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Feminismos é Igualdade

04
Mai21

A Pandemia dos Afetos: Luz e Sombra


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINSiStock-1161961593-1

"Seis em cada dez portugueses passaram a valorizar mais os afetos com a pandemia." (Estudo Free Now)

 

A pandemia ainda não chegou ao seu fim, e continuamos num ciclo de vagas que sobem e descem ao sabor de números maiores e menores de casos de COVID-19. A cada nova vaga, mais estragos se fazem nas estruturas da sociedade que vão além das pessoas que são infetadas pelo vírus, e as que partem. Poderia falar dos estragos económicos, do encerramento de empresas, do desemprego, da pobreza, da incerteza no amanhã. Poderia falar no desgaste no sistema de saúde e de ensino, e das consequências da sua fraca valorização nas últimas décadas. Mas hoje, decidi abordar algo diferente.

Diz um estudo, realizado em oito países europeus, que os portugueses são os que mais passaram a valorizar agora as manifestações de afeto – abraços, beijos, etc. – do que antes da pandemia. O que dávamos por garantido, foi abalado num piscar de olhos, há pouco mais de um ano. Em nome da saúde e da segurança dos/as familiares e amigos/as, deixámos de conviver sem restrições, deixámos de visitar os/as nossos/as idosos/as, deixámos de trabalhar lado a lado com os/as nossos/as colegas, e todos os contactos presenciais tornaram-se cada vez mais raros e restritos.

Tentámos compensar a solidão e a carência afetiva com o contacto virtual. Salvou-nos (ou assim pensávamos) as videoconferências, as chamadas e as mensagens. Continuámos a trabalhar, através dum ecrã, muitas vezes sem fronteiras entre o pessoal e o profissional, entre o dia e a noite. Tudo se passou a fazer à distância dum clique. Mas o vazio, esse, continuou a crescer dentro de nós.

Fomos forçando a barra, muitas vezes lutando contra nós mesmos/as e contrariando aquilo em que sempre acreditámos, tentando surfar as ondas que surgiam, uma atrás da outra. Tal como surfistas frescos/as na competição, não sentimos o forte embate das primeiras ondas. Mas, à medida que o cansaço se foi instalando nos músculos e na mente, fomos perdendo o controle sobre a prancha, o equilíbrio, e acabamos desmoronando pouco a pouco, enrolados pelas ondas.

A princípio, não aceitámos que tal fosse possível. Afinal de contas, éramos “fortes e resilientes”. Só que, agora, fomos obrigados/as a estar mais connosco mesmos/as, a passar mais tempo dentro de casa, dentro de quatro paredes. E começou a emergir a Sombra, aquilo que passámos a vida toda a varrer para debaixo do tapete, aquilo que nunca quisemos conhecer e integrar.

A Sombra manifestou-se de forma diferente em cada pessoa. Revelou o que precisa ser curado, seja individualmente, seja enquanto Humanidade. Vieram à tona as intolerâncias para com as diferenças, a xenofobia e o racismo. A todo o custo, quisemos arranjar culpados/as para o que estava a acontecer, e descarregámos as nossas frustrações em quem estava mais próximo de nós, muitas vezes na forma de raiva – que nada mais é do que um reflexo do medo – e de comportamentos violentos. Procurámos subterfúgios para não querer trazer a Luz à Sombra.

E os meses foram passando. E a Sombra e a Luz foram dançando o seu tango, ora à luz do dia, ora ao luar. A dualidade tornou-se cada vez mais evidente e muitas pessoas também começaram a se tornar mais conscientes da necessidade duma mudança de paradigmas.

Só que a Sombra quer manter o status quo, o sistema tal como era antes da pandemia. A Sombra alimenta-se dos nossos medos, e alimenta o nosso Ego. E a Luz treme com o vento que agita as ondas, maiores ou mais pequenas, a cada mês que vai passando neste planeta, neste país, nesta ilha.

Estamos a chegar a um ponto onde já não aguentamos mais e precisamos de expressar os nossos afetos, de visitar os nossos entes queridos, de conviver. Mas, logo em seguida, vem aquele sentimento de culpa exacerbado por quem aponta o dedo e pelos mídia… “E se apanhei?… E se contagiei?” E surge o medo. E segue-se o confinamento, o teste, a espera silenciosa… A doença é mais contagiosa nos convívios e nos momentos de lazer, dizem… E as vacinas não impedem o contágio, dizem… A cada dia, uma nova notícia, uma contradição, um novo medo… e instala-se a confusão mental.

