

José Saramago

 

No dia 5 de abril de 1821, foi extinto por decreto o tribunal da Inquisição em Portugal.

 

Quis iniciar este texto com uma efeméride positiva, pois não vivemos tempos felizes. Não que a felicidade tenha sido erradicada do nosso planeta, afinal, ela está por aí e todos a conhecemos, mas não está no ar que respiramos, também não está nos acontecimentos que presenciamos, nem nas notícias que recebemos. Vejamos.

Hoje, dia 5 de abril de 2021, passados 200 anos sobre a data que comecei por referir, os ataques a “Cabo Delgado”, deixam um rasto de fome e destruição em milhares de inocentes, entre os quais crianças, doentes e idosos que perderam o pouco que tinham e foram separados daqueles que lhes garantiam o mínimo de proteção e cuidados. Fundamentalismo religioso ou ganância? Talvez os dois, mas pouco importa, o sofrimento tem apenas um nome: a população inocente e massacrada por sucessivas jogadas dos senhores da guerra.

Um pouco por todo o mundo, a juntar-se à devastação da pandemia, as consequências de políticas ambientais desastrosas desembocam em tragédias que destroem as vidas e o futuro de quem menos possui. Anda hoje, Timor-Leste procura sobreviver às cheias que assolaram o país.

 

No futuro, quando os anos vinte deste século aziago puderem ser analisados sem a emotividade da atualidade, esta época será associada a muitas outras em que, ao longo da história da humanidade, a violência, a fome e a solidão atacaram a população mais frágil, tratada sempre como um dano colateral, sacrificado em nome de um bem maior, do qual é sempre excluída.

Porventura, será a pandemia-COVID 19 o fenómeno que mais marcará estes anos, por tão habitual e ordinário se terem tornado as outras “pandemias”, e os cidadãos do futuro concluirão sobre o papel positivo da natural evolução científica e tecnológica que tornou mais suportável os constrangimentos impostos. Não há como discordar. Sem dúvida que os heróis, a quem nunca agradeceremos nem valorizaremos o suficiente, encontrarão, como sempre acontece, postumamente, a merecida homenagem.

Estudarão, provavelmente, também o fenómeno inexplicável de algumas vozes vindas de um passado sombrio, que procuram ressuscitar ideologias tenebrosas e ameaçam levar ao engano as populações sofridas, que voluntariamente se aproximam do abismo.

A humanidade do futuro perguntar-se-á porque gastamos tanto tempo a destruir-nos, quando o poderíamos ter aproveitado para nos salvarmos.

 

Mas, voltemos à esperança, afinal, foi assim que comecei o texto, gostaria de acabá-lo da mesma forma.

A notícia inicial dava conta de uma conquista, num momento da nossa história em que o humanismo começava, timidamente, a dar os primeiros passos, a caminho dos direitos e garantias de todos os seres humanos. Ora, em 2021, essas conquistas cresceram e estão plasmadas em lei. Ainda que a tradição e o saudosismo de alguns agentes dessa mesma lei dificultem a sua aplicação, temos nas nossas mãos os instrumentos para criar uma sociedade mais igualitária, em que se erradique para sempre todo o tipo de tirania, exploração desenfreada, racismo, xenofobia e perseguição com base na orientação sexual, religião ou qualquer outra situação.

 

Ao longo de séculos, mulheres e homens tiveram de lutar desafiando a lei vigente, abrindo caminho com a sua própria vida e não desistiram, trouxeram-nos até aqui. Temos o dever de honrá-los, hoje. Temos as ferramentas, mas se não as usarmos iremos perdê-las, não tenhamos dúvidas, e todo o sofrimento passado terá sido em vão.

Por muito que tentem barrar o caminho, a direção só pode ser uma, rumo ao humanismo pleno, em comunhão com a natureza.

 A utopia estará sempre à nossa espera, obrigando-nos a dar mais um passo, porque

“Vemos, ouvimos e lemos/Não podemos ignorar” [Sophia de Mello Breyner]

 

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29
Mar21

Num Planeta distante


umarmadeira

ARTIGO DE CARINA JASMINS

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Era uma vez um Planeta muito distante, onde as pessoas tinham uma aparência semelhante à nossa, viviam de uma maneira tranquila, formavam uma única sociedade interdependente, com muita diversidade na aparência e na maneira de ser, mas havia uma admiração e um respeito pela individualidade de cada um, consideravam essa diversidade a sua maior riqueza.

