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Feminismos é Igualdade

07
Set20

Avanço ou retrocesso?


umarmadeira

ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Este ano de 2020 está a colocar desafios novos em todos os sentidos. Ou em nome da pandemia que percorre o mundo, devido a um vírus para o qual não foi encontrada a cura, se aceita retroceder nas liberdades, direitos e garantias, das e dos cidadãos ou, então, levantamos a cabeça, arregaçamos as mangas e não deixamos que isso aconteça.

Eu opto sempre pelo caminho de agir e não deixar de trabalhar naquilo em que acreditamos. Se achamos que o mundo continua desigual no que toca aos direitos das mulheres e de todas as pessoas que se sentem discriminadas ou marginalizadas por serem diferentes, quer seja na cor, orientação sexual, deficiência, etc., temos que continuar o nosso trabalho.

Não pode ser como era antes da pandemia; então, encontremos as novas formas de comunicar com a sociedade, mas vamos à luta que já se faz tarde. Não deixemos que este problema sanitário nos retire os recursos para fazermos o nosso trabalho na prevenção de todas as formas de violência e discriminação contra as mulheres e todos os seres humanos. Continuemos a exigir que o tema da importância da igualdade de género não saia das agendas de quem tem o poder nas mãos, porque são eles que também têm os recursos para apoiar quem trabalha nesta área.

Neste momento, a Região não tem nenhum plano aprovado contra a violência doméstica. O anterior já caducou com o governo que antecedeu. No entanto, os casos aumentam e, agora, de forma mais sorrateira, vão surgindo notícias de espancamentos de mulheres, de entradas nas urgências sem nunca mencionar o termo violência doméstica. Noticiam: “Uma mulher foi brutalmente agredida”; “Uma mulher foi às urgências com vários ferimentos na cara e no corpo”, etc., nunca mencionando o que causou essa situação. Fica nos segredos das quatro portas, para dentro, para onde estão e voltam a estar as mulheres.

Não há pandemia que possa parar o que tem que ser feito. Tenho ouvido muitas reivindicações, mas ainda não ouvi quem fale na necessidade de não baixar a guarda sobre este grave flagelo. Os Governos, Central e Regional, têm que colocar na agenda a prevenção e a ação contra a violência, como uma prioridade muito importante da sociedade. As Associações que trabalham nesta área não podem ficar despidas de recursos, porque o seu trabalho é uma ajuda fundamental para a efetivação dos direitos humanos que, se saiba, não foram suspensos devido à pandemia.

O trabalho voluntário das Associações tem limites, em vários sentidos. Os recursos humanos estão mais limitados, sobretudo das pessoas consideradas de risco, e há trabalho que tem que ser mesmo remunerado porque toda a gente precisa de ter recursos financeiros para viver.

Todo o trabalho na defesa dos direitos humanos devia ser considerado um investimento primordial dos orçamentos governamentais e devia ser distribuído por quem faz um verdadeiro trabalho para que a sociedade se torne mais tolerante, respeitadora, em que todos os seres humanos possam ser felizes e iguais. Alguns/umas continuam a dizer que isto é uma utopia, mas eu acredito piamente nela e agarro-me a ela para continuar a lutar por um mundo melhor e mais justo.

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08
Jun20

E agora, como vais fazer?


umarmadeira

ARTIGO DE MARGARIDA PACHECO

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Estamos a passar uma fase de mudança em todo o mundo. Com a pandemia, o medo, a angústia e a incerteza face ao futuro levaram a mudanças na escola, na família, no trabalho, nas relações interpessoais e na forma como entendemos a nossa realidade.              

Durante a quarentena confrontamo-nos com a história da Valentina, uma criança que morreu vítima de maus tratos por parte do seu pai. Devido a este caso, a preocupação com a negligência e com a violência contra as crianças (que sempre esteve presente), ecoou novamente na sociedade portuguesa. Já em fase de desconfinamento, enquanto que em Portugal nos deparávamos com o femicídio da Beatriz, nos Estados Unidos da América as pessoas revoltavam-se com o assassinato de George Floyd. Após dias de protestos, muitas iniciativas e milhares de pessoas nas ruas em vários países do mundo contra o racismo, recebemos a notícia do Brasil, da morte do Miguel, uma criança de 5 anos que morreu vítima de negligência por parte da proprietária da casa onde a sua mãe trabalhava.