No entretanto, muitas pessoas vão morrendo, pouco a pouco, de solidão, de tristeza, de desalento. Outras, vão desesperando e acumulando dores profundas. E ainda, outras vão seguindo cada dia em modo automático, com olhares vazios perdidos num pequeno ecrã que seguram nas mãos e levam para todo o lado. Sorriem para as imagens que lá surgem, mas a tristeza nos seus olhares mostra que a alegria está algures perdida, dentro do peito, à espera de ser resgatada.

Esta pandemia é também uma pandemia de afetos. E por mais que pretendam transformar-nos em robôs, virados/as para a produtividade a todo o custo e com medo do lazer, somos Seres Humanos. Como Humanidade, precisamos encontrar uma nova forma de viver, equilibrando o presencial com a tecnologia, uma vida mais sustentável em todos os aspetos.

Que não precisemos de perder para valorizar. Que possamos novamente abraçar e beijar livremente. Que consigamos nos recuperar, também, desta pandemia dos afetos, e nos tornemos mais Humanos/as do que antes.

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18
Mar21

Romancear o Pernicioso


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ARTIGO DE CLÁUDIO TELO PESTANA

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Romancear o cotidiano é tarefa inerente à poesia, à música, às artes enfim, não fosse o coração (no sentido figurado) humano sedento de emoções. Em boa verdade esta busca, esta necessidade, esta dependência dos humanos em relação às emoções é inexoravelmente o que torna o milagre da humanidade ser possível. Não só não vivemos sem emoções como não a podemos dissociar da lógica ou da razão, honras feitas a toda a obra de António Damásio. Apesar do dado adquirido, é necessário separar-se as águas em Romancear o Cotidiano e Romancear o Pernicioso. O pernicioso, assim como o cotidiano, toma muitas formas. Entre estas realço à partida a violência e o seu efeito romanceado o qual ocorre mais vezes do que o que poderia ser esperado. Saliento um caso que me tem feito espécie desde que chegou ao meu conhecimento. Chris Watts, pai devoto de duas filhas, Bella e Celeste, e esposo carinhoso de Shanann Watts. Bom, devoto e carinhoso, são qualidades que não coloco em causa que Chris tenha, em algum momento da sua vida familiar, tido para com as mulheres da sua vida. Isto antes de as ter matado a todas, naturalmente. Chocados? Também eu fiquei quando vi documentários sobre este caso e sim, reforço que Chris fora, em algum momento, um pai dedicado e um esposo carinhoso até um dia ter, escandalosamente, assassinado as suas duas meninas e respectiva esposa. Um crime macabro que culminou com a condenação de Chris Watts a múltiplas sentenças perpétuas.

Ora, o alcance do Romancear o Pernicioso que mencionava anteriormente é de tal forma ilimitado que consegue distorcer a imagem de um sociopata, como o é Chris, e elevá-lo a um nível romanceado estratosférico. O assassino tem recebido, pasmem-se, centenas de cartas de amor por parte de mulheres que se têm oferecido para uma relação amorosa. É visto, por algumas mulheres, e não obstante ter confessado o seu crime, como a coisinha mais fofa à face da terra. Macabro? Ridículo? Surreal? Independentemente do epíteto que se prefira atribuir, a verdade é que existe um certo jeitinho especial para os humanos conseguirem Romancear o Pernicioso, não por forma exclusiva a desculpabiliza-lo, apesar de também o ser, mas porque é impossível viver sem ser ao comando das emoções e estas deixam-nos incessantemente à sua mercê. Estas mulheres são também vítimas da condição humana no seu maior esplendor. A diferença entre elas e a mulher que sofre de violência no dia-a-dia e não se afasta da relação por acreditar que o cônjuge irá melhorar, é inexistente. A diferença entre estas mulheres e aquelas que se deixam envolver por músicas, livros, filmes ou qualquer outra forma de arte que ofusca o empoderamento feminino e o reduz a meros objectos sexuais, é inexistente. A diferença entre estas mulheres e aquelas que se deixam apaixonar por algum homem com traços de violência bem patentes são igualmente inexistentes. A imagem de um Bad Boy que se possa dobrar, manipular e por fim curar é extremamente aliciante e faz activar o sistema de recompensas no cérebro assim como a um viciado no jogo sedento pela recompensa. Apesar das possíveis explicações científicas devo afirmar que este cenário me faz espécie pois se o Romancear o Pernicioso é plausível convém que se reconheça igualmente a inexorabilidade inerente ao perigo. Se é perigoso é porque te pode, e na esmagadora maioria das vezes vai, fazer mal. Não consideres sequer essa possibilidade.