Tinham evoluído num respeito profundo pela Natureza e pelo Planeta onde viviam. Era um povo evoluído em consciência e também tecnologicamente e estando em paz com todos, assim como com a luxuriante natureza que os rodeava, decidiram que gostariam de explorar o Universo e conhecer outros planetas, outras culturas, outras maneiras de pensar e de viver. Tinham construído naves com sistemas de navegação que permitiam detetar as “autoestradas” do Universo, que eram túneis espaço-tempo que permitiam atravessar grandes distâncias em pouco tempo, conseguindo, assim, visitar zonas distantes do Universo.

Numa dessas explorações chegaram a um belíssimo Planeta Azul, num distante sistema solar. Este planeta destacava-se no negro do espaço, como uma linda esfera azul brilhante. Admirados com a beleza daquele planeta que lhes fazia lembrar o seu próprio planeta, idealizaram que deveria ser um planeta tranquilo onde imperava a paz.

Sempre que chegavam a um planeta, conseguiam ter acesso à memória desse Planeta, porque para eles os Planetas eram seres vivos que, além da sua própria memória, guardavam também a memória de todos os acontecimentos desde o início. Ao aceder, começaram a ver e a sentir os enormes tumultos, lutas, violência, separação que tinham ocorrido ao longo dos milhares de anos da existência da espécie humana, já que estes eram os habitantes principais e em maioria deste planeta. Era deveras impressionante como a sua parte animal estava tão presente ao longo de tantos milhares de anos, mas pensaram que isso era normal, toda a evolução começa de um nível mais baixo de consciência para o mais elevado.

A surpresa foi quando chegaram aos tempos recentes em que se deparando com uma imensa evolução desde os primórdios da existência, a humanidade ainda mantinha guerras em algumas partes do planeta e a maior parte dos territórios onde não haviam guerras externas mantinham grandes guerras internas, dentro de si próprios, o que levava a pequenas grandes guerras com aqueles que os rodeavam. Admiraram-se por ainda fazerem distinções baseadas na cor da pele, na aparência, e em tantas outras coisas, pensavam como era possível, porque eram todos humanos, iguais na sua matriz, apenas o exterior mudava, mas isso era bom e não conseguiam ver. Os estereótipos e preconceitos ainda imperavam na maioria dos seres humanos deste planeta e com a sua visão evoluída conseguiam ver a ignorância e imaturidade que ainda reinava. A força física era usada para dominar, maltratar, matar aqueles que eram mais frágeis. O poder e a ganância geravam desigualdades, que poderiam ser facilmente combatidas se houvesse mais partilha.

Ficaram chocados com o profundo desrespeito com que tratavam a natureza porque dependiam dela para a sua própria vida.  Olhavam para tudo com espanto e tristeza, falando entre si, refletindo sobre tudo aquilo que tinham visto e sentido.

Neste Planeta, a Humanidade ainda não percebeu que é Uma Unidade, que o tempo de vida é relativamente curto e que deveria ser aproveitado para se elevar, transcendendo os instintos de onde partiu para algo mais elevado que lhes traga alegria genuína, que expanda o amor que está dentro de todos e que encarceram no peito, essa é a sua maior miséria, aquela que gera tanto sofrimento em si e nos outros seres.

Que devem procurar a natureza e serem Um com ela, porque ela faz parte de quem são, viver o pouco tempo que estão neste magnifico planeta contemplando as belezas que os rodeiam: um pássaro a cantar, o voo de uma gaivota sobre o mar, o nascer e o pôr do sol, viver mais esses momentos mágicos que estão à disposição de todos, porquê não aproveitam? Não entendemos. Porque não aproveitam mais para se tratarem bem e se amarem para que possam viver em paz e amar verdadeiramente quem está à sua volta e puderem, assim, trazer uma Paz verdadeira a todo o planeta? O bem de um é o bem de todos, ainda não perceberam que dependem todos uns dos outros, que estão todos juntos nesta grande nave que é o Planeta Terra que os leva a viajar todos os dias pelo universo.

Voltaremos a este Planeta daqui a muitos anos para saberem como estão, temos esperança em vocês humanidade, para que percebam, finalmente, que apesar de serem todos diferentes, essa é a vossa grande riqueza, tal como acontece no nosso lindo Planeta. Somos todos únicos e é quando respeitamos e exercemos a nossa verdadeira essência que trazemos a riqueza e a evolução à nossa volta, porque trazemos o único à realidade.