Será que podemos ligar o homicídio da Valentina, o femicídio da Beatriz, o assassinato do George Floyd nos Estados Unidos da América e a morte do Miguel no Brasil? Uma coisa é certa, não se pode pensar nestes casos como isolados. Agora, mais do que nunca, o feminismo é chamado a refletir sobre todas as formas de violência de uma forma interseccional. Cada uma destas pessoas morreu porque foi vítima de um sistema patriarcal, sexista, misógino, racista, heteronormativo e classista, que assenta numa matriz de dominação de diversos grupos sociais e, como tal, constitui-se como um fenómeno transversal aos vários contextos de vida de crianças, adolescentes e adultos/as.

As diferentes formas de violência presentes nestes casos mais mediáticos são exemplos que constituem dimensões específicas da violência estrutural, cultural e simbólica. Estas mortes decorreram da estrutura social que posiciona diferentes grupos em termos de poder e privilégios. Esta divisão é exercida através de várias formas de dominação, discriminação, opressão, exclusão, preconceito e desvantagem. O privilégio que uma parte da sociedade tem em relação a outra é indiscutível. Mas como podemos usar esse privilégio para promover a igualdade, liberdade e prevenir a violência, a opressão, o preconceito e a discriminação? Cada pessoa luta à sua maneira, com as suas possibilidades e as suas escolhas, seja pelas redes sociais, nas ruas, na hora de votar, na conversa com amigos/as e familiares ou no seu local de trabalho. Não há uma forma mais correta de ativismo do que outra. O mais importante é que não fiquemos calados/as, que não sejamos indiferentes, que não continuemos a fingir que à nossa volta está tudo bem e que não nos pronunciemos só quando acontece connosco ou com pessoas que nos são próximas. Todas as desigualdades têm um impacto na vida de todos/as nós e na sociedade em geral. 

Na fase de maior incerteza pela qual o mundo já passou, em que milhares de pessoas continuam a morrer todos os dias e outras estão nas ruas a lutar pelas suas e pelas nossas vidas, é tempo de nos educarmos, exigirmos de nós e dos outros/as mais e melhor, exigirmos os direitos de todas as pessoas e pensarmos criticamente sobre os problemas sociais. 

Enquanto mulher, feminista, ativista e educadora estou na luta por um mundo mais igualitário e menos violento. E agora, como vais fazer?

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14
Dez19

Abuso sexual de crianças e jovens


umarmadeira

ARTIGO DE VALENTINA SILVA FERREIRA

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O abuso sexual de crianças/jovens decorre da exposição de uma criança ou jovem a estímulos sexuais inapropriados ao seu desenvolvimento físico, psicológico, social e moral. É frequente, nos media e em conversas de café, confundirmos os termos “abusador sexual” e “pedófilo”, muitas vezes tidos como sinónimos. No entanto, algumas particularidades fazem com que seja necessário distingui-los. Os abusadores sexuais não se sentem sexualmente atraídos por crianças. O abuso decorre, não de uma atração, mas por qualquer outro motivo, tais como, a necessidade de poder, vinganças, delinquências, uso de drogas ou álcool. Alguns estudos revelam que ¾ dos abusadores sexuais de menores foram ou são casados. O abuso pode ocorrer dentro da própria família. O incesto é o tipo de abuso mais comum e é mais frequente ser entre pai e filha, onde esta ocupa o lugar da mãe, num casamento que pode estar deteriorado. No entanto, o abusador pode vitimizar crianças fora de casa e, ainda, violar mulheres. Não recorrem a estratégias de sedução e, na maioria das vezes, agem por impulso. São relações sexuais rápidas, sem aproximação sentimental com a vítima, apenas com o intuito de satisfazer alguma necessidade sexual, emocional, psicológica ou social. A pedofilia é, segundo a Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10, um transtorno de personalidade e comportamentos em adultos. É, mais concretamente, uma parafilia. O termo, em latim, significa “amante de crianças”, ou seja, a atração sexual de um pedófilo é dirigida primariamente para crianças. As suas condutas compulsivas são consequência de um desejo sexual por menores e não despoletadas por situações de stress. É importante salientar que há pedófilos que nunca abusaram sexualmente (no termo estrito da palavra) de crianças, recorrendo a fotografias pornográficas infantis, conversas de teor sexual com pré-adolescentes, visualização de crianças a brincarem em parques infantis ou na praia, para satisfazerem as suas fantasias.