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02
Mar21

Consequências da pandemia!


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ARTIGO DE ASSUNÇÃO BACANHIM

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Neste já longo período da pandemia covid-19, as mulheres têm vivido momentos de grande stress e ansiedade, sendo confrontadas com muitas informações sobre a pandemia. Algumas verdadeiras, outras nem tanto, aparentemente com o intuito de confundir e baralhar as pessoas menos esclarecidas, e menosprezar a gravidade da pandemia que se abateu sobre a Humanidade. Ao longo deste período, muitas/os perderam as suas vidas, outras/os ficaram sem meios para viver com alguma dignidade: perderam o emprego, a sua habitação e os seus rendimentos, com graves consequências para as suas famílias.

Com o evoluir da pandemia e as suas medidas de confinamento, muitas famílias viram-se sem meios para sobreviver, sendo obrigadas a recorrer a Associações, IPSS e Juntas de Freguesias, etc.. Precisam de auxílio para poderem ter comida na mesa. Outras, nas suas casas, mesmo com grandes dificuldades, mas envergonhadas, porque nunca pensaram que algum dia seriam confrontadas com a pobreza e miséria, pois essa situação só acontecia a outras pessoas. Chegar ao fim do mês e não ter meios para pagar as suas despesas era impensável.

Por outro lado, algumas Mulheres sentem alguma revolta por haver pessoas sem escrúpulos a se aproveitar da pandemia. Enquanto aumenta o desemprego e a pobreza, cresce o número de milionários, que esvaziam os direitos de quem trabalha e aumentam o trabalho precário, baixam salários e ameaçam com despedimentos das e dos que mais sofrem com esta pandemia. Incentiva-se o drama do teletrabalho para milhares de mães e pais com crianças a cargo, com o novo confinamento, onde o governo insiste em manter um regime que deixa as pessoas entre a espada e a parede. Muitas mulheres são forçadas a acumular o teletrabalho com assistência às crianças, situação que provoca stress laboral, instabilidade emocional e intranquilidade familiar. Toda esta crise tem escancarado cada vez mais desigualdades na partilha de tarefas. As mulheres são as mais sacrificadas com esta pandemia. As consequências do teletrabalho têm uma dimensão na igualdade de género.

A crise social vai deixando as pessoas desesperadas, porque não são momentos propícios à socialização, à convivência que nos aproxime enquanto seres humanos. No que toca à violência doméstica, contra mulheres e crianças, o próprio confinamento e com as crianças fora da escola é propício a essas situações de agressão, dificultando a queixa.

Embora tenha havido ao longo dos últimos anos algum trabalho de consciencialização sobre a criminalidade dentro de casa, ainda morrem muitas mulheres, muitas crianças são vítimas de violência e, como se ainda não bastasse, somos um dos países que pior tratam as pessoas idosas.

Há ainda um longo caminho a percorrer na prevenção, sendo muito importante a disciplina de ensino para a cidadania. Há que continuar a luta por uma justa distribuição dos rendimentos que garantam a solidariedade, protejam os direitos das crianças e promovam a justiça social.

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23
Nov20

Menos violência, mais igualdade e paz


umarmadeira

ARTIGO DE JOANA MARTINS

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O Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres celebra-se todos os anos no dia 25 de novembro. Esta data existe para alertar todo o mundo para as violências que as mulheres sofrem e propor alternativas políticas, contribuindo, assim, para uma maior igualdade entre mulheres e homens.

É verdade que todos os seres humanos sofrem violência. No entanto, as mulheres são ainda as principais vítimas de violência em todo o mundo, sendo que esta não é somente física; é, também, psicológica, económica, sexual, entre outras. E afeta mulheres de todas as idades, desde bebés e crianças até à terceira idade. A violência é, também, transversal a todos os países. Embora hajam particularidades dos contextos dos países onde as mulheres estão inseridas, a violência não está confinada e atravessa países, regiões e culturas.

A violência de género contra as mulheres trata-se de um problema estrutural, relacionado ao patriarcado e originado pela falta de igualdade de género e oportunidades entre homens e mulheres, assim como pela discriminação persistente a que as mulheres estão sujeitas, desde que nascem.