Formam todos juntos HUMA UNIDADE e que vivam cada dia mais essa realidade, para que juntos, possam um dia viver em harmonia consigo, com os outros e com a Natureza que os rodeia, neste Planeta tão lindo que têm a honra de viver.

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26
Jan21

Segurar quem nos ampara


umarmadeira

ARTIGO DE PAULO SOARES D'ALMEIDA

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Todos nós já tivemos um daqueles dias no qual pensamos que não deveríamos ter saído da cama, onde tudo corre surrealmente mal. Acredito que tenha sido isso que os/as trabalhadores/as do sector cultural tenham sentido em 2020. Só que, em vez de um dia aqui e ali, tirando algumas excepções – obviamente -, foram 366 dias. Ainda por cima, foi um ano bissexto, para que houvesse um dia extra de desencantamento com este ofício de existir.

É sabido que uma esmagadora parte dos espectáculos teve que ser cancelada, o que levou a, por exemplo, milhões de despedimentos, ao encerramento de teatros, cinemas ou livrarias. Infelizmente, esta situação acabou por resultar a que muitos desses profissionais ficassem sem condições para se alimentar, ou seja, uma afronta colossal à dignidade humana.

Nos momentos mais complicados da minha vida, além das pessoas que me amparam, a arte teve sempre um papel essencial na manutenção da minha (parca) sanidade mental. É nos filmes, nos discos ou nos livros que encontro um pouco de luz quando o breu teima em me rodear.

No primeiro confinamento, fui mais uma vez salvo pela arte. Agora, que voltamos a ser encarcerados, voltarei, certamente, a socorrer-me nela. Aproveitando a habitual reflecção e as inevitáveis listas com o melhor do ano que nos invadem por esta altura, deixo aqui algumas recomendações daquilo, que para mim, foi o melhor de 2020, com o intuito de tornar estes longos dias mais airosos – alerta pretensiosismo.

Começando pela música, foi praticamente consensual que Fetch the Bolt Cutters, da singular Fiona Apple, foi o disco do ano. Lançado no pico da pandemia, a crueza aliada à beleza da composição, tornou a quarentena de milhões de pessoas por esse mundo fora mais fácil.

Moses Sumney, um dos novos diamantes da música mundial, depois de um maravilhoso Aromanticism, em 2017, conseguiu elevar ainda mais a fasquia com um poético e hipnotizante græ.

Num ano também marcado pelo movimento #BlackLivesMatter, o misterioso grupo britânico SAULT, lançou um poderoso e reivindicativo Untitled (Black Is). O poder do funk, da soul ou do R&B junta-se ao protesto e resulta num álbum denominado mundialmente como a “banda sonora da revolução de 2020”.

Em Março, sem aviso, o lendário Bob Dylan, disponibilizou no seu canal de Youtube, o tema Murder Most Foul, o seu primeiro original desde 2012, onde deambula sobre o assassinato de John F. Kennedy. O tema de 17 minutos seria o single de avanço de Rough and Rowdy Ways, mais uma obra de arte do Nobel.

Run The Jewels, a dupla americana composta por El-P e Killer Mike, voltou com um criativo e assertivo RTJ4, onde mantêm a sua sonoridade característica, conjugada com uma mensagem forte da actualidade, directa e sem soar condescendente.

De uma forma mais sintética, também há que mencionar discos como Set My Heart on Fire Immediately, de Perfume Genius; A Hero's Death dos Fontaines D.C.; It Is What It Is, do Thundercat; What Kinda Music, do Tom Misch & Yussef Dayes; Source, da Nubya Garcia ou Alfredo, de Freddie Gibbs & The Alchemist.

Em Portugal, também tivemos excelentes projectos como o delicioso Kriola, de Dino D'Santiago, que é um hino à diversidade e orgulho negro; o encantador Madrepérola, da Capicua, onde a rapper portuense dá um necessário nocaute ao patriarcado, com o seu jeito aguerrido e poético; Rapazes e Raposas, do singular B Fachada, após o seu hiato; Canções do Pós-Guerra, do Samuel Úria; Eva, pela voz quente e bela de Cristina Branco; o homónimo Lina_Raül Refree, que junta a fadista com o produtor espanhol; Revezo, de Filipe Sambado; Liwoningo da talentosa Selma Uamusse; Uma Palavra Começada por N, do Noiserv; o fresco Meia Riba Kalxa, do Tristany; a doce simbiose de Fado Jazz Ensemble, do pianista Júlio Resende; ou o intemporal Caixa de Ritmos, álbum de instrumentais do poeta urbano Sam The Kid.