Embora a tendência seja para fugir a essa verdade, o facto é que as crianças são seres sexuados e, por isso, o seu amadurecimento sexual é feito ao longo dos anos através da informação que vão recebendo durante o seu desenvolvimento. Um ambiente seguro proporciona a confiança suficiente para aprender e compreender o sexo de maneira estável e benéfica e, aqui, os adultos são os maiores responsáveis por essa direção.

Para diversos especialistas, não há um perfil do abusador infantojuvenil, mas, em muitos casos, o machismo pode ser observado no comportamento de quem subjuga crianças e adolescentes. "É machismo. O homem tem a filha como se fosse a sua propriedade", aponta a advogada Leila Paiva, coordenadora do Programa Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, no Brasil. "O corpo da mulher foi encarado o tempo todo como propriedade”. A cultura do machismo foi apontada como responsável pela exploração sexual de crianças e adolescentes, em audiência pública realizada na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH). A avaliação foi feita pelo coordenador do Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria), Vicente Faleiros, que referiu ser preciso entender a exploração de crianças e adolescentes no contexto do mercado do sexo, tratando-se uma atividade fundamentalmente económica, e esse serviço sexual é tolerado pela sociedade porque está vinculado à cultura do machismo, à ideia de que se pode usar o corpo da mulher. Para além disso, estudos comprovam que há uma tendência a se subestimar o problema da violência sexual contra meninos pelo facto de o tema ser visto como um grande tabu na sociedade. Flávio Debique, gerente técnico de proteção infantil da ONG Plan International Brasil, refere que "Tanto os meninos quanto as meninas têm bastante dificuldade de falar sobre isso. Mas os meninos chegam aqui muito mais constrangidos, apreensivos. Vivemos numa cultura que 'homem não chora' e 'sabe se defender sozinho'. Admitir uma fraqueza é difícil, então, se ele for abusado por uma mulher e reclamar disso, será conotado como gay, e se for abusado por um homem e denunciar, também pode ser considerado gay". Para Debique, a "cultura machista é a grande vilã" na maior parte dos casos de assédio ou abuso sexual de crianças, porque é ela que estabelece o "poder" do homem com relação à mulher e que determina que o homem não pode assumir a condição de vítima, ele precisa ser "durão".

No fundo, tudo começa na forma como assumimos o que é ser homem e o que é ser mulher, a desvantagem que as meninas têm, e as aparentes vantagens que os meninos têm. As desigualdades de género afetam as pessoas de maneira diferente mas, no final da equação, todos/as sofrem as suas consequências.

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23
Nov19

Violência sobre as mulheres: A sociedade está errada!


umarmadeira

ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Na próxima segunda-feira, dia 25 de novembro, assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, e em um país onde mais da metade da população é constituída por mulheres, será que somos só nós, feministas, que reconhecem a nossa sociedade como errada?

Ora vejamos: se todos os anos continuamos a evocar este dia e a homenagear as dezenas de mulheres assassinadas, a sociedade está errada e estamos a falhar.

O ano de 2019 está manchado por uma onda de sangue: 28 mulheres foram assassinadas. É esta a triste realidade do nosso país. Entre 2004 e 2019, 531 mulheres perderam a vida às mãos de assassinos.

A verdade é que a violência doméstica é um problema grave que afeta mais mulheres do que as estatísticas revelam. As vítimas não são simples números, são mulheres que não têm a proteção devida das leis existentes. Temos urgentemente que acabar com esta violência que atinge as mulheres dentro da própria casa.