O ano de 2020 está a ser marcado pela pandemia mundial causada pelo vírus SARS-CoV-2 que ditou regras de confinamento necessárias para travar o vírus, mas perigosas para algumas pessoas. O facto de as famílias permanecerem juntas dentro da mesma casa durante mais tempo, seja devido ao confinamento, ao teletrabalho ou ao desemprego, leva à agudização de situações de violência e à dificuldade acrescida de pedir ajuda. Para além das pessoas adultas, as crianças e as mulheres idosas são, também, muitas vezes, vítimas diretas e/ou indiretas, ainda pouco faladas. Considero que as verdadeiras consequências da pandemia e da crise social e económica, no que diz respeito à violência de género, virão à luz do dia mais para a frente, e carecem de estudos aprofundados – conhecer para intervir.

O combate à violência, no meu prisma, não deverá ser feito principalmente após terem ocorrido situações violentas. A violência tem, infelizmente, raízes profundas na sociedade, e precisa ser desconstruída desde as mais tenras idades. Uma maior aposta na prevenção alargada no tempo e no espaço é a chave para um futuro menos violento, acompanhada por políticas sociais que contribuam para uma sociedade mais igualitária e pacífica, em todos os sentidos.

É fundamental e deveria ser prioritária a educação para a mudança de mentalidades acerca da violência, consciencializando as pessoas, de forma abrangente, para a responsabilidade que têm nas mãos, acerca do mundo e da sociedade onde estão inseridas. Se queremos ver a mudança no mundo, temos também que ser essa mudança, que dar o exemplo.

Uma das prioridades será empoderar as mulheres, desde crianças, e criar redes, onde seja mais fácil para a mulher “descascar e sacudir” o papel de vítima e tomar nas suas mãos as rédeas da vida, sem ter que deixar para trás tudo o que construiu e conquistou, em nome da sua segurança. As políticas têm que ser mais firmes e a justiça tem que ter uma resposta mais adequada e célere.

Quando uma sociedade ainda julga mulheres de “provocarem situações” ou “se porem a jeito” para serem vítimas de abuso sexual, quando a justiça comete erros imperdoáveis, e quando ainda se aponta o dedo e se fazem graves insinuações a mulheres que conseguem chegar ao topo da carreira, então algo precisa mudar. Urgentemente. Em primeiro lugar, na mente e no espírito de cada pessoa. Sim, porque o combate à violência é, também, o de todas e todos nós, e somos os espelhos uns/umas dos/das outros/as.

A violência de género não deixa apenas marcas físicas e psicológicas. A violência de género também mata. De 1 de janeiro a 15 de novembro de 2020, em Portugal, segundo o Observatório das Mulheres Assassinadas da UMAR, foram mortas 16 mulheres em relações de intimidade (atuais, passadas ou pretendidas) e 14 mulheres assassinadas, maioritariamente, por familiares. Diga-se o que se disser, enquanto houver um femicídio, não há igualdade de género.

Aproveito para vos convidar a participar na tertúlia literária que a UMAR Madeira vai realizar amanhã, 24 de novembro, pelas 18h30, através da plataforma Zoom. O tema é “Mulheres que superaram violências”, e desafiamos os/as participantes a partilhar um livro, de qualquer género, que fale sobre uma ou mais mulheres que sofreram violência e deram a volta à sua vida. Inscreva-se através dos e-mails umar.madeira@yahoo.com e umarmadeira@gmail.com.

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07
Set20

Avanço ou retrocesso?


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ARTIGO DE GUIDA VIEIRA

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Este ano de 2020 está a colocar desafios novos em todos os sentidos. Ou em nome da pandemia que percorre o mundo, devido a um vírus para o qual não foi encontrada a cura, se aceita retroceder nas liberdades, direitos e garantias, das e dos cidadãos ou, então, levantamos a cabeça, arregaçamos as mangas e não deixamos que isso aconteça.

Eu opto sempre pelo caminho de agir e não deixar de trabalhar naquilo em que acreditamos. Se achamos que o mundo continua desigual no que toca aos direitos das mulheres e de todas as pessoas que se sentem discriminadas ou marginalizadas por serem diferentes, quer seja na cor, orientação sexual, deficiência, etc., temos que continuar o nosso trabalho.