No cinema, apesar de uma grande parte dos filmes mais aguardados do ano ter visto as suas estreias adiadas, também tivemos um 2020 com qualidade e variedade, para todos os gostos.

Destaco Nomadland, da cineasta chinesa Chloé Zhao, que nos mostra a vida de uma mulher nómada, interpretado de uma forma brilhante por Frances McDormand – o que é uma redundância -, as dificuldades e prós que este estilo de vida acarreta, sempre presenteados com uma fotografia sublime.

Minari, de Lee Isaac Chung, onde acompanhamos uma família coreana que vai viver para o Arkansas, numa pequena fazenda em busca do sonho americano.

Listen, da portuguesa Ana Rocha De Sousa, é também um dos filmes do ano. Vemos por dentro o drama de uma família de emigrantes portugueses nos subúrbios de Londres, que vê a segurança social querer separar os filhos dos pais. Um valente murro no estômago, que nos deixa com a coração em estilhaços.

Da Dinamarca chega-nos Druk, mais um filme soberbo de Thomas Vinterberg, acompanhado de Mads Mikkelsen, com quem já tinha feito o memorável Jagten. Quatro professores testam a teoria que diz que manter constantemente um certo nível de álcool no sangue traz imensos benefícios à vida das pessoas.

Never Rarely Sometimes Always, da realizadora Eliza Hittman, vivemos de perto o drama de uma adolescente natural de um meio pequeno, que descobre estar grávida e tem que ir para Nova Iorque com a sua prima – também menor – para conseguir abortar. É um retrato dos perigos que uma jovem mulher pode passar.

Destaque, ainda, para I'm Thinking of Ending Thing, do genial Charlie Kaufman; The Trial of the Chicago 7 do reputado Aaron Sorkin, criador de The West Wing; Promising Young Woman da talentosa Emerald Fennell; o tocante Dick Johnson Is Dead, de Kirsten Johnson; o importante Soul, de Pete Docter; ou os documentários Beastie Boys Story, de inovador Spike Jonze e Crip Camp: A Disability Revolution, escrito e co-produzido por Nicole Newnham e James LeBrecht.

Queria deixar mais recomendações de outras áreas culturais, mas creio que já me tenha alongado, portanto ficar-me-ei por aqui. Espero que encontrem algo que possa tornar o vosso confinamento mais agradável.

Enquanto fazia estas listas, ia constatando no quão democrática é a arte, com homens e mulheres, dos quatro cantos do mundo, das mais variadas raças e etnias, expressões de género e orientações sexuais, estão aqui representados/as.

Se a arte tem todo este poder de nos ajudar nestas fases, acho que o mínimo é valorizar os/as seus/suas profissionais com a compra do seu trabalho. Nunca vos pedi nada, portanto, quem puder, não deixe de apoiar quem tem um papel tão importante na nossa sociedade.

P.S. – Juro que não tenho direito a qualquer tipo de comissão.

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19
Jan21

Vermelho em Belém: As eleições mais importantes da história da democracia portuguesa?


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ARTIGO DE MARGARIDA PACHECO

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Falta menos de uma semana para as eleições presidenciais e estamos todos/as, novamente, em confinamento obrigatório.

No dia 24 de janeiro, iremos ter respostas a vários questionamentos que, enquanto sociedade, tivemos ao longo do último ano. Será que a pandemia nos ajudou enquanto sociedade a compreender que há grupos sociais privilegiados? Será que nos tornamos uma sociedade mais empática e mais sensibilizada para compreender que a pandemia não está a afetar todos/as da mesma forma? Será que estamos mais consciencializados/as para os vários problemas sociais do nosso país? No próximo domingo teremos estas respostas! Num período eleitoral, em que o mundo está a passar por uma crise sanitária de que não há memória no mundo moderno, em que todos/as nos sentimos cansados/as, preocupados/as, estamos a assistir ao crescimento da extrema direita em Portugal.