A sociedade está errada quando silencia os gritos que ouve, a sociedade está errada quando diz que entre marido e mulher ninguém mete a colher “porque os problemas são deles, eles que resolvam”. Não! O problema não é deles, é nosso, é de todos e todas, e metam sim a colher! A violência doméstica é um crime público e a sociedade está errada quando ignora e não denuncia.

A sociedade está errada quando desculpa a violência doméstica com o desemprego, com o alcoolismo, com a toxicodependência, com problemas mentais, com o ciúme, entre muitas outras justificações que se vão ouvindo aqui e acolá.

Que forma de ignorância é esta? A violência não é exclusiva de certas classes sociais, a violência é transversal a qualquer classe e a qualquer idade! Que sociedade é esta, que insiste em inferiorizar as mulheres? Que sociedade é esta, que permite que uma mulher seja agredida e insultada? O que acontece com as queixas que são feitas? Que modelo social pretendemos, quando o agressor é levado a julgamento e o juiz atenua a pena, ou na maioria das vezes nada acontece e é a vítima que tem de fugir apenas com a roupa do corpo? Ou, por exemplo, quando um juiz cita a Bíblia para desvalorizar as vítimas de alegada violência doméstica, e quando um juiz afirma que "uma simples ofensa à integridade física, está longe de poder considerar-se uma conduta maltratante suscetível de configurar violência doméstica", aqui percebemos o quanto ainda há por fazer, aqui percebemos o quanto a nossa sociedade está errada.

A sociedade está errada, quando não é capaz de entender que as mulheres têm os mesmos direitos, que podem decidir sobre o seu corpo, que podem lutar por uma vida sem medos. A sociedade está errada, quando não aceita o empoderamento das mulheres.

É urgente a mudança de mentalidades, é urgente lembrar a cada instante o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Enquanto este artigo não passar do papel à prática, continuaremos a viver numa sociedade machista, numa sociedade errada.

Enquanto a lei não for praticada pelos tribunais, continuaremos a ter vítimas silenciosas nesta sociedade errada que olha para o lado, insensível à dura realidade de mulheres magoadas e sem ajuda.

A sociedade precisa aceitar que temos um grave problema em mãos e que precisamos de agir. E não é depois, é já!

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16
Nov19

Um mundo de desigualdades, onde são as mulheres e crianças quem mais sofre, onde crescem as ameaças aos direitos das mulheres


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ARTIGO DE MANUELA TAVARES

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Assistimos a momentos políticos e sociais muito preocupantes.

Perante um mundo de desigualdades crescentes, crescem as forças populistas de extrema direita que representam uma ameaça às liberdades, à democracia e aos direitos das mulheres.

Sabemos que os gritos de revolta de quem é espezinhado, de quem não tem casa para viver ou pão para comer são aproveitados por quem quer impor ditaduras disfarçadas de resolução dos problemas prementes.

As mulheres e as crianças são quem mais sofre com este cenário político e social.

As forças fascizantes envolvem os seus discursos de que os feminismos dão cabo das famílias, que não garantem os direitos destas. O que se passa é que essas forças defendem que as mulheres se devem dedicar totalmente aos maridos e filhos, deixem de ser elas próprias, tal como acontecia na ditadura salazarista de triste memória.

A extrema-direita em Espanha, que cresceu imenso nas últimas eleições, quer eliminar as leis de proteção às mulheres vítimas de violência. Para eles, a violência não significa morte, assassinatos. Significa apenas “arrufos” entre marido e mulher e querem voltar ao antigamente que “entre marido e mulher que ninguém meta a colher”.

Estas forças ultraconservadoras querem também dominar as escolas. Querem que qualquer programa de prevenção da violência ou de promoção da igualdade seja analisado por comissões de encarregados da educação. A escola, os/as professores/as, os estudantes não têm opinião para essa gente que veio para fazer com que as conquistas civilizacionais voltem para trás.

Quanto mais as desigualdades e a pobreza crescem, mais estas forças ganham terreno.

Lutar para a eliminação das desigualdades que geram pobreza e falta de direitos é uma obrigação de cada um/a de nós.

As feministas têm nesta luta um papel fundamental.