Não pode ser como era antes da pandemia; então, encontremos as novas formas de comunicar com a sociedade, mas vamos à luta que já se faz tarde. Não deixemos que este problema sanitário nos retire os recursos para fazermos o nosso trabalho na prevenção de todas as formas de violência e discriminação contra as mulheres e todos os seres humanos. Continuemos a exigir que o tema da importância da igualdade de género não saia das agendas de quem tem o poder nas mãos, porque são eles que também têm os recursos para apoiar quem trabalha nesta área.

Neste momento, a Região não tem nenhum plano aprovado contra a violência doméstica. O anterior já caducou com o governo que antecedeu. No entanto, os casos aumentam e, agora, de forma mais sorrateira, vão surgindo notícias de espancamentos de mulheres, de entradas nas urgências sem nunca mencionar o termo violência doméstica. Noticiam: “Uma mulher foi brutalmente agredida”; “Uma mulher foi às urgências com vários ferimentos na cara e no corpo”, etc., nunca mencionando o que causou essa situação. Fica nos segredos das quatro portas, para dentro, para onde estão e voltam a estar as mulheres.

Não há pandemia que possa parar o que tem que ser feito. Tenho ouvido muitas reivindicações, mas ainda não ouvi quem fale na necessidade de não baixar a guarda sobre este grave flagelo. Os Governos, Central e Regional, têm que colocar na agenda a prevenção e a ação contra a violência, como uma prioridade muito importante da sociedade. As Associações que trabalham nesta área não podem ficar despidas de recursos, porque o seu trabalho é uma ajuda fundamental para a efetivação dos direitos humanos que, se saiba, não foram suspensos devido à pandemia.

O trabalho voluntário das Associações tem limites, em vários sentidos. Os recursos humanos estão mais limitados, sobretudo das pessoas consideradas de risco, e há trabalho que tem que ser mesmo remunerado porque toda a gente precisa de ter recursos financeiros para viver.

Todo o trabalho na defesa dos direitos humanos devia ser considerado um investimento primordial dos orçamentos governamentais e devia ser distribuído por quem faz um verdadeiro trabalho para que a sociedade se torne mais tolerante, respeitadora, em que todos os seres humanos possam ser felizes e iguais. Alguns/umas continuam a dizer que isto é uma utopia, mas eu acredito piamente nela e agarro-me a ela para continuar a lutar por um mundo melhor e mais justo.

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08
Jun20

E agora, como vais fazer?


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ARTIGO DE MARGARIDA PACHECO

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Estamos a passar uma fase de mudança em todo o mundo. Com a pandemia, o medo, a angústia e a incerteza face ao futuro levaram a mudanças na escola, na família, no trabalho, nas relações interpessoais e na forma como entendemos a nossa realidade.              

Durante a quarentena confrontamo-nos com a história da Valentina, uma criança que morreu vítima de maus tratos por parte do seu pai. Devido a este caso, a preocupação com a negligência e com a violência contra as crianças (que sempre esteve presente), ecoou novamente na sociedade portuguesa. Já em fase de desconfinamento, enquanto que em Portugal nos deparávamos com o femicídio da Beatriz, nos Estados Unidos da América as pessoas revoltavam-se com o assassinato de George Floyd. Após dias de protestos, muitas iniciativas e milhares de pessoas nas ruas em vários países do mundo contra o racismo, recebemos a notícia do Brasil, da morte do Miguel, uma criança de 5 anos que morreu vítima de negligência por parte da proprietária da casa onde a sua mãe trabalhava.

Será que podemos ligar o homicídio da Valentina, o femicídio da Beatriz, o assassinato do George Floyd nos Estados Unidos da América e a morte do Miguel no Brasil? Uma coisa é certa, não se pode pensar nestes casos como isolados. Agora, mais do que nunca, o feminismo é chamado a refletir sobre todas as formas de violência de uma forma interseccional. Cada uma destas pessoas morreu porque foi vítima de um sistema patriarcal, sexista, misógino, racista, heteronormativo e classista, que assenta numa matriz de dominação de diversos grupos sociais e, como tal, constitui-se como um fenómeno transversal aos vários contextos de vida de crianças, adolescentes e adultos/as.