Termos um candidato à presidência que é machista, misógino, racista e homofóbico, que defende que há “portugueses do bem” e “os outros portugueses”, que acha que o corpo das mulheres é um espaço público em que os homens podem tomar decisões e tecer comentários depreciativos sobre o aspeto físico. Uma pessoa que defende ideias conservadoras e fascistas é antidemocrático. Será possível que este partido tenha tantos/as apoiantes? Na realidade existem, e são todos/as aqueles/as que aceitam e concordam com as ideias machistas, racistas e homofóbicas deste partido. Pessoas que defendem que o feminismo não é necessário, porque as mulheres querem é ser superiores aos homens, que ser homossexual é moda e que o sistema não é racista, só existem algumas pessoas racistas. 

Votar é essencial em democracia, mas este ano, que a nossa democracia, liberdade e igualdade é posta em causa, é necessário votarmos por todos/as nós, porque todos/as nós somos portugueses/as, mas o mais importante todos/as nós somos seres humanos iguais em Direitos!

A necessidade da recente campanha nas redes sociais #vermelhoembelém relembra que os direitos das mulheres nunca estão garantidos. Temos de estar todos/as na luta, não só na luta pelos direitos das mulheres, mas na luta por todos os grupos sociais que ainda sofram da opressão, discriminação e do preconceito em Portugal.

Estaremos aqui para enfrentar o futuro, sempre com a esperança de um mundo melhor, numa sociedade mais igualitária para todas as pessoas. E sempre na luta, no ativismo para que todas as pessoas tenham os seus direitos garantidos para uma vida digna, sustentável e saudável.

Votem com consciência! Votem com a importância de #vermelhoembelém. Não deixemos os//as outros/as decidirem por nós.

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19
Out20

Sobre o Medo


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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E de repente o medo chegou, mas já não veio sozinho.

Como habitualmente, já sem forças para lutar,

deixou-se escoltar pelos seus companheiros de viagem habituais:

o egocentrismo e a discriminação.

 

Já todos sabemos, de tanto ouvir dizer, que vivemos tempos difíceis e que a tendência é para piorar.  Esta tem sido uma dissertação escrita a diversas mãos, com espaço permanentemente reservado na Comunicação Social e para a qual não têm faltado os indispensáveis argumentos, provas e exemplos, sem faltar a necessária validação da autoridade “científica”.

A narrativa que tem vindo a ocupar o espaço público de comunicação é de tal modo que nos pode levar a acreditar que a expressão tão popular “éramos felizes e não sabíamos” se aplicava a toda a população, no passado recente que a pandemia COVID-19 veio interromper. Mas, não esqueçamos que, para um grande número de cidadãos e cidadãs, a situação em que viviam já era marcada por enormes dificuldades, tornadas insustentáveis com esta pandemia. Nunca é demais lembrar que a pobreza, a violência e o abandono matam mais do que qualquer vírus e estão cada vez mais escondidos, ofuscados pelas contingências dos tempos atuais, em que, devagarinho o medo se instala.

Primeiro o medo do vírus, anónimo, irreconhecível - um inimigo que nos rouba o futuro e aqueles que amamos. Com ele, as prioridades mudam e os círculos fecham-se, ameaçando grupos que pela sua fragilidade e invisibilidade ficam fora de qualquer círculo, presos à sua sorte.

Depois, o vírus vai deixando o seu anonimato e ouvem-se os arautos, que começam a delinear as suas faces, os seus perfis. Não as situações, as dificuldades e o desconhecimento, afinal, isso não serve às audiências.

Finalmente, esse medo vago e impreciso começa a ter forma. É o estrangeiro, a viajante, o vizinho, a funcionária. Assim, começa a discriminação e o egocentrismo, companheiros do medo que o desumanizam. São estes os sentimentos que urge destruir e substituir por uma verdadeira responsabilização cívica, com a certeza de que são, sobretudo, as situações que nos colocam a nós e aos outros em risco.

Sendo importante reconhecer a importância de todas as medidas que visem a proteção da saúde de todas e de todos, daqui não se pode partir para a estratégia generalizada do medo. Devemos sim assumir a nossa responsabilidade cívica de não deixar ninguém para trás, pois não podemos correr o risco de perder a nossa a humanidade.

Aos profissionais de saúde cabe a hercúlea tarefa de salvar as vidas, mas salvar a fé na humanidade é um trabalho de todas e de todos nós.