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09
Set19

Democracia e identidade de género


umarmadeira

ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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Perante o hábito enraizado, no nosso país, de assistir à publicação de leis que não saem do papel, eis que, de repente, quando são criados mecanismos que permitem operacionalizar uma dessas leis, a sociedade entra em sobressalto. É muito confortável mostrar orgulho por viver um país como o nosso em que, a igualdade está consignada na lei, difícil é aplicar essa igualdade quando a tradição e os preconceitos a ela se sobrepõem, deixando a nu a solidão de todas e todos aqueles que não se encaixam no desenho que a sociedade desenhou para eles.

No início de um novo ano lectivo impõe-se refletir sobre o tipo de sociedade que queremos para o futuro. Queremos uma sociedade em que os nossos jovens e crianças se sintam seguros e felizes, com pleno direito ao respeito pela sua identidade ou queremos uma sociedade em que essa identidade tenha de andar escondida e de braço dado com o medo, exposta constantemente ao bullying e a todos os tipos de violência.

A publicação do Despacho n.º 7247/2019, de 16 de agosto, que veio estabelecer medidas concretas sobre o Decreto-lei n.º 38/2018, de 7 de agosto lançou uma discussão em alguns sectores que nos deve causar alguma preocupação. Salvaguardando opiniões legítimas sobre a sua aplicação, são as posições relacionadas com o seu próprio conteúdo as que me causam mais preocupação. Esta ideia de que a fragilidade tem de se adaptar à força dominante, de que aqueles e aquelas que carregam na maior das solidões a dor e o medo da violência têm de continuar invisíveis, para que os outros continuem confortáveis no status quo, é de uma crueldade sem limites e revela uma incapacidade, de se colocar no lugar do outro. Isto sim é um flagelo que não podemos deixar alastrar.

O respeito pela Identidade de Género não é radicalismo como alguns pretendem fazer crer, mas sim uma luta pelos direitos fundamentais de toda a humanidade em relação à qual ninguém tem o direito de ficar indiferente. Infelizmente, ainda é necessário derrubar muitas paredes e uma escola verdadeiramente inclusiva é sem dúvida o melhor sítio para fazê-lo, garantindo ambientes seguros e ensinando a empatia e o respeito pela diferença que existe em cada um de nós. Mas, para este trabalho, todas as mãos são poucas e para avançarmos é preciso encontrar eco em todos os setores da sociedade.

A Democracia só será plena quando aquilo que cada cidadã e cada cidadão têm de mais sagrado - a sua identidade - for respeitado.

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15
Fev19

Educação Cidadã e Prevenção da Violência de Género


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ARTIGO DE MARIA JOSÉ MAGALHÃES

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A escola para todos teve, desde o início, uma componente de educação para a cidadania, constituindo-se como ideal democrático, de progresso e de desenvolvimento humano. Em Portugal, datam do final da Monarquia, os primeiros diplomas legais de uma educação de massas para todos, mas é na I República, com a Reforma de 1911, que se consubstancia uma legislação abrangente, prevendo, não apenas a educação de massas para o sexo masculino, mas também para o sexo feminino.

Apesar de a I República não ter concretizado as promessas que enunciou, o certo é que, em termos de educação, deu forma a uma perspetiva cidadã e democrática, através de uma visão ampla e profunda do papel da pedagogia na construção de uma sociedade assente em direitos de cidadania. Imbuída do espírito do movimento pedagógico que se chamava Educação Nova, foi uma proposta pedagógica e política avançada, de tal forma que ainda hoje tem dimensões de uma atualidade que nos surpreende.