As diferentes formas de violência presentes nestes casos mais mediáticos são exemplos que constituem dimensões específicas da violência estrutural, cultural e simbólica. Estas mortes decorreram da estrutura social que posiciona diferentes grupos em termos de poder e privilégios. Esta divisão é exercida através de várias formas de dominação, discriminação, opressão, exclusão, preconceito e desvantagem. O privilégio que uma parte da sociedade tem em relação a outra é indiscutível. Mas como podemos usar esse privilégio para promover a igualdade, liberdade e prevenir a violência, a opressão, o preconceito e a discriminação? Cada pessoa luta à sua maneira, com as suas possibilidades e as suas escolhas, seja pelas redes sociais, nas ruas, na hora de votar, na conversa com amigos/as e familiares ou no seu local de trabalho. Não há uma forma mais correta de ativismo do que outra. O mais importante é que não fiquemos calados/as, que não sejamos indiferentes, que não continuemos a fingir que à nossa volta está tudo bem e que não nos pronunciemos só quando acontece connosco ou com pessoas que nos são próximas. Todas as desigualdades têm um impacto na vida de todos/as nós e na sociedade em geral. 

Na fase de maior incerteza pela qual o mundo já passou, em que milhares de pessoas continuam a morrer todos os dias e outras estão nas ruas a lutar pelas suas e pelas nossas vidas, é tempo de nos educarmos, exigirmos de nós e dos outros/as mais e melhor, exigirmos os direitos de todas as pessoas e pensarmos criticamente sobre os problemas sociais. 

Enquanto mulher, feminista, ativista e educadora estou na luta por um mundo mais igualitário e menos violento. E agora, como vais fazer?

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23
Nov19

Violência sobre as mulheres: A sociedade está errada!


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ARTIGO DE CÁSSIA GOUVEIA

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Na próxima segunda-feira, dia 25 de novembro, assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, e em um país onde mais da metade da população é constituída por mulheres, será que somos só nós, feministas, que reconhecem a nossa sociedade como errada?

Ora vejamos: se todos os anos continuamos a evocar este dia e a homenagear as dezenas de mulheres assassinadas, a sociedade está errada e estamos a falhar.

O ano de 2019 está manchado por uma onda de sangue: 28 mulheres foram assassinadas. É esta a triste realidade do nosso país. Entre 2004 e 2019, 531 mulheres perderam a vida às mãos de assassinos.

A verdade é que a violência doméstica é um problema grave que afeta mais mulheres do que as estatísticas revelam. As vítimas não são simples números, são mulheres que não têm a proteção devida das leis existentes. Temos urgentemente que acabar com esta violência que atinge as mulheres dentro da própria casa.

A sociedade está errada quando silencia os gritos que ouve, a sociedade está errada quando diz que entre marido e mulher ninguém mete a colher “porque os problemas são deles, eles que resolvam”. Não! O problema não é deles, é nosso, é de todos e todas, e metam sim a colher! A violência doméstica é um crime público e a sociedade está errada quando ignora e não denuncia.

A sociedade está errada quando desculpa a violência doméstica com o desemprego, com o alcoolismo, com a toxicodependência, com problemas mentais, com o ciúme, entre muitas outras justificações que se vão ouvindo aqui e acolá.

Que forma de ignorância é esta? A violência não é exclusiva de certas classes sociais, a violência é transversal a qualquer classe e a qualquer idade! Que sociedade é esta, que insiste em inferiorizar as mulheres? Que sociedade é esta, que permite que uma mulher seja agredida e insultada? O que acontece com as queixas que são feitas? Que modelo social pretendemos, quando o agressor é levado a julgamento e o juiz atenua a pena, ou na maioria das vezes nada acontece e é a vítima que tem de fugir apenas com a roupa do corpo? Ou, por exemplo, quando um juiz cita a Bíblia para desvalorizar as vítimas de alegada violência doméstica, e quando um juiz afirma que "uma simples ofensa à integridade física, está longe de poder considerar-se uma conduta maltratante suscetível de configurar violência doméstica", aqui percebemos o quanto ainda há por fazer, aqui percebemos o quanto a nossa sociedade está errada.

A sociedade está errada, quando não é capaz de entender que as mulheres têm os mesmos direitos, que podem decidir sobre o seu corpo, que podem lutar por uma vida sem medos. A sociedade está errada, quando não aceita o empoderamento das mulheres.

É urgente a mudança de mentalidades, é urgente lembrar a cada instante o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Enquanto este artigo não passar do papel à prática, continuaremos a viver numa sociedade machista, numa sociedade errada.

Enquanto a lei não for praticada pelos tribunais, continuaremos a ter vítimas silenciosas nesta sociedade errada que olha para o lado, insensível à dura realidade de mulheres magoadas e sem ajuda.