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12
Out20

O Sentido da Vida


umarmadeira

ARTIGO DE CARINA JASMINS

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A vida tem um sentido diferente para cada um/a de nós e, de facto, o mais importante é dar-lhe um sentido, que é único e pessoal. Quando não encontramos um sentido para a vida, perdemos a alegria e o entusiasmo, a vida deixa de ter cor e vamos nos perdendo de nós próprias/os. Por isso, é tão importante procurar um significado para que, de facto, tudo faça mais sentido.

Para podermos dar-lhe um sentido, é preciso refletir na finitude da vida. Um dia, a vida que conhecemos acabará e, no final, olhando para trás, vendo o caminho percorrido sentir que, apesar dos desafios, das dificuldades, de sonhos realizados, de sonhos adiados, nós realmente demos o nosso melhor, cometendo erros, aprendendo com eles e, sobretudo, tentando não repeti-los.

Ao pensar que um dia a nossa vida terminará, sentimos uma necessidade de aproveitá-la da melhor maneira, tentando deixar para trás, a cada dia, maneiras de pensar que já não funcionam mais e já não têm a ver connosco; tentando, a cada dia, fazer melhor, aprendendo aquilo que a vida nos ensina, mesmo que os desafios sejam difíceis. Acredito que algumas situações na vida são necessárias para o nosso crescimento interior, para ganharmos mais maturidade e consciência, mesmo que nos custe e seja difícil. Nestes casos, a melhor atitude é a de tentar aprender com a maior professora, que é a vida, sem revolta porque isso só irá nos atrasar e retirar forças.

Nesta reflexão, vamos muitas vezes nos apercebendo que todas/os estamos no mesmo barco, neste Planeta, que nos transporta no vazio e na escuridão do Universo. Fazemos parte de um Todo, interconectado, dependemos umas/uns das/os outras/os para que o futuro seja melhor. Se entendermos que cada um/a de nós, na sua diferença, pode acrescentar algo de único ao mundo, iremos olhar menos para as diferenças e olhar para essa questão com os olhos de que esta diferença é algo enriquecedor para o Mundo. Mesmo que até não concordemos, aquela pessoa tem o direito de ver o mundo à sua maneira e se algo é realmente negativo ao nosso olhar, permite-nos ver que aquele é um caminho que não queremos seguir.  Sobretudo, iremos buscar cada vez mais sermos nós próprias/os e trazer essa unicidade que cada um/a traz dentro de si para o Mundo.

Vamos reparando que as diferenças no nosso exterior são apenas diferenças e não têm nada de mal, somos todas/os diferentes no nosso exterior e ainda bem, porque o Mundo seria bastante monótono e aborrecido se todas/os fôssemos iguais, com o mesmo formato e aspeto.

Tudo seria mais leve e tranquilo se conseguíssemos olhar para a vida desta maneira, não haveria tanta discriminação, racismo, xenofobia, o gozar da/o outra/o, afinal de contas somos todas/os feitas/os da mesma matéria, ossos, cartilagens, músculos e muito mais, o nosso corpo físico é matéria, semelhante a todas/os, temos o mesmo início e o mesmo fim. Olhar com mais maturidade para a vida permite descartar todos estes conceitos que deveriam fazer parte do passado da Humanidade, é algo tão atrasado que já não deveria estar presente na nossa sociedade.

A vida passa rápido e perdemos tanto tempo com pormenores e com coisas que não valem a pena que, quando olhamos para trás, já passou muito tempo, mas há sempre oportunidade de fazer diferente, para melhor. Não deixemos passar tempo demais para refletirmos. Aceitarmos a nós próprias/os e às/aos outras/os como são é um caminho longo, às vezes de uma vida inteira, mas vale a pena, porque tudo se vai tornando mais pacífico dentro de nós.

Quando um dia partirmos, o que queremos deixar de nosso no Mundo?