A educação cidadã, na época designada educação cívica, era uma proposta pedagógica de formação das crianças e adolescentes no exercício da cidadania, enquanto conjunto de direitos e deveres. Faço lembrar, por exemplo, a proposta pedagógica de António Sérgio (1883-1969), sobre o auto-governo, em que ele propunha que não se ensina a ser cidadão e cidadã de forma transmissiva e ‘moralista’, mas deve ser feito através da prática da cidadania, desde a mais tenra idade, claro, adaptando às características do período de desenvolvimento das crianças e adolescentes. Na proposta de António Sérgio, assim como de outras/os pedagogas/os, a escola era uma cidade, uma comunidade de trabalho, e aí, dever-se-ia ensaiar os valores e atitudes de uma cidadania democrática, para que, quando adultos e adultas, tivessem o conhecimento e a prática de viver como cidadãos/ãs. A escola não se confundia com ‘instrução’. Era isso e muito mais. O autogoverno (self-government), segundo a proposta pedagógica sergiana, consiste na organização da escola e das atividades, com orientação docente, mas com decisão coletiva das próprias crianças, como num parlamento. Um dos fundamentos de António Sérgio é que as crianças aprendem conteúdos mas também aprender modos de ser e de fazer a partir dos exemplos das/os adultas/os e da forma como são, por estes/as, bem ou maltratados.

Estas/es pedagogos/as do início do séc. XX tinham muito claro que uma educação da e na cidadania democrática exigia uma escola democrática em que as próprias crianças e adolescentes tivessem voz ativa e capacidade de participação nas decisões. Depois deste período áureo da pedagogia, no nosso país, tivemos aquelas quase cinco décadas de fascismo que nos fez regredir em termos de pensamento pedagógico, de tal forma, que talvez ainda não tenhamos conseguido, em termos nacionais, recuperar dessa perda.

Hoje, enquanto feministas e umaristas, defendemos uma educação para a prevenção da violência de género, no contexto de uma pedagogia emancipatória, freireana e feminista. O nosso trabalho situa-se na educação de valores e atitudes como um projeto de um futuro sem violência (não apenas de género). E acreditamos que o tipo de sociedade que atravessaremos no futuro está a ser já hoje desenhada, e a sua concretização está nas mãos das pessoas que, hoje, vivem uma idade de aprendizagem, de ‘preparação’, da qual nós temos de assumir responsabilidades sobre a sua formação.

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11
Fev19

A pobreza, a exposição à violência e as leis que não saem do papel


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ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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O risco de pobreza que atinge a nossa sociedade é escandaloso e constitui uma das maiores provas da crueldade humana, sobretudo porque faz as suas vítimas entre os grupos mais frágeis, nos quais se incluem aqueles que sofrem todo o tipo de violência, nomeadamente a violência doméstica, que, em Portugal, continua a alastrar de forma assustadora, apesar de todos as batalhas travadas, e de toda as leis criadas, pois a aplicação das mesmas esbarra, sistematicamente, com a força dos modelos tradicionais da sociedade patriarcal que continua a dominar.

É essa tradição secular que castiga duplamente as vítimas, que deveriam encontrar segurança e proteção no sistema judicial para prosseguirem as suas vidas, mas, em vez disso têm de lutar para se defenderem de um sistema que as fragiliza ainda mais, deixando-as em risco.

Num contexto de violência doméstica, não podemos negar que a pobreza está maioritariamente associada ao desemprego das mulheres, resultante da pressão social que as levou a optarem pela vida familiar em detrimento de uma carreira profissional; às desigualdades salariais, resultantes de discriminações várias, e à grande injustiça que é a não contabilização do trabalho doméstico para a economia familiar e do país, nomeadamente o papel de cuidadoras, que é automaticamente atribuído às mulheres, dentro do universo familiar e que as impede, tantas vezes, de desenvolver uma carreira.

Todas estas situações contribuem para os riscos de pobreza das vítimas, entre as quais, não esqueçamos, se incluem os filhos. No entanto, mesmo quando o contributo das mulheres para a economia familiar em termos monetários é preponderante, continuam as ser elas e as suas crianças que correm mais riscos de pobreza, pois, em qualquer uma das situações o/a agressor/a fica na casa de família, perpetuando, assim, o poder que tem sobre a vítima.

Mau grado esta realidade com que nos deparamos todos os dias, a luta pela igualdade continua a ter um papel secundário em todas as organizações, com a perigosa e falaciosa constatação de que o tratamento desigual está a desaparecer.