A sociedade precisa aceitar que temos um grave problema em mãos e que precisamos de agir. E não é depois, é já!

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16
Nov19

Um mundo de desigualdades, onde são as mulheres e crianças quem mais sofre, onde crescem as ameaças aos direitos das mulheres


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ARTIGO DE MANUELA TAVARES

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Assistimos a momentos políticos e sociais muito preocupantes.

Perante um mundo de desigualdades crescentes, crescem as forças populistas de extrema direita que representam uma ameaça às liberdades, à democracia e aos direitos das mulheres.

Sabemos que os gritos de revolta de quem é espezinhado, de quem não tem casa para viver ou pão para comer são aproveitados por quem quer impor ditaduras disfarçadas de resolução dos problemas prementes.

As mulheres e as crianças são quem mais sofre com este cenário político e social.

As forças fascizantes envolvem os seus discursos de que os feminismos dão cabo das famílias, que não garantem os direitos destas. O que se passa é que essas forças defendem que as mulheres se devem dedicar totalmente aos maridos e filhos, deixem de ser elas próprias, tal como acontecia na ditadura salazarista de triste memória.

A extrema-direita em Espanha, que cresceu imenso nas últimas eleições, quer eliminar as leis de proteção às mulheres vítimas de violência. Para eles, a violência não significa morte, assassinatos. Significa apenas “arrufos” entre marido e mulher e querem voltar ao antigamente que “entre marido e mulher que ninguém meta a colher”.

Estas forças ultraconservadoras querem também dominar as escolas. Querem que qualquer programa de prevenção da violência ou de promoção da igualdade seja analisado por comissões de encarregados da educação. A escola, os/as professores/as, os estudantes não têm opinião para essa gente que veio para fazer com que as conquistas civilizacionais voltem para trás.

Quanto mais as desigualdades e a pobreza crescem, mais estas forças ganham terreno.

Lutar para a eliminação das desigualdades que geram pobreza e falta de direitos é uma obrigação de cada um/a de nós.

As feministas têm nesta luta um papel fundamental.

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11
Fev19

A pobreza, a exposição à violência e as leis que não saem do papel


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ARTIGO DE LUÍSA PAIXÃO

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O risco de pobreza que atinge a nossa sociedade é escandaloso e constitui uma das maiores provas da crueldade humana, sobretudo porque faz as suas vítimas entre os grupos mais frágeis, nos quais se incluem aqueles que sofrem todo o tipo de violência, nomeadamente a violência doméstica, que, em Portugal, continua a alastrar de forma assustadora, apesar de todos as batalhas travadas, e de toda as leis criadas, pois a aplicação das mesmas esbarra, sistematicamente, com a força dos modelos tradicionais da sociedade patriarcal que continua a dominar.

É essa tradição secular que castiga duplamente as vítimas, que deveriam encontrar segurança e proteção no sistema judicial para prosseguirem as suas vidas, mas, em vez disso têm de lutar para se defenderem de um sistema que as fragiliza ainda mais, deixando-as em risco.

Num contexto de violência doméstica, não podemos negar que a pobreza está maioritariamente associada ao desemprego das mulheres, resultante da pressão social que as levou a optarem pela vida familiar em detrimento de uma carreira profissional; às desigualdades salariais, resultantes de discriminações várias, e à grande injustiça que é a não contabilização do trabalho doméstico para a economia familiar e do país, nomeadamente o papel de cuidadoras, que é automaticamente atribuído às mulheres, dentro do universo familiar e que as impede, tantas vezes, de desenvolver uma carreira.

Todas estas situações contribuem para os riscos de pobreza das vítimas, entre as quais, não esqueçamos, se incluem os filhos. No entanto, mesmo quando o contributo das mulheres para a economia familiar em termos monetários é preponderante, continuam as ser elas e as suas crianças que correm mais riscos de pobreza, pois, em qualquer uma das situações o/a agressor/a fica na casa de família, perpetuando, assim, o poder que tem sobre a vítima.

Mau grado esta realidade com que nos deparamos todos os dias, a luta pela igualdade continua a ter um papel secundário em todas as organizações, com a perigosa e falaciosa constatação de que o tratamento desigual está a desaparecer.