Poderá parecer, para algumas/alguns, uma pergunta algo mórbida, mas é algo que é uma realidade para todas/os. O nosso tempo é finito e ajuda-nos a relativizar tanta coisa que damos tanta importância e não vale tanto assim, perdemos tempo precioso. Muitas vezes, faço essa pergunta a mim própria, reflito sobre isso e a resposta é: quero deixar amor, boas lembranças no coração de quem ficar. Um dia, chegará a minha hora e nesse momento quero sentir que deixei algo de bom e que, por mais pequenina que tenha sido a minha participação no jogo da vida, que contribui, nem que seja uma milésima parte para tornar o Mundo um pouco melhor. Quero ir tranquila e em paz com a minha consciência.

bannerCarinaJ

 

15
Jun20

Lutar contra a invisibilidade do Bem, vencer o mal


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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«Sonhei um dia perseguir a utopia

Trilhar caminhos nunca dantes percorridos

Atingir e semear a alegria»

Conceição Pereira, in A Vida em Movimento

 

Este é o primeiro texto publicado no Blog da UMAR Feminismos é Igualdade que não será lido pela nossa companheira Conceição Pereira, mas é pensando nela que o escrevo, no que ela disse e no que diria destes tempos conturbados em que todas as desigualdades se agudizam. Tempos que ela presenciou e em cuja resolução estava, de certeza, pronta para participar, como sempre esteve ao longo da sua vida, com coragem e determinação.

No dia 24 de abril, num poema publicado no Diário de Notícias, falava da alegria e emoção trazidas pela conquista da liberdade, que só não tocou “os duros de coração”. Também na página do SPM, como homenagem ao 25 de Abril, ficará para sempre o seu maravilhoso contributo para o PROF#fica em casa, no qual, com a magia da sua escrita, homenageia as palavras de Zeca Afonso, Martins Júnior, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília.  Deste texto, escolho o registo da tomada de consciência, pelo povo, dos seus direitos, que foi uma das conquistas da liberdade. Com a emoção que lhe era habitual, recorda que nem as bombas da FLAMA e os ataques dos saudosistas da ditadura fizeram desaparecer essa consciência.

Fala-se na Conceição e pensamos logo na voz dos Invisíveis, na Liberdade, na Justiça, na luta pela Dignidade Humana, em todas as suas vertentes. Uma voz que se erguia pelo povo e para o povo.

O que nos diria a Conceição das últimas manifestações racistas, prova evidente de que, nem mesmo com a ameaça da sua destruição os tais “duros de coração” conseguem encontrar uma forma de viver em igualdade, no respeito pelo outro. Triste prova de que os direitos humanos continuam a ser uma utopia! Até quando?

Mal começou o período de desconfinamento e, ainda com a ameaça de novo{s) confinamento(s), os sentimentos xenófobos e racistas voltam a lançar as suas sementes e abrem caminho a outras violências.

Pelo caminho, outras injustiças se cometem, sem dúvida, e são todas condenáveis. Mas não podemos usar esses efeitos colaterais para o apagamento do sofrimento que dura há séculos. Fingir que partimos todos do mesmo patamar, independentemente da cor da pele, da origem, da religião, da orientação sexual ou da sua aparência física, entre outras diferenças, será perpetuar e validar esses comportamentos discriminatórios a que, eventualmente, nenhum de nós escapará, desde que a sua vida deixe de se enquadrar dentro das «normas» aceites numa determinada organização social, imposta pelos grupos que detêm o poder.

Os mais otimistas viram no isolamento social uma oportunidade para a humanidade repensar a sua atuação no planeta. Os realistas consideraram que a Pandemia não era democrática.

Neste momento, o que se conclui é que o confinamento foi, sem dívida uma necessidade, mas o reverso da medalha é demasiado doloroso para ser ignorado. Não tenhamos dúvidas de que foi e é um terreno fértil para o exacerbamento das desigualdades, das injustiças, da violência e da solidão. São estas feridas, agora mais profundas, que começam a sangrar e que, com urgência, é necessário curar.

A história mostra-nos que as crises são momentos propícios para regimes totalitários, para ondas de pânico que levam a que a domine a lei do mais forte, daqueles que se apresentam como “salvadores”, escolhendo culpar um grupo «incómodo» que será o alvo da perseguição. É isto que começa a acontecer pelo mundo, mesmo na tão aclamada cultura ocidental, e as vítimas estão aí à vista de todos. Se não houver um verdadeiro movimento de todas as forças humanistas, podemos ficar nas mãos destes movimentos populistas, que farão retroceder todas as vitórias pela dignidade humana que foram alcançadas, a conta gotas, nas últimas décadas.

Não podemos esquecer que, ao longo dos tempos, o mal, sempre, contou com a timidez do Bem para vencer.

Não deixaremos que, desta vez, isso aconteça, com a certeza de que a nossa companheira Conceição Pereira continuará presente em todas as nossas lutas.

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