Se dúvidas houver do quanto há ainda a fazer, olhemos à nossa volta. No nosso país, onde vigora uma democracia, baseada numa constituição recheada de leis que nos deviam defender, a violência doméstica mata, o machismo mata. Mas o mundo é uma aldeia, lancemos também o olhar para longe, para outros países e veremos o assalto ao poder daqueles que defendem um retrocesso nos direitos alcançados, pondo em causa direitos que levaram séculos a conseguir, e veremos que a luta continua a ser urgente e necessária, sobretudo por uma intervenção judicial que não desvalorize a violência doméstica ou qualquer outra forma de violência com base em preconceitos ou estereótipos.

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18
Jan19

Situação das mulheres pelo mundo...


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ARTIGO DE CONCEIÇÃO PEREIRA

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Rahaf Mohammed Al-Qunun está está neste momento sob a protecção do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, uma vez que fugiu da sua família que a obrigava a casar sem o seu consentimento. Ela pediu protecção porque, segundo a mesma, os pais a matariam por ter fugido de um casamento que a família planeou para ela. Quem tem uma família destas tem de fugir para bem longe e procurar a sua libertação.

O casamento por obrigação foi instituído há muitos milhares de anos, quando os humanos começaram a cultivar terras e os homens sentiram necessidade de deixar os seus bens aos seus descendentes. Daí se constituíram contratos de casamento, combinados entre os pais dela e dele, cujo fim prioritário era ser exclusiva daquele homem e dar-lhe filhos, que mais tarde seriam os seus herdeiros. O marido não tinha nada que respeitar essa exclusividade e poderia ter encontros sexuais com outras mulheres.

Passados tantos milhares de anos, ainda há sociedades em que os casamentos são arranjados pelos pais, com carácter obrigatório. Mais; Segundo notícias vindas a público, há famílias que vendem meninas, às vezes com menos de 10 anos, para receberem dinheiro e satisfazerem manias sexuais de homens monstruosos, que chegam a matá-las sob os seus actos sexuais. Em muitos países do mundo as meninas são submetidas à mutilação sexual e, se não morrerem dessa intervenção bárbara, terão muitos problemas quando derem à luz os seus filhos.

Já estamos a viver no Séc XXI, os humanos elevaram os seus inventos às mais diversas áreas, até no espaço, têm feito descobertas impensáveis nas áreas tecnológicas, por exemplo e, ao mesmo tempo, ainda subsistem mentalidades tão absurdas, muitas lavradas em leis, como obrigar raparigas a casar, vender meninas com 8 anos de idade, proibir raparigas de frequentarem a escola, como a Iala e por aí adiante.

Porquê? Como é que as mulheres, constituindo metade da Humanidade, promotoras da vida e, em grande parte, responsáveis pela educação dos filhos e filhas, ainda não foram capazes de se libertar, não apenas algumas em nome individual, mas em conjunto desfazerem as muitas tradições que permitem os maus tratos, violações e muitas outras barbaridades bastante arreigadas nas mentes de tanta gente?

Estão a aparecer alguns sinais que podem constituir uma brecha por onde se possa entrar e abrir caminho. Na Índia, país dividido por castas e tantas tradições maléficas e opressoras, mulheres manifestaram-se, cerca de 5 milhões, formando um cordão de muitos quilómetros. Nós, mulheres ocidentais, que já adquirimos mais direitos cívicos e sociais que as mulheres indianas, devemos apoiá-las e divulgar as suas lutas.

Em França, depois das manifestações dos coletes amarelos (homens) que assustou o Governo Francês, manifestaram-se mulheres de coletes amarelos, lutando como os homens, mas com uma grande diferença: não se confrontaram com a polícia nem causaram destruições. Uniram-se, manifestaram-se e apresentaram as suas reivindicações.

Estamos a viver momentos muito difíceis: racismo, discriminações várias, desigualdades profundas, violências dos mais fortes contra os mais fracos, as corrupções surgem diariamente donde menos se esperava, os salários mais baixos são muitíssimos distantes dos mais altos, a pobreza agrava-se cada vez mais porque os poderosos açambarcam tudo o que podem e o que não podem, deixando grande parte da humanidade desamparada.