Se dúvidas houver do quanto há ainda a fazer, olhemos à nossa volta. No nosso país, onde vigora uma democracia, baseada numa constituição recheada de leis que nos deviam defender, a violência doméstica mata, o machismo mata. Mas o mundo é uma aldeia, lancemos também o olhar para longe, para outros países e veremos o assalto ao poder daqueles que defendem um retrocesso nos direitos alcançados, pondo em causa direitos que levaram séculos a conseguir, e veremos que a luta continua a ser urgente e necessária, sobretudo por uma intervenção judicial que não desvalorize a violência doméstica ou qualquer outra forma de violência com base em preconceitos ou estereótipos.

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18
Jan19

Situação das mulheres pelo mundo...


umarmadeira

ARTIGO DE CONCEIÇÃO PEREIRA

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Rahaf Mohammed Al-Qunun está está neste momento sob a protecção do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, uma vez que fugiu da sua família que a obrigava a casar sem o seu consentimento. Ela pediu protecção porque, segundo a mesma, os pais a matariam por ter fugido de um casamento que a família planeou para ela. Quem tem uma família destas tem de fugir para bem longe e procurar a sua libertação.

O casamento por obrigação foi instituído há muitos milhares de anos, quando os humanos começaram a cultivar terras e os homens sentiram necessidade de deixar os seus bens aos seus descendentes. Daí se constituíram contratos de casamento, combinados entre os pais dela e dele, cujo fim prioritário era ser exclusiva daquele homem e dar-lhe filhos, que mais tarde seriam os seus herdeiros. O marido não tinha nada que respeitar essa exclusividade e poderia ter encontros sexuais com outras mulheres.

Passados tantos milhares de anos, ainda há sociedades em que os casamentos são arranjados pelos pais, com carácter obrigatório. Mais; Segundo notícias vindas a público, há famílias que vendem meninas, às vezes com menos de 10 anos, para receberem dinheiro e satisfazerem manias sexuais de homens monstruosos, que chegam a matá-las sob os seus actos sexuais. Em muitos países do mundo as meninas são submetidas à mutilação sexual e, se não morrerem dessa intervenção bárbara, terão muitos problemas quando derem à luz os seus filhos.

Já estamos a viver no Séc XXI, os humanos elevaram os seus inventos às mais diversas áreas, até no espaço, têm feito descobertas impensáveis nas áreas tecnológicas, por exemplo e, ao mesmo tempo, ainda subsistem mentalidades tão absurdas, muitas lavradas em leis, como obrigar raparigas a casar, vender meninas com 8 anos de idade, proibir raparigas de frequentarem a escola, como a Iala e por aí adiante.

Porquê? Como é que as mulheres, constituindo metade da Humanidade, promotoras da vida e, em grande parte, responsáveis pela educação dos filhos e filhas, ainda não foram capazes de se libertar, não apenas algumas em nome individual, mas em conjunto desfazerem as muitas tradições que permitem os maus tratos, violações e muitas outras barbaridades bastante arreigadas nas mentes de tanta gente?

Estão a aparecer alguns sinais que podem constituir uma brecha por onde se possa entrar e abrir caminho. Na Índia, país dividido por castas e tantas tradições maléficas e opressoras, mulheres manifestaram-se, cerca de 5 milhões, formando um cordão de muitos quilómetros. Nós, mulheres ocidentais, que já adquirimos mais direitos cívicos e sociais que as mulheres indianas, devemos apoiá-las e divulgar as suas lutas.

Em França, depois das manifestações dos coletes amarelos (homens) que assustou o Governo Francês, manifestaram-se mulheres de coletes amarelos, lutando como os homens, mas com uma grande diferença: não se confrontaram com a polícia nem causaram destruições. Uniram-se, manifestaram-se e apresentaram as suas reivindicações.

Estamos a viver momentos muito difíceis: racismo, discriminações várias, desigualdades profundas, violências dos mais fortes contra os mais fracos, as corrupções surgem diariamente donde menos se esperava, os salários mais baixos são muitíssimos distantes dos mais altos, a pobreza agrava-se cada vez mais porque os poderosos açambarcam tudo o que podem e o que não podem, deixando grande parte da humanidade desamparada.

E que fazemos nós, mulheres comprometidas por uma sociedade mais justa, equilibrada, sem machismo e onde todos e todas possam ser felizes? Se houver vontade, determinação, união de esforços, construiremos esse mundo onde possamos viver em PAZ, TRANQUILIDADE e AMOR entre os seus humanos. Vamos começar a construir esse mundo neste ano de 2019.

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