E que fazemos nós, mulheres comprometidas por uma sociedade mais justa, equilibrada, sem machismo e onde todos e todas possam ser felizes? Se houver vontade, determinação, união de esforços, construiremos esse mundo onde possamos viver em PAZ, TRANQUILIDADE e AMOR entre os seus humanos. Vamos começar a construir esse mundo neste ano de 2019.

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14
Dez18

Preconceito e Realidade


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ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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O período que estamos a viver é do de preparação para o Natal. Mas, por outro lado, temos um grave problema que assola a nossa Região, a violência de género, que voltou a agravar-se no presente ano. Embora as entidades oficiais digam estar a fazer tudo o que está ao seu alcance para minimizar o problema, ela está presente todos os dias, em todos os lugares, nas famílias, na rua, no desporto, no trabalho, na política, na comunicação social, em todas as classes sociais, enfim, em todas as vivências sentimos e pressentimos violência. Ela aparece e reaparece, como um incêndio em dia de vento.

Tudo serve de pretexto para incriminar, agredir, acusar, despedir e explorar. E as principais vítimas são, na sua maioria, as mulheres e as crianças. A violência doméstica, em muitos casos, tem uma ligação estreita com outras expressões de violência, directa e indirecta contra as mulheres, desenvolve-se em todas as vertentes sociais, entram facilmente nas famílias através do tradicional machismo, alimentado sobretudo pelo álcool e outras substâncias. O desemprego, a perda de trabalho, os baixos salários, a precaridade elevada e a pobreza laboral, continuam a empobrecer e são as mulheres que continuam a auferir maioritariamente o salário mínimo e a receber as mais baixas pensões de reforma. São ainda vítimas de pressão e intimidação e sujeitas as diversas formas de assédio no trabalho, bem como a algumas doenças profissionais, que efecta maioritariamente as mulheres.

O álcool também contribui para uma guerra permanente em casa de muitas famílias madeirenses e a destruir muita gente. Um dia destes dizia-me um jovem: eu queria que o meu o pai deixasse de fumar e de beber e que acabasse a guerra entre pais e filhos. Dei por mim a pensar onde está a origem de tanta violência, porque sempre houve pessoas violentas, mas hoje os problemas atingem maior dimensão. A qualquer momento podemos ser agredidas, assaltadas, a insegurança é uma constante no mundo actual.

Há quem diga que é necessário humanizar as famílias. Mas como? Com esmolas e trabalho sem direitos? Com um ensino que está a deixar à margem os filhos dos mais pobres, os menos inteligentes e pouco motivados? Numa sociedade baseada nos valores do lucro, onde os donos do dinheiro apenas se preocupam em ganhar dinheiro e os governantes apenas governam ao sabor desses interesses financeiros, naturalmente que tudo fica desumanizado, dentro e fora das famílias. É preocupante a desenfreada promoção das bebidas alcoólicas, do aumento de bares, esplanadas e tabernas junto de Escolas e até de Igrejas, nesta quadra para atrair fiéis é com comes e bebes.

Enquanto isso, muitas mulheres têm sido remetidas para casa, perdendo a sua capacidade económica e tornando-se cada vez mais pobres e dependentes dos seus familiares, tornando-se cada vez mais pobres e a terem que estender a mão à caridade pública e outras a venderem o seu próprio corpo para sobreviverem. Temos o dever de ajudar a prevenir a violência e de exigira protecção adequada às mulheres vítimas de violência. As Instituições devem contribuir para a mudança de mentalidades que é necessária na nossa sociedade, em que ainda se legitima muita violência que se abate sobre a mulher, particularmente na nossa Região, mesmo sendo crime público.

Há que intervir para uma mudança de mentalidades e no respeito dos Direitos Humanos, que muitos ou quase todos dizem defender, mas que uma larga maioria os viola todos os dias, a começar pelo aconchego do próprio lar.

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43º Aniversário da UMAR 13/09/2019

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Tertúlias Literárias

I Passeio dos Livros nos Jardins do Lido 03/08/2018

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II Passeio dos Livros no Jardim de Santa Luzia 28/09/2018

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III Passeio dos Livros na sede da UMAR Madeira 10/03/2019